Capítulo XIV: O Desejo.
Eu estava jogado ao chão, morrendo a cada respiração, contando as batidas do coração. Tudo estava escurecendo, Sagi estava em silêncio… então algo tocou minha nuca. Toda a dor, todos os meus ferimentos estavam curados. Mesmo os colaterais da absorção haviam desaparecido. Quando me levantei, olhei para aquela figura feminina nua. Ela sorria de forma simpática, e perguntava meu nome.
— Piscis… — Disse desviando o olhar.
— Não precisa se envergonhar — Riu a Deusa — Agora se levante Piscis. Me deixe vê-lo.
Assim o fiz. Porém, me toquei que estava em frente uma deusa, então me curvei ao seu serviço.
— Não há necessidade. Eu, Allpa, Deusa da Fertilidade e da Juventude. Em agradecimento por derrotar o Djinn Guardião, lhe concederei um desejo para você e esse espírito guerreiro que te acompanha.
— Minha Deusa. Eu não sou digno de sua misericórdia — Repeti o mesmo pedido que ensaiei com Sagi — mas dizei uma palavra e serei salvo…
— Garoto não precisa disso! — Respondeu rispidamente a Deusa — Só faça logo seu desejo.
Subitamente seus gestos nobres sumiram, como se ela realmente não se importasse com a forma que eu me apresentasse.
— Eu desejo que você desfaça a fusão de almas! — Pedi.
— Infelizmente não consigo — Respondeu Allpa — Vocês chegaram tarde, a fusão está muito avançada.
— Eu imaginei isso — Disse Sagi — Depois que os efeitos colaterais surgiram, eu sabia que já era tarde.
— E mesmo assim trouxe essa doce criança até aqui? — Perguntou Allpa.
— Não tínhamos muita escolha… não há realmente nada que possa fazer?
— Eu posso fortalecer o espírito desse rapaz bonito, mas vocês ainda se tornariam um só no final — Disse a Deusa.
A Deusa sentou-se na cama, e não tinha vergonha em se acomodar de forma que a expusesse totalmente.
— Esperem! O que isso significa? — Perguntei.
— Vocês dois irão se fundir de forma igual, e acabarão se tornando uma nova criatura a partir da fusão total de almas — Explicou Allpa — Sinceramente será interessante. Não sei o que acontece quando duas almas tão opostas como as de vocês se fundem…
— Almas opostas?
— Sagi! Você não explicou nada para ele?! — Bradou Allpa.
— Nós não nos damos muito bem… — Respondeu Sagi.
A Deusa Allpa então me explicou. Almas são o corpo que armazena toda a energia do ser. Todas são únicas e inconfundíveis, porém algumas podem ser semelhantes, opostas ou se completarem. Almas semelhantes irão ter uma conexão plena de amizade, almas que se completam irão se apaixonar e se tornar almas gêmeas. Agora almas opostas sempre irão se repelir, e normalmente se tornam inimigos mesmo que sem motivo. Minha alma e a de Sagi são opostas, isso além de ter atrasado a fusão até então, explicava por que eu não consigo aceitar Sagi.
— Entendeu? — Disse Allpa.
— Entendi. Mas se nós nos fundirmos, eu irei desaparecer? — Perguntei.
— NÃO! Você irá se tornar algo além do que é hoje. Não vai sentir dor, nem medo, e nem irá perder suas memórias. Você só irá evoluir — Respondeu a Deusa.
— Tudo bem, então fortaleça meu espírito.
Sem dificuldades ela me fortaleceu. Pude sentir algo mudando em mim. Já havia sentido a magia fluindo pelo meu corpo quando invoquei a lança espiritual, mas agora eu estava a sentindo o tempo todo. Talvez agora eu possuísse o domínio necessário para me equiparar ao Sagi.
— Muito bem! Agora seu desejo — Disse a Deusa enquanto apontava para Sagi.
— Eu quero saber se Stella ainda está viva!
— Sério? Muito bem!
Allpa invocou um prisma rosa, e com ele pôde nos mostrar Björn e uma senhora muito idosa. Ela me era familiar, tinha a visto nas memórias de Sagi, mas ela era bem mais nova nessas memórias.
— Por favor… Ó Deusa da Jovialidade. Dê a Stella vitalidade o suficiente para que eu me encontre com ela! — Pediu Sagi, se curvando como um espírito.
— Isso são dois pedidos! — Atorquiu a Deusa.
— Eu sei! Apenas tenha misericórdia! — Gritou Sagi.
Nunca vi Sagi chorar, na verdade nem sabia que espíritos pudessem chorar. Porém eles o faziam, e Sagi que nem se lembrara do próprio nome, parecia se importar mais com aquela senhora do prisma do que a própria alma.
— Tudo bem, farei uma exceção por ser simples — Concordou a Deusa.
Assim que ela tocou o prisma, este brilhou em uma luz rosa. Não dava para ter certeza se ela realmente deu jovialidade para Stella, mesmo assim Sagi não parava de agradecer.
— Agora é sua vez — A Deusa apontou para mim.
— O que devo fazer?
— Não é óbvio? Retire sua roupa e venha para cá!
— Não quero fazer isso… — Respondi, cabisbaixo.
— Adoro quando vocês se recusam. Você pode estar meio velho para meu gosto, mas estou a tanto tempo presa aqui que não faz diferença…
“Você devia mostrar a ela sua gratidão” Disse Sagi dentro de minha mente.
— Escute ele, você não vai se arrepender. Posso assumir a forma que você quiser… — Continuou a Deusa.
Ela passou a mudar sua forma, ia alterando entre todas as mulheres que eu já havia visto. Minha mãe, uma vizinha, Cleonice, Giulia, todas até crianças. Eu não estava confortável, mas não podia negar que a oferta era tentadora. Perder minha virgindade com uma deusa era… Taerdus tinha razão, era épico.
— Tudo bem! Mas quero que você assuma sua verdadeira forma.
— Claro meu bem…
Assim ela assumiu a forma de uma mulher alta, cabelos escarlates. Farta em seios e coxas, quadril largo, mas ainda mantendo uma cintura fina. Acabei por me deleitar naquele corpo por horas, talvez dias, não tenho certeza. Eventualmente Sagi pediu para que eu me desgrudasse se seguisse viagem. A Deusa consentiu, deu-me mais um beijo e equipamento novo. Quando saí da masmorra, aqueles que estavam presos às mesas na batalha contra o Djinn me aguardavam. Fui recebido com aplausos e honras. Eles não sabiam que havia sido Sagi quem os salvou, mas não importava.
Com a Deusa liberta, a região pútrida daquela vila voltou a ser verde. Porém, havia preço. Alguns dos moradores relataram que seus terceiros filhos haviam sumido. Muitos imploraram aos aventureiros que ainda estavam lá para que os procurassem. Mas o ancião os deu a notícia infeliz.
— Preço da Deusa Allpa sempre foram as crianças… por isso os deuses superiores prenderam-na naquela masmorra. Não há o que fazer, esse destino já foi selado.
Eu não sabia disso… Eu não queria isso…

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