Capítulo 07 — A Chegada e o Porém
Uma multidão enorme de pessoas se formou nas portas de uma antiga pousada em Veldoren.
— É ele alí? — um transeunte perguntou animadamente, se esgueirando sorrateiramente entre os corpos de outras pessoas.
— Ei, cuidado! Para de empurrar — gritou outro.
Mais e mais pessoas se reuniram no lugar, algumas até mesmo olhando pelas janelas. Os olhos dos cidadãos brilharam em ânimo e surpresa. E no centro de toda a atenção, estava um homem.
Ele vestia uma elegante armadura preta com uma chamativa capa vermelha, como os heróis contados em contos antigos. Mas mesmo com toda a atenção, ele se manteve quieto.
À sua frente, uma tigela de sopa fumegante estava disposta na mesa. Ocasionalmente, ele colocou algumas colheradas em sua boca, aproveitando a refeição.
Seus movimentos carregavam certo cuidado, portando-se com elegância contraditória ao ambiente inquieto. Finalmente, após dar sua última colherada, ele se levantou.
O povo assistiu a cada passo seu com afinco, como se observassem o espetáculo de suas vidas, conforme ele se moveu até o balcão.
— Aqui está o dinheiro da comida, ela estava excelente — sua voz ecoou pela pousada com suavidade impressionante.
As jovens mulheres que o apreciaram, deleitaram-se com fantasias sobre o cavaleiro. Obviamente, parte disso se deu a sua boa aparência.
Seus cabelos loiros desciam pelas laterais de seu maxilar, emoldurando seu rosto de traços delicados. Os lábios rosados do sujeito faziam os corações das jovens errarem a batida.
Até homens sentiam seus corações tremerem com a boa aparência do rapaz, sua pele sedosa brilhando em tom sobrenatural.
Mesmo seus olhos castanhos como mel possuíam uma gentileza natural, adicionando certo charme inocente à ele. De fato, ele era o galã dos sonhos.
— S-sim, senhor! Muito obrigado pela preferência! — respondeu o experiente balconista como se fosse um novato.
Durante seu caminho para o segundo andar da pousada, os murmúrios sobre o cavaleiro de armadura se intensificaram ainda mais.
— Você viu? Esse jeito, essa aparência, tenho certeza de que o rapaz é um nobre!
— Nobre? Dúvido. Não há porque um nobre aparecer em nossa cidade.
Dois homens de meia idade se envolveram em uma discussão sobre a origem do rapaz, mas nenhum deles chegou em uma conclusão satisfatória.
— Mas há um motivo para ele estar aqui — um terceiro sujeito interrompeu. — Não ouviram o que ele disse mais cedo? Ele foi enviado para anunciar a chegada deles!
Mesmo que o sujeito não tivesse pronunciado um nome, todos os presentes naquele emaranhado humano sabiam de quem ele falava.
A Caravana Comercial de Trown!
Pouco tempo atrás, o homem chegou montado em seu cavalo, passando pelos portões da cidade enquanto atraía o olhar do público.
Com voz suave, ele avisou àqueles presentes da chegada da caravana de comerciantes. O resultado disso foi uma avalanche de pessoas nas ruas.
Os trabalhadores pediram folga de seus trabalhos, apenas para aproveitar aquele evento tão aguardado.
— É mesmo? Agora entendo a comoção da cidade. — Os dois homens acenaram com a cabeça em concordância.
Quando o cavaleiro desapareceu pela escada do segundo andar, a multidão começou a se dispersar. Embora alguns bufos de decepção das mulheres pudessem ser ouvidos, isso não durou muito.
Segundo o cavaleiro, a caravana chegaria em poucas horas. E mesmo que algumas pessoas tivessem ido para suas casas, o dobro fez o caminho oposto.
Em marcha, eles se moveram até os portões da cidade com ânimo pouco visto naquela região. Tão forte foram seus passos apressados, que a poeira levantou no ar.
×××
— Isso é bem impressionante — falei.
Sentado em um banco sob a sombra de uma árvore, observei tranquilamente o mar de gente que aos poucos chegava na entrada da cidade.
Mesmo com uma breve observação, pude dizer sem dúvidas que metade da população de Veldoren estava ali. Sinceramente, me senti um pouco tonto com a visão.
“Nem sabia que tinham tantas pessoas na cidade…”
Deveriam haver pelo menos duas ou três centenas de pessoas amontoadas perto do portão. Estranhamente, reconheci todos os rostos que estavam presentes.
Desde as pessoas com quem divido a mesa na guilda de vez em quando, até Dolores, que lutava para manter suas crianças sob controle. Entre elas, Kevin corria com seu gato nas mãos.
Olhando de fora, ele parecia mais satisfeito em fugir da sua mãe do que da chegada da caravana em si.
“Haha, esses jovens…”
— Por que você está olhando para aquela criança com esse ar de superioridade, Arthur? — Lya disse ao meu lado.
— O quê? Não faço ideia do que está falando.
Eu, com um olhar de superioridade? Que piada estranha. Não dando bola para isso, olhei para as duas pessoas que me acompanhavam.
À minha esquerda, Lya olhava de um lado para o outro, como em busca de algo. Talvez fosse só uma forma de aliviar a ansiedade, visto que seus pés batiam rapidamente no chão.
Mas ela continuou evitando olhar para uma certa direção.
Virando minha cabeça para a direita, notei Aurora quieta, olhando fixamente para a entrada de Veldoren. Era impressionante como os músculos faciais não se moviam um centímetro sequer.
Mas mais impressionante ainda era a tensão no ar entre essas duas. Sério, por que parecia que elas poderiam pular no pescoço uma da outra a qualquer momento?
