A confusão em minha mente era horrível. Mal prestei atenção ao meu redor, mesmo quando me pus a andar junto de Lya. Ela, no entanto, estava a alguns metros de mim.

    Erguendo minha cabeça, vislumbrei seus fios laranjas de cabelo intensamente iluminados. As vozes agitadas dos transeuntes a muito morreram, mas não as lâmpadas.

    Observei em silêncio o jeito fluído que seus pés se moviam pelo cascalho da rua. Mesmo agora, ela parecia alheia a tudo à sua volta. Mas eu sabia que não era assim.

    Aquela alegação de me amar… era uma piada?

    Lya sempre foi uma garota brincalhona, muitas vezes descrita como uma pirralha pelos pais. Ainda me lembro de quando ela me convidou para um piquenique com lobos.

    Dos meus quinze anos de idade até hoje, passei muito tempo com ela. Posso me gabar de saber todos os segredos vergonhosos dela. E por isso eu também sabia que ela não brincaria sobre isso.

    “Isso é muito confuso…”

    Movi minha atenção para longe, querendo me livrar desses pensamentos. Foi quando notei o céu limpo, brilhante pelas inúmeras estrelas que o compunham.

    O vento tocou meu corpo numa carícia suave. Parecia querer aliviar o turbilhão de sentimentos que gritavam dentro de mim. Infelizmente não era uma tarefa fácil.

    “Alguma vez já me disseram isso, assim tão abertamente? Nem mesmo ouvi isso da minha mãe…”

    Dizer abertamente que ama alguém é algo tão fácil assim? Se for, então por que nunca ouvi isso?

    Minhas mãos, cruzadas atrás do meu corpo, se fecharam. Os nós dos meus dedos ficaram brancos conforme meus sentimentos cresciam. Mas não senti raiva.

    Na verdade, não sei o que senti.

    — Arthur…? — a voz de Lya chegou até mim.

    Sem pressa, virei minha cabeça em sua direção. Foi quando notei os olhos esmeralda dela me encarando, e percebi que eu havia ficado para trás.

    — Sinto muito, Lya. Apenas pensando, sabe?

    Sorri para ela, assim como fiz nos últimos anos. Mas, por algum motivo, minha boca se mostrou mais rígida do que o esperado. Como se notasse, Lya franziu a testa, mas não disse nada.

    Logo retomamos nosso caminho. Não foi algo duradouro, apenas alguns minutos. Mesmo cruzar a cidade levaria apenas uma hora ou duas. 

    Quando chegamos ao nosso destino, parei por um momento, olhando para a casa de paredes brancas que Lya se aproximava. Foi quando notei a casa ao lado.

    Uma casa de dois andares muito familiar, uma onde vivi os últimos cinco anos da minha vida. 

    “Aurora já deve estar em casa uma hora dessas. Talvez eu devesse ir até lá?”, considerei em minha mente.

    — Ei, Arthur, o que está esperando? Vem até aqui.

    Mas quando ouvi a voz sussurrada de Lya, rapidamente descartei a ideia. Onde eu estava com a cabeça em sequer cogitar ir embora?

    Um sorriso suave tomou meus lábios quando me aproximei dela. Apesar dos pesares, ainda éramos amigos. Passar a noite na casa um do outro era completamente normal.

    Aurora não vai ficar irritada, certo?

    — Toma cuidado, minha família já deve estar dormindo essas horas. Vamos entrar devagarzinho, entendido?

    Acenei com a cabeça para ela, fazendo um x com os dedos em frente a minha boca. Olhando-me como se eu fosse idiota, ela lentamente entrou na casa.

    O plano mal bolado era entrar furtivamente, evitando acordar os moradores, mas a porta tinha outros planos. 

    Rhain—

    Um rangido alto como um grito ecoou pelo interior da casa quando ela foi aberta. No mesmo instante, eu e Lya ficamos parados, pálidos como fantasmas.

    “Por favor, não acordem!”, rezei silenciosamente, não querendo levar bronca dos pais da Lya.

    Quando olhei para o lado, vi ela fazendo o mesmo. E tão de repente, todo o pavor que sentia se dissipou do meu peito.

    As mãos trêmulas dela, levadas em frente ao rosto numa reza baixa, a faziam parecer a mesma garota que encontrei quando cheguei em Veldoren.

    Sem que eu percebesse, estendi minha mão e dei alguns tapinhas no ombro dela. Aos poucos, suas mãos pararam de tremer.

    — Vamos tomar mais cuidado, tá? — falei calmamente.

    Ela assentiu, antes de tomar a liderança para si.

    Seguindo seus passos, a acompanhei nas pontas dos pés. Parávamos sempre que a madeira do chão rangia, esperando a poeira baixar.

    Subimos as escadas silenciosamente. Os degraus, que nunca foram trocados desde que a casa foi levantada, quase gritavam. Sem opção, corremos o mais rápido possível até o quarto dela.

    Clank—

    Ao trancar a porta, Lya desabou na sua cama. Eu apenas me apoiei nos meus próprios joelhos, tentando recuperar o fôlego perdido.

    Lya não estava muito melhor. Seu peito subia e descia rapidamente. Ficamos assim por alguns minutos, em silêncio.

    Foi quando nossos olhos se encontraram. Depois de recuperar o fôlego, ela se sentou na beirada da cama, ainda segurando a pelúcia que dei a ela. 

    Os fios de seu cabelo grudaram no rosto suado dela, uma aparência completamente diferente da do início do dia. Aquela garota arrumada já havia desaparecido.

    — Haha… hahahaha!

    E por algum motivo, não pude segurar o riso.

    — Por que você está rindo?! Você também não está muito melhor que eu, sabia?

    — Hahaha… desculpa… hahaha!

    Eu não tinha ideia do porquê ria. Não havia nada particularmente engraçado ou chamativo no rosto dela. Mas era tão natural rir…

    Antes que percebesse, ela também esboçou um sorriso leve. Me encarou como se eu fosse um louco, sim, mas logo começou a rir também.

    Aos poucos, fui recobrando as velhas lembranças que tive ali, lembranças que foram nubladas pela revelação repentina de Lya. No fim, aquilo realmente importava?

    Quando observei a forma com que aquela garota ria alegremente, mesmo que a poucos minutos atrás estivéssemos evitando fazer barulho demais, não pude evitar pensar.

    Eu estava bem. Ela também. E só isso importava.

    — Certo, acho melhor ficarmos quietos agora — Lya falou.

    Sem que eu precisasse pedir, ela foi até o armário. De lá, puxou um par de travesseiros velhos, mas macios, e uma coberta. Como se fosse natural, ela me entregou os itens.

    Encarei-a, de vez em quando olhando para o que segurava. Ela provavelmente queria que eu dormisse ali, mas havia um pequeno problema…

    — Não tenho um colchão, Lya.

    — Tudo bem, suas costas são boas. Dá pra dormir no chão mesmo.

    Não, é sério, isso é aceitável? Um suspiro escapou de mim quando me dei por conta de que não era a primeira vez que aquilo acontecia.

    Ignorando minha confusão, Lya se jogou na cama outra