“Lya… já foi apaixonada por mim?”

    Após dizer esse absurdo, Lya seguiu pelo festival. E eu fui atrás dela, ainda pensando sobre sua fala.

    A forma com que seus olhos brilharam quando disse aquilo, por mais difícil que fosse acreditar em tal afirmação, fizeram meu peito tremer.

    Se fosse verdade, se ela realmente gostasse de mim… eu não saberia como reagir.

    Felizmente, Lya permaneceu focada no festival. Mesmo após vários minutos, ela não disse mais nada sobre. Seu foco era apenas as diversas barracas que cobriam a região.

    Seu ritmo rápido foi difícil de acompanhar. A cada momento ela se aventurava em mais jogos e comidas estranhas. Olhando em volta, talvez eu fosse o diferente alí.

    Não só Lya, mas todas as outras pessoas ao meu redor conversavam alegremente, explorando cada coisa que o festival disponibilizava.

    Mas eu não me via fazendo aquilo.

    Mesmo que eu conversasse com Lya, não procurei ativamente explorar o festival. Foi ela quem me chamou para todas aquelas barracas.

    Na verdade, mesmo quando estou com ela, não consigo deixar de pensar em Aurora. Pelo menos até aquele momento.

    “Acho que… foi por isso que me apaixonei por você quando mais nova.”

    Seu sorriso puro, o rosto vermelho pela própria fala, ainda estava gravado em minha mente.

    Naquele momento, pude ver a mesma garota travessa que conheci há cinco anos atrás. O mesmo sorriso doce enquanto afirmava algo inimaginável.

    Memórias antigas voltaram até mim como uma avalanche. Todos os jantares que tive com sua família, que praticamente me adotou. Todas as vezes em que dormi ao lado dela e de sua irmã.

    Até mesmo aquela vez em que ela me visitou no meu treino pela primeira vez…

    Em muitos momentos da minha estadia aqui em Veldoren, Lya me acompanhou. Não importava se eu estivesse triste ou feliz, animado ou com raiva, ela estava lá.

    E mesmo assim, não fui capaz de perceber seus sentimentos por mim.

    Senti um aperto no meu peito com a ideia. Se aquilo fosse verdade, que tipo de amigo eu era? A que ponto negligenciei seus sentimentos?

    O toque frio da noite não ajudou a aliviar minha ansiedade. O brilho púrpuro da lua apenas fez meu coração gelar ainda mais.

    — O que é aquilo? — A voz de Lya me tirou do meu torpor.

    — Hã?

    Olhei em volta, à procura do que ela estava falando. Então notei uma fila longa. Não, longa seria eufemismo. Aquela fila era absurdamente grande.

    Era como se todas as pessoas do festival tivessem se encontrado alí. E entre eles, a maior parte era composta por mulheres jovens que suspiravam audivelmente.

    Fiquei confuso com o porquê daquilo. Suspeitei que fosse uma barraca com cosméticos de beleza, algo raro em Veldoren. No entanto, quando vi o que tinha dentro do lugar, fiquei surpreso.

    — Um doce?

    Um rapaz fazia um doce, mas não era um comum, como biscoitos ou bombons, mas um de cores vibrantes com uma textura parecida com neve.

    Ele se moveu tão rápido dentro da barraca, sempre com dois ou mais doces em sua mão, que nem pude ver seu rosto com clareza.

    Lya e eu nos entreolhamos, tentando entender o que era aquela coisa. Mas nunca tínhamos visto nada como aquilo antes, mesmo nos festivais passados.

    — Com licença, moça — Lya abordou uma mulher na fila —, você sabe o que é esse doce?

    — Isso? Aparentemente se chama “picolé”, um doce vindo diretamente do Leste! — ela falou com empolgação.

    No entanto, ao invés de olhar para o picolé, seus olhos permaneceram fixos no rapaz. E não só ela. Quando virei para observar o restante da fila, todos os presentes faziam o mesmo.

    “O que está acontecendo aqui?”

    Analisei o rapaz que cuidava daquela barraca, pronto para lutar contra ela caso tivesse usado alguma magia hipnótica no público. 

    Foquei meus olhos nele, tentando enxergar seu rosto em meio aos movimentos fluídos. Foi difícil. Ele se moveu como uma borboleta pelo lugar. Mas eu consegui ver o que havia ali, e quando o fiz, logo notei o motivo da agitação de todos.

    Ele era simplesmente belo.

    De alguma forma, sua aparência carregava traços femininos, como um rosto delicado e lábios rosados. O cabelo castanho claro do rapaz era longo, preso em um rabo de cavalo.

    A cada vez que se mexia, suspiros eram arrancados das mulheres que o observavam. E não só elas, como os homens também estavam atentos aos seus movimentos.

    “Isso é meio estranho…”, senti-me envergonhado pelo rapaz. “É mesmo, a Lya!”

    Me virei para ela, esperando a encontrar encantada por ele. Mas para minha surpresa — ou nem tanto —, ela só tinha olhos para o doce que ele produzia.

    — Ei, Arthur! Vamos comprar um! Não, cinco!

    — Você tem certeza? Parece que vai demorar bastante para conseguirmos algum.

    — Mas…!

    Lya protestou firmemente sobre querer um picolé. Mesmo quando tentei a convencer de que seria melhor explorar mais do festival, ela se manteve resoluta em sua escolha.

    Eu não sabia como lidar com sua postura tão firme, então apenas cedi depois de um tempo. Não preciso nem dizer que ela sorriu de alegria com isso.

    A lua continuou pairando no céu, observando o mundo agitado abaixo dela. Junto dela, o frio da noite se tornou mais intenso. Mesmo o calor das risadas começou a empalidecer perante a queda de temperatura.

    — Você ai, rapaz do cabelo escuro! Venha aqui um momento.

    Enquanto me perdia em pensamentos, esperando o tempo passar, ouvi uma voz masculina.

    Olhei ao redor, procurando quem havia me chamado. Foi quando encontrei um rosto alegre me encarando.

    — Você? — questionei a pessoa que me abordou.

    Lya, que estava parada ao meu lado, levou as mãos à boca, surpresa por quem havia me chamado.

    Afinal, essa pessoa era o rapaz da barraca de picolé.

    Me movi até ele, meus passos hesitantes quando os olhares dos transeuntes caíram sobre mim. Com o qual popular ele era, acho que isso era o esperado…

    Quando me aproximei mais, o cheiro doce de sua barraca roubou minha atenção de todos os outros cheiros.

    — Você precisa de algo? — perguntei.

    — Sim, na verdade, sim! Você poderia me ajudar a atender toda essa multidão?

    Suas palavras me deixaram confuso. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. Mesmo nos festivais do ano passado, não tínhamos nos encontrado.

    Mas ele não pareceu levar isso em conta.

    — Então, o que me diz?

    — Veja bem…

    Eu estava prestes a recusar seu pedido. Fora os olhares numerosos sobre mim, eu não sabia como atender ao público. Mas antes que eu pudesse fazer isso, uma mão agarrou firmemente meu ombro.

    Quando me virei para quem havia feito aquilo, não me surpreendi ao ver Lya me encarando com olhos ferozes. 

    — O que você pensa que está fazendo ao recusar essa chance? — ela cochichou.

    — Do que você está falando, Lya? Espera, você quer tirar proveito da situação?

    As bochechas dela queimaram com minhas palavras, surpresa que eu tivesse descoberto sua motivação sombria.

    Ela balançou a cabeça com firmeza, tentando negar.

    — Não é exatamente isso… mas ele não deveria nos recompensar caso aceitássemos isso?

    “Isso é exatamente o que pensei!”

    Apesar do plano feio de Lya, eu pensei sobre o assunto. Mesmo que eu recuse ajudar ele agora, ainda teríamos que esperar na fila por muito tempo. Talvez até horas.

    Mas se eu aceitasse, nós ganharíamos picolés de graça e Lya ficaria feliz.

    “Quando eu coloco isso na balança, sempre acabo pendendo a favor dela…”

    Me virei para o rapaz, que ainda me olhava com um sorriso no rosto. De fato, ele podia entender o porquê das mulheres da cidade estavam de olho nele.

    — Tudo bem, eu aceito, mas com uma condição: você nos dará alguns desses doces… de graça.

    — Por mim tudo bem! Eu realmente preciso de ajuda. Não sei o que seria de mim sem você! Além disso, a mocinha também pode me ajudar se quiser.

    Após isso, ele se virou, prestes a retornar ao seu trabalho, mas eu ainda não tinha terminado.

    — Um minuto. Acho que ainda não sei o seu nome.

    — Oh, é mesmo… — ele voltou sua atenção para mim mais uma vez. No entanto, seu rosto já não mostrava mais a mesma animação de antes. — Meu nome é Edgar, caro Arthur.

    Rapidamente ele voltou aos seus afazeres, roubando o olhar do público mais uma vez. Sem me esperar, Lya entrou na barraca para trabalhar.

    Mas eu fiquei parado, pensando sobre o que ele havia dito.

    “Eu cheguei a dizer o meu nome para ele?”

    Não importa o quanto pensei sobre o assunto, não me recordei de ter feito isso.

    Mas a forma com que ele me cumprimentou foi tão natural…

    “Não, deve ser coisa da minha cabeça. Talvez ele tenha ouvido meu nome de alguém. É, deve ser isso.”

    Logo segui os passos de Lya e também entrei na barraca. O sentimento estranho, por algum motivo, ainda continuou preso no meu peito.

    ×××

    — Isso é exaustivo — Lya suspirou alto ao meu lado, caindo no chão.