Torci para que fosse coisa da minha cabeça, assim como fiz ao longo dessas duas semanas de espera. Outra vez, voltei minha atenção para o portão da cidade.
Mais uma onda de pessoas havia chegado, enchendo espaços que nem sabia que existiam. Cruzei os braços com a visão, curioso com uma questão.
— Lya — chamei a ruiva que olhava distraidamente para os lados — eu sei que essa caravana é bem esperada, mas tantas pessoas reunidas? É difícil acreditar.
A cabeça dela virou bruscamente, me encarando como se eu fosse um louco dizendo baboseiras. Seus olhos arregalados realmente me irritaram, mas tentei ignorar.
— Espera, é sério que você perguntou isso?
— Tudo bem, não precisa reagir assim. É só um questionamento.
— Não, não! Perguntar por que o céu é azul é algo, mas isso é completamente diferente!
“É, me arrependo de ter perguntado para ela. Acho melhor ver isso com Aurora.”
Virei-me em direção a mulher de semblante vazio ao meu lado, ignorando completamente a pirraça da Lya. No entanto, quando tentei dizer algo, fui puxado pela garota tagarela.
— Espera, eu não respondi ainda! Talvez por sempre ficar trancado em casa você não saiba, mas existem alguns eventos que acontecem durante o festival.
— Eventos?
— Sim, eventos. Eles variam de festival para festival, mas sempre trazem boas coisas consigo. Alguns oferecem prêmios em dinheiro, outros, itens de luxo.
Embora a expressão animada de Lya me fizesse duvidar da veracidade daquelas informações, ainda assim ouvi com atenção.
“Eventos? Talvez seja uma boa oportunidade para aproveitar ao lado de Aurora…”
— Arthur, você está pensando em outra mulher enquanto falo com você?
Eita, acho que cometi um erro. Esqueci como Lya é sensitiva com essas coisas.
Abanei minhas mãos em frente ao rosto, tentando afastar o olhar gélido com que ela me olhava. Foi quando a voz indiferente de Aurora nos chamou.
— Prestem atenção… eles chegaram.
Um peso esmagador caiu sobre meu ombros, como se um mar de rochas tentasse me derrubar. Cada fibra do meu corpo se enrijeceu, minhas veias saltando para fora com o esforço.
O ar escapou de meus pulmões quando tentei levantar a cabeça. Era como se uma mão invisível me enforcasse mais forte à medida que tentava vislumbrar o que vinha à frente.
E quando o fiz, logo entendi o motivo de tudo aquilo.
Ao longe na estrada, um vulto negro surgiu. Não, não era apenas um. Foram surgindo mais sombras conforme se aproximavam da cidade.
Instintivamente movi minha mão para a espada — aos poucos fui me acostumando com a pressão insuportável sobre meu corpo. Foi quando me lembrei daqueles à minha volta.
Em pânico, olhei para Lya, esperando que ela estivesse sufocando como eu, talvez até desmaiada… mas ela estava bem.
Estranhamente bem.
Seus olhos esverdeados encaravam o que vinha do horizonte com um brilho de expectativa. Pouco tinha haver com a pressão esmagadora de segundos atrás.
— Eles não sentem isso — Aurora falou ao meu lado.
— O que você quer dizer com “eles não sentem”?
— Olhe para frente, Arthur.
Segui suas palavras, e o que vi me deixou abismado. Todas as pessoas da cidade pareciam perfeitamente bem. Não era apenas Lya. Mesmo Dolores e seus filhos pareciam normais.
“Isso… o que foi aquilo que senti então?”
Como se lesse minha mente, Aurora disse.
— Foi apenas um teste. Eles queriam saber se havia algum perigo na cidade. Qualquer um que reagisse seria colocado numa lista.
Um teste? De quem, da caravana? E como eles poderiam me avaliar de tão longe? As palavras de Aurora apenas me deixaram mais confuso.
Mas não tive tempo de perguntar.
Antes que eu percebesse, as sombras chegaram nos portões de Veldoren. Foi quando percebi o que aquelas coisas eram — carruagens negras com duas espadas cruzadas como brasão.
E junto delas, uma legião de cavaleiros como guarda-costas.
As rodas de magno luxuoso corriam pela estrada, deixando marcas por onde passava. Seus adornos luxuosos arrancaram suspiros de admiração do público.
Mas meus olhos permaneceram focados em outra coisa. Não apenas eu, mas Aurora também. Tomando partido, uma figura seguiu na frente das carruagens.
Um Cavaleiro Negro, o mais alto título que um cavaleiro poderia ter no Império Celeste.
Sobre um cavalo igualmente negro, ele abriu passagem por entre os cidadãos. Uma tarefa não muito difícil com a espada enorme e opressiva que carregava nas costas.
Então, ele parou de se mover. Os galopes de seu cavalo morreu, e quando um subordinado o questionou, foi dispensado com um simples aceno com a mão.
As carruagens, assim como os muitos cavaleiros de patentes menores, seguiram em frente. Como se acompanhassem o show de suas vidas, os aldeões partiram junto delas.
Todos foram embora. Menos o Cavaleiro Negro.
— Hã, Arthur… — Lya me chamou de canto. Sua voz baixa soaria estranha para mim em qualquer outra ocasião, mas não agora — aquele cara… ele está encarando a gente?
Assim como ela disse, logo o cavaleiro se virou em nossa direção. Na fresta de seu elmo, apenas um brilho carmesim pôde ser observado.
— Parece que fomos notados, discípulo.
— Puta que pariu…
A missão de infiltração se mostrou falha desde o início.

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