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    “Você entendeu, garoto?” Raul perguntou, para ter certeza de que o seu pupilo estava acompanhando.

    A verdade é que ele próprio ainda estava digerindo tudo que havia aprendido recentemente sobre o Sistema de Habilidades, então estava tomando todo o cuidado para não transmitir nada de errado ao rapaz.

    Em resposta a pergunta, Fernando apenas assentiu, confirmando que estava guardando tudo em sua mente. De repente, lembrou-se de algo.

    “Você comentou sobre Habilidades de Nível Cavaleiro, como exatamente elas funcionam?”

    “Bem… Na verdade, Nível Cavaleiro é apenas a forma como são popularmente chamadas. Escute bem, moleque, as Habilidades são classificadas de diferentes formas de acordo com seus níveis e eles são: Habilidades Comuns, Habilidades Raras e por fim, Habilidades Lendárias, com essa última sendo a que mencionei anteriormente”, explicou, com uma expressão calma. “As Comuns normalmente são Habilidades simples, de fácil aprendizado e que não demandam tanto esforço ou risco para se aprenderem. Geralmente, são dominadas por pessoas no nível Noviço a Guerreiro ou por aqueles que não possuem muito talento. A maioria esmagadora dos praticantes do Sistema de Habilidades só tem acesso a esse nível.”

    Ouvindo isso, o jovem Tenente ficou surpreso, não imaginando que as Comuns eram tão predominantes.

    Isso significa que as Habilidades de nível Raro ou Lendária têm algum grande impeditivo? perguntou-se, curioso.

    “Após isso, temos as de nível Raro, essas estão num patamar completamente diferente das Comuns e são extremamente difíceis de se aprenderem por diversos motivos, seja por questão de talento, perigo ou por possuírem requisitos muito difíceis de se alcançarem. Para dominar uma Habilidade Rara um Usuário muitas vezes precisa ser extremamente talentoso e, mesmo assim, pode ser necessário colocar sua vida em risco para isso.”

    “Mesmo se for difícil, as pessoas ainda tentariam, certo?” Fernando perguntou, com uma expressão séria. Usuários de Habilidades não eram pessoas normais, ele duvidava que a maioria se contentaria com Habilidades Comuns pelo resto de suas vidas. “Isso significa que há algum obstáculo que impede a maioria dos Usuários de terem acesso a elas.”

    Raul sorriu fracamente com a perspicácia do jovem pálido.

    “Isso mesmo. Não se trata apenas de dificuldade. A maioria das Habilidades Raras são mantidas a sete chaves pelas Legiões, tratadas como tesouros absolutos, distribuídas apenas a seus gênios. Essa é uma forma das Legiões protegerem seus recursos de vazarem, ao mesmo tempo que não deixam que muitos Usuários independentes se formem entre as Guildas e os civis. De certa forma, é um meio de concentrar o poder entre elas e impedir que ameaças se formem.”

    Ao pensar com cuidado, Fernando assentiu, sentindo que fazia sentido as palavras do Urso Tirânico. Se um grande grupo de Usuários de Habilidades poderosos se formasse, mesmo Legiões Pequenas poderiam ser ameaçadas. Os Leões Dourados, que sofreram com isso e eram extremamente desconfiados dos Usuários, eram um claro exemplo.

    Isso era o quanto o Sistema de Habilidades era incrível. Diferente do Sistema de Magia, o crescimento aqui não dependia da Disposição Elemental ou do nível inato de Magia. Isso significava que, no Sistema de Habilidades, a grandeza estava ao alcance de praticamente qualquer um, desde que sobrevivesse ao aprendizado. Se não fosse a extrema dificuldade de desenvolver Veias de Mana e a alta taxa de mortalidade no começo e ao aprender certas Habilidades arriscadas, o Sistema de Magia poderia facilmente acabar se tornando obsoleto.

    De repente, enquanto pensava sobre os requisitos para aprender cada nível, a expressão de Fernando mudou para choque. Com um olhar sério, o jovem Tenente focou-se em Raul.

    “Senhor Raul…” O jovem pálido falou, com sua voz lenta, possuindo um leve nervosismo. “Você disse que Habilidades Comuns podem ser aprendidas por qualquer um e geralmente não são tão difíceis de dominar e nem são perigosas. Então… quanto às Habilidades que me ensinou, em que nível exatamente elas estão?”

    Quanto mais Fernando pensava nisso, mais seu coração acelerava. Atualmente, seu leque de Habilidades era de:

    1ª Habilidade: Passos Tirânicos, 2ª Habilidade: Disparo Neural, 3ª Habilidade: Autorregeneração, 4ª Habilidade: Vibração, 5ª Habilidade: Fúria e por fim, sua 6ª Habilidade autocriada, Aptidão Absoluta.

