Capítulo 135 | Olhos de Tebas
À frente do grupo, as muralhas de Tebas se erguiam.
Eram blocos maciços de pedra calcária, empilhados em uma formação contínua que circundava toda a cidade-estado.
Os portões principais, feitos de toras grossas de carvalho reforçadas com faixas de bronze oxidado, estavam abertos para a passagem de mercadores e viajantes.
Soldados com lanças e escudos circulares montavam guarda nas laterais da entrada, observando o fluxo constante de pessoas.
Teseu caminhava em silêncio. Mantinha os olhos fixos na estrada, absorto.
Nos últimos dias de viagem, a ausência de algo o incomodava. A dríade, a presença espiritual das florestas que costumava se manifestar ao seu redor, não aparecia há muito tempo.
Antes, ele ouvia o farfalhar específico das folhas ou sentia o cheiro forte de seiva fresca indicando a proximidade dela. Agora, o ambiente ao seu redor era apenas comum e estático.
Ele ergueu a mão direita e observou as linhas da própria palma.
A memória do oráculo de Delfos e do contato direto que teve com a fissura escura retornou à sua mente. A energia necrótica daquele lugar havia tocado sua pele.
Teseu apertou os dedos, formando um punho. Cogitava a possibilidade de que o resíduo daquela energia escura ainda estivesse preso em seu corpo, que bloqueasse sua conexão com a dríade e afastando os espíritos da natureza.
Abaixou a mão e soltou a respiração de forma longa pela boca.
Atrás dele, os passos de Licaão cessaram abruptamente. Ele ergueu o queixo e dilatou as narinas, puxando o ar repetidas vezes.
Suas sobrancelhas espessas se juntaram em uma expressão de desconfiança. Ele virou o rosto para a direita, encarando um aglomerado de árvores e arbustos baixos a cerca de cinquenta metros da estrada.
Teseu parou e olhou por cima do ombro.
— O que há?
Licaão continuou encarando as árvores. Seus olhos semicerrados vasculhavam os troncos e as sombras projetadas pelo sol da tarde.
— Um cheiro estranho — respondeu com voz baixa.
Plutarco, que caminhava logo atrás com seu pergaminho enrolado sob o braço, coçou o nariz e olhou para a mesma direção. Nada além de galhos balançando ao vento.
— Deve ser apenas um morador local. Não seria surpresa encontrarmos algum caçador ou lenhador já tão próximos da cidade.
Licaão estalou a língua no céu da boca, voltou a olhar para a estrada e retomou a caminhada.
Não respondeu ao colega, mas manteve a postura rígida. Girava os ombros ocasionalmente para verificar os arredores.
O grupo passou pelos guardas e entrou em Tebas. As ruas internas eram pavimentadas com pedras irregulares.
O som de rodas de madeira de carroças batendo contra o chão ecoava pelas vias estreitas.
Moradores locais, soldados com armaduras de couro e estrangeiros transitavam em um fluxo denso. Tendas de tecido cru se estendiam nas laterais das ruas, onde comerciantes gritavam os preços de grãos, tecidos e ferramentas de ferro.
Teseu guiou Plutarco e Licaão até uma praça movimentada, perto de um chafariz de pedra seca.
Desamarrou a pequena bolsa de couro presa ao cinto e despejou o conteúdo na palma da mão esquerda. Três moedas de cobre escurecido e uma moeda de prata lascada.
Com o dedo indicador separou as moedas, e as contou silenciosamente.
Plutarco desenrolou seu pergaminho e pegou um pedaço de carvão de seu bornal. Ele sentou na borda do chafariz e começou a registrar a chegada a Tebas. Licaão cruzou os braços e encostou as costas na estrutura de pedra, observando as pessoas ao redor com evidente aversão.

— Como o mundo parece mole, tch- — resmungou e cuspiu no chão.
— O dinheiro não é suficiente — Teseu guardou as moedas de volta na bolsa de couro. — Não temos como pagar três camas em uma estalagem e ainda comprar provisões para os próximos dias de viagem.
O escriba parou de escrever e olhou para Teseu.
— Nós podemos dormir do lado de fora das muralhas. O clima está favorável e economizamos os fundos para a comida.
Teseu assentiu.
Numa tenda próxima, um grupo de viajantes discutia em voz alta. Um homem robusto, vestido com roupas de couro reforçado carregava uma espada curta na cintura, e gesticulava de forma agressiva para um mercador vestido com uma túnica de linho azul.
— Eu não arriscarei a minha vida ou a dos meus guardas naquela estrada sul! — o homem de couro gritou, apontando o dedo no peito do mercador. — A fera bloqueou o desfiladeiro principal.
— Eu paguei você para proteger a carga até Atenas! — o mercador rebateu, segurando as próprias vestes. — Nós temos um contrato e você deve honrá-lo.
— O contrato não cobre matança certa. Dois batedores meus avançaram pela estrada ontem à tarde. Nós encontramos apenas os cavalos deles e um rio de sangue.
— Se sobraram os cavalos talvez seus homens tenham feito algo errado!
Os lábios do mercenário e suas sobrancelhas para o mercador, irritado, e este recuou ao perceber que talvez tivesse ido longe demais.
— Ficaremos eu e meus homens longe da estrada sul até que o exército de Tebas decida intervir. — Ele rebateu e já deu as costas.
O mercador, temeroso mas insistente, foi atrás.
— Revejam isso, por favor! Com essa guerra às portas você sabe que o exército não moverá um dedo sequer!
Em pouco, eles já haviam deixado a praça.
Teseu franziu a testa.
— Parece que temos um problema — Teseu disse, chamando a atenção dos companheiros. — Parece que a estrada sul está bloqueada.
Plutarco guardou o carvão.
— Um pedágio?
— Uma besta. Os viajantes ali relataram ataques letais a todos que tentam cruzar em direção ao sul.
Licaão descruzou os braços e desencostou da pedra.
— Então nós pegamos outra estrada. Contornamos a montanha. Não temos tempo a perder com mais animais.
Plutarco suspirou.
— A estrada sul é o único trajeto viável para a viagem até as terras da Arcádia em nosso cronograma. Um desvio pela montanha adicionaria cinco dias, talvez seis, à nossa caminhada.
Teseu se levantou da fonte e segurou o pomo da espada em sua cintura.
— Não temos suprimentos para isso. Nós teremos que afugentar esse animal do caminho.
— Você é louco? — Ralhou Licaão.
— Certamente. — Uma voz estranha interrompeu a conversa do grupo de repente.
Os três se viraram em uníssono.
Um homem deu a volta na fonte de pedra e parou em frente a eles. Vestia uma armadura de bronze polido com entalhes detalhados no peitoral, um capacete com crina azul intacta e uma capa de lã limpa. Ele carregava uma lança na mão direita.

Licaão virou o corpo na direção do soldado. O rei olhou para a armadura brilhante de cima a baixo.
— E que espécie de entalhe de moeda é você?
O estranho riu.
— O tipo que não tenta a sorte contra feras desconhecidas nas estradas.
Licaão, franziu o cenho, mas logo sorriu.
— O tipo covarde, então?
Plutarco agarrou suas bolsas de pronto e trouxe-as para mais perto do corpo com um olhar aturdido. Teseu coçou o cenho com um olhar cansado e deu um passo à frente.
— Olhe, sinto muito. Nosso colega está um pouco irritado pela longa viagem. Iremos embora logo e deixaremos a sua cidade sem causar quaisquer problemas.
Licaão se virou para o rapaz com dentes trincados e um olhar selvagem. Teseu trocou olhares com ele, mas não se mostrou intimidado.
Ele cruzou os braços e bufou.
O soldado percorreu o corpo de Teseu com os olhos, focando principalmente na couraça de bronze apertada que usava. Uma de suas sobrancelhas se ergueu.
— Vocês realmente estão pensando em enfrentar a criatura das estradas?
Teseu assentiu.
— Não podemos esperar pelo exército, temos pressa em prosseguir.
