Capítulo 8.1: Desperdício
18 de outubro de 1999 — Periferia de Eva — Zona 47
— Pai, a mãe já saiu? — Sarah que acordou a pouco, chega na cozinha ainda com os olhos serrados de sono.
— Sim! Ela tem uma reunião na guilda e depois uma escavação importante. — Júlio está sentado, de pernas cruzadas, usando um roupão branco e lendo um jornal enquanto toma café.
— Então você pode assinar essa autorização para mim? — Ela coloca um papel cumprido na horizontal sobre a mesa para ele e se senta em uma cadeira para o acompanhar no café.
Após deixar o jornal e a xícara sobre a mesa, ele pega o papel e começa a ler mentalmente. Enquanto isso, Sarah que está sentada com uma perna dobrada, arregaça uma das mangas de sua camisa cinza de manga comprida, e se prepara para começar a encher uma xícara para si.
— Você foi selecionada para uma prova especial?
— Pelo que eu entendi, como minhas notas são muito boas, a guilda dos caçadores me selecionou para acompanhar uma das avaliações internas deles como parte da prova prática da escola. — Ela pausa a fala para dar uma assoprada por cima do café e depois volta a falar — O Bernardo vai também, aí acabei aceitando.
— Sua mãe me contou que você está indecisa sobre qual caminho tomar. — Ele deixa o papel sobre a mesa e volta a pegar a xícara para beber mais um pouco.
Primeiro ela faz um bico para o lado com a boca e depois responde.
— Sabe, eu não me sinto atraída por essas coisas de guildas. — Ela deixa as palavras saírem e se misturarem junto do vapor que sai xícara e se perde pelo ambiente levemente iluminado pela luz do astro-rei que entra por uma janela.
— E o que te atrai? — Agora ele segura a xícara com às duas mãos e a encara diretamente.
Ele bebe um pouco de café antes, dá uma profunda suspirada enquanto olha para a madeira clara da mesa arredondada e depois volta seu olhar para ele.
— Eu gosto de viver o momento! O que vai acontecer? Eu não sei! Só quero estar viva aqui e agora. — Ela desvia o olhar dele para a janela e para o muro lá fora onde a coruja sempre costuma pousar. — Talvez eu goste de alguma guilda no futuro, ou não, só vou saber quando a hora chegar.
Júlio se perde em pensamentos por um momento enquanto olha o cabelo negro dela todo bagunçado.
— Quando chegar hora, trate de escolher algo que te empurre para frente. Não se esqueça que esse mundo é cruel, e você tem potencial para se destacar no que escolher. Rejeitar isso seria um desperdício. — Ele primeiro fala olhando para ela, mas logo vai buscando seu jornal enquanto volta a se sentar de lado na cadeira. — Pega um lápis para mim.
Ela o observa por alguns instantes depois dele já ter terminado de falar, então se levanta e pega um lápis que fica sobra a mesa da sala e retorna o entregando. Já de mãos livres e sentada novamente, volta a pegar a xícara cara agora já mais morna, e vira tudo de uma vez, o que faz ela abrir bem os olhos.
— Aqui está! — Ele estende a mão para entregar o papel assinado. — Acelera se não vai se atrasar. — Júlio solta as palavras ao ar já voltando a ler o jornal.
Sarah se vira para uma parede que tem um relógio pendurado e termina definitivamente de acordar ao ver que está alguns minutos atrasada de sua rotina normal. Então se levanta e sai em disparada pelo corredor com passadas tão pesadas que tira um leve riso de Júlio.
Não se passou nem dez minutos e ela já está saindo pela porta da sala após gritar uma despedida apressada para seu pai. Vestindo o uniforme da escola, só que a versão masculina, ela pega a bicicleta e começa a acelerar como se estivesse em uma corrida.
Alguns minutos depois dela ter saído, Júlio vai até à sala e pega o telefone, então disca alguns números e aguarda um pouco.
— Sim, sou eu! Tenho um pedido. — Ele pausa a fala por alguns segundos para ouvir e depois retoma. — É sobre as mercadorias, eu preciso que tomem um certo cuidado com uma delas.
A conversa continua por alguns minutos, então ele retorna para a cozinha e para seu jornal.
