No dia de minha partida de Wäl voltei a vestir minha armadura — a mesma reluzente e adornada com os entalhes da deusa. Não por querer lutar, mas sim para não ser pego desprevenido de novo. O dia era nublado, mas não tinha cheiro de chuva. Me despedi daquela cidade não com orgulho, e sim com gratidão. Muito pelos fazendeiros que me receberam, e mais pelo que significou esse lugar para mim, um recomeço. Não iria mais levantar minhas armas sem um propósito, mas… que propósito tenho? Sobrevivência tinha sido a razão de tudo, mas agora eu estava dedicado a viver.

    Cavalguei, passei por duas vilas agrícolas e na terceira parei para descansar. Era outra vila agrícola, com seus campos de plantio e pastoreio. Não fiquei em uma pousada ou coisa assim, preferi acampar nas redondezas, não muito próximo das fazendas ou do centro, e sim próximo de um bosque que havia ali. Claro que, pedi para Sagi observar bem se durante a madrugada ninguém nos roubaria.

    “Eu não posso observar bem os arredores enquanto você dorme” Disse Sagi.

    — O que? Como assim? — Perguntei.

    “Você não deve ter percebido enquanto eu estava no controle, mas desse lado onde estou, eu só vejo o que você vê. Além disso, só consigo ver espíritos, inclusive o seu” Disse Sagi.

    — Então como sabe que não comeram minha bunda em Wäl?

    “Porque eu também sinto o que você sente, independente de quão alcoolizado você esteja. E a não ser que você seja largo aí atrás, eles não comeram sua bunda” Disse Sagi.

    — Entendi… então você também sente quando eu…

    “Sim, inclusive eu morria de medo daquele elfo tarado querer ser o homem da relação.” Disse Sagi.

    Eu montei a tenda, prendi o cavalo e acendi uma fogueira. Preparei um chá antes de dormir. Aprendi a fazer chá com aquela senhora que ajudei, e apesar de não ter gostado no início, acabei construindo certo apreço. É uma bebida que relaxa, depois dos dias de trabalho na fazenda ela sempre preparava esse chá. E eu pegava no sono rapidinho depois.

    No meio da madrugada Sagi me acordou aos gritos, e não era somente ele gritando. A vila estava eufórica, pessoas corriam para todos os lados, cavaleiros matavam quem os atacassem e ateavam fogo. Eu estava desfazendo minha tenda, e disposto a fugir dali antes que o caos me alcançasse. Mas não consegui fugir, não vendo aquelas pessoas precisando de ajuda. Então corri em direção a vila. 

    “Garoto, você tem certeza?” Perguntou Sagi.

    — Não quero ter mais arrependimentos…

    Chegando na vila, ajudei tirando pessoas das casas em chamas. Os cavaleiros vestiam pouca armadura, com capacetes quadrados, e com uma marca estranha tatuada em seus braços expostos. Um deles veio me atacar, mas foi impedido por um aventureiro que estava de estadia na vila. Outros surgiram, e estavam enfrentando a ameaça; não me juntei a eles, preferi continuar resgatando e guiando as pessoas. Os sobreviventes me seguiam para a floresta, eram poucos, mas tinham mulheres, crianças e alguns homens entre eles. 

    Um dos cavaleiros nos seguiu. Mandei todos continuarem correndo e fiquei para enfrentar o cavaleiro. Com uma lança espiritual consegui derrubar e acabar com a ameaça. Continuei escondido com os sobreviventes até o sol raiar. E de manhã, voltamos até a vila, que estava destroçada.

    — O que foi aquilo…? — Perguntei para mim mesmo.

    “Provavelmente Fragarks” Disse Sagi.

    — Fragarks…

    “São moradores de uma ilha, a noroeste daqui. Eles só vêm para o continente quando vão roubar e sequestrar pessoas” Disse Sagi.

    Haviam corpos de alguns deles no chão, e todos os dos aventureiros que me ajudaram também. As casas haviam se tornado cinzas — e das cinzas, algumas poucas histórias ora esquecidas, podiam ser relembradas pelos objetos deixados. Uma boneca de pano, o corpo carbonizado de um recém-nascido, mesmo um móvel. A história de muitos se reduziu à cinzas, e as pessoas que salvei foram provavelmente as únicas que sobreviveram e não foram sequestradas. Vendo aquilo tudo não pude me conter, e segui os rastros dos Fragarks deixados no chão.

    “Espere Piscis! Eles são fortes, e não são só esses que viu! Para onde você está cavalgando vai haver mais deles, e provavelmente vão estar em um navio” Disse Sagi.

    — Você os conhece bem, não é? — Perguntei, já estressado com Sagi.

    “…”

    Cavalguei com pressa para alcançá-los. Eles não seguiam pelas estradas, pelo contrário, iam atravessando florestas e rios, suas marcas ficavam claras pelo chão, como se estivessem levando algo pesado consigo. E seguindo esses rastros, fui bem ao Oeste, em um lugar com água sem fim e areia, os alcancei. Fiquei escondido entre as plantas, deixado, e mascarando até mesmo o brilho de minha armadura. Observei que eles estavam transportando pessoas aos poucos em barcos para um grande navio. 

    “Você não está pensando em invadir o navio, está?” Perguntou Sagi.

    “Sabe que sim…” Pensei.

    “Pense bem! Eu te apoio, mas é muito arriscado. Você já fez o que podia na vila!” Disse Sagi.

    “Não posso deixar que sejam levadas…” Pensei.

    “Mas neste momento, você não tem chances, garoto… aceite seus limites.” Disse Sagi de forma rispida.

    Fiquei com um amargo na boca, mas precisei aceitar porque era verdade. Eu não poderia salvar aquelas pessoas. Mesmo que eu matasse os guerreiros Fragark em terra, como eu iria alcançar o navio que estava em alto mar? Eu estava em desvantagem, mas não estava desistindo. Tirei a armadura dada à mim pela Deusa, enterrei a espada de Taerdus no chão. Me despedi de meu cavalo, e fui me entregar para os Fragarks.

    “O que você está fazendo?!” Gritou Sagi.

    “Não tendo arrependimentos…”

    Os guerreiros me renderam, puseram-me algemas e me levaram no último barco para o navio. E no navio me prenderam no fundo, onde não havia luz ou ventilação; e estaria preso junto de todos os outros sequestrados. Eles só teriam um destino possível, e eu queria chegar lá o quanto antes. Não estava realmente preso, eu sei que posso fugir a qualquer momento, mas preciso garantir que eles não saibam disso…

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