Capítulo XXXVI (36) - Fantasmas na Neblina
Era o final da madrugada, ainda faltava um pouco mais de uma hora para o nascimento do sol. Havia uma inquietante agitação no porto, soldados andavam de um lado para outro, cultivadores jovens eram mobilizados para se preparem para partir para o continente.
O herdeiro da seita Hua Yuling, o considerado prodígio geracional, Hua Yuling Renyan estava desaparecido. Desafiado para um duelo contra um estrangeiro, ainda não havia voltado. Todos temiam o pior.
Havia, porém, algo ainda mais perturbador. Uma comitiva acompanhara o jovem mestre até o local do encontro. Nenhum deles voltara em quase seis horas de espera. A pergunta que ninguém ousava formular em voz alta insinuava-se em cada olhar inquieto: teriam sido todos aniquilados? Aquele estrangeiro matou a todos eles?
Enquanto isso, um grande navio de transporte se aproximava da ilha. Com seus imponentes seis mastros, era um navio enorme para os padrões locais, com quase duzentos e vinte pés de comprimento e oitenta pés de largura.
Do convés, os marinheiros logo avistaram o pagode de trinta metros que guardava a entrada da baía. A chama no topo começou a ficar cada vez mais fraca, até se extinguir por completo.
Uma fina neblina começou a tomar conta do navio, era bem sutil, em uma mudança quase imperceptível de ambiente. E nenhum dos homens percebeu, até que já não conseguiam enxergar mais de um metro à sua frente.
Só se podia ouvir o uivo noturno do vento, o som das ondas contra o casco, e o barulho da respiração ofegante dos marinheiros. Até o momento no qual o som dos tambores se iniciou, ritmado, e grave, o som aumentava e aumentava. A madeira do navio rangeu sobre o peso de algo que subia pelo casco.
Um dos homens virou-se a tempo de ver uma mão emergir da névoa.
Pálida. Encharcada. De dedos longos e rígidos, as unhas grandes e sujas.
Ela se fechou em torno de uma corda, e num movimento rápido, puxou o corpo para dentro do convés. O marinheiro cambaleou para trás, caiu, e a sombra da coisa projetou-se sobre ele.
Tinha o corpo de um homem adulto, bem alto, os cabelos e a barba eram grisalhos, molhados e desgrenhados. A pele meio esverdeada, possuía diversas úlceras e feridas. Seus dentes amarelos e falhos. As bochechas eram fundas, e os olhos exibiam uma pupila branca sem vida.
A criatura vestia um casaco de veludo azul-marinho, a cor viva e vibrante, em contraste com quem o usava. Por debaixo, uma camisa de linho branco, impecável, sem nenhuma mancha ou corte na costura. Na cintura, no lado esquerdo, pendia uma espada em uma bela bainha feita em couro, com detalhes de ouro e prata no cabo, do lado direito, duas pistolas de pederneira penduradas no cinto.
Com uma voz gutural, a criatura murmurou algo incompreensível, e se aproximou do marinheiro.
Caído no convés, ele tateou ao redor, em busca de uma espada, um pedaço de madeira, ou qualquer coisa para se defender. Não havia nada ao seu alcance, e para piorar, ele mal conseguia enxergar além de um braço de distância.
E então…
Gritos.
Os gritos de agonia e de lamento. Gemidos abafados, combinados com o ritmo cada vez mais rápido dos tambores.
O pânico o fez levantar-se em um instante, girar sobre os pés e correr às cegas. Atrás dele, a criatura murmurou outra vez e cambaleou em uma corrida desajeitada atrás dele.
Sem visão, não percebeu o obstáculo à frente.
Seu pé chocou-se contra um corpo, seco, quase que totalmente desidratado. Tropeçou, perdeu o equilíbrio e rolou pelo convés. Desesperado, tentou se arrastar. Ao apoiar a mão, seus dedos fecharam-se em uma bota de couro.
Ele levantou o olhar.
O homem diante dele vestia as mesmas roupas da criatura, o casaco azul-marinho, a camisa branca impecável. Todavia, ele possuía uma aparência muito mais viva. Olhos azuis vibrantes. O bigode loiro, dourado como a luz do sol.
Não houve tempo para reagir, nem para gritar, nem para implorar.
A criatura o alcançou, agachou-se, agarrou-o pelo pescoço e o suspendeu no ar. Os pés do marinheiro balançavam no ar, sem conseguir encontrar o chão.
O ar desapareceu.
Ele tentou forçar as mãos contra o braço da criatura, tentou puxar, golpear, qualquer coisa. Todavia, ela não mexeu um único músculo.