Na escola
Sarah chegou bem na hora que o sinal toca, já não tem quase ninguém mais no pátio, então ela se direciona até a sala da diretora e lhe entrega o papel com a assinatura e vai para a sala. Após pedir desculpa pelo atraso, ela entra e ao avistar Marcela, faz uma careta enquanto vai se aproximando da carteira. Imediatamente após se sentar sente um tapa de leve na nuca, quando joga um olhar sobre o ombro para sua amiga, a vê com um sorriso bobo no rosto, não resiste e sorri também.
As aulas passam e logo o final do dia escolar chega, mas Sarah é chamada para uma reunião com Bernardo e os outros alunos que farão a prova especial da guilda dos caçadores.
— Agora que estão todos aqui, quero apresentar Miriane, ela nos acompanhará amanhã na observação. — Miguel termina sua fala olhando para sua companheira de guilda.
— Prazer em conhece-los! — Ela acena com a mão e um sorriso gentil no rosto. — Como ele disse, irei acompanhar vocês amanhã. Espero que possam aproveitar essa experiência para entenderem o que vão encontrar pela frente caso realmente queiram se tornar caçadores.
— Já que vocês são os que tiveram as melhores notas no ano nas práticas, não vão precisar passar uma avaliação tradicional. Mas não se deixem enganar, ainda estarão sendo avaliados por mim e por ela o tempo todo. Vale ressaltar também que, mesmo sendo só uma observação a distância, vocês ainda sim, precisarão escolher algum equipamento para usar, ele será disponibilizado pela guilda. — Ele faz uma pausa na fala e olha para cada um deles que o observa atentamente. — Estejam preparados e atentos a todo momento, nunca se sabe quando algo pode acontecer.
— Professor! — Bernardo levanta a mão.
— Diga! — Miguel e os demais voltam sua atenção para ele.
— Existe a possibilidade real de termos que usá-las?
— Sim! Vamos acompanhar um Neófito, ele vai fazer a caça de um javali selvagem que vem causando estragos nas plantações de um vilarejo ao norte da grande floreste. É uma região bem tranquila no geral, mas sempre existe a possibilidade de sermos atacados, ou precisarmos agir diante de alguma situação. — Miguel termina de explanar já se levantando.
— Só ressaltando, ainda há tempo para repensarem. Caso não apareçam amanhã cedo na guilda, vamos considerar como desistência, é claro que isso acarretara exclusão do programa de estágios. Mas depois que se formarem ainda poderão entrar na guilda como qualquer um. — Miriane também deixa suas pontuações já de pé.
— Bom! É isso, estão dispensados, até amanhã! — Miguel os libera com olhar voltado para a porta fechada.
Depois de todos terem saído da sala, Miguel e Miriane se encontram sentados de frente um para o outro e bebendo café em copos rústicos de madeira.
— O que foi aquilo? — Miriane indaga olhando atentamente para ele.
— Você conseguiu perceber?
— Quem acha que eu sou? — Ela desvia o olhar dela para a porta e depois volta a caneca e o pouco café que ainda tem lá dentro. — No momento que ela pisou na sala, não só observou cada canto do lugar como provavelmente o mapeou por completo. Também me senti sendo observada por um predador.
— Na primeira prova prática que apliquei para ela, enquanto explicava as regras, me senti exatamente assim. — Ele se perde com olhar voltado para a caneca sobre a pequena mesa a frente entre os dois. — A maioria não percebe, mas ela já tem uma aura bem imponente.
— Aquela menina já está muito acima do nível de um Neófito, ou Trilhante. — Miriane aproveita para terminar com o que restou do café na caneca e suspirar um pouco.
— Eu diria que ela já está no nível sentinela, e pronta para fazer a avaliação para caçadora sombria. — Ele ri por um momento e deixa o corpo relaxar para trás no sofá.
— O nome dela é Sarah correto? — Miriane observa ele acenar positivamente com a cabeça. — Como alguém daquela idade possa estar em um nível tão superior? Tem certeza que ela não passou por nenhum despertar também?
— Até onde eu sei, ela é uma garota com uma vida normal, sem traumas nem nada do tipo. — Ele explana os pensamentos olhando para ela. — Nunca vi os pais dela para saber se é algo de família, mas soube que a mãe faz parte da guilda dos arqueólogos.
— De dota forma, ela tem potencial! Seria um grande reforço para a guilda. — Miriane começa a se levantar enquanto termina de falar. — Eu vou indo, preciso aplicar uma prova teórica na minha escola.
— Bom trabalho, e até amanhã. — Miguel se despede dela ainda sentado e pensativo.

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