Mundo conforme visão de Piscis: 

    Eu estava nu, no escuro, meus pés molhados, luzes emergiam das cicatrizes e era constantemente perfurado pelas imagens de Sagi e Fidel. Quanto tempo durava esse pesadelo? Horas? Dias? Nunca saberei dizer enquanto não acordar. E o que quer que me mantenha aqui não me deixa acordar.

    Cada vez que sou perfurado, sinto meus ossos sendo estilhaçados, órgãos vazando, sangue quente escorrendo e as lâminas frias fazem meu corpo arrepiar — de novo, e de novo e de novo… — tudo isso sem parar, e por conta de uma decisão errada que tomo vez após vez. Agora será diferente. A faca surgiu novamente das luzes de minhas cicatrizes, novamente ambos estão ajoelhados à minha frente. Primeiro Sagi, corto seu pescoço e a luz ilumina parte do caminho, agora Fidel, a mesma coisa, o sangue jorra formando uma ponte de luz entre aqui e algo melhor. Eu caminho por aquela luz, vejo um pouco das cores do meu rosto, e mais à frente, vejo também um espelho. Nele estava uma versão de mim, sem cicatrizes, despreocupado, sorridente.

    — Quem é você? — Perguntei.

    — Você… — Respondeu.

    — Nós somos?

    — Sim, nós somos nós.

    — Não somos…

    Mundo conforme visão de Fidel: 

    Piscis abriu os olhos, segurou a espada que descia até seu peito, à desintegrou com magia e logo em seguida fez o mesmo com Higg. Não sobrou nada do velho homem para contar história. Naarus e eu ficamos espantados com a velocidade que tudo ocorreu, e tive receio de que talvez estivessem certos, Piscis não poderia estar vivo.

    — Piscis eu… — Dizia.

    — Silêncio! — Cortou ele.

    Eu pude ver com minha magia, havia algo em seu ombro, um espírito maligno de ira. Piscis o pegou como quem pega um grilo encostado em si, e o rasgou em vários pedaços. Naarus que não podia ver e entender nada, apenas se assustou com o gesto.

    — Finalmente! Essa peste estava me incomodando desde o acampamento militar — Disse Piscis — Onde estão os outros escravos? Só restaram vocês?

    — Os escravos tinham nome, sabia? Lauto, Greetar, Jonjon, Nawan, Caramer, Boutos, Vael e Higg! — Bradou Naarus — E mais outro: Varil, quem você deixou apodrecer na caverna!

    — Sinto muito. Não sabia o nome de nenhum deles.

    Essa frase cortou como uma faca até mesmo para mim. Não conhecia esse lado insensível de Piscis — não…, eu conhecia, só não queria aceitar. E da mesma forma ele não parecia querer aceitar até agora…

    — Vamos sair daqui! Onde está o Djinn? — Perguntou Piscis.

    — Antes devia nos perguntar se estamos bem! — Disse — Não sabe pelo que passamos…

    — E não vai adiantar, me contar agora… vamos logo me contem no caminho…

    Ele então deu as costas e saiu andando. Uma passagem se abriu em frente à ele, como se já estivesse esperando por seu despertar. Nós o seguimos, e paramos em uma sala que não importava para onde olhássemos, havia estrelas por todo o canto…

    Mundo conforme visão de Piscis:

    “Garoto, você está estranho! O que era aquela coisa no seu ombro?” Disse Sagi.

    “Você que devia me dizer, não é você o espírito que me atormenta? O que aquela coisa estava fazendo presa à mim?” Pensei.

    Continuei andando por aquele caminho semelhante ao céu estrelado que via enquanto navegava com os Fragark. Esperava encontrar um Djinn, enfrentá-lo ou fazer um acordo, tanto faz. Ao que parecia recebi um teste diferente dos outros, sendo que para eles eu estive apenas dormindo, enquanto na verdade estive esse tempo todo lutando por eles. Talvez eu não me lembrasse de fato o nome dos escravos, mas nunca tive oportunidade de perguntar — eles me viam, dois deles ainda me veem, como um monstro. 

    E estão certos. No fim eu cedi, e sacrifiquei quem eu prometi defender. Já não quero mais esse peso para mim, então pensem o que quiserem, me abandonem — não será mais do que justo ser abandonado.

    — Apareça! Djinn! — Gritei.

    Mundo conforme visão de Fidel: 

    Piscis invocou, e o Djinn apareceu. Foi como se uma estrela tivesse caído à nossa frente, quase nos cegando com tanta luz. A explosão fez com que aquele ambiente estrelado, se tornasse um espaço branco. O Djinn que descia da luz, era pequeno, parecia uma criança vermelha e tinha dois chifres saindo da cabeça.

    — Três bravos guerreiros se aproximam, sua prova final será a decisão! Enfrentar o Djinn ou aceitar seu acordo. O que será que irão escolher? — Disse o Djinn.

    — Primeiro me conte que és e o seu acordo! — Disse Piscis.

    — Sim, sim, sim, claro! Eu sou Astaroth, Djinn da Ambição e da Ironia! Eu darei à você um poder baseado no seu maior pecado e ambição! — Respondeu o Djinn.

    — E qual seu preço? — Perguntou Piscis.

    O Djinn então tomou outra forma: Seu corpo se deformou, membros ficaram maiores, asas surgiram, a metade de baixo de seu corpo se tornou uma fera imensa. Seus olhos passaram a brilhar em vermelho forte, e uma cauda com a cabeça de uma serpente na ponta deu a volta em seu corpo.

    — Quando a chama da sua ambição se dispersar e já tiver conquistado tudo o que há de querer! Tu não aproveitarás de seu oásis e morrerá por aquilo que deu partida à sua história! — Disse o Djinn.

    Mundo conforme visão de Piscis:

    “Não está pensando em aceitar, né?” Perguntou Sagi “Você nunca terá paz de espírito nessa vida! Sempre será um refém da dívida e não poderá parar de desejar até que morra!”

    — Talvez eu não deseje parar… não há onde eu possa descansar…

    — Espere Piscis! Não faça esse acordo! — Gritou Fidel.

    Ele estava atrás de mim observando, não se aproximava muito porque a cauda de serpente o ameaçava.

    — Seu amigo está me rejeitando… terei que matá-lo caso ele decida por você… — Disse o Djinn.

    Com isso me levantei, andei até Fidel e o soquei no estômago. Ele não aguentou e caiu vomitando. Naarus tentou me bater por isso, mas eu dei à ele o mesmo gosto de meu punho. E estando os dois ajoelhados, deixei claro para eles que eu mandava e eles obedeciam.

    — Isso responde suas dúvidas? — Perguntei ao Djinn.

    — Sim, você é o hospedeiro perfeito! Temos um acordo? — Respondeu o Astaroth.

    — Claro…

    Sagi se opunha aquele acordo, mas não tendo controle completo de minhas decisões, aceitou com ressalvas. Dizia que iria me arrepender no futuro, mas eu já estava arrependido. Apenas aceitei para proteger aqueles dois e retirar a maldição da cidade…

    — Sim, sim, sim. Sua ambição é valiosa para mim! — Dizia Astaroth, enquanto assumia a forma anterior — Sua vontade queimou casas e agora procura lavar os pecados… as cinzas são negras, mas a neve é alva! Seu poder será capaz de destruir e purificar! Agora tu irás afogar as nações pela qual passar…

    Com isso o Djinn foi absorvido em meu corpo. E o espaço em branco encheu-se de água, elas giravam em torno de mim, e eu podia às controlar livremente. E foi naquela espiral d`água que saímos da masmorra de Gargataul…

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota