— Quando a caravana chega, ocorre muita movimentação pela cidade. Nesse ponto, é difícil identificar com exatidão quem é quem. Então, nos infiltramos em algum comboio e partimos.

    Aurora terminou de explicar seu plano. Se eu tivesse que apontar algo, era sua simplicidade. No entanto, como o festival variava de ano para ano, era difícil planejar algo complexo antes da hora.

    Enquanto eu me preparava para me aprofundar em alguns detalhes, Lya interrompeu meus pensamentos.

    — Por que, exatamente, vocês estão invadindo essa caravana? Não podem apenas pagar para serem levados?

    Agora que paro para pensar sobre, a decisão da senhorita Aurora em usar a caravana furtivamente é bem estranha.

    Levando em conta nossos trabalhos como aventureiros, principalmente ela, dinheiro não era um verdadeiro problema.

    Mas ela logo explicou, me deixando com ainda mais dúvidas.

    — Os comerciantes são pessoas muito desconfiadas. Essa caravana em específico sempre carrega muitos itens valiosos, dificultando ainda mais esse meio. E eu não tenho uma boa relação com eles.

    A senhorita Aurora não tinha uma boa relação com a Caravana Comercial de Trown? Não entendi o significado, então apenas ignorei aquilo por enquanto.

    “Devo ver isso mais tarde.”

    Lya pareceu aceitar as palavras de Aurora, apesar do seu rosto confuso. Não era apenas eu quem ficou surpreso com as palavras dela.

    A conversa seguiu, onde nos aprofundamos em certos detalhes. Um deles, era a distração.

    — Então, quem ficará responsável por isso? — perguntei, olhando para as duas.

    No entanto, minha própria pergunta já foi respondida quando observei nossas opções. Aurora e eu deveríamos estar entrando na caravana silenciosamente, não fora dela chamando atenção fora dela.

    Olhei diretamente para Lya, que virou seu rosto na minha direção. Ela pareceu entender a implicação por trás do meu olhar, franzindo a testa.

    — Ei, por que eu tenho que fazer isso!? Eu não quero arrumar confusão com um bando de desconhecidos.

    — Você não precisa entrar em confronto com eles — Aurora explicou —, apenas chame a atenção de alguma forma.

    Lya não pareceu gostar da resposta natural de Aurora, que pareceu nem sequer considerar outra possibilidade. 

    — Por que a Aurora não serve como distração!? Claro, ela tem que se esconder, mas também é muito mais rápida e forte que eu. Deve ser mamão com açúcar!

    — Isso apenas tornaria as coisas mais complicadas para todos nós.

    Aurora seguiu respondendo Lya de forma seca. Sua expressão permaneceu inalterada apesar dos gritos em protesto da garota ruiva.

    “Elas realmente não se bicam, não é?”, percebi durante a interação delas.

    Não tinha certeza de quando isso começou ao certo, mas elas sempre pareceram odiar a presença uma da outra. Se uma delas conversava comigo, a outra apenas observava em silêncio mortal.

    Hoje em dia, isso era algo normal para mim — apenas uma segunda-feira qualquer.

    Mas isso poderia prejudicar o plano se continuasse. E não só o da senhorita Aurora, mas também o meu.

    Sem querer que aquilo aumentasse, intervim na discussão das duas.

    — Tudo bem, tudo bem, se acalmem as duas. Vamos conversar de forma tranquila, certo? Vai ser melhor para todo mundo.

    Lya se aquietou na sua cadeira, desviando o olhar de Aurora. Essa última nem pareceu se importar, bebendo mais um copo de cerveja.

    “Da onde esse copo veio?”

    Ignorei esse fato, me focando em acalmar Lya.

    — Lya, eu entendo o que você está dizendo. Pode ser realmente desagradável fazer esse trabalho. Dito isso, você é a única pessoa em que podemos confiar.

    Os olhos verdes de Lya brilharam com minhas palavras, dissipando sua expressão carrancuda.

    Se alguém acusasse ter visto uma expressão tão mesquinha em Lya anteriormente, essa pessoa seria taxada como louca. Afinal, como podem falar isso para a expressão sorridente dela?

    — Sério? Bom, se é assim, então não há nada que eu possa dizer…

    Aurora encarou a atitude inocente de Lya seriamente. Seus músculos faciais não se moveram um centímetro, mas eu ainda conseguia adivinhar seu estado interno.

    “É melhor eu acalmar ela.”

    Deixando Lya sozinha em seus pensamentos brilhantes, me foquei na minha mestra. Uma névoa sombria pareceu pairar sobre seu corpo.

    Ignorando aquilo, abordei ela com uma ideia simples.

    — Senhorita Aurora, a caravana sempre fica alguns dias em Veldoren, não?

    Os olhos cinzentos dela caíram sobre mim, ouvindo atentamente minhas palavras. Um erro alí, e ela provavelmente não me perdoaria facilmente.

    — Diga o que quer, Arthur.

    — O que você acha de aproveitarmos um dia para passearmos pelo festival? Sempre tem muitas comidas e brinquedos nessa época!

    Eu disse com empolgação exagerada. No entanto, minhas palavras não eram mentiras.

    A Caravana Comercial de Trown era conhecida por atravessar o continente, comprando e revendendo produtos de diversas culturas diferentes.

    Dentro dos muitos comboios e carruagens da caravana, havia todo tipo de comida e objetos estranhos.

    Esse era o motivo de um festival tão grande acontecer em Veldoren sempre que eles passavam por aqui!

    Se eu fosse apontar uma infelicidade, seria o fato de ficarmos no sentido contrário a Sonatrin, a cidade da arte. Assim, não poderíamos ter os itens de lá.

    Aurora pareceu considerar minhas palavras, relaxando seus ombros rígidos. Ela acenou com a cabeça em concordância.

    “Isso! Agora, eu posso aproveitar o festival com ela!”

    Mas uma sensação arrepiante interrompeu minha comemoração interna.

    Um frio na espinha gelou meu corpo. Meus instintos de anos de caças na floresta me alertaram de um perigo iminente.

    Lentamente, me virei em direção à origem daquele sentimento. Lá, sentada em sua cadeira, havia uma mulher me encarando friamente.

    Era Lya.

    — Ei, por que só ela vai poder passar um tempo com você? — sua voz saiu baixa por entre seus lábios. No entanto, pesaram como uma sentença.

    Rapidamente tentei negar a ideia que ela teve, balançando minha cabeça para os lados repetidas vezes.

    — Não, não, não! Eu também quero passear pelo festival com você, Lya!

    O rosto de Lya continuou composto, observando minha reação desesperada.

    — O primeiro dia — ela disse. Então, ela se levantou da sua cadeira, vindo em minha direção. — Você passará o primeiro dia apenas comigo.

    Ela agarrou meu colarinho, como se fosse um bandido. Sem saber como reagir àquela ameaça, acenei com a cabeça.

    A expressão sorridente de Lya logo voltou. A mudança foi tão abrupta que, se não tivesse acontecido agora mesmo, eu teria ignorado aquilo como algo da minha cabeça.

    Nós três ficamos em silêncio, todos por motivos diferentes, enquanto o barulho da guilda vinha até nossos ouvidos.

    Percebi que Aurora me olhava secamente, aparentemente decepcionada com a minha submissão. Mas eu já não tinha forças para me defender.

    Deixei meu corpo relaxar na cadeira em que estava sentado. Pensamentos sombrios vinham à minha mente, mas o que mais se destacou foi…

    “Esse festival vai me matar.”

    Após esse encontro, os dias passaram rapidamente. Cumpri novas missões junto de Aurora enquanto Lya continuou com seu trabalho de garçonete na guilda.

    E então, o prazo de duas semanas acabou.

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