    O peito dela subiu e desceu freneticamente, buscando recuperar o fôlego perdido em horas de atendimento ao cliente. Para minha vergonha, eu estava em um estado semelhante.

    — Por que conversar com o público é tão exaustivo? E por que eles sempre pedem coisas sem sentido? — expressei minhas reclamações.

    Quero dizer, quem pediria, em sã consciência, um picolé de um metro? Nem deveria haver lugar na barraca para guardar um desses.

    Aquela experiência havia sido mais difícil que qualquer outro treino que eu já enfrentei. Agora, mesmo Aurora parecia pegar leve comigo.

    Enquanto eu e Lya debatíamos sobre o sentido da vida, repensando sobre nossos atos passados, Edgar soltou uma risada baixa.

    — hehe, desculpa por isso, pessoal. Apesar de ter pedido ajuda de vocês para lidar com eles, não esperei que o público fosse tão grande assim.

    Ele cobriu sua boca com a mão, tentando disfarçar a risada. De alguma forma, ele parecia muito melhor que eu e Lya.

    — Do que você é feito, hein? — Lya perguntou com um sussurro. Ela parecia não ser capaz de falar mais alto que aquilo.

    — É apenas experiência com esse tipo de trabalho. Sou um comerciante, afinal de contas.

    “Ele enfrenta isso todos os dias? Nossa, as pessoas que realizam o serviço com clientes são incríveis.”

    A simples ideia de ter que enfrentar aquilo de novo fez minha cabeça doer. E tudo isso por conta de alguns picolés de graça.

    Me senti extremamente frustrado pelas minha árduas horas de contribuição serem pagas com comida, mas não expressei isso abertamente.

    Lágrimas ameaçaram cair dos olhos de Lya.

    “Ela parece ter chegado à mesma conclusão que eu.”

    — Sinceramente, acho que trabalhar com o público é a melhor parte de uma caravana como essa. É sempre divertido ver as diferenças entre os povos.

    — Você é realmente incrível, Edgar… — eu disse. — Inclusive, de onde você veio? Ouvi dizer que veio do Leste.

    — Foi o picolé quem veio de lá. Já eu vim de um lugar muito mais distante.

    As palavras de Edgar me deixaram curioso quanto a sua origem. Sua pele branca, mas com um leve tom de rosa, deixava claro que ele não era de nenhum lugar do Norte.

    Claro, talvez pelo longo tempo de viagem com a caravana, passando por todo tipo de lugar, ele tenha ficado mais bronzeado. Mas o seu jeito também não era compatível com essas terras.

    Eu, que vivi minha vida toda nas áreas do Norte, conheci todo tipo de pessoa. E uma característica que todas elas carregaram era o jeito bruto.

    Mesmo Dolores, uma mulher meiga, lidava diariamente com três crianças que viviam aprontando. Ela definitivamente era muito capaz.

    Mas Edgar não tinha nada disso.

    Sua forma descontraída de agir, rindo como se não existisse nenhum problema no mundo, era uma visão rara.

    “Me pergunto em que lugar ele viveu.”

    Curioso, não resisti à vontade de perguntar.

    — De onde você é Edgar? Dúvido que seja do Norte.

    Considerando a turbulência que havia nas regiões mais ao norte do império, pensei que talvez ele fosse de uma região mais tranquila, como o sudeste.

    Mas sua resposta foi diferente do que eu imaginava.

    — Você não chegaria até lá mesmo que caminhasse por toda a sua vida, Arthur.

    — O que você quer dizer com isso?

    — Haha, quero dizer que é muito longe daqui, só isso. Acho que já está na hora de vocês irem, não?

    Edgar rapidamente apontou para fora da barraca. A multidão sem fim que antes nos observava com fervor agora havia desaparecido.

    Conforme o tempo passou, os transeuntes retornaram ao seu lar. Apesar da decepção, eles ainda teriam outros dias para aproveitar o festival. 

    Fora das casas, sobraram apenas os comerciantes e cavaleiros que guardavam os itens das barracas.

    No fim, eu e Lya não conseguimos aproveitar tanto devido ao serviço para Edgar.

    — Venham aqui amanhã bem cedinho e darei suas recompensas, tudo bem? Agora vão, vão. — Ele abanou para fora com as mãos.

    — Isso foi exaustivo demais… — Lya falou ao meu lado. 

    O urso enorme que dei para ela no início da noite ainda estava firmemente agarrado em seus braços. Ela parecia uma criança que tinha medo de perder um brinquedo.

    Desejei, sinceramente, que essa pelúcia tenha sido um bom presente para ela.

    Durante meus pensamentos sem sentidos, senti um toque suave em meu ombro direito. Olhei para Lya, a responsável por isso, mas ela observou fixamente o chão.

    Me perguntei se poderia ser mal estar, mas ela não parecia muito diferente de antes. Cortando meus pensamentos, no entanto, ouvi sua voz.

    — Arthur… quer passar a noite na minha casa?

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota