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    Quase no meio do continente, Lília, Camily, Solum e Coruja estavam próximos a uma cidade parcialmente devastava. Corpos de soldados imperiais e de guerrilheiros rebeldes cobriam o chão — um cenário pesado demais para a pequena Camily, que  se agarrara em Lília para não ver nada. Os homens andavam mais à frente.

    — Os corpos ainda não estraram em decomposição e o sangue está fresco. Essa luta foi recente. — comentou Solum, observando os arredores. — Nós chegamos tarde, Coruja. Deve ter sido uma luta e tanto, olha só para isso. Os desgraçados do império não tiveram piedade nem com os civis.

    Solum cuspiu em uma pedra enquanto trilhava o que restou da estrada. Perto dali, um corpo nu com o rosto desfigurado. Era repugnante até para alguém como ele. Desviou o olhar para os escombros das casas.

    — Animais, olha o que fizeram com a cidade. Tanta destruição vale a pena? O império está se manchando cada vez mais. Apesar desse massacre, isso pode nos ajudar. Devastar uma cidade por causa de rebeldes não fará bem à imagem pública deles.

    — Correto, Coiote. Levar uma cidade à ruína por causa de um grupo de revoltados só mostra o quanto o império está desesperado e com medo. — Coruja fazia várias corujas percorrerem a cidade, mapeando e contabilizando as baixas de ambos os lados. — Do que um Imperador que ergueu um império e o consolidou em seis anos teria medo? Não vejo outro cenário a não ser ele querer pôr a culpa desse massacre nos seus inimigos. Assim ele ganha o apoio do povo e mancha a imagem dos rebeldes. Se for esse o caso, então nós realmente chegamos tarde.

    — Tem razão. Usar uma tática suja para manter uma imagem soberana e de salvador é usada por alguém que não acredita em lados, só usa o método que for necessário para atingir seu objetivo. Ele é esperto. — Lília acariciava os cabelos de Camily, que ainda evitava aquele vislumbre devastador.

    Ela fitava a garota com preocupação — não achava certo trazer uma criança com eles. Mesmo sendo essencial para a Ordem, Camily ainda não estava preparada para ver a crueldade de um campo de guerra.

    — Camaleão, não se preocupe. Eu vou te proteger, tá bem? Quando se sentir mais confiante e confortável, pode abrir os olhos. Até lá não se solte de mim.

    — Não sei se foi certo trazê-la aqui. O Coelho deveria ter sido mais compreensível e mandado a Raposa no lugar dela. Claro que não estou querendo desmerecê-la, mas não era hora para ela ver isso. — comentou Solum, se aproximando dos colegas.

    Algo se moveu atrás dos escombros. Pouco depois, um barulho os deixou em alerta. Em questão de segundos, estavam cercados por várias pessoas armadas.

    — Era só o que faltava. — ele bufou. — A julgar pelas roupas, eu diria que não são imperiais, mas eles parecem um pouco mais hostis que o comum.

    — Vocês aí, parados! Coloquem as mãos onde possamos vê-las e fiquem exatamente onde estão, ou terei que usar a violência! — exigiu uma voz masculina.

    Os hostis abriram espaço, deixando passar um homem de cabelo castanho claro. Usava roupas militares levemente desgastadas.

    — Vocês estão trabalhando para o império ou só tiveram o infortúnio de caírem nessa emboscada? Sejam cuidadosos com a resposta. Se estivessem só de passagem, não estariam analisando a cidade, principalmente com Manifestações Espirituais.

    — Não estamos de passagem e nem estamos com o império. Estamos procurando os rebeldes. — Coruja olhou ao redor. — …ou o que restou deles. Também estamos contra o império e buscamos por uma aliança.

    Começaram sussurros entre os guerrilheiros. Pareciam ser os rebeldes de quem estavam atrás, e aquele homem era seu líder. Coruja tentou se aproximar, sem fazer movimentos bruscos — mesmo assim foi impedido por um rebelde.

    — Somos representantes da Ordem dos Cavaleiros Brancos, e viemos firmar uma aliança com o líder rebelde, Duncan. Nosso líder tem interesse em tê-los ao seu lado, especialmente considerando a grande rede de informações que vocês possuem.

    — Então, vocês o encontraram. Sou o líder da resistência, Duncan Walter. Prazer em conhecê-los, mas devo ser sincero. Nunca ouvi falar dos Cavaleiros Brancos. Se seu líder está tão interessado em uma aliança, por que não está aqui? Prefiro falar cara a cara do que mediar acordos através de mensageiros ou subordinados.

    Após estabelecer um diálogo decente, Duncan pediu para os rebeldes abaixarem suas armas e caminhou até o Coruja. O cansaço e descontentamento expressavam seus sentimentos tão bem quanto as palavras. Ele então tocou no ombro do Coruja.

