Capítulo XLII (42) - Louca Carruagem da Morte
Era a primeira vez que eu utilizava aquela combinação específica de cartas.
A carta do Louco, cuja névoa negra era capaz de absorver e materializar objetos. A carta da Carruagem, responsável por criar armas, veículos e outros equipamentos. E, por fim, a carta da Morte, com seu domínio sobre o fluxo do tempo.
Fengran e Kai permaneciam imóveis, flutuavam com suas espadas e me observavam lá do alto.
— O que foi? — perguntei, enquanto girava o relógio de bolso pela corrente. — Não vão me atacar? Ainda estou esperando o seu golpe final.
Ficaram calados, o ódio anterior substituído por uma intensa calma, rostos serenos e confiantes. Hua Yuling Fengran retomou sua posição de luta, ao levantar dois dedos da mão esquerda e os colocar na frente de sua boca.
Abri os braços, e me expus sem medo, pronto para receber o golpe.
Um feixe de luz avançou em direção ao meu peito. Era fino como um fio de cabelo, mas estendia-se pelo ar como uma lâmina impossível, longa e perfeitamente reta.
Apertei o botão do relógio de bolso. Os ponteiros pararam.
No mesmo instante, senti o golpe de Fengran.
Eu esperava que ele atacasse com a lâmina de luz, que tentasse me cortar ao meio com aquela técnica. Em vez disso, ele acertou-me com a sua palma, diretamente em meu peito.
Meu corpo arqueou para trás e foi arremessado para longe da biga como uma folha carregada por uma tempestade. A carruagem desapareceu no mesmo instante, e se desfez em fragmentos de névoa negra, seguida pelos dois cavalos espectrais que a puxavam.
Fengran moveu-se mais rápido que o próprio impacto de seu golpe. Antes que eu atingisse o chão, ele já estava diante de mim.
Um golpe no estômago, outro no coração e o final no meio do pescoço.
O solo cedeu sob meu corpo com um estrondo ensurdecedor. A cratera aberta pela colisão era maior do que aquelas produzidas pela artilharia do Degredado. Rochas, terra e destroços foram lançados para todos os lados, enquanto uma nuvem de poeira se erguia acima do campo de batalha.
Lá do alto, equilibrado sobre sua espada voadora, Fengran observou o resultado de sua técnica em silêncio.
Em seguida, preparou-se para o golpe final.
A lâmina aumentou de tamanho, até transformar-se em uma gigantesca lâmina de aproximadamente dez metros de comprimento, envolta por um brilho intenso de Qi.
— Morra, mortal… — declarou.
Fengran abaixou a mão.
A espada despencou dos céus como o julgamento de um deus.
Quando atingiu o centro da cratera, o impacto a fez expandir-se ainda mais, ao rachar a terra e levantar uma densa nuvem de poeira.
Hua Yuling Fengran permaneceu imóvel, equilibrado sobre sua espada voadora, atento a qualquer sinal de que eu ainda estivesse vivo.
Aos poucos, a poeira começou a se dispersar. No fundo da cratera, revelou-se um corpo esmagado e destruído, tão mutilado que mal podia ser reconhecido.
Fengran franziu a testa.
As roupas do cadáver, não eram minhas.
Pertenciam a um cultivador. Mais especificamente, a um ancião de alta hierarquia da seita.
Então ele congelou.
Seu corpo deixou de responder aos próprios comandos. Não conseguia mover a cabeça, os braços ou sequer um dedo. Apenas os olhos permaneciam livres, percorreram os arredores em crescente desespero.
“O inimigo, onde estava o inimigo?, ele devia pensar.
Até as chamas do incêndio haviam parado.
O mundo inteiro parecia suspenso.
Então ele sentiu um vapor quente tocar a nuca. E ouviu o relinchar de um cavalo. A biga pairava no ar, ao lado de sua espada voadora. Os dois cavalos levitavam, bem atrás dele. Eu estava de pé sobre a plataforma da carruagem.
— Tudo o que foi, será… — sussurrei em seu ouvido, ao me aproximar mais dele. — E tudo o que será, foi…
Apertei novamente o botão do relógio.
O mundo voltou a se mover.
Mas não da forma que Fengran esperava.
Tudo retrocedia em velocidade crescente.
Somente eu e Fengran permanecemos imóveis.
A velocidade aumentou até que formas e cores deixaram de existir. O incêndio desapareceu. As ruínas desapareceram. O céu desapareceu. Restou apenas uma escuridão profunda e silenciosa, um vazio absoluto onde nem mesmo o conceito de distância parecia existir.
Ao abrir os olhos novamente, Fengran notou que ele não estava mais sobre sua espada voadora.
Confuso, baixou o olhar para os próprios braços. Seus dedos se moviam normalmente. Os ombros respondiam aos seus comandos. Por um breve instante, tentou compreender o que havia acontecido.
Só tentou.
Não conseguiu evitar aquele soco no estômago.
O impacto curvou seu corpo para frente e arrancou o ar dos seus pulmões.
Antes que pudesse recuperar o equilíbrio e reagir, um segundo golpe acertou-o em cheio no peito. Bem sobre o coração.
Fengran ergueu a cabeça, desesperado para identificar o agressor.
À sua frente estava um homem exatamente igual a ele.
As mesmas vestes.
O mesmo rosto.
Hua Yuling Fengran encarava Hua Yuling Fengran.
O terceiro golpe veio sem hesitação.
A palma atingiu seu pescoço com precisão absoluta, e removeu instantaneamente toda a força que ainda restava em seu corpo.
— Morra mortal… — declarou o Fengran do passado.
A espada gigante caiu sobre ele.
Fengran arregalou os olhos, e levantou as mãos instintivamente e tentou erguer uma barreira de Qi para se proteger. Formou um agoniante escudo de Qi com suas últimas forças.
Não era o bastante, sua própria técnica quebrou o escudo.
Um grito de dor foram suas últimas palavras.
Hua Yuling Kai permaneceu imóvel, seu coração batia mais rápido. Ele sentia… medo? Um medo do desconhecido.
O que realmente havia acontecido?
Em um momento, Fengran lutava com temor, ganhava do estrangeiro, e desferia a técnica milenar da seita. No outro, estava morto, esmagado pela sua própria espada de luz.
Kai não desviou os olhos do local onde o irmão havia desaparecido. A espada voadora caiu no chão, sem o domínio de seu mestre.
— O que achou? — questionei, ao me materializar com a biga logo atrás dele, em pleno ar.
Hua Yuling Kai recuou rapidamente, girou os dedos e envolveu o próprio corpo em um escudo defensivo de Qi.
A reação dele me deixou satisfeito. Contudo, aquela ainda não era a hora de comemorar.
Minha visão estava turva. Aos poucos, tudo começou a se fundir em um único borrão indistinto negro. Balancei a cabeça, fechei os olhos por um instante e os abri novamente, mas a sensação de exaustão só aumentava.
Utilizar a habilidade da “Louca Carruagem da Morte” havia sido extremamente custoso. Eu poderia desativar uma das cartas e enfrentá-lo com menos poder, porém isso arruinaria todo o meu plano.
Levei os dedos aos olhos e forcei as pálpebras a permanecerem abertas.
Meu oponente me observava à distância, em silêncio, enquanto estudava cada movimento meu. Entretanto, eu não podia esperar mais. Não havia tempo. A qualquer instante, o peso mental de sustentar o poder de três cartas ao mesmo tempo me faria perder a consciência.
Com a mão livre, segurei na corda da biga, e a balancei. Os cavalos espectrais reagiram com um relincho tão alto que forçou todos a levarem suas mãos aos ouvidos.
Segurei a corda da biga com a mão livre e a estalei no ar.
Os cavalos espectrais responderam com um relincho tão agudo que até os discípulos mais distantes levaram as mãos aos ouvidos. As chamas vacilaram. A própria atmosfera pareceu estremecer.
Bati o pé contra a plataforma.
A carruagem disparou.
Os cavalos avançaram pelos céus em direção a Hua Yuling Kai, acelerando cada vez mais. Ao redor deles, uma névoa branca começou a se condensar, e formou uma esfera um tanto transparente, como uma neblina fraca do orvalho da manhã.
Para a minha alegria, ele não tentou fugir.
Tentou contra-atacar.
Movia-se tão rápido que meus olhos mal conseguiam acompanhá-lo. Em um instante estava distante; no seguinte, já atravessava o céu em minha direção.
A intenção assassina que emanava dele era surpreendente.. Por um breve momento, tive dúvidas.
“E se eu estivesse errado? E se a armadilha falhasse?”
A vontade de abandonar tudo e fugir surgiu com uma força quase irracional.
Respirei fundo. Não vacilei, continuei a encará-lo de frente.
Esta, com certeza, foi a decisão correta.
Quando os dedos dele atravessaram a névoa, já era tarde demais.
As unhas alongaram-se e perderam o brilho, tornando-se opacas e quebradiças. A pele enrugou até sumir e os ossos ficarem à mostra. Isso tudo em uma fração de segundos tão pequena, que Kai nem teve tempo de tentar fugir.
Seu corpo entrou totalmente dentro do alcance da habilidade. Sua carne murchou. Os músculos definharam. A pele aderiu aos ossos até transformá-lo numa figura esquelética e irreconhecível. O que restava de seu corpo começou a se desfazer camada após camada, consumido por uma erosão impossível.
Kai não teve tempo sequer para sentir medo.
Quando a névoa o engoliu por completo, já não existia homem algum ali. Apenas um vulto de poeira cinzenta que o vento carregou para longe.
— Adeus… — falei, ao desativar a habilidade, e a biga com sua montaria desapareceu no ar.
Cobri meu corpo com a névoa negra e me lancei na direção da torre.
Mei ainda estava lá.
E eu tinha menos de três minutos.
Menos de três minutos antes da ativação do Segundo Sol.

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