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    O silêncio, quase soberano, só era perturbado pelas batidas dos corações. Todos os olhares se voltavam para Raishi e Keila. Um não temia o perigo, outra sentia o suor frio escorrer pelo rosto. O peso da lealdade começava a assustar a espiã. Mesmo assim, Keila atacou — e sacramentou sua escolha. Raishi se esquivou facilmente. Na segunda tentativa, ela invocou suas Relíquias, um par de adagas, e avançou contra o inimigo, imóvel. No último instante, tudo se inverteu.

    Agora, era Raishi quem corria em sua direção, com uma espada, enquanto Keila estava parada. Ele parou a ponta da espada próximo ao pescoço dela, a centímetros de um golpe mortal, e recolheu sua Relíquia.

    — Morta você não me serve de nada. Elarion, Capuz, Raya e Ryn, amarrem-na e coloquem isso nos pulsos dela. — ele jogou um par de pulseiras para Raya. — E não deixem que ela use a Manifestação.

    Em seguida, Raishi se aproximou Camily e Helenae. Ambas se assustaram e recuaram com medo. Seus semblantes já diziam tudo.

    — Me perdoem pela forma que agi. Vocês não tiveram culpa por serem pegas por aquela Manifestação, mas aquilo foi necessário. Me perdoem, de verdade.

    — Foi necessário?! Ela é só uma criança, e você a traumatizou! Que tipo de mundo é esse em que vivemos? Um mundo sem cor e sem esperança onde até aqueles em quem confiamos podem nos tratar como cobaias?! — Helenae o fitava com horror. Além de não querer ficar perto dele, ela não sentia uma boa presença vinda do Raishi, como se uma maldição, ou algo muito pior, o cercasse. — Você está mesmo do nosso lado? Sinto como se você estivesse nos usando em um jogo doentio. Você realmente se importa com seus companheiros ou, para você, eles são meras ferramentas?

    — V-você me assusta, Raishi. Pensei que você era diferente do Falcão e dos outros que me usaram, mas você agiu como um vilão. — Camily abraçou Helenae com força. Estava um pouco trêmula, com medo de ser repreendida ou punida por ter sido pega pela Espiã. — Você é um herói ou um vilão? De que lado você está? Tenho medo de que a paz que você quer seja a mesma que o Falcão queria. Eu nunca mais quero passar por aquilo. Não quero lutar contra meus aliados de novo. Isso dói… Dói muito.

    Raishi não a respondeu. Preferiu deixar o silêncio prevalecer enquanto desviou o olhar para as estrelas. Ele admirava o céu enquanto pensava em algo ainda maior.

    Alguns minutos depois, o restante do grupo retornou. Ruby carregava Akane nas costas e Tenebris carregava Solum. Atrás deles, Coruja escoltava o Político e Lília ajudava Katharine a caminhar. Entretanto, o maior ponto de atenção era a ausência de um deles.

    — Vocês cumpriram a missão, mas vejo que isso lhes custou muito, então eu irei perguntar. Onde está o Kamito? O que aconteceu? — Raishi se virou para eles.

    As reações foram mistas. Ruby se entristeceu e Lília desviou o olhar. Por outro lado, Katharine ignorou as dores, se aproximou e o segurou pela gola da camisa.

    — O que você acha?! — apesar do aperto firme, ela tremia.

    — Ele não foi capturado pelo império?! Então quer dizer que ele morreu? Impossível, ele não morreria tão fácil assim. Então qual o motivo disso, Katharine? Eu não tive culpa de nada, eu nem mesmo estava lá.

    — Não sabemos se ele está morto ou não. Ele foi arremessado da ponte por uma explosão do Capitão Haythan. Mandei minhas corujas rastrearem o local da queda, mas não encontrei o corpo dele. A correnteza do rio pode ter levado o corpo, ou talvez ele tenha morrido na queda. — comentou Coruja, fitando o outro grupo seriamente. Ao ver uma mulher com vestes imperiais amarrada, logo deduziu ser a espiã. — Se tivéssemos a encontrado antes, isso não teria acontecido. Por outro lado, agora temos duas fontes de informações. Creio que estamos na vantagem.