    — Vê toda essa destruição?! Impero a ordenou para usá-la como um exemplo para as próximas cidades que apoiarem os rebeldes. Cortou os suprimentos das cidades e vilarejos mais afastados e culpou os rebeldes por um ataque a um carregamento de suprimentos que nunca aconteceu. Desde então, nosso trabalho perdeu credibilidade, e aqueles que ainda acreditam acabam dessa forma. — ele bufou, injuriado. Já tinha perdido as contas de quantas vidas foram roubadas. — Se seu líder e essa Ordem realmente têm o desejo de deter o império, vocês terão o meu apoio e de todos os meus homens. Me cansei de fugir dia após dia. Precisamos feri-los onde machuca.

    — Vocês estão mesmo na pior. E a rede de informações? Precisamos saber sobre os capitães do Imperador. Nosso grupo recebeu a informação de que são dezesseis Manifestadores, ao todo. Se quer feri-los onde machuca, precisamos nos livrar deles. — enquanto Coruja negociava de forma tranquila e direta, os aliados se aproximavam. Ele então fechou os olhos enquanto pensava em um plano. — Com vocês, nossos números triplicaram. Se for possível, realoquem seu acampamento para longe do centro. Assim, ficarão mais próximos do nosso grupo e longe dos exércitos imperiais.

    — Já pensamos nisso, mas estamos ocupados atrás de pistas sobre um homem conhecido como “O Político”. Dizem que é ele quem anda convencendo as famílias nobres e os líderes das cidades a recusarem apoio aos rebeldes e a nos entregarem. — ele os fitava com cautela. Podia confiar plenamente neles? — Estão dispostos a nos ajudar a encontrá-la? A pista está com uma nobre de uma família próxima do império. Temos a informação de que ela será escoltada para a capital nessa tarde. Se a deixarmos entrar na capital, perderemos a pista para sempre, sem falar que o tal “Político” pode ser um dos capitães que você mencionou.

    — Alguém tão influente só pode ser próximo ao Imperador, então provavelmente ele é um dos nossos alvos. — Lília levou a mão livre ao queixo. — Coruja, faça seus lacaios mapearem todas as rotas possíveis até a estrada principal que leva à capital. Poderemos usar as estradas paralelas para nós aproximar e atacar.

    O interesse de Lília sobre a tal pista era nítido, um sorriso brincava em seus lábios. Ela então pôs a mão direita sobre a cabeça da Camily.

    — Hora de ser corajosa, minha pequena. Você quer impedir esses vilões? Conseguiu a oportunidade. Sua Manifestação será o nosso elemento surpresa. Hora nos mostrar o que o Ratel te ensinou. — ela sorriu.

    — Um plano ousado. Fazer isso na porta do inimigo é uma provocação e tanto. Os desmoralizaria e mostraria a coragem rebelde. Eu gostei da ideia. — Duncan levava a mão direita ao queixo, pensando em meios de colaborar. Para um grupo do qual ele nunca ouviu falar, eles pareciam mesmo incríveis e bons no que pretendiam fazer. — Vocês me convenceram. Eu e meus homens estamos ao seu dispor na execução desse plano. Podemos ter perdido essa cidade, mas eles perderão um dos capitães. Finalmente, lutaremos de igual para igual.

    — Uma emboscada, hein?! Gostei da ideia. O que faremos? Atacaremos os guardas e sequestraremos a mulher? Ou matamos os guardas e forçamos ela a nos contar tudo sobre essa pista lá mesmo? — Solum deixava uma risada escapar. Apesar do desejo de enfrentar outros Manifestadores, soldados seriam um bom aquecimento. — O que estamos esperando? Vamos, não podemos perder tempo!

    — Não se precipite, Coiote. Esse não é o plano, e como você é um bruto que só pensa em lutar, eu vou te explicar. — Lília cruzou os braços. — Iremos criar uma distração para atrair a atenção da escolta da nobre, algo que não pareça uma armadilha. Assim, Camaleão usará sua Manifestação para ir até o veículo onde está nosso alvo e extrair a informação. Isso evitará um conflito aberto e não irá invalidar nossa pista sobre o Político. Precisamos ser cautelosos e agir pelas sombras.

    Ela o olhava com frieza. Sabia que, se o plano desse errado, não só perderiam uma pista sobre um capitão como também iriam expor a Ordem.

    — Entendeu o plano? Usar a Camaleão para entrar e sair despercebida nos manteria anônimos e nos daria uma pista valiosa sobre um alvo.

    Após a explicação, todos se juntaram para montar uma estratégia que funcionaria com perfeição. Embora o objetivo fosse estabelecer uma aliança com os rebeldes, seria o sucesso dessa missão que firmaria uma nova aliança.

    Após definirem todos os detalhes, partiram com os rebeldes para uma estrada próxima da estrada principal que levava à capital imperial.

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