Índice de Capítulo

    Soldado acabou voltando para o seu posto, nos deixando sob o comando das anfitriãs desta fazenda. Nossos passos agora estavam caminhando pelo corredor estreito, mas curto, que levava a um espaço aberto com sofás e trepadeiras florais espalhadas pelo cômodo. Elas exalavam um cheiro aromático que fazia qualquer um suspirar.

    — Aqui é a sala, como vêm. Não tem nada de especial.

    — Como assim nada de especial?! — Meredith disse, atraindo seus olhos. — Esse é o cheiro mais acolhedor que eu já senti. Que plantas são? Acho que minha mãe iria adorar.

    — A minha também! Meus irmãos são tão porcos que ela com certeza vai precisar de uma dessas para espantar o cheiro que eles causam.

    Olhei para Zernen com uma sobrancelha levantada. Só espero que ele esteja se incluindo nesse conjunto.

    — Ah, desculpa. É que elas crescem nesta região e não demoram murchar quando estão no interior da casa. Precisam de sol.

    — Theresa, sua assassina….

    Era para ser um simples sussurro inaudível, mas percebi que ela havia ouvido quando seus olhos estreitos alcançaram os meus.

    — Plantas são para serem usadas, sabia? Do mesmo jeito que você come plantas.

    — Caramba, você é herbívoro, Jarves?! — Zernen começou a rir. — Por que não disse antes? Eu teria te dado as folhas do quintal!

    — Ha. Ha. Ha. — Dei um sorriso sem graça.

    — É verdade, não podemos desperdiçar nada. Até folhas devem ser comidas. — Meredith deu uma risada descontraída com o punho sobre os lábios.

    — Até você… — murmurei.

    — É um ótimo trabalho. — Continuou Theresa. — Aqui existem pessoas que pagam para limpar a sujidade que as árvores fazem no seu quintal. Você poderia trabalhar como um comedor de folhas.

    Eles achavam mesmo que estavam conseguindo me provocar? Pois não sabiam muito bem quem era a pessoa que estavam enfrentando. Eu era um dos maiores rebatedores de respostas da minha rua, pelo menos, todas as pessoas que queriam zoar comigo, acabaram saindo a chorar.

    — É mesmo? Acho que vou ter que comer a Tulia e a Rosita. O que acha? Afinal, plantas são para serem usadas!

    Dei um sorriso malicioso, repousando o dedo entre os lábios.

    — Oooooh! — Zernen colocou as mãos entre a boca. Ele estava me lembrando um dos meus vizinhos agitadores que fazia de tudo para ver o circo pegar fogo. — Se fosse eu não deixava!

    — Quer mesmo continuar com isso? Você vai perder.

    — É mesmo? Quero ver você tentar, medrosa.

    Zernen continuou fazendo “ooooh”’ com a boca enquanto levantava um dos punhos enquanto Meredith nos observava com uma cara de nuvem, sem saber o que falar, nem o que dizer. Os peritos em ficar calados também estavam alinhados com ela como simples espectadores.

    — É verdade que você gosta de uma princesa? Ah, qual é o nome mesmo? — Ela olhou para o teto enquanto dedilhava seu queixo e depois olhou para mim com um olhar ameaçador que denotava que ela sabia muito bem dos meus devaneios com a princesa Alexandra. — Você acha mesmo que tem chance com ela?

    Lágrimas queriam sair do meus olhos agora mesmo. Theresa havia jogado muito sujo, na verdade, eu havia me descuidado por baixar a guarda diante dessa médica maldita.

    — Tá, você ganhou…

    Me custou tirar essas palavras, tive que morder os meus lábios amargamente.

    — Bom garoto. — Ela sorriu maliciosamente. Enquanto isso, por algum motivo Meredith estava vermelha enquanto segurava suas bochechas.

    — Jarves, você não pode gostar de uma princesa, sabia?! Ela pode ser muita areia para você, digo, é sério isso?

    — Até você, Meredith….

    Acho que vou chorar. Aquelas bochechas só significava que ela estava sentindo vergonha alheia por eu estar gostando de uma pessoa que já era comprometida. Realmente, eu teria que tomar vergonha na cara.

    — Q-Quem é?! Quem é Theresa? De quem o Jarves gosta?!

    Zernen estava tão ansioso que estava próximo de Theresa como um cachorrinho ansiando por osso. O osso da fofoca.

