Capítulo 150: Bandidos em casa
Deixamos o quarto da Clara com semblantes fúnebres para a alegria daquelas duas, que esbanjavam seu sorriso como se não houvesse o amanhã. Mesmo elas dizendo para não nos preocuparmos, o problema estava no sorriso delas.
Aprendi com a minha mãe, que o sorriso gentil de uma mulher zangada precede a desgraçada. Um dia desses ela havia servido pedras para o meu pai comer com um sorriso gentil. Aquilo me deixou tão assustado que não consegui dormir, temendo pela vida do meu pai.
Agora eu temia pela minha vida. Eu estava me abraçando como se estivesse sentindo um grande frio, minha cabeça curvada para não encontrar aqueles rostos sorridentes. Zernen fez o mesmo.
— Agora o meu quarto.
Theresa abriu o quarto. Um quarto tingido de tinta verde com trepadeiras espalhadas por ela, que lançavam o mesmo cheiro que o da sala. Tirando isso, havia uma cama, um armário e o que despertou brilho nos olhos da Meredith. Uma mesa contendo uma caixa de bonecos humanos.
— Como vem não tem nada de interessante…
— Mas o que é isso, Theresa? — Meredith que havia corrido para aquela mesa com um sorriso no rosto e bochechas coradas, pegou em uma boneca marrom com cabelos loiros.
— Ah, isso…
Meredith deixou aquela boneca, pegando uma outra, mas essa era apenas a cabeça.
— Eu costumava brincar de médica. Tirava os membros, simulando uma cirurgia e tentava compreender mais do corpo humano.
Pelo menos ela não tentava fazer isso com um ser humano. Isso me deu um alívio quando lembrei que quase fui alvo de um experimento por parte daquele cientista maluco.
Mas agora, vendo o sorriso no rosto daquelas duas, algo passou pela minha cabeça.
Aconteceu quando minha priminha estava zangada porque eu havia comido o seu iogurte. Para ela não chorar e queixar minha mãe, a distrai brincando de boneca o dia inteiro, embora no final ela tenha contado. Muito trapaceira!
Mas enfim, essas duas não eram minha prima, eu podia tentar com elas.
— Você brinca de boneca, Meredith?
— N-Não! Lógico que não! — Ela largou a boneca com as bochechas rubras.
— Eu gosto de brincar de boneca! — Declarei, atraindo os olhos das duas. Peguei uma das cabeças de boneca. — Vamos brincar, Zernen!
Pisquei um dos olhos para que ele percebesse meu plano. Como esperado do meu sócio de negócios. Ele veio até mim, pegou a cabeça e começou a dar toques com a perna como um jogar de futebol.
— Eu costumava jogar algo assim com os meus irmãos, hahahahaha! Pega aí, Jarves!
Apesar daquela não ser a maneira certa de brincar com boneca, entrei na onda e recebi a cabeça na minha perna, dando toques.
— Ei, não é assim que se brinca com boneca! — disse Meredith, pegando a cabeça quando lancei no ar. — Perderam a cabeça?!
— Foi ideia do Jarves!
Zernen apontou para mim como o traidor que era. — Culpem a ele e me inocentem de todos os meus crimes, por favor!
Fiquei irritado com o que ele disse, mas genuinamente aquilo havia roubado algumas risadas daquelas duas. Seus olhos soltavam algumas lágrimas.
— Ai, aí, então era por isso que queriam brincar de boneca? Aí, aí, vocês são mesmo desesperados — disse Theresa.
— Podem ficar calmos. — Meredith colocou a cabeça da boneca na caixa. — Só queríamos deixar vocês com a mente atordoada. Nós não vamos fazer nada desde que prometam nunca mais fazer algo igual.
— Prometemos!
Gritamos em uníssono. E pousamos a mão no peito de alívio. Um suspiro saiu da nossa boca.
Pensando bem, com o meu pai também foi assim. No dia seguinte, quando meu pai foi se desculpar, ela riu e disse mesma coisa que a Meredith.
— Posso ficar com as bonecas?
— Se você não brinca com boneca.
— É para minha irmã! A Fiena!
Ela disse aquilo com as bochechas rubras, justo a pessoa que havia dito nada de mentiras.
— Tudo bem.
Theresa deu um sorriso travesso, um sorriso de quem havia lido Meredith com os olhos. Ela sabia muito bem que Meredith queria brincar com as bonecas, mas preferiu guardar isso em seu coração assim como eu e o pai da Meredith fizemos.
Meredith realmente havia achado uma boa amiga.
Depois de deixarmos o quarto da Theresa, fomos para o quarto do irmão da Theresa. Um quarto vazio como se um ladrão tivesse entrado e levado tudo.
— Assaltaram o quarto? — perguntei. Theresa também fez a mesma pergunta, olhando para Clara.
— Ele levou tudo e disse que não queria mais saber de Hengracia.
— O que aconteceu com ele? Hahahahaha! Nem eu fui tão longe assim quando fui morar com o vovô!
— O que um homem desiludido romanticamente não faz — eu disse enquanto olhava para Meredith que fazia uma cara triste com as mãos sobrepostas no peito.
— Foi tudo culpa minha… Se eu tivesse notado que o seu irmão sentia algo por mim, eu teria falado com ele.
— Não é culpa de ninguém. Eu falei que querer uma princesa era areia demais para ele e o incentivei a desistir.
— Caramba, Theresa…
— Mas é verdade, Jarves! Os homens são aqueles que vão sustentar a casa um dia, então imagina o desnível que seria um pobre namorar com uma princesa, sem falar na sociedade que iria te eliminar!
Pior que Zernen tinha razão. O rei jamais admitiria isso. Talvez se o pai da Meredith estivesse vivo, quem sabe o homem poderia ter alguma sorte.
