Capítulo 132: Um ato efêmero de sobrevivência
Do alto, a calamidade se aproxima.
Tingida por tons vividos de roxo.
Ela despenca como se o peso do mundo estivesse prestes a esmagar mais um.
Com as patas abertas e a carapaça que cobre a parte inferior, ela está prestes a esmagar o que quer que esteja abaixo.
Mesmo Sarah percebendo o que se segue, o espaço de reação é muito curto. E a sombra que a cobre é tão larga, que mesmo se saltasse para frente e rolasse, ainda estaria no alcance.
Em um ato rápido, ela dá um salto para o lado, tentando ficar abaixo da junta que tentou alcançar anteriormente. Então, aponta a adaga para o alto com as duas mãos, logo, pequenos raios de energia começam a se soltar da lâmina negra que anseia por seu momento. Seu olhar sereno vislumbra ao fundo Helvetia vindo correndo e Shymphony desaparecendo assim como fez na arena.
A fêmea, por sua vez, já até consegue escutar o som crocante de sempre.
Mas, para seu infortúnio e frustração da adaga, dessa vez, o metal dourado se faz presente, lhes negando o que é de direito.
O escorpião roxo, suspenso a mais de dois metros da areia, mal consegue reagir diante de tal situação inédita. Abaixo dela, Shymphony está parada de pé, segurando o escudo para o alto com as duas mãos nas alças que costumam ser usadas para prender o metal ao braço. De olhos fechados e esboçando uma careta de puro esforço, ela segura a fêmea sobre seu escudo. Mesmo as patas dianteiras, que são mais longas, não conseguem alcançar a areia.
Helvetia ainda tenta raciocinar o que seus olhos acabaram de ver. Em um momento, Shymphony estava ali, a alguns metros à frente, agora está lá, se mantendo como um pilar que segura o próprio mundo. Sem parar e com o olhar focado, ela busca algum ponto onde possa ser útil de alguma forma.
Mas ao ver o que se sucede, até pausa seus movimentos para contemplar aquela que se recusa a recuar.
Aproveitando tal oportunidade, agora segurando a adaga na mão direita à frente do rosto, com força suficiente para fazer os dedos estalarem. Sarah se agacha enquanto estica o braço esquerdo para trás, buscando o equilíbrio perfeito para executar um impulso para o alto.
Seu olhar castanho encara a lâmina negra a poucos centímetros de sua face, os pequenos raios reluzem em tons azuis prateados em sua pele e suas írises. Após uma ínfima respiração, mesmo sobre a areia, os pés e os joelhos fazem seu trabalho. Então a pele enrugada e frágil, que nem parece pertencer a tal criatura, sente pela primeira e última vez, a sensação de ser perfurada e penetrada.
Em seguida vem o que todos esperam, menos Shymphony, que permanece de olhos fechados enquanto suas pernas, agora trêmulas, ameaçam desistir.
O escorpião, ao sentir a lâmina, até agita as patas e a cauda mais do que antes, fazendo assim, Shymphony ceder e cair de joelhos, ainda mantendo o escudo no alto em um esforço que nunca imaginou que faria.
Adão caminha em quatro patas na direção de Helvetia enquanto ainda observa o desfecho com olhar de canto.
De olhos fechados, Sarah segura a adaga totalmente cravada dentro da fêmea, a eletricidade já está penetrando a carne e os nervos. Mas a criatura ainda resiste, até tenta se levantar por um momento, livrando Shymphony de tal peso, que aproveita a situação para dar um último impulso para frente e se lançar a alguns metros longe do escorpião. Sarah, por sua vez, se vê obrigada a abraçar a pata com as pernas enquanto mantém a adaga por mais um tempo lá dentro.
Após um último ato de imponência e sobrevivência, a fêmea se recompõe e força um meio giro enquanto estica a cauda e o ferrão bem no alto. E da base da calda, pelo orifício que se abre ali, ela esguicha um líquido amarelado que cai sobre as esferas brancas e macias.
Assim, encerrando o objetivo inicial de todas as espécies, ela se entrega tremulamente ao seu desfecho.
Sarah, percebendo que a fêmea está prestes a desabar, retira a adaga e usa a própria pata para se impulsionar para longe.
Então, sobre a areia avermelhada, mais um coração se despede da jornada que todos temos que traçar a partir do momento que nascemos neste mundo.
A eletricidade da adaga alcança o coração e o faz parar de bater, relegando-o aos últimos espasmos trêmulos enquanto o sangue já não circula mais pelo corpo.
Todos olham aquele gigante caído por um momento, com um olhar que vai muito além daquele que costuma vir em momentos de vitória.
Em silêncio, eles assistem a esse último ato, não ser desperdiçado.
O outro escorpião se levanta sofridamente e caminha até as esferas, e uma por uma, com a delicadeza de quem pega um copo de água prestes a derramar, ele coloca todas as esferas em sua boca e some para debaixo da areia, deixando para trás só o calor do sol que agora volta a ser sentido aos poucos.
Sem dizer nem uma só palavra, os quatro, cada um no seu ritmo, retornam para o ponto de partida.
Shymphony retoma para si a túnica, desnudando o saco que permanece intacto.
Adão, em forma humana, pega seu cantil para enxaguar a boca e livrá-la de alguns fragmentos de penas e areia que ficaram.
Helvetia, primeiro enxagua o rosto de leve, e depois abre seu bornal enquanto vai separando algumas facas de diferentes formatos, cores e espessuras.
Sarah, por sua vez, se senta de pernas cruzadas e virada para o campo da última batalha. Seu olhar permanece distante e voltado para o cadáver da fêmea enquanto também bebe um pouco de água.
— Está na hora de faturar. — Helvetia fala alto, deixando as palavras pelo ar.
Quando os três olham para ela, a encontram vidrada em uma faca de cor negra com a lâmina toda dentada.
Então, ela se levanta com quatro facas nas mãos.
— Adão, fique aqui e vigie as nossas coisas. Aproveite para descansar, você fez um ótimo trabalho. — Helvetia sorri gentilmente na direção dela após a ordem.
— Shymphony, como estão suas pernas? — Ela direciona seu olhar alaranjado primeiro para o escudo, e depois para as pernas dela.
— Já estou bem melhor. — Ela responde enquanto puxa o escudo para perto e começa a passar uma parte de sua túnica por cima dele para tirar alguns detritos roxos que ficaram presos naquela hora.
— Ótimo, por favor, pegue as aves para mim e leve elas para perto da fêmea. — Helvetia termina a fala já olhando para o primeiro cadáver penoso que consegue ver.
Então, ela volta seu olhar para Sarah, que está passando a mão no próprio cabelo agora solto e levemente armado. Os fios negros, um pouco mais rebeldes que de costume, se recusam a abaixar e assentar, tal cena lhe tira um leve riso.
— Sarah, me dê uma ajuda com a sua adaga. — Ela termina a frase já ao lado, enquanto estende uma mão para ajudá-la a levantar.

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