    Disparo Neural e Vibração, essas eram duas Habilidades que apresentavam um alto risco ao se aprender e até o próprio Raul não havia sido capaz de dominá-las. Mesmo Fernando quase havia morrido enquanto tentava aprender o Disparo Neural.

    Enquanto Fúria era algo que ele havia aprendido de um dos livros que havia comprado de Papi, mas que Raul também possuía uma cópia. O sujeito moreno havia sido extremamente enfático sobre ele escolher aquela Habilidade específica. Na época, estranhou que algo com efeitos tão incríveis estivesse ali, disponível para qualquer um aprender, mas não pensou muito a respeito.

    Posteriormente, por curiosidade, Fernando chegou até mesmo a perguntar para Ilgner sobre sua própria Habilidade de Aprimoramento, Berserker Carmesim, e mesmo sendo comparável e até melhor que a sua Fúria em certos aspectos, tinha um grave defeito e era o forte estresse no corpo após o uso, além da perda da razão. Por outro lado, Fúria não tinha qualquer efeito colateral tão grave além do gasto exorbitante de mana e um estresse corporal de nível intermediário caso usada na potência máxima. Enquanto a de Lenny era de baixo nível e só aumentava 1 ponto de Físico e Agilidade.

    Raul tinha um leve sorriso enigmático, assim como um olhar confiante.

    “Eu realmente preciso dizer? Acho que você já tem a resposta para isso. Com exceção de Passos Tirânicos, todas as outras Habilidades que aprendeu de mim ou por minha indicação são, na verdade… Raras.”

    Ouvindo isso, o jovem Tenente sentiu um arrepio em sua espinha, ele já tinha chegado a essa conclusão, mas não ousava acreditar nisso. Apenas ao ouvir a confirmação diretamente da boca de Raul, é que ele caiu em si.

    Mesmo Lerona tinha uma expressão assustada, não imaginando que o rapaz pálido realmente tinha aprendido tantas Habilidades poderosas.

    Mas… como exatamente esse cara colocou as mãos nessas coisas?! A ruiva perguntou-se, olhando para Raul.

    O mesmo pensamento estava passando na cabeça do rapaz. Como se pudesse ler suas mentes, Raul sorriu.

    “Sabe… A maioria das Habilidades Raras é protegida e guardada pelas Legiões, mas isso não significava que pessoas como nós não possamos colocar as mãos em algumas. Na verdade, muitas Legiões até mesmo as distribuem livremente para o público. Na superfície, é como se fosse uma espécie de ‘caridade’, sob o pretexto de ‘aumentar a força da Humanidade’, mas digamos que… não é bem assim.”

    “O-o quê? Por que elas fariam isso?” O jovem Tenente perguntou, chocado. Conhecendo as Legiões e seu egoísmo e sede de poder, ele duvidava que elas fariam algo meramente pelo bem da Humanidade. Se esse fosse o caso, jamais teriam permitido que as Guildas de Runas fossem exterminadas.

    A expressão do sujeito moreno lentamente diminuiu.

    “Porque são Habilidades falhas ou defeituosas”, disse, com uma voz calma, mas que carregava alguns sentimentos conflituosos. “Nem sempre as Habilidades autocriadas dos Usuários dão certo. Muitas vezes, elas falham, atingindo resultados diferentes dos originais pretendidos, ou que nunca deveriam existir. Por isso, muitos criadores de Habilidades morrem nessa etapa, mas alguns sobrevivem e dessas falhas nascem Habilidades que têm efeitos incríveis, mas que são incrivelmente perigosas. Por isso as Legiões não se preocupam em compartilhar sobre algumas delas, pois normalmente é impossível de aprender.”

    Ouvindo isso, o rapaz ficou confuso, quando um pensamento veio à sua mente.

    Poderia ser… pensou, olhando para o sujeito moreno de forma estranha.

    “Eu realmente preciso me desculpar por isso, moleque, mas… desde que te conheci, eu não fui exatamente sincero com você. Na verdade, desde que te vi aprendendo meus Passos Tirânicos, uma Habilidade que eu me dediquei tanto a criar, como se não fosse nada. Eu imediatamente soube que você não era um garoto comum. Ao mesmo tempo que fiquei com inveja, também vi em você uma grande oportunidade. No começo, eu não te tratei como meu pupilo, estava mais para… uma cobaia”, falou, com um olhar sério e pesado.

    Fernando ouviu tudo aquilo com uma expressão calma, mesmo que sua mão tremesse um pouco, não disse nada.

    Vendo isso, Raul suspirou levemente, olhando para o outro lado, como se não pudesse encará-lo por mais tempo.

