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    19 de outubro de 1999 — Periferia de Eva — Zona 47

    O sangue molha à terra tanto quanto as lagrimas daqueles que se despedem.

    Tocados timidamente pelo astro-rei que ainda procura se estabelecer, a família de Lozar parece mais unida do que nunca. Sobre um gramado verde infinito eles se reúnem usando preto. Crianças não entendem direito o que se passa, mas conseguem sentir a dor daqueles que ali estão. Um homem de cabelos grisalhos e vestes brancas adornadas de detalhes dourados, recita algumas palavras de conforto.

    Em outro canto do cemitério, em um ponto menos verde, com mais arvores e menos pessoas. Uma lápide solitária ostenta tristemente o nome Draus. Ali, somente Miriane e Miguel fazem questão dar um adeus com buquês de dálias tão vermelhas quanto o sangue que agora é consumido pelos vermes.

    — Ele tinha um longo caminho pela frente ainda. — Miriane deixa as palavras esvaírem pelo ar e serem carregadas com a brisa que toca seu rosto.

    Miguel prefere o silêncio enquanto seu olhar se perde entre as pétalas avermelhadas.

    — Desculpem a demora, fiquei preso em uma reunião do clã. — Apis também veste a cor mais nobre de todas.

    — E como foi com os mercenários? — Miriane o indaga sem desviar o olhar da lápide.

    — Pelo relatório das forças armadas, eles foram contratados para cobrar uma dívida do Neófito. — Apis termina de falar enquanto também se perde em meios os buquês.

    — Mas por que tantos? E por que tinham tantos javalis? — Miguel se vira para Apis enquanto o indaga.

    — Quanto aos javalis, segundo relatos de alguns moradores que vivem mais afastados da vila. Ontem foi avistado um bando com mais de cem deles em um lago nas redondezas. Aqueles provavelmente foram os que se separaram. — Apis explana já olhando mais diretamente para Miguel.

    — Cem daquilo? Acabamos tendo sorte então? — Miriane fala baixo com os punhos fechados para baixo e desviando o olhar para uma árvore ao lado.

    — Não seja dura consigo mesma. São bem poucos do seu nível que conseguem lidar com sete ao mesmo tempo. — Apis olha para os fios castanhos que sacolejam sobre a roupa preta dela, mas o que mais se destaca é a espada embainhada em sua cintura com o cristal avermelhado ainda cravado na ponta do cabo.

    — Eu concordo, até acho que você deveria voltar a fazer missões e subir novamente na guilda. — Miguel também a observa, mas de canto de olho.

    — Se ontem for considerado uma missão, terá sido minha vigésima como caçadora sombria. — Miriane volta a deixar as palavras pelo ar, agora olhando para o céu e para as minúsculas nuvens que ousam desafiar o azul-celeste.

    — Mesmo não tendo um Guardião Silencioso no local para acompanhar a missão. Devido às condições especiais, as testemunhas e os feitos comprovados. Bem provável que a central da guilda atribua a vocês dois a missão. — Apis até ajeita seu tapa-olho enquanto fala e recebe alguns feixes de luz que penetram por entre a copa da árvore ao lado.

    — Ainda me falta cinco, se essa contar, serão quatro. Acho que vou voltar a ativa também. — Miguel explana enquanto também olha para o céu.

    — Vocês fazem uma boa dupla, suas especialidades se complementam, esse é meu conselho. — Um sorriso tímido de boca fechada é tudo que Apis se permite no momento.

    — E sobre os mercenários? — Miguel volta a indagar e olhar para ele. Miriane também o observa.

    Primeiro ele suspira.

    — Um dos mercenários amanheceu morto na cela, aquele que você acertou a flecha. — Apis olha diretamente para Miguel. — O outro que a garota capturou, deu seu depoimento. Mas aparentemente ele estava como cobertura dos três que estavam no milharal. Ao todo foram contratados seis mercenários para cobrar a dívida. Mas eles não esperavam que dois Caçadores Sombrios estivessem por perto.

    — Faz sentido, a formação deles estava bem encaixada para isso. Mas aqueles três que vieram por trás… Eles estavam com certeza de olho em nós. — Miguel fala enquanto volta a olhar a lápide.

