Índice de Capítulo

    De última hora, Okawara havia me pedido para fazer mais uma entrega para ele.

    Estava comendo um lámen delicioso no sofá da sala quando o telefone branco, grudado na parede da quina do corredor, começou a tocar.

    Desde que entrei nesse quarto pela primeira vez, ele nunca havia tocado, mas tocou agora, e era Okawara me pedindo um favor!

    — Preciso de um favor seu urgente, venha aqui no meu quarto.

    Depois dessa fala, ele simplesmente desligou na minha cara, sem saber se eu ia aceitar ou não.

    Sem escolha, fui até o quarto dele; cheguei às sete da noite.

    Sem muito papo, ele apenas disse que era para eu fazer uma entrega para ele, assim como nas últimas vezes no ano passado, mas dessa vez era em outro lugar.

    E agora aqui estou, na porta do quarto do Arushi, com uma pequena caixinha no bolso, pronto para ser entregue.

    Não para o Arushi, mas estou aqui para pedi-lo que vá junto comigo.

    — Você tem medo de ir sozinho, né? Medroso! — disse a voz na minha cabeça.

    Silêncio. Voz, você é apenas uma loucura minha, não vou te dar ouvidos.

    — Eu não sou sua loucura, sou algo que você nem conseguiria imaginar.

    Sei. Vou precisar tomar remédio para esquizofrenia.

    Sem delongas, bati na porta do Arushi.

    Após alguns segundos, ela se abriu.

    — Yuki? O que faz aqui numa hora dessas? Amanhã tem aula, esqueceu? — disse Arushi, usando um pijama preto com vários sóis pequenos como estampa.

    — Eu sei, desculpa aparecer nessa hora, Arushi, mas você podia ir comigo a um lugar?

    Arushi olhou para meu rosto, tensionando as sobrancelhas.

    — Você vai fazer aquilo? — indagou Arushi, com um tom baixo.

    Estou no segundo andar, onde fica o quarto do Arushi, e nesse corredor em específico a câmera de segurança fica bem no fim dele. Como não sabemos se essa câmera captura som também, Arushi está falando baixo por garantia.

    — Sim, hoje vou fazer de novo.

    — Certo! Espera aqui. — disse Arushi, fechando a porta cautelosamente.

    Enquanto esperava, escutei o som da câmera que estava no fim do corredor ajustando sua lente.

    Não me virei para ela, apenas fiquei olhando a porta do Arushi.

    Alguém por trás das câmeras está tentando ver meu rosto?

    Talvez seja porque estou parado aqui sem fazer nada, ou é algo específico? Pelo menos o que preciso entregar essa noite não é um envelope enorme.

    Após alguns minutos, Arushi apareceu novamente, dessa vez com o uniforme da escola.

    — Vamos? — disse Arushi.

    Acenei com a cabeça e fomos para o elevador.

    — Arushi, posso fazer uma pergunta meio aleatória?

    — Pode, o que foi?

    Olhei para o cabelo dele e coloquei minha mão sobre meu queixo.

    — Por que você gosta de ficar com um cabelo igual ao de mulher? Além de grande, está amarrado em rabo de cavalo, além desses fios desbotados em frente ao seu rosto.

    Ele riu um pouco do que eu disse, enquanto balançava o cabelo.

    — Eu amo meu cabelo, ele é lindo, não é? Gosto desse jeito porque realça minha personalidade.

    — Entendi, até que faz sentido. Mas me pergunto, sua personalidade é feminina para deixar igual à de mulher?

    — Você insistiu com isso, hein? Não tem nada a ver com menina, cada um tem um gosto e forma de se ver no mundo, eu gosto de me ver desse jeito, e você, Yuki? Gosta de como seu cabelo está agora com essa mecha branca solitária?

    Toquei meu cabelo onde estava a mecha branca, havia me esquecido que tinha isso.

    — Éh… não sei dizer se gosto ou não, para mim é normal e nunca me preocupei com como me via, acho que o mais importante é o que sinto por dentro. — disse, enquanto a gente saía do elevador.

    — Tá certo, mas cada um pensa de uma forma diferente. Não tem uma forma errada ou certa, então tudo bem.

    — Verdade. Você é bem sábio, Arushi, parece ser bem experiente com essas coisas.

    Arushi colocou as mãos nos bolsos, enquanto fazia um sorriso lateral no rosto.

    Passamos pela porta da frente, seguindo o caminho para o local onde Okawara me havia dito.

    Como estava de noite, a lua deveria aparecer, mas não era o caso; as nuvens escuras estavam tampando a lua, o que mais se via era o céu escuro sem estrelas com algumas nuvens escuras estranhas.

    Em ambos os lados se via grama baixa com algumas flores; no fundo havia várias árvores escuras.

    Toda vez que passava aqui não percebia direito esse caminho que leva até a escola.

    Na verdade, não lembro se era assim mesmo, talvez os zeladores mudaram um pouco.

    — Yuki, também tenho uma pergunta para você, cadê o anel que você sempre usava?

    Olhei para meu dedo e, por um momento, assustei, mas lembrei que havia deixado com a Itsuki.

    — O anel? Eu deixei ele com a Itsuki, um sinal de confiança para ela. — disse, com um sorriso no rosto.

    Arushi me encarou por um momento com cara fechada, mas depois virou para frente.

    — E esse relógio que sempre está? Você nunca olha para ele, por que usa?

    — Presente do Okawara, me sinto seguro quando estou com ele.

    — Entendi, você é bem peculiar, Yuki. Aliás, qual seu ponto de foco?

    — Ponto de foco? Como assim? — indaguei, com uma expressão de curiosidade enquanto passávamos por duas alunas sentadas em um banco na grama baixa.

    — Tipo, cada um tem um ponto em foco que as partículas se concentram, dessa forma você tem um atributo que vai ser melhor em você. Como inteligência, força, rapidez, natação e outras coisas.

    — Eu fiquei sabendo disso, mas não sei bem qual é esse ponto de foco meu, preciso descobrir ainda. E qual é o seu, Arushi?

    — Eu também não sei ainda, mas suspeito que seja inteligência. — disse Arushi, balançando a cabeça.

    — Hmm, faz sentido. Você é bem inteligente. — disse, dando um soquinho no ombro do Arushi.

    Ambos rimos um do outro e continuamos nosso caminho.


    Enquanto isso, do outro lado da escola, no prédio dos professores, Ayumi estava tendo uma conversa séria com Okawara.

    — O que você quer conversar? — indagou Okawara, ofegante por ter feito seu tempo de treino.

    Ayumi, com seu olhar frio e postura firme, sentou delicadamente em uma cadeira, com seu olhar intimidador, encarou Okawara por alguns segundos.

    Okawara, como sempre, na frente de Ayumi não consegue manter sua pose de professor marrento, sentou no banco rapidamente enquanto secava o suor do rosto com a toalha.

    — Quero conversar sobre seu garoto! — disse Ayumi, com seu tom sério.

    — Meu garoto? Ele é apenas mais um moleque, não me venha com esse.

    — Você que não venha com essa, eu sei que você trata ele diferente de todos os outros!

    Okawara levantou rapidamente da cadeira com uma expressão de incomodado.

    Ayumi também fez o mesmo, se aproximando dele e impedindo que se afastasse.

    Pegando-o pelo braço, ela disse:

    — O que foi? Por que está fazendo essa cara?

    — Nada! Só quero fazer um chá para prosseguirmos com nossa conversa. — disse Okawara, encarando fixamente Ayumi nos olhos.

    Ela, com seu olhar poderoso, deu uma risada simples, soltando o braço dele.

    Okawara foi para a cozinha e Ayumi sentou no sofá, aguardando-o.

    Após alguns minutos, Okawara voltou com a garrafa de chá e duas xícaras de vidro transparente, colocou um pouco de chá em ambas e deu uma para Ayumi.

    — Agora podemos conversar? — indagou Ayumi, com a xícara na mão.

    Okawara assentiu com a cabeça.

    — O que você quer saber dele? — perguntou Okawara.

    Ela tomou um gole do chá, fazendo uma expressão de quem gostou do chá.

    — Bom, estou curiosa a respeito de uma coisa: o passado dele.

    Ayumi ficou encarando Okawara por alguns segundos, enquanto tomava mais um pouco do chá.

    — Passado? E você acha que eu sou o que dele? Pai? Como vou saber sobre seu passado?

    — Hm. Não minta para mim, meu querido, se o diretor deixou ele aos seus cuidados, com certeza ele também te deu todo o histórico da vida dele. — disse Ayumi, cruzando as pernas.

    — Por que você quer saber sobre o passado dele? O que isso te interessa?

    — Tem um interesse sim envolvido, mas nada de mais. A menina que tomo conta está um pouco fora de si por causa desse Yuki, e se continuar indo por este caminho, meio que… meus interesses estarão em uma situação complicada. — disse Ayumi, dando mais um gole no chá.

    — Entendi. Desculpa dizer isso, mas não é da minha conta. Não sou babá do garoto e não olho mais ele. — disse Okawara, levantando do sofá.

    Ayumi rapidamente se levantou da cadeira, voando para cima do Okawara.

    Frente a frente, ela ficou encarando ele; por ser mais baixa, sua cabeça estava erguida para cima.

    Com sua mão direita, ficou tocando o peitoral do Okawara como se fosse botão, com um tom de voz tranquilo e um sorriso no rosto, disse: — Você está me devendo um favor, senhor Okawara! Não é homem o suficiente para cumprir seu dever?

    Okawara, sem jeito com Ayumi, parecendo que estava hipnotizado por ela, ficou com olhar fixo em seus olhos.

    — Então, o gato comeu sua língua? — continuou Ayumi.

    — Você… se não fosse você… droga. — murmurou Okawara, com um tom dramático, mas com pingo de raiva.

    Ayumi deu um sorriso de quem estava adorando o que estava acontecendo.

    Okawara saiu de perto dela e foi em direção ao seu quarto.

    Quando voltou, carregava uma pasta bem cheia de documentos; com raiva, ele colocou a pasta bem firme na mesa.

    — Aqui! O histórico do Yuki, tudo que você quer saber vai estar aí.

    Com um sorriso maroto no rosto, Ayumi piscou para Okawara, enquanto pegava a pasta.

    — Você não vai levar a pasta, leia tudo aqui. — disse Okawara, sentando na cadeira.

    Ayumi deu uma risada simples, com a pasta em mãos.

    — Sei muito bem disso, Okawara, eu iria ler aqui mesmo, assim passo mais um pouco do meu tempo perto de você. — disse Ayumi, ainda com um sorriso no rosto.

    Okawara, sem jeito, fingiu estar torcendo e foi para seu quarto fazer uma troca de roupa.


    “A natureza do mundo é pura, o que corrompe as plantas não é o mundo, mas sim o ser humano que o habita”

    Em meio as arvores densas com suas folhas escuras, um banco solitário e pouca luz da lua, esperando a presença da Emi, um lugar assustador eu diria, o que salva é o poste de luz perto de mim, mesmo com luz fraca ainda iluminava um pouco.

    No local de entrega, Arushi sentado no banco e eu perto do poste de luz aguardando a Emi chegar, fiquei pensando novamente como toda vez que faço essas entregas para Okawara, o motivo deles fazerem isso.

    Além da Emi ficar com joguinho de palavras para mim, como se fossem enigmas para eu resolver, eu nem sequer sou um bom aluno de dedução ou solucionador de enigmas, como resolverei o que ele diz para mim?

    Mas talvez, se eu me aproximar melhor da Aikyo, eu consiga pedir ajuda dela, já que é a segunda melhor no ranking de dedução.

    — Yuki, estou escutando passos. — disse Arushi.

    Na calada da noite, apenas os sons das árvores e do vento levando as folhas embora, um pequeno passo de alguém daria para escutar, era o caso de agora.

    Passos leves e curtos, vindo na nossa direção, uma pessoa encapuzada com um longo jaleco preto, parecia até um membro de uma seita.

    Mas era a Emi Satoru, secreta como sempre, cuidadosa e um pouco silenciosa.

    — Bem silenciosa, hein, Emi! — comentei, com um sorriso no rosto.

    Ela retirou o capuz de sua cabeça, mostrando sua cara, que estava com um sorriso discreto.

    — E sorrateira! — disse Emi, acenando com a cabeça.

    — Claro, como me esqueci dessa palavra. Silenciosa e sorrateira, Emi Satoru!

    — Agora sim! Vamos de negócios. Onde está o que o Okawara mandou você entregar?

    Entreguei o pequeno envelope para a Emi.

    — Aqui!

    Ela pegou o envelope e guardou dentro de seu jaleco.

    — Certo! Com isso terminamos, vá com cuidado! — disse ela.

    — Eh… Emi? Posso te fazer uma pergunta? — indaguei.

    Ela, que já estava quase terminando de colocar seu capuz de volta, olhou para mim com sua expressão cansada; pela idade, faz sentido.

    — Que pergunta? — perguntou.

    — Bem, você sabe o que aconteceu com o…

    Olhei para Arushi, sentado no banco atrás de mim; ele acenou com a cabeça, aceitando o que eu iria fazer.

    — Aconteceu com ‘o’ quem? — disse ela.

    — Com o… você sabe o que aconteceu com o Satoru?

    Emi arregalou os olhos, parecia que ela iria fazer a mesma coisa que na última vez na loja dela.

    Será que realmente isso a perturba?

    — Satoru… — murmurou Emi, fechando os olhos.

    Agora ela parecia mais calma; por ser uma mulher de idade avançada, temi o pior.

    — Sim, o menino que sumiu, que pertencia ao grupo secreto do diretor…

    Antes de terminar de citar a frase, Emi rapidamente tampou minha boca.

    Fazendo um gesto de silêncio com o dedo, ela olhou para os lados; Arushi, assustado, levantou do banco.

    — O que foi? — murmurou Arushi.

    — Shiii. Não fala mais nada. É melhor vocês voltarem para seus quartos. — disse Emi, em voz baixa.

    — O que está acontecendo, senhora Emi? Por que está assim? — indaguei, preocupado com a situação.

    — Confie em mim, é melhor vocês não saberem agora.

    — Mas eu só queria saber o que aconteceu com o Satoru.

    — Entendo. Mas o que aconteceu com ele envolve algo muito maior que vocês e até mesmo que eu e o Okawara. — disse ela, com uma expressão abatida, continuou. — Lamento, mas eu não sei o que aconteceu com ele.

    — Então não sabe também… — murmurei.

    Emi balançou a cabeça com uma expressão triste.

    — Se eu soubesse, poderia descansar toda noite, poderia fechar os olhos em paz e ter uma boa noite de sono. Mas não consigo nada disso enquanto eu não souber o que houve.

    Emi, com os olhos tristes, quase chorando e uma voz trêmula. Realmente ela tem algum vínculo com ele.

    — Senhora Emi, esse menino, é seu filho? — indagou Arushi, chegando mais perto de nós.

    Emi olhou para baixo, desviando o olhar, apertando a boca como se estivesse mordendo os lábios enquanto inspirava fundo.

    O clima frio que nos rodeava ficou tenso. Consegui ver na testa da Emi um suor descendo.

    Olhei para o Arushi; ele deu de ombros, como se não se importasse com os sentimentos da Emi; pela determinação dele, estava disposto a fazer qualquer coisa em prol de informações e de seus objetivos.

    — É uma longa história… Satoru era e ainda é muito importante para mim. Fico feliz que tenha mais alguém que não esqueceu dele. — disse Emi, com um tom melancólico na voz.

    — Não esquecemos e vamos fazer de tudo para descobrir o que aconteceu com ele. — disse em tom baixo, firmando os pés e fechando os punhos.

    Arushi confirmou também com um som.

    Emi nos observou com brilhos nos olhos, feliz com nossa atitude, talvez.

    — Espero que vocês consigam descobrir. Mas cuidado, não fiquem falando alto sobre essas coisas, pois senão entrarão em um enorme perigo. Entenderam?

    Eu e o Arushi acenamos com a cabeça.

    Emi vestiu a toca do jaleco e saiu de fininho, enquanto acenava com a mão para nós.

    Foi pouco o que conversamos, mas captei muita informação importante.

    Principalmente em relação a sermos vigiados.

    Estávamos em um lugar bem distante e dava para escutar se tivesse alguém chegando, além de que o Okawara não iria nos mandar para um lugar que tivesse câmera.

    Mas mesmo assim Emi tampou minha boca, isso quer dizer que tem escutas em algum lugar? Isso está muito suspeito.

    E ela comprovou subjetivamente também que algo maior está por trás do sumiço do Satoru.

    Algo que irá trazer bastante perigo para nós.

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