    “Eu sempre almejei o topo, seja aqui ou na Terra, nunca aceitei ser alguém medíocre. Quando cheguei em Avalon, eu não era muito mais velho que você e me vi sendo classificado como alguém sem talento para a Magia, senti como se… toda essa merda não fizesse o menor sentido. Fui enviado para treinamentos e combates e, a cada vez, lutei como se minha vida dependesse disso. Na verdade, era mais como se eu apenas quisesse que tudo acabasse assim, mas… não acabou. Eu sou um desgraçado muito sortudo”, falou, rindo consigo mesmo, enquanto olhava para a parede vazia ao longe.

    Tanto o jovem Tenente, quanto Lerona apenas escutaram em silêncio. Nenhum dos dois nunca tinha visto esse lado do Capitão moreno.

    “Mesmo sendo um fracassado que mal conseguia usar Magias simples como Reforço, eu sobrevivi a cada maldito treinamento, a cada batalha. Enquanto aqueles ‘talentosos’ caíam um após o outro como se fossem moscas, eu continuei vivo, como um carrapato teimoso, me recusando a morrer. Foi então que, numa dessas missões de treinamento, conheci o Capitão Viktor, que na época era apenas um pequeno Cabo sem nome. Mesmo que eu fosse um lixo sem talento, ele me recrutou para suas tropas e me apresentou a alguns Usuários de Habilidades. Talvez ele tenha visto algo em mim que eu mesmo não vi, de certa forma, ele me salvou. E bem… graças a isso, eu sou quem sou hoje”, falou, num misto de felicidade e desânimo. “Quando descobri que tinha talento para Habilidades, eu realmente achei que tinha tirado a sorte grande, mas logo descobri que não era bem assim… A cada Habilidade nova, era cada vez mais difícil aprender a próxima. Além disso, fora as Habilidades Comuns, eu percebi que eu não tinha a menor chance de aprender uma única Habilidade Rara, muito menos as defeituosas que chegavam até mim. Isso sempre foi verdade, ao menos até eu te encontrar. Naquele dia, você não me deu apenas uma nova Habilidade, você me deu… esperança.”

    Assim que disse isso, Raul tirou sua espada negra e a apontou para longe. Logo sua mão começou a tremer. Começou levemente, mas logo estava tremendo quase que incontrolavelmente.

    Ziii!

    Logo um chiado agudo foi ouvido, quando a lâmina começou a tremer também. Ao ver isso, Fernando arregalou os olhos.

    Vibração! Isso… pode ser que ele… pensou, chocado.

    Uma vez, Raul havia comentado que aprendeu Vibração, mas que nunca foi capaz de usá-la adequadamente, pois lhe causava muitos danos. Mas agora, bem em frente aos seus olhos, a lâmina estava vibrando com extrema perfeição e maestria e não havia um único sinal de qualquer sobrecarga nos músculos de seu braço e a única explicação para isso era que o Urso Tirânico muito provavelmente também havia dominado o Disparo Neural!

    Foi então que Raul olhou novamente para Fernando.

    “Mesmo sendo egoísta da minha parte usá-lo assim, eu nunca quis ser injusto com você, garoto. As Habilidades que te apresentei nunca se trataram de Habilidades simples, mas um misto de várias Habilidades Comuns e Raras defeituosas, com algumas que eu e meus veteranos dos Sarnentos reunimos ao longo dos anos, muitas delas sendo públicas e outras vindas de trocas no Mercado Negro. Quando te apresentei as opções, te ofereci uma Habilidade Comum e duas Raras como alternativas. Uma delas, apesar de ser considerada Falha, eu tinha um meio de ensiná-la sem lhe causar danos, que era a Autorregeneração, com isso ela não era muito diferente de uma Rara segura, enquanto a outra não. Eu havia me decidido, se você escolhesse a Comum ou a Falha que podia ser aprendida em segurança, eu apenas te treinaria como um Usuário de Habilidades qualquer, mas se você escolhesse a última, eu te usaria para testar seus limites. E, de todas as opções, você realmente escolheu a mais difícil e perigosa de todas, Disparo Neural”, falou, com um meio sorriso, como se não pudesse esconder que estava feliz pelo rapaz ter tomado esse caminho. Mas, logo seu sorriso diminuiu, como se tivesse voltado a si. “Moleque, eu coloquei sua vida em risco e te fiz aprender Habilidades que mataram ou aleijaram inúmeros homens. Eu te tratei com desonestidade, como se você fosse um mero rato de laboratório, e mesmo assim você me pagou com gentileza e me deu esperança. Eu normalmente não sou do tipo que faz isso, mas… me perdoe!”

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