    — O mercenário disse não saber nada sobre um terceiro grupo na missão. Mas ele falou que já viu aquele homem que amanheceu morto. Algo sobre ele ser de outra facção que faz trabalhos para pessoas bem perigosas. — Apis volta a explanar enquanto ajeita dois cabos de adagas em suas bainhas, um de cada lado da cintura.

    — A estrutura interna deles ainda é bem nebulosa. — Bem que as forças armadas podiam aproveitar esse caso para investigar mais a fundo. — Miguel fala enquanto coça de leve a nuca com a ponta dos dedos.

    — Ultimamente eles andam bem sobrecarregados com todos os sumiços de crianças, e ainda mais depois do caso daquele androide na fronteira. Acho que esse caso não vai muito longe. — Apis termina a fala com olhar perdido em meio à terra com vestígios de grama.

    — E os alunos? Como estão? — Miriane aproveita o momento, já com olhar voltado para as flores.

    — Eles estão bem, Lafral é o único que vai precisar de mais acompanhamento. Os demais já foram liberados. — Apis explana enquanto retira a adaga da bainha direita e encara a lâmina prateada com algo escrito de forma sutil sobre o metal.

    — Que bom! Espero que eles não desistam do estágio. — Miriane também observa de canto de olho a lâmina prateada.

    — Seria compreensível se fizessem isso. — Miguel também não resiste a olhar aquela lâmina.

    — Vocês têm certeza que o relatório está totalmente certo? — Apis deixa a pergunta no ar entre os dois ainda olhando em sua mão. Eles olham mais diretamente para seu rosto no momento. — Três tiros perfeitos e um que acertou um javali que nem tinha saído do milharal ainda?

    — Aquele tiro me salvou de ser pega desprevenida.

    — Ela também acertou um que salvou nós três.

    — É realmente uma pena. Alguém como ela, no futuro poderia facilmente se tornar uma lenda daquelas que inspiram poemas. — O coração de Apis até acelera por um momento enquanto seus pelos se arrepiam sob o terno.

    — Após ver que aquelas duas são capazes, ainda tão jovens, eu realmente acredito que a humanidade está cada vez mais perto de poder confronta-los em pé de igualdade. — Miriane fala enquanto segura firme o cabo da espada e olha para a lápide mais uma vez.

    — Os meninos também se saíram muito bem, nem precisei usar meu encantamento. — Miguel fala enquanto coloca a mão sobre o ombro e desliza um pouco para as costas que estão mais leves que de costume.

    — Falando sobre isso, o que temíamos está acontecendo. Eles também já são capazes de executar alguns. — Miriane volta a olhar diretamente para Apis que já está guardando a adaga novamente.

    — Pelos relatórios internos, era só questão de tempo. Pelo menos ainda deve levar um bom tempo para eles dominar por completo. — Apis fala enquanto começa a se virar. — Cabe a nós melhorarmos cada vez mais, o mundo é cruel com aqueles que param de evoluir. — Ele termina já começando a dar os primeiros passos para longe.

    — De fato! Bom, eu vou indo também, preciso pegar meu arco no concerto. — Miguel não perde a deixa para seguir seu caminho.

    Miriane os observa cada um seguir para um lado, mas diferente deles, ainda fica por mais alguns minutos olhando para as flores, as árvores, e se perdendo em pensamentos, até o momento que sorri de leve e junto da brisa que agora já se fortaleceu mais um pouco, ela também toma seu rumo.

    A semana que se seguiu, foi marcada por alguns noticiários, reuniões obscuras, e pelos resultados das provas práticas que deixaram Marcela aliviada e feliz enquanto cuidava carinhosamente de Bernardo que já estava bem melhor, mas ainda assim não recusava tal afeto. Sarah por sua vez, ainda indecisa sobre o que queria, preferiu seguir em frente e aproveitar os momentos com aqueles dois.

    Mais um sábado e domingo se passou em família enquanto Leila se admirava com as notas da filha e também sentiu seu coração quase parar quando contou sobre a prova. Mas logo se acalmou quando Júlio pontuou que são experiências assim que tornam as pessoas mais fortes. Ela concordou enquanto olhava para uma parede vazia com olhar vago.

    Na televisão e no Jornal, a previsão para os próximos dias é de Tempestade.

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