Capítulo 148 | Contra Sileno
A multidão aglomerada abriu espaço num trecho longo e plano da rua principal da vila. O calçamento de pedra terminava naquele ponto específico. Uma extensão de terra batida seguia em frente. Sileno traçou uma linha reta no chão poeirento com a ponta do próprio casco.
Enquanto ele media a pista e traçava distâncias mais à frente, Magno aproximou-se de Hermes e tocou-lhe no ombro.
— Pegue as sandálias.
Com um olhar de canto, Hermes percebeu que ele já as pressionava contra suas costas. Assentiu lentamente.
Magno desapertou as correias do equipamento mágico e entregou os itens ao deus. Hermes sentou-se sobre um bloco de pedra desmoronado, retirou as suas grevas de couro e calçou as sandálias de impulso obtidas em Atlântida. Apertou as tiras com firmeza à volta dos tornozelos.
Caminhou até à marca no chão e ficou ao lado do anfitrião que já o encarava com interesse.
— Faça as honras, meu estimado convidado. — com uma mesura exagerada ele apontou para a pista.
Ele alinhou as pontas dos calçados com a linha traçada, estabilizou as pernas e ativou o mecanismo do artefato.
A propulsão disparou o corpo de Hermes pelo ar numa trajetória longa e em arco. Seu tronco pendeu um pouco para trás, desacostumado com o impulso das sandálias. Ele cobriu uma distância extensa e aterrou com os dois pés juntos, levantando uma nuvem de poeira no ponto de impacto, a frenagem foi difícil e ele lutou para se equilibrar e não cair para a frente.
Uma ninfa se aproximou e declarou ao olhar a marca no chão:
— Quarenta e cinco côvados!1
A multidão vocalizou em admiração. Magno sorria, confiante.
Sileno batia palmas para a exibição com um sorriso largo. Hermes encarou-o incomodado.
A criatura posicionou os cascos estritamente atrás da marca, flexionou as pernas de musculatura densa e peluda. A tensão das fibras musculares era visível a olho nu.
Saltou.
Como se estivesse correndo no ar, ele balançou as pernas e atravessou a rua numa velocidade impressionante.
Hermes ergueu o rosto e seu queixo caiu ao mesmo instante, seus olhos acompanharam, arregalados, a criatura cruzar o trajeto e passar por cima dele sem esforço.
Sileno aterrou pesadamente na terra seca, cravou os cascos sem qualquer dificuldades.
Endireitou as costas e olhou para o adversário com um sorriso de canto. A clâmide de pele de onça flamulava com o vento. Uma ninfa se aproximou com expressão surpresa e lábios lacrados, seus olhos se firmaram nos cascos da criatura que, percebendo que ela não podia ver as marcas, ergueu uma das patas.
— No-noventa e sete côvados!2 — projetou a voz para que a multidão conseguisse escutar.
Lá atrás, a surpresa logo se desfez em algazarra. Gritos, empurrões e bebida iam de um lado para o outro em comemoração ao feito de Sileno.
Magno tinha os olhos arregalados, Sêneca, já meio acordado, parecia igualmente surpreso mesmo com seus olhos caídos. Anaxímenes, por outro lado, encarava a cena em silêncio de cenho franzido e com a mão no queixo.
Dando um tapa no ombro de Hermes, Sileno bradou para os espectadores:
— Um equipamento mágico falha em substituir a força física pura da natureza. A primeira etapa pertence ao anfitrião. A vantagem do triatlo está do meu lado!
Gritaram e urraram como nunca. Magno tapou os ouvidos com uma careta.
O anfitrião apontou para o sul, demarcando a rota com um gesto amplo do braço.
— Contornaremos o perímetro das ruínas da vila — a criatura explicou. — Uma volta completa pelas bordas do assentamento. A linha de chegada é o centro da grande praça de calçamento de pedra.
Hermes avaliou a extensão do terreno irregular. Baixou os olhos para as pernas do seu adversário.
— Eu imponho uma regra para esta corrida — cruzou os braços. — É proibido saltar. Pelo menos um dos pés deve permanecer a um palmo do chão durante todos os momentos do trajeto.
Sileno piscou devagar. A criatura demonstrou surpresa com a restrição técnica imediata. Logo depois, ele assentiu e abriu um sorriso confiante, expondo os dentes pontiagudos.
— Condição aceita.
Os dois adversários caminharam até a linha traçada na poeira. Eles pararam lado a lado, fixaram as botas e os cascos na terra e inclinaram os troncos para a frente, tensionando os músculos para a largada.
— Ei — Sileno encarava Magno. — Você mesmo. Dê a largada.
Um pouco a contragosto, o gatuno posicionou-se na lateral da rua e ergueu o braço direito bem alto. Ele olhou para Hermes, olhou para o sileno e baixou a mão num corte rápido e seco pelo ar, dando o sinal de início.
Os dois competidores dispararam no mesmo instante.
Sileno impulsionou-se para frente como se saltasse na horizontal.
Hermes rangeu os dentes, havia saído para trás.
“Droga, eu devia ter sido mais específico com essa regra.”
Em alguns instantes, o adversário já havia aberto uma vantagem razóavel.