    — Não é ninguém! — eu disse antes que Theresa acabasse me vendendo.

    — Isso mesmo, não é ninguém, Zernen!

    Meredith me defendeu. Como esperado da minha heroína favorita. Dei um sorriso para ela, que por algum motivo desviou os olhos como se eu fosse um monstro, o monstro que queria estragar o casamento da sua prima.

    — Acho melhor você perguntar o Jarves. — Ela deu um sorriso travesso. Mas ele argumentou que eu não diria nada, e continuou implorando para Theresa enquanto eu erguia as mãos em oração com uma expressão de coitadinho para ela.

    — Que nostalgia, Fred costumava fazer esse tipo de brincadeira com a Frida e acabava nu.

    — Imagino.

    Dei uma risada, tendo um pequeno vislumbre disso na minha mente.

    — Bem, vamos seguir andando.

    Ela começou a caminhar para o próximo corredor, um pouco mais espaçoso. Haviam quatro portas em suas laterais com uma boa distância de separação.

    Pegou a fechadura do primeiro quarto.

    — Esse é o quarto da Clara.

    Olhei para ela, que mordeu os lábios com as bochechas coradas, típico daquelas menininhas com um quarto todo pintado de cor de rosa, com cama de princesa e um armário cheio de bonequinhas, as quais ela passava o seu tempo livre fazendo tranças diferentes.

    — O que????!!

    Quando Theresa abriu a porta, vi um quarto com uma cor suja que combinava com a aparência daquele quarto. Isso se eu poderia chamar aquilo de quarto, parecia mais um lugar em que escultores normalmente trabalhariam.

    Haviam estátuas de pedra espalhadas por aquelas paredes castanhas e uma simples cama de madeira pouco chamativa. O foco de todos estavam naquelas esculturas, a maioria de humanos, outras de plantas e outras de animais aéreos e terrestres.

    — Olha euzinha ali. — Theresa apontou para estátua dela imponente, com um jaleco e sua típica maleta. Eu tinha e admitir que aquilo estava muito bem feito.

    — Nossa, que lindo. Quem fez isso?!

    Enquanto Meredith perguntava com um sorriso, Zernen já estava ali passando a mão com olhos brilhantes enquanto dizia “uau, que lindo!”

    — Foi a Clara.

    Não acreditei. Uma criancinha dessa idade tem um talento desses? Não, espera, calma, Jarves. Ela deve ter usado magia para fazer algo tão bom assim, que superava em muito muitas das estátuas que eu havia visto.

    — Caramba, que magia incrível você tem.

    Dei um sorriso para ela, que continuava não querendo falar comigo, apenas acenou a cabeça.

    — Mas isso não é magia.

    — O que?!

    — Ela fez tudo à mão.

    — Não acredito! Nessa idade?!

    — E o que tem? Só por que você não fez nada de tão interessante nessa idade, não quer dizer que os outros não possam fazer.

    Como ela havia descoberto que havia passado quase toda minha vida lendo e assistindo?

    — É impressionante. — Meredith sorriu para ela e recebeu um sorriso de volta. Essa menina por acaso tinha um preconceito com a minha pessoa? — Você é incrível, poderá trabalhar como escultora um dia.

    — Muito obrigada.

    Eu era o único que não podia ser agraciado por essas palavras de gratidão melodiosas e lindas vindas de um rosto fofinho? Onde eu falhei? Eu me perguntava, tocando no meu rosto.

    — A propósito, Clara. Tem mais alguém que eu quero que você conheça. — Theresa tirou o Gaia do seu bolso. Pelos olhos fechados ele devia estar descansado.

    Os olhos daquela menina se iluminaram enquanto tomava o golem das mãos de Theresa.

    — Que incrível, irmã Theresa. Você finalmente conseguiu. Mas tenho que dizer que algumas partes ficaram irregulares e feias. — Ela deu de costas enquanto Theresa dava um sorriso torto de quem não havia gostado da última parte. — Me dê um instante, vou consertar.

    — Ei, não… — Clara voltou-se para frente. — Isso aí não é uma escultura. É um golem. Um golem!

    — Um golem? Mas golems não são comuns aqui. Você tá mentindo só para eu não consertar, né?

    Ela até sabia fazer uma carinha fofinha de um gato abandonado numa chuva todo molhado.

