Prólogo
Há coisas na vida que não se espera; como a morte prematura dos pais, ou a perda de seu próprio avô. Mas o tipo de surpresa mais absurda é aquela que não faz sentido claro… meu nome é Piscium Piger, ou simplesmente Piscis; e a surpresa que falo é a de que comi um peixe, e um espírito autoproclamado “herói” agora vive comigo em meu corpo.
Mas antes de me aprofundar em minha relação com esse espírito, deixe-me contar um pouco de mim: nasci e cresci em uma vila pesqueira da qual não vê dias nublados desde que foi fundada. A vila fica situada na extremidade leste de um grande lago chamado Gravio. O lago fica onde termina o rio Galvus, que atravessa todo o condado de Galtivus e, não só dá nome ao condado como a principal cidade deste — Galvênia.
Esta vila só existe com um propósito: preservar o peixe Gravus. Este peixe por sua vez é carnívoro, e possui muita gordura em sua carne, fazendo com que seja considerado o mais saboroso entre todos os peixes. A maior parte é mantida em viveiros, os maiores são vendidos para a nobreza, enquanto os menores são devolvidos ao lago.
E é de certa forma importante saber disso, já que sou um pescador; assim como foram meus finados pai e avô. Porém, diferente dos ricos pescadores que possuem viveiros. Eu tenho que encontrar minha sorte em um barco furado e com uma rede rasgada. Isso torna o trabalho difícil e menos recompensador do que de costume, então sempre fui bem pobre e faminto. Vivo em uma doca, tomo banho no lago, faço minhas necessidades no bosque, e me alimento do que pesco. E essa última parte se conecta com a atual…
Certo dia, não lembro quanto tempo faz exatamente, mas lembro que o Sol já se punha; assistia mais uma vez aquele horizonte alaranjado, com os raios da gigante amarela iluminando por completo a vila e os morros atrás dela; o lago refletia o céu, de longe poderia parecer que haveria dois um sobre o outro, mas nunca tive oportunidade de ver assim. Enquanto puxava a rede acreditando que seria mais uma noite com embrulhos no estômago; eis que havia um peixe nela preso, não era um gravus, pelo menos não poderia ser pelo tamanho; ainda assim… era minha melhor opção naquela noite.
Na manhã seguinte em que acordei, para minha surpresa, estava eu mais alto e mais forte… parecia o tipo de mudança que meu avô falava, sim, mas estranho. Indo ao bosque, ao pisar em uma moita um pássaro voou em minha direção e, eu simplesmente o peguei — então eu também deveria estar mais ágil. Essa transformação me assustou? Com certeza! Me importei? Nem um pouco… para falar a verdade, foi bem-vinda.
Eu era um adolescente de baixa estatura e muito magro, não sou como os outros, não quero guerras ou glórias. Mas sei que não levo muito jeito para pescaria e, servir à guarda do reino pagava bem. Sequer precisaria me mudar da vila, por conta do valor do gravus, havia muita guarda em torno de minha vila. Graviotti pode ser considerada a mais segura do condado, isso se tirarmos Galvênia da lista.
O que me deixou perturbado foi o que veio junto da transformação. Esse espírito sequer sabe o próprio nome, mas sabe o de uma escola (Björn) e de um inimigo (Caim).
— E quem é Caim mesmo? — Perguntei.
— O senhor de todo o mal, o ser que renasce a cada século… o emancipador dos demônios! — Respondeu o espírito.
— Por que eu deveria me importar com isso?
— Talvez porque caso ele renasça, esse lago irá secar antes que você aprenda a pescar!
Estávamos no meu barco, era próximo de meio dia; o rio que corria do Sul era mais forte nesse horário. Era início do mês, antepenúltimo antes do inverno, logo deveria voltar para a doca e me encontrar com o clérigo. Ele vinha todo mês de Galvênia, para abençoar os moradores e afastar os espíritos malignos. Talvez afastasse esse de mim…
— Eu não sou maligno… por que você insiste em pensar isso de mim?
— Talvez porque você minta, porque não para de ler minha mente, porque invade meus sonhos…
— Eu apenas queria impedir que você tivesse um pesadelo — Interrompeu.
— Ainda assim… isso é muito assustador… e meu avô já dizia…
— Seu avô está morto! E logo todos estaremos se você não for para Björn — Interrompeu novamente.
— E tem isso também: você diz ser um herói, mas não respeita nem os mortos. E vive falando sobre ir para um lugar que nunca ouvi falar…
Comecei a remar em direção à minha doca, o Sol estava forte, e eu precisava receber o clérigo de qualquer forma. O espírito contou novamente toda a história de sua missão e o “blá blá blá” dos males que Caim fará ao mundo. Até que, ele começou a me atacar:
— Sabe o que você é? Um preguiçoso.
— Agora vai me ofender?
— Sim, você não tem ninguém para te dizer, mas eu vou! Você não passa de um garoto acomodado! Um garoto que não tenta aprender a pescar com uma vara por conta da preguiça! Um garoto que morre antes de tentar!
E continuou me atacando, até eu chegar em minha doca. Prendi o barco, me dirigi à frente da minha doca, e sentei-me em uma cadeira que me permitia ver a rua e aguardar pelo clérigo. O espírito continuou reclamando, e eu continuei ignorando. Sem dúvidas ele não cansava, era obstinado, mas logo seria exorcizado. Porém, quando vi o clérigo dobrando a esquina, sua expressão corporal mudou, entrou em desespero, e me implorou para que fossemos embora. Neguei, claro, mal esperava para que ele fosse exorcizado. Até ele me dizer:
— Seu idiota! Eu não estou te possuindo, sequer consigo controlar seu corpo. O peixe que comeu possuía minha alma, agora estamos nos fundindo. Me exorcizar é o mesmo que te exorcizar. Tanto a minha quanto sua alma serão destruídas.
Não sei por que, mas essa frase vinda dele me arrepiou, me trouxe dúvidas. Eu não costumo ter dúvidas, a vida é plena, não tenho ambições e só desejo servir o reino. Por que a vinda do clérigo agora me causava medo? Por que meu corpo tremia desnecessariamente, e o bom clérigo me parecia aterrorizante? Não, a fé é sobre ter certeza, não sobre achismos e dúvidas… preciso me concentrar e acreditar naquilo que me foi ensinado…

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