Desprovido da sua energia divina, Hermes recorreu à memória prática de milênios de corridas. Projetou o tronco para a frente num ângulo específico para cortar a resistência do ar. Os seus braços moviam-se em linhas retas e paralelas ao corpo, ditando o ritmo das pernas. Apenas a parte frontal das suas botas tocava o chão, garantindo o menor tempo de atrito possível a cada passada.
O oxigênio entrava pelo nariz e saía pela boca em ciclos ritmados e curtos. Esse fôlego era uma herança dos tempos servis, posto que como deus nunca se preocupara em respirar.
Os espectadores assistiam com entusiasmo e antecipação. A guinada do humano superava em muito qualquer outro homem que já tivessem visto.
Aos saltos, Sileno fez a primeira curva e olhou para trás, confiante de que havia deixado o adversário no chinelo. Os olhos se arregalaram quando ele percebeu Hermes no seu encalço.
Tentou aumentar o passo, mas era difícil manter a altitude dos saltos sem romper o limite da regra imposta. Não tinha as técnicas que o outro utilizava, apenas a capacidade física.
Logo, estavam lado a lado. A criatura igualava o deslocamento utilizando a força bruta das suas pernas espessas e passadas mais longas. Os cascos colidiam contra a terra batida e contra as pedras soltas, produzindo estrondos sequenciais.

Eles passaram pelas fogueiras e contornaram os escombros na periferia da vila. O grupo de silenos e as mulheres recuavam contra as paredes, abrindo espaço nas vielas enquanto os dois cruzavam o terreno.
O corpo mortal de Hermes atingiu o seu limite físico. Os pulmões expandiram-se ao máximo, exigindo mais ar do que a respiração técnica conseguia fornecer. O músculo cardíaco pulsou com violência contra as costelas, causando uma dor aguda no centro do peito. A queimação espalhou-se pelas fibras das coxas e das panturrilhas. As articulações dos joelhos do deus tornaram-se rígidas devido à exaustão extrema.
Eles alcançaram a entrada da praça principal. Uma curva fechada à esquerda marcava o acesso à linha de chegada.
Sileno mantinha a velocidade alta. O volume de massa do seu tronco largo e a inércia do seu próprio corpo forçaram a criatura a alargar a trajetória. Precisou afastar-se do centro da viela para conseguir estabilizar as pernas e fazer a curva sem tombar.
Hermes optou pela rota interna. Ele inclinou o corpo para a esquerda, depositou a pressão total da curva sobre o tornozelo esquerdo por um único instante e contornou a quina da construção destruída a dois centímetros da pedra. O deus absorveu o impacto nas articulações e não reduziu o ritmo da corrida.
O trajeto menor e milimetricamente calculado rendeu a vantagem exata. Hermes invadiu o calçamento da praça e cruzou a marca central ao mesmo tempo que o casco do sileno atingiu o chão de pedra.
No segundo em que ultrapassou a linha, as pernas de Hermes cederam por completo e ele desabou. Suas costas bateram contra o chão de pedra e ele ficou tombado para cima. Puxou o ar de forma profusa e desesperada, o peito subia e descia em espasmos rápidos. O coração batia com tanta violência contra as costelas que ele sentiu a morte física e iminente do próprio corpo mortal se aproximar.
Sileno parou alguns passos adiante. A criatura apoiou as mãos nos joelhos, puxando o ar de forma pesada, mas sustentando o próprio peso.
O silêncio tomou a praça. Nem Hermes, deitado na pedra, nem o guia sileno, nem o grupo de Magno sabia o resultado exato da corrida.
Uma ninfa vestida com galhos finos, posicionada exatamente sobre a linha de chegada para atuar como juíza, deu um passo à frente. Todos encaravam-na com tensão.
Ela apontou a mão na direção de Hermes.
— A ponta da bota do humano tocou a marca primeiro.
Sileno respirou fundo, endireitou a postura e acenou com a cabeça, acatando a decisão da juíza sem contestar.
— O triatlo encontra-se empatado novamente — anunciou. Ele caminhou de volta para o centro da praça. — O desempate absoluto ocorre agora. Combate corpo a corpo desarmado. Pancrácio!
Quando ele ergueu um punho ao céu, todos fizeram o mesmo e iniciaram um coro grave.
— PANCRÁCIO! PANCRÁCIO! PANCRÁCIO!
Hermes rolou o corpo para o lado e apoiou as mãos abertas na pedra. Empurrou o chão, dobrou os joelhos e ergueu-se de forma lenta. A respiração ainda exigia esforço, mas a pontada aguda no peito começava a recuar aos poucos.
Para cumprir a restrição total de equipamentos imposta pela modalidade, o deus levou as mãos aos fechos da própria roupa. Ele soltou as fivelas de metal da armadura peitoral atlante, retirou a placa rígida e a entregou a Magno. Depois, desatou os cordões das proteções de couro dos antebraços e também as sandálias e as repassou para o ladrão guardar.
Hermes permaneceu vestido estritamente com o quitón preso ao ombro esquerdo que cobria até pouco acima do joelho.
Caminhou para o centro do calçamento rachado. O sileno aguardava a poucos palmos de distância, com a respiração estabilizada e os músculos densos do peito expostos e tensionados. Os dois competidores firmaram as pernas, levantaram os braços na altura do rosto em posição de guarda e se encararam em silêncio.
Essa era a definição de tudo.

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