O marinheiro sentiu um frio que percorreu-lhe o corpo, seguido por uma extrema fraqueza. Seus cabelos começaram a perder a cor, até ficaram totalmente brancos. Rugas surgiram em seu rosto, até que a pele começou a descascar. Quando a criatura soltou o corpo do marinheiro no chão, os ossos frágeis se quebraram como vidro.
O perseguidor não tinha mais a aparência fantasmagórica de antes.
Agora exibia uma pele lisa, perfeita, sem nenhuma imperfeição. Os dentes tão brancos que podia reluzir a luz do sol e cegar uma pessoa. Os cabelos negros sedosos iam até o peito, e sua barba de respeito tão negra como a noite.
— Como é bom estar vivo… — disse, ao tocar em seu rosto e sentir a textura da sua pele suave.
— Atrás de você — murmurou o segundo homem, ao sacar sua pistola de pederneira e atirar no meio da névoa.
O projétil abriu um rasgo na névoa, e explodiu em pedaços ao atingir uma sólida barreira de Qi.
Os dois tiveram a mesma expressão de surpresa.
Um cultivador saltou da névoa, com uma espada Jian em punhos, e cortou o antebraço esquerdo do primeiro homem em um único corte.
Antes mesmo de chegar ao chão, o braço havia virado pó e sumido com a brisa do mar. Não houve sangue, e o ferimento era semelhante ao de um cadáver apodrecido, sem uma única gota de sangue.
Com uma bela acrobacia, ele fez um arco com a espada no ar, e se colocou em posição de combate contra eles. O cultivador manteve uma postura firme, com a lâmina da Jian imóvel, alinhada com o centro do corpo.
Os dois homens se entreolharam, e sem dizerem uma única palavra um para o outro, sacaram suas espadas.
Em contraste com a Jian do cultivador, suas duas espadas eram na verdade, sabres leves, de um tipo especial de aço maleável e ao mesmo tempo afiado. As empunhaduras possuíam detalhes em ouro e prata, e uma proteção para a mão.
A neblina reagiu ao Qi colocado na espada. Brilhava como uma lanterna, que afastava a neblina cinzenta.
O cultivador os atacou com uma intensa velocidade e força. Apesar disso, as tábuas do convés não rangeram sob seus pés.. O homem de cabelos negros, sem um dos braços, recuou dois passos e bloqueou o ataque ao levantar a espada para cima.
Defender-se com uma única mão foi um grave erro.
O cultivador girou o pulso e pressionou para baixo, e concentrou toda sua força na base da lâmina. A Jian empurrou o sabre inimigo centímetro por centímetro, e obrigou a recuar e ceder uma abertura para o adversário. O braço solitário tremeu sob a pressão crescente.
Seu próximo ataque, uma estocada vertical, foi rápido e letal.
A ponta da Jian atravessou o queixo do homem e rompeu a nuca.
O companheiro loiro tentou revidar. Ele avançou pelo flanco, e utilizou seu sabre para tentar um corte diagonal elegante e mortal, mirava diretamente no ombro ao quadril.
Com um breve olhar para o lado, e sem se virar completamente, o cultivador ergueu a mão esquerda.
O Qi condensou-se diante de sua palma, e formou uma pequena mão de luz dourada, translúcida e imponente. O homem loiro foi lançado para trás como um projétil, e caiu no mar.
Retirou a espada do crânio do oponente, cuja aparência retornou a de um esquelético cadáver moribundo.
O navio começou a sair do nevoeiro, e a muralha de pedra que circundava a ilha se revelou.
À medida que o convés se tornava visível, o cultivador sentiu o coração bater mais e mais rápido com a cena que era exibida diante dos seus olhos.
Os corpos da tripulação jaziam espalhados em posições grotescas. Todos estavam secos, com a pele colada aos ossos. Alguns tinham os membros retorcidos em ângulos impossíveis; outros estavam partidos ao meio.
No meio dos corpos, em pé, com expressões de êxtase e felicidade, havia uma dezena deles.
Homens altos, com casacos de veludo azul-marinho impecáveis, camisas brancas intactas, botas lustrosas.
Todos observavam o cultivador.
Ele ajustou a postura, respirou fundo e fez o Qi circular novamente pelos meridianos. A Jian elevou-se diante de si, sempre alinhada com o centro do corpo.
Estava pronto para expulsar os invasores, e vingar os tripulantes caídos,
E então…
Um estrondo.
Profundo. Grave. Vibrava no ar como o bater do coração de uma criatura gigante.
Outro.
E mais um.
Os tambores intensificaram-se, o ritmo acelerado até se tornar sufocante para respirar.