    — Não, não é isso. É de verdade. Ele foi feito por uma pessoa que deu de presente ao Jarves.

    — Ah, então toma.

    Ela fez uma cara de desinteresse e entregou a Theresa, que fez carinho na sua cabeça com um sorriso.

    Mordi os lábios, estreitando os olhos para ela.

    Era só meter o meu nome para tudo perder a graça, era isso?

    — Ah, já agora. Por que não mostra sua magia para eles, Clara? Assim o Jarves não vai duvidar mais que foi você que fez essas esculturas.

    Taí uma coisa que eu queria ver.

    Ela balançou a cabeça positivamente e colocou ambos os dedos nas extremidades da testa, centralizando seus olhos na Theresa. E de repente, um brilho saiu do seu corpo, o suficiente para nos fazer fechar os olhos enquanto colocavamos os braços contra o rosto.

    — Então essa é a sua magia, grande coisa. Até o Zernen consegue…

    Quando abri os olhos não avistei ela ali, estava Theresa no seu lugar. Mas quando revirei um dos olhos, percebi que Theresa estava ali.

    — Magia de transformação! — Meredith sorriu. — Sinto a nostalgia de uma magia semelhante a da minha prima.

    — E então, o que achou, irmã?

    Por que ela estava falando com a própria voz? Pelo que eu sabia, magia de transformação conseguia imitar tudo.

    — Está perfeito, você melhorou. Já até consegue copiar a cor do cabelo, agora só precisa melhorar na voz.

    Ah, então ela estava evoluindo? Faz sentido.

    — Nossa, que magia incrível! — disse Zernen, que agora observava aquela Theresa, quer dizer, Clara transformada em Theresa. — Como eu queria ter uma magia dessas!

    Já era segunda vez que ele dizia algo semelhante, e para magias com capacidade de copiar a aparência dos outros. Nem me atrevi a perguntar o que ele pretendia fazer.

    — Eu poderia rou… digo, fazer surpresa aos ricos ou pegar os ladrões que roubam os ricos, seria fantástico!

    — Se pegue primeiro.

    — Caramba, Jarves, nem parece que a gente foi parceiro de negócio para dar um golpe no Faisal!

    Arregalei os olhos quando ele disse isso justo na frente da Meredith que estava escutando.

    — Sim, fale, Zernen, e o que mais?

    Socorro, Meredith estava fazendo uma cara muito assustadora. Mas se ele pensou que eu iria me queimar sozinho, ele estava enganado, ele também viria comigo.

    — E você que roubou dinheiro dos frecchit, como é que fica? Será que o seu avô deveria saber disso?

    — Vamos, continuem. — Dessa vez era Theresa quem sorria maliciosamente. — Gosta quando as verdades vêm à tona.

    — Ei! — Zernen pegou minha gola. — Isso não é verdade! Como ousa mentir para mim?!

    — Digo o mesmo! Acha mesmo que eu faria algo tão sujo assim?!

    Ambos piscamos os nossos olhos, transmitindo uma mensagem implícita para nos ajudarmos a sair dessa ilesos.

    Mas isso não resultou. Meredith colocou a mão nas nossas cabeças enquanto estreitava os olhos com uma cara muito, mas muito assustadora.

    — Depois vamos conversar sobre isso. Roubar e mentir é errado.

    Depois largou as nossas cabeças enquanto Zernen e eu nos semi abraçamos, temendo o que aquela ruiva pretendia fazer.

    — Por favor, não conta nada para o vovô!

    — É, eu sinto muito! Pensando bem, eu me lembro de ter me desculpado de algo assim antes, então por favor me desculpa!

    Meredith deu um sorriso gentil, porém, assustador.

    — Não se preocupem com nada, vamos apenas aproveitar a estadia na casa da Theresa, não é mesmo Theresa? — Olhou para ela por fim, que deu um sorriso gentil que escondia malícia.

    — Pois é, concordo. Até porque não podemos manchar a casa dos meus pais com sangue? Ficará feio.

    O que? Isso estava envolvendo sangue. Fiquei ainda mais assustado, ao passo que Zernen forçava um sorriso.

    — Se for só isso, eu aguento. Só não quero que o meu avô saiba disso.

    — Não se preocupem. Não se preocupem com isso — disse Theresa e Meredith assentiu com um sorriso. — Vamos continuar explorando?

    É, estávamos ferrados.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota