Capítulo 13 — O Duelo (1)
Meu discípulo era um tolo.
Neste momento, ele se preparava para um duelo inútil. Um que ele mesmo havia causado ao subestimar seu inimigo e, principalmente, à mim. E a responsável por isso dividia a arena com ele.
“A Cavaleira Negra…”
Uma cavaleira especializada em proteção que comanda um pelotão próprio de cavaleiros. Há alguns anos, foi contratada pela Caravana Comercial de Trown.
Ela é uma mulher esperta. Ao levar o psicológico dele ao limite, pôde o jogar em uma situação onde, independentemente do resultado, ela seria a mais beneficiada.
Se ganhasse, livraria-se de um empecilho. Se perdesse, poderia avaliar com êxito as capacidades de Arthur. De fato, ela se mostrou uma boa estrategista. No entanto havia algo mais amargo do que isso.
A incompetência de meu próprio discípulo.
Mesmo quando tentei liderar a conversa, afastando a mulher perigosa, ele se intrometeu em meu caminho. Então, em uma rápida troca de palavras, Kaedra foi capaz de desestabilizá-lo.
E, outra vez, Arthur ignorou abertamente minha ajuda, colocando em risco sua própria segurança. Sem mais opções, aceitou as palavras da cavaleira para um duelo.
Era como se ele fosse incapaz de avaliar a situação. Como se não conhecesse… minha força.
Infelizmente, talvez esta última opção seja a mais próxima de estar correta. Nos últimos anos em que o treinei, participei em muitas missões como aventureira. Por conta do quão fraco era, também não pude o levar comigo na maioria delas.
Receio que minha própria incompetência tenha o tornado tão inútil.
“Devo trabalhar nosso relacionamento?”, considerei a ideia.
Pouco antes de encontrarmos essa arena clandestina financiada pela caravana, Arthur mostrou certo interesse pelas barracas do festival. Talvez não tenha explorado tanto com aquela garota de ontem.
No entanto havia um porém: a missão de reconhecimento.
Por mais que Arthur e aquela tal de Lya quisessem aproveitar o festival, nosso objetivo final ainda era o de se infiltrar na caravana até a cidade de Brumere, a próxima parada.
“Qual será a melhor opção?”
Excluindo Kaedra, não deveria haver mais nenhuma figura formidável na caravana. Ao menos, nenhuma capaz de lidar comigo ou com meu discípulo. Além disso, Arthur explicou brevemente a posição da maioria dos soldados.
Então, talvez fosse possível…
— Com sua licença, cara senhorita, poderia dizer-me teu nome? — um sujeito desagradável me saudou.
Ao lançar um breve olhar para ele, notei que se tratava da mesma figura risonha que acompanhava Kaedra. Mas, ao olhar para os lados, não pude localizar o outro rapaz loiro.
No fim, apenas descartei sua presença como indigna de atenção.
“Ainda existem algumas pessoas problemáticas entre os companheiros daquela mulher. Parece que será necessário continuar o reconhecimento.”
×××
Ao me posicionar num dos cantos da arena, fechei meus olhos.
Na ponta de meus dedos, o cabo desgastado de minha espada pôde ser sentido. A bainha era áspera, o tecido levemente rasgado pela constante utilização. E, ainda assim, era confortável.
Com a espada em mãos, senti uma sensação de familiaridade que poucas coisas me traziam. Fora minha família e Aurora, apenas esta arma me fazia sentir isso. Por isso, também senti o amargor.
“Pensar que desembanharia-a em um duelo qualquer… Sério, por que me deixei levar pelo momento?”, sentia-me um idiota cada vez que pensava sobre.
Se eu tivesse me controlado mais, não teria causado tantos problemas para Aurora. Mas, quando vi a lâmina roçar perigosamente no pescoço pálido dela, não consegui me controlar.
“Só espero que ela não esteja muito decepcionada”, lancei um olhar rápido para minha mestra com a ideia. Ela, como se pudesse ler meus pensamentos, também olhou para mim.
Mas seus olhos refletiam apenas a mesma indiferença de sempre.
Teria a situação tão pouca importância para ela que sequer pensava sobre? Apesar de ter me movido em meio a raiva, ainda assim estou aqui por ela. Dessa forma, esse olhar era ainda mais cruel.
— Ei, garoto! — a voz de Kaedra cortou o ar.
Meus olhos inconscientemente se moveram em sua direção. Foi quando vi, junto dela, a multidão que cercava a arena improvisada. A visão quase me tirou todo o fôlego do peito.
Segurando-se nas cordas que separavam-os da arena, diversas pessoas gritavam e torciam loucamente, mesmo que a luta sequer tenha começado. Entre elas, haviam também rostos conhecidos.
Fora Aurora e os companheiros de Kaedra, pude enxergar Dolores com seus filhos. Pela expressão desta última, com um sorriso meio rígido nos lábios, parecia que tinha sido forçada a estar ali. Além dela, também havia muitos outros conhecidos.
“É como se a cidade inteira estivesse aqui…”, o pensamento me causou arrepios.
— O que você quer? — perguntei para a mulher intimidante que me fitava perigosamente. Talvez tenha soado mais ríspido que o esperado, pela reação que ela mostrou em seguida.
— Oh, parece mais animado que antes. Sim, a violência sempre deixa pessoas como nós animadas, não é?
Não pude evitar estalar a língua com suas palavras.
Pessoas como ela não eram raras. Um exemplo são os bandidos que expulsei uma vez daqui. Mas mesmo eles sabiam a hora de ficarem quietos.
“Ela me faz sentir saudades deles. Por onde andam?”, tentei me distrair com pensamentos fugazes, mas Kaedra não parecia interessada em me deixar em paz.
— Vamos lá, não fica todo bravinho, Arthur. Só queria perguntar se já está pronto para o duelo.
Olhando para ela, apenas acenei com a cabeça. Senti que poderia ficar louco se continuasse a trocar palavras com alguém tão estranho.
— Perfeito. Podemos continuar quando quiser…
Sem dar a chance de terminar de falar, avancei rapidamente contra ela. Imediatamente, liberei parte da mana acumulada em meu corpo.
— Ah! O que é isso!? — a multidão gritou quando o ar se tornou mais pesado.
A mana possuía muitas funções. Rastrear objetos e pessoas, levitar objetos a longas distâncias e mesmo aplicar pressão sobre seu inimigo eram coisas possíveis graças a ela. Mas ela também poderia fazer outra coisa.
Pow!
A arena tremeu quando minha espada infundida em mana se encontrou com a de Kaedra. Poeira foi levantada, criando uma pequena cortina de fumaça, mas não parei de atacar.
Estranhamente, a Cavaleira Negra não estava com sua enorme espada de dois metros. Muito pelo contrário, utilizava uma espada comum.
E, no entanto, sua postura permaneceu impassível.
O solo sobre nossos pés tremia cada vez que as lâminas se nossas armas se encontravam. Junto delas, a multidão gritava em harmonia.
Aos poucos, tentei empurrar Kaedra em direção a uma das quinas da arena, que só era possível graças ao seu formato quadricular.
O chão da praça, antes uma grama exuberante, agora era apenas um resquício de sua glória passada. A terra voava a cada passo pesado, fazendo-nos escorregar brevemente.
Mas isso era bom para mim.
Clank!
Clank!
Nossas espadas se chocaram outra vez, cuspindo faíscas incandescentes. E, aos poucos, ela começou a recuar.
Era um movimento lento, quase imperceptível, mas ainda estava ali.
Ergui minha espada em direção aos céus, antes de a mover em um arco descendente em direção ao ombro de Kaedra.
Era um movimento que visava uma parte vital para um espadachim. Assim, ela não teve outra escolha que não proteger essa região.
Mas era isso o que eu queria.
Quando sua espada se moveu para se proteger, girei meus calcanhares e torso. Com uma finta rápida, minha lâmina se aproximou de sua barriga.
— Você é um rapaz realmente inteligente, não é?
Foi quando algo estranho aconteceu. A espada dela desapareceu por um instante.
— Hã?
Em um único momento, a espada dela ressurgiu na frente dos meus olhos. Sem tempo para pensar, me joguei no chão, rolando para longe dela.
Foi um movimento instintivo, mas que, ao olhar para a região que eu estava momento antes, percebi que salvou minha vida.
No lugar onde antes estavam os meus pés, uma longa cicatriz cortou o chão da arena.
Os espectadores gritavam alto, aparentemente empolgados com a cena impressionante. Ou ao menos pareciam gritar. Naquele momento, minha mente era incapaz de registrar qualquer som.
“O que foi isso? Posso jurar que a espada dela estava numa posição impossível de se defender, muito menos contra-atacar. Não, há outra coisa. Ela sequer está usando mana direito. Como isso é possível?”
Tentei processar rapidamente a situação, reerguendo-me do chão e me colocando em posição de batalha.
Confuso, não desgrudei os olhos dela enquanto trocamos olhares.
Esse impasse durou um tempo. Apenas nos olhávamos, quietos, à espera de algum movimento. Mas à medida que isso se prolongava, sentia meu peito doer.
Não era medo. Não era raiva. Na verdade, não era algo que eu pudesse nomear.
Era apenas meu corpo reagindo a algo que ainda não havia acontecido.
Os olhos dela se tornaram mais vermelhos, como se drenassem a essência do meu ser. Em algum momento, apenas ela existia para mim.
Sem mais uma multidão. Sem mais chão ou céu. Apenas ela.
Aquilo não poderia continuar por mais um segundo sequer. Então avancei outra vez.
Clank!
Nossas espadas se chocaram pesadamente.
Como uma aposta a qual nenhum de nós poderia assumir o risco, permanecemos parados, forçando um sobre o outro.
E, entre os gemidos agudos das lâminas e os gritos vorazes que em algum momento retornaram aos meus ouvidos, vi um sorriso estranho se esgueirar pelos lábios finos de Kaedra.
— Do que está… Argh! — gritei de dor quando um punhado de terra foi jogado em meus olhos.
Cambaleei para trás, momentaneamente desfazendo minha guarda apenas para limpá-los. Quando percebi o que fazia, me pus em posição de batalha outra vez. Mas não havia necessidade.
Com os olhos ainda ardendo, semicerrados, observei Kaedra permanecer parada. Não houve sequer um músculo em seu corpo que se moveu. Com exceção dos de seu rosto.
— Garoto… — a voz dela saiu num tom estranho — você nunca matou alguém, não é?
Minhas mãos enrijeceram, meus ombros tremendo com as palavras. Era uma conclusão ridícula. Ela sequer duelou o suficiente comigo para dizer isso com certeza.
Mas ela estava certa.
Eu nunca havia matado uma pessoa antes.

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