O cultivador virou-se bruscamente, em uma tentativa fútil de localizar a origem daquela música ritualística, dos estrondos incessantes.
Não viu nada, a neblina ainda cobria a maior parte do horizonte.
Até que ele sentiu um enorme frio no seu peito.
Quando olhou para baixo, uma mão pálida emergia do seu tórax.
O ar desapareceu de seus pulmões.
Sem forças para segurar sua arma, a Jian escorregou de sua mão, e caiu com o barulho do metal no convés.
Tentou forçar sua mente para condensar seu Qi e tentar se defender.
Com um esforço extremo, moveu o pescoço para trás.
Ele ainda estava vivo, apesar daquele ferimento mortal, o homem de cabelos negros estava ali. Aquele buraco aberto pela estocada ainda marcava seu queixo e crânio, entretanto ele começava a se fechar em uma regeneração quase instantânea.
O corpo do cultivador tombou de joelhos.
A mão pálida retirou-se lentamente de seu tórax, Seus olhos perderam o brilho, e como todos os outros, sua carne murchou. A pele colou-se aos ossos, os músculos encolheram, os cabelos embranqueceram.
Os homens de casaco azul permaneceram imóveis por um momento.
Então, em perfeita sincronia, ergueram o olhar para o mar.
Uma enorme sombra se projetou no meio da neblina, a silhueta de um navio de linha de sete mastros. O botaló gigante se projetou para fora da névoa, e revelou a figura de proa que decorava o navio. Dois esqueletos esculpidos em madeira escura sustentavam, arqueados em esforço eterno, uma esfera dourada sobre as próprias costas.
Abaixo deles, integrada à quilha, uma caveira de metal grande como o próprio navio. Seus dois olhos eram na verdade, dois grandes canhões de bronze, e sua boca possuía um longo cano, na qual saía uma pequena chama avermelhada.
Na proa, duas dezenas de músicos de batalha, com os rostos cobertos por tinta branca, batiam em seus tambores de couro com um ritmo rápido. Cada som marcava as sequências de disparo, e guiava os marinheiros para o bombardeio das muralhas da ilha com os canhões laterais.
Logo atrás dos músicos, destacava-se uma peça de artilharia, Montada sobre uma plataforma giratória reforçada com grossas chapas de ferro rebitadas, erguia-se uma monstruosa peça de 300 milímetros. O cano estava apontado para o alto, ainda inoperante.
No alto do tombadilho, o timoneiro mantinha as mãos firmes na roda do leme. À sua esquerda, em posição ligeiramente elevada, permanecia o capitão.
O capitão vestia um uniforme verde-marinho confeccionado com o mais fino algodão que se produzia em sua terra natal. Seu rosto era liso como o de um recém-nascido, sem barba ou bigode, a pele clara e impecável. Exibia uma pele um tanto bronzeada pelo sol, quase um claro oliva, o nariz proeminente, e grandes olhos amendoados.
Por fim, no final do tombadilho, havia um trono feito de ossos entrelaçados. Sobre ele, jazia um cadáver, um tanto apodrecido, contudo, sem nenhum cheiro de podridão. A cabeça estava levemente pendida para frente, como se dormisse um sono desconfortável. Vestia um casaco negro pesado e botas de coturno militar, ainda bem ajustadas às pernas ressequidas.
Acima de sua cabeça, uma única carta flutuava no ar.
As bordas douradas a identificavam como uma carta do baralho imperial. A ilustração mostrava um soldado novato, que carregava sua baioneta, ainda com um sorriso no rosto, enquanto caminhava para a morte iminente nas trincheiras.
— Os canhões não estão perfurando a muralha, capitão Ishaq… — gritou o segundo-imediato ao subir as escadas para o tombadilho.
Pensou um pouco, olhou para trás, encarou para o corpo por alguns instantes, e ordenou:
— A muralha já devia ter caído. — O capitão balançou a cabeça e suspirou. — O que está acontecendo?
— De alguma forma, nossos projéteis apenas ricocheteiam. Ela não vai ceder assim tão fácil. — explicou o segundo-imediato, ao limpar o suor, e observar a tripulação, que ainda continuava na sua tarefa de abastecer e disparar os canhões.
— Capitão, o senhor quer usar o “Segundo Sol”? — sugeriu o timoneiro.
— Não temos permissão de dispará-lo até o Marechal ordenar, a aliada dele ainda está lá dentro. — afirmou o capitão.
— Devemos enviar os hidroaviões? Podemos usar bombas incendiárias para tentar derreter a muralha.
— Vamos fazer melhor, escalem a muralha. Vamos pilhar e saquear! — gritou o capitão Ishaq, e o restante da tripulação festejou, satisfeita com a ordem.

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