Capítulo 8.5: Aquele que carrega o próprio fim
Sebastian arregala os olhos enquanto mal consegue pensar em algo
Mas para sua felicidade, seus punhos se movem um sobre o outro em um ato defensivo que já foi executado tantas outras vezes, assim, conseguindo bloquear o machado com uma das manoplas.
O impacto da lâmina o fez tombar para o lado, e rolar alguns metros. Grassas ao couro resistente da manopla, o único dano que recebeu, foi o próprio impacto. Suas mãos trêmulas estão prestes a desistir.
O mercenário aproveita o momento para disparar na direção dele em busca de outro golpe com objetivo de finalizar Sebastian que está de costas e mal consegue apoiar as mãos no chão.
No segundo seguindo dele iniciar a corrida, outra flecha negra voa vinda de sua lateral, o obrigando a frear a corrida e fazer um movimento de esquiva com a cabeça para trás. Ele até consegue ouvir o barulho dela cortando o vento na sua frente.
— Droga! — Lafral expulsa as palavras de seu peito enquanto se impulsiona para frente em busca de um posicionamento melhor.
O sorriso volta a tocar o rosto do mercenário que desvia o olhar para Lafral, mas volta para Sebastian que agora está rolando colina a baixo. Percebendo a distância que ele abriu, tenta iniciar outra corrida, mas novamente outra flecha corta o vento na sua direção. Mas dessa vez ele não foi capaz de se defender.
Quando ele percebe, ela já está atravessada em seu braço direito. Não demora e o sangue começa a escorrer pelo bíceps e tríceps, e junto dele a força se esvai o obrigando a deixar o machado cair no chão.
Novamente ele solta outra bufada de ar com a bochecha cheia, e em um movimento rápido pega o machado com a mão esquerda, e o arremessa na direção de Lafral que está armando outro disparo.
Miguel observa o machado girar e cortar o ar colina acima, e acertar em cheio o braço esquerdo que Lafral usou no último momento para se defender.
Abandonando o arco e a flecha, Lafral cai no chão trazendo o braço para perto do corpo enquanto tenta colocar a mão sobre o corte, mas a dor o impede.
Miguel mal tem tempo para olhar com atenção para ele, e já se vê obrigado a se abaixar, pois, o mercenário está finalizando um arremesso de pedra na sua direção. A pedra em questão é do tamanho de uma bola de golfe, mas ela não vem com força o suficiente para causar um dano real. Mesmo assim, ele desvia. Ainda agachado, percebe que o homem está vindo correndo na sua direção enquanto arranca a flecha do braço.
Dada a velocidade, Miguel percebe que não haverá tempo para outro disparo. Então ele se joga para frente e para baixo, se chocando com a pedra que ousou de cobertura a pouco. Em seguida ele se posiciona do lado oposto da direção do mercenário que até tenta contorna-la, mas ele se move de forma que sempre mantém os dois deparados.
— O que foi? Não consegue me pegar? — Miguel solta as palavras ao ar e até ri por um momento.
— Covarde!
— Eu posso fazer isso o dia todo, e você? — Miguel aproveita a pausa para pegar um ar enquanto encara o rosto levemente enfurecido do mercenário que também aproveita para pegar um ar.
— Tem certeza? — O homem assume uma postura mais reta e centrada enquanto passa a mão no cabelo, jogando os fios novamente para trás. — O arqueiro ali está perdendo sangue à beça. O pivete ali embaixo se não for atendido logo provavelmente vai perder uma das mãos. Sem contar os outros que podem estar tão piores quanto. — O sorriso toma conta por um momento do rosto dele, enquanto observa o olhar de Miguel ficar mais sério.
— Por um mom… — Quando o mercenário começou a falar, algo perfura a lateral de sua cabeça em uma fração tão ínfima que mal daria para saber o que era se não fosse pelo som que ecoou junto. Em seguida o corpo dele cai mole no chão e rola alguns centímetros para baixo.
Miguel rapidamente se vira para observar o alto da colina. E lá em cima ele encontra Sarah deitada atrás do fuzil que está estabilizado no chão por um bipé. Ele relaxa o ombro e respira aliviado enquanto vê ela se levantar e arremessar a mochila de primeiros socorros colina a baixo na direção de Lafral, e então sumir para o lado de lá novamente.
Quando o segundo tiro ecoou do alto da colina, o arqueiro em cima da árvore até segura o arco mais força ainda mirando lá em cima. Em seu campo de visão periférico, o embate segue ferrenho.
Draus, sem conseguir usar uma brecha para usar sua arma, segura um punhal de lâmina prateada e cabo enrolado por uma corda fina e negra, essa mesma corda também enrola em sua mão. Seu rosto já está marcado com dois cortes, um na horizontal abaixo do olho que sangra um pouco, e outro sobre o osso da bochecha que sangra um pouco mais. Sua expressão já demonstra um leve cansaço.
A sua frente, um mercenário usando que usa capuz marrom e manto de mesma cor, também Segura um punhal com a lâmina para trás. Os dois estão parados se encarando por causa do último tiro. Ao lado deles, o corpo de outro mercenário está caído no chão com um corte bem profundo na garganta. Ainda preso ao pescoço, um pingente ostenta um cristal vermelho sangue que repousa sobre à terra ao lado.
Não muito longe deles, Lozar empunha seu escudo firmemente enquanto troca golpes de espada com o mercenário a frente. Eles se recusam a parar, mesmo após o tiro. Em alguns momentos, Lozar até tenta bloquear um golpe com escudo para contra-atacar com a espada, mas o adversário a frente é mais rápido do que ele. A espada curta e azulada do mercenário dança de um lado para o outro a procura de um momento de glória.
Cansado de toda essa demora, o mercenário da alguns passos para trás enquanto tira o capuz verde-escuro da cabeça, revelando assim, fios dourados que reluzem com o sol. Então enfia a mão em um bolso e pega um cristal tão azul quanto seu olhar e o segura firma com o punho cerrado.
— Mesmo sob o sol eterno.
Ou diante do próprio fogo.
Minha vastidão há de perdurar.
Pois, nesse jogo.
Sou aquele que carrega o próprio fim.
Ele recita as palavras em voz alta, e no instante seguinte, um frio súbito toma conta do ambiente ao redor dele. É possível ver o ar que sai de sua boca se transformar em fumaça como se realmente estivéssemos em um dia de frio intenso. Sob seus sapatos, algumas folhas de milho começam a acumular pequenas camadas de gelo. E em sua mão a espada parece fazer o mesmo, junto de sua roupa.
Sem perder tempo, o mercenário dispara a toda velocidade até chegar próximo o suficiente para cruzar espadas novamente. Porém, Lozar quando vai executar o movimento com a espada, sente um frio súbito e intento, ao ponto de deixar seu movimento mais lento e desajeitado.
Nessa única brecha, a lâmina mais gelada que ele já sentiu, também é a última. Em seu pescoço, a lâmina está crava na lateral enquanto começa a deixar a pele roxa e o sangue coagulado. O mercenário tira a espada e empurra o corpo de Lozar para trás com um dos pés, ele cai duro enquanto deita para o lado.
O mercenário pega o cristal e arremessa no chão próximo do corpo de Lozar, o fazendo quebrar e liberar uma fumaça branca que vai se espalhando pelo local e envolvendo o corpo dele. Quando ela some, o mercenário faz questão de pisar na lateral da barriga, que quebrar como se fosse uma casca frágil, fazendo assim seu pé afundar para dentro.

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