O soldado suspirou.
— Nem eu recomendo que esperem. O exército não pode se envolver em expedições de caça por agora e não há previsão para essa possibilidade.
Plutarco voltou à frente e ficou ao lado de Teseu.
— Nem mesmo quando se tem mercadores e mercenários sem conseguir atravessar as rotas comerciais?
O soldado balançou a cabeça.
— É impossível alocar pessoas para longe da cidade nesse momento.
Seus olhos examinaram, entreabertos, os arredores. Quando teve a certeza de que ninguém os ouvia, deu um passo à frente e se inclinou com a mão livre sobre a boca enquanto sussurrava.
— As cartas que de Corinto e Atenas tratantes do exército criminoso ao sul não são boas. Os líderes do Batalhão Sagrado de Tebas não estão afeitos da ideia de alocar soldados para qualquer lugar que não seja os muros da cidade. É uma droga.
Teseu escutava atentamente com olhos curiosos.
“Batalhão Sagrado?”
— E você, eu imagino, deva estar extremamente decepcionado em ficar confinado dentro das muralhas. — Zombou Licaão.
O soldado sorriu em resposta.
— Não com heróis tão valentes dispostos a dar suas vidas em meu lugar lá fora.
Licaão rangeu os dentes com o escárnio.
— Ninguém dará a vida lá fora. — Teseu corrigiu.
O desconhecido o fitou com olhos sagazes e mais uma vez o olhou de cima a baixo.
— Talvez valha a pena uma aposta.
O grupo de Teseu encarou a sugestão de olhos apertados.
— Bem, se vocês encararem mesmo a fera, terei certeza de recompensá-los grandemente.
Os olhos de Plutarco se iluminaram de repente.
— Não é preci- — Teseu já começava a responder após um suspiro, mas foi puxado pelo escriba.
— Aceite. Estamos zerados. — Sussurrou, mas sua voz transmitia um desespero que tornava audível para qualquer um.
Licaão veio do outro lado e puxou Teseu para si, tirou-o da oferta de Plutarco.
— Recuse. Não temos tempo pra brincar de faz tudo dos tebanos.
Plutarco tentou puxá-lo de volta, mas como não tinha força para competir com Licaão, aproximou-se ele mesmo.
— Teseu, não temos um tostão furado no bolso! Se formos pôr a vida em jogo, que seja pelo menos por alguma coisa! — O argumento forte veio acompanhado de um rugido de sua barriga.
— Não temos tempo para voltar aqui e recolher o que quer que ele nos entregue! — Rebateu Licaão.
Teseu, por fim, empurrou os dois para livrar-se do aperto e conseguir respirar e pensar em paz.
Matutou, matutou, matutou. Enfim, quando seu estômago roncou, bagunçou os próprios cabelos e bufou.
— Está bem. Apostado.
Licaão ralhou e bufou ao fundo em voz alta.
O soldado mostrou um sorriso de orelha a orelha e bateu com o cabo de sua lança no chão de paralelepípedos.
— Já que é assim… — Com a mão livre, tateou o tecido por baixo da couraça que vestia pelo vão do pescoço. Enfim, tirou algo de lá e estendeu para Teseu com a mão aberta.
Era um símbolo. Um emblema metálico, ou brasão de armas, com uma espécie de porrete cravejado numa superfície branca redonda.
Teseu apanhou o emblema com olhos curiosos.
— Procurem por Pelópidas na acrópole com este emblema e a prova da morte da besta, caso vocês consigam esse feito lendário — o soldado disse enquanto dava as costas para o rapaz. — Ele certamente os recompensará de acordo.
Então, afastou-se sem se despedir com algo além de um leve aceno com a mão.
— Bem, acho bom descansarmos para amanhã. — Teseu bocejou enquanto guardava o emblema no cinto.
— Amanhã? — Licaão pareceu contrariado.
— Prefere que sigamos com fome e com sono? — O rapaz perguntou com uma sobrancelha erguida.
O rei selvagem virou o rosto e rosnou, mas não respondeu.
— Molengas.

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