    — Isso não pode ser possível, eu mesmo o treinei. Não tem como ele ter morrido. Você verificou direito? — Raishi franziu o cenho. Parecia se importar com alguém pela primeira vez. Mesmo assim, Katharine não o soltou. — Por que ainda me olha assim, Katharine? Eu não tive culpa. Você sabe que eu me importo com ele.

    — A culpa foi sua, Adfectus! Você o trouxe para cá! Você o envolveu nisso! Você é um maldito sem alma e sem sentimentos! Você é amaldiçoado a fazer todos que estão ao seu redor morrerem! Primeiro o Kayn, e agora o Kamito!

    Sem hesitar, Katharine o socou violentamente, fazendo-o perder o equilíbrio e cair. Mesmo ali, Raishi a fitava sem demonstrar nada, o que a deixava mais irritada.

    — Fale algo! Não assumirá a culpa da morte dele?! Você não se importa com ele nem com ninguém! Você é um demônio! Eu te avisei…! Eu disse que te mataria caso mais alguém morresse por culpa sua!

    — Katharine, pare! Não é hora para brigamos. Temos que ir antes que os reforços cheguem. — Lília se aproximou com pressa. — Além disso, eu não acho que o Kamito esteja morto. E o verdadeiro responsável pelo que aconteceu com ele está num coma induzido. Com aqueles ferimentos, dificilmente ele sobreviverá.

    Apesar das palavras, uma densa onda calor fez Lília recuar. Não seria fácil.

    — O verdadeiro inimigo é o Império! Se lutarmos entre nós, eles vencerão! O Kamito não iria querer isso! Ele decidiu lutar por um mundo e por um povo que não eram dele. Em respeito a ele, vamos terminar o que começamos.

    — Por que você o defende? Esse desgraçado não merece compaixão nem piedade! Ele já tirou tudo que eu tinha uma vez, e agora ele tira isso daquela pobre garota! Quando ela, acordar o que você acha que ela fará?! — a onda de calor crescia.

    Katharine se aproximou de Raishi, que a olhava pacificamente.

    — Não irei te matar por respeito a ele, e a ela. — ela apontou para Akane. — Eu tenho certeza de que a garota irá querer tirar satisfações com você assim que acordar. Esteja pronto para isso, Adfectus. Ela não pegará leve com você.

    — Sei bem disso, eu estou pronto. Eu dei uma escolha a eles, mas eu deveria ter sido mais cauteloso. Fui confiante demais em pensar que eles seriam capazes. Eu estava errado e agora ele se foi. — Raishi então olhou para Coruja. — Use sua Manifestação para rastrear todo o curso do rio. Se ele realmente morreu, vamos encontrar seu corpo e enterrá-lo dignamente. Ele merece isso pelo que fez por nós e pelo Extra-Mundo.

    Após dar a ordem, Raishi se levantou e ajeitou suas roupas sem dizer mais nada. Em seguida, caminhou até Ruby e pegou Akane em seus braços. Por fim, Raishi se dirigiu até a floresta. No meio do caminho, parou e se virou para o restante do grupo.

    — Vamos embora, eu sinto vários inimigos se aproximando. Vigiem os Capitães o tempo todo. O sacrifício do Kamito não será em vão. Essa guerra agora passa a ser uma vingança por ele. Quem não quiser mais fazer parte disso, pode ir embora.

    Todos o seguiram em silêncio, até que a Ordem dos Cavaleiros Brancos sumisse sob as sombras da floresta. Dúvidas pairavam pelo ar, sentimentos conflituosos mais feriam do que curavam. Muitos ainda não aceitavam a morte de um companheiro, mesmo depois dos ganhos da missão. Guerras são assim, tão impiedosas? Quais seriam os próximos passos daquele grupo, agora desfalcado? Qual seria a reação de Akane quando acordasse e não pudesse mais encontrar seu Kamito?

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