— Foi num tom de brincadeira. No fundo, eu desejava que ele lutasse pelo amor dele.
Olhou para Meredith.
— Se eu também o amasse, pode ter certeza que ninguém iria me impedir de ficar com ele.
Meredith seria capaz de fugir com ele para morar em um lugar longe dos olhos do rei. Isso ela seria capaz de fazer.
— Mas enfim, eu vou encontrá-lo! — disse Theresa com um sorriso. Para levantar o ânimo, coloquei a mão na cabeça e olhei fixamente para ela.
— O que você está fazendo?
— Vendo o seu futuro.
— O que?
Ela ficou abismada. Consegui atrair com isso os olhos de todo mundo que ansiavam pela profecia que sairia da minha boca.
— Parece que você vai mesmo encontrá-lo.
— É sério isso? Não está brincando comigo?
— Não. — Balancei a cabeça negativamente. Zernen sorriu, levantando o polegar em meu apoio.
— Jarves nunca falha!
— Quando? Eu quero data. Se não tiver, será apenas falácias.
— É verdade. Você normalmente trabalha com datas. Três dias, três meses te lembram alguma coisa?
De onde ela havia tirado o normalmente?
— Só confia em mim! — Levantei o polegar. — Eu só vi vocês se abraçando em uma cidade! Ambos com um sorriso no rosto.
— Então, me diz, e a minha mestra?
Essa aí Theresa nunca havia encontrado durante a trama, era provável que já estivesse morta, então lamento muito Theresa. Você também era mais uma vítima do autor.
— Não sei — disse com um tom triste. — Mas sabe de uma coisa? No fim do dia, nós é que fazemos o nosso futuro quando tomamos a decisão de agir.
Parafrasei as palavras do herói quando a vilã mentiu para eles dizendo que ela havia visto futuro e nele eles jamais venceriam. Embora ela estivesse mentindo na altura, ela tinha habilidades que lhe davam suporte para sustentar suas mentiras.
Agora que penso nisso, eu tinha que ficar atento à aparição daquela pessoa imprevisível depois que a invasão dos monstros fosse resolvida.
— É, acho que você tem razão.
— Sábias palavras, Jarves. Meu pai também já disse isso.
Ela também disse isso para o herói.
Depois que saímos do quarto do irmão da Theresa, visitamos a cozinha que mais parecia um armazém de tantos sacos de alimentos que ali estavam. No meio disso, a barriga da Clara murmurou. Ela ficou vermelha e cobriu o rosto.
— Vocês podem ir para sala, eu e Clara vamos preparar algo para vocês comerem.
— Eu também quero ajudar! — disse Meredith com as mãos juntas.
—Ué? Eu pensei que princesas não fossem de cozinhar.
Dei uma risada disso.
— Minha mãe sabe cozinhar!
— Sua mãe não é uma princesa, Zernen.
— Ah, é mesmo! Mas ela é a minha princesa!
Caramba, Zernen me pegou de jeito dessa vez. Como ele conseguia dizer coisas fofas dessas mesmo reclamando da sua mãe?
Dei um sorriso, colocando a mão no ombro dele. Lembrei que eu também disse isso para ela no dia das mães. Foi um momento caloroso entre um filho e uma mãe.
— Mas eu sei cozinhar! Aprendi tudo no castelo com as empregadas do castelo. Fizemos até pães!
— Verdade! — eu concordei com ela, lembrando das palavras da Brigitte. — Eu sou testemunha disso, quando estivemos no castelo, uma empregada disse isso.
— Ai, ai, aquelas fofoqueiras — disse Meredith com um sorriso nostálgico.
— Tudo bem. Vamos cozinhar então, agora vão embora!
Theresa nos expulsou da cozinha com as mãos. Por algum motivo eu era o único empurrado enquanto o Rein e o Zernen saiam sem esforço nenhum. Agora estávamos caminhando pelo corredor, não tão longo. Chegamos na sala após alguns passos e sentamos no sofá sem nada para fazer.
Até que eu tive uma ideia.
— Quital expiamos as meninas? — Levantei o dedo com um sorriso travesso. — São nesses momentos que as mulheres começam a fofocar. Minha tia e minha mãe eram assim sempre que ficavam sozinhas na cozinha.
— Ah, mas qual é a graça disso, Jarves?
— Da última vez que o Fred e alguns rapazes tentaram algo assim foi quando estávamos em casa do Oceano. Ele ficou de cueca. Foi quando ele tentou expiar as meninas tomando banho nas fontes termais.
— Mas elas não estão tomando banho, Rein… — Semicerrei os olhos.
— É verdade, podem ir, eu fico aqui.
— Fazer o que, não é? Já que não tenho o meu baú de moedas… — Zernen se levantou, apalpando a roupa como se estivesse a buscar algo. — O que? Onde? Onde está?
— O que?
— O meu baú! Alguém roubou o meu baú!
Ele gritou como se fosse louco.
— Calma, você só esqueceu na caravana. É só irmos ao encontro do soldado, que ele vai nos devolver.
— Mas e se ele tiver subtraído as moedas? O que eu faço?
— Só contar. Quanto é que era?
— Eu não sei.
— Ai complica.
— Mas de qualquer forma, eu vou lá! Sei que aquele baú estava cheio até a boca. — Ele começou a correr. Levantei.
— Espera, vamos juntos. Você não vem?
Como resposta, Rein se levantou. Pelo menos algum problema não tão grande apareceu para resolvermos e nos tirar do tédio.
Enquanto caminhávamos pelo corredor em direção a saída, um senhor na casa dos cinquentas vestido de macacão, acompanhado de uma senhora enrugada vestida na mesma moda, apareceu ali com os olhos franzido, punhos cerrados e emitiu uma voz ameaçadora.
— Parado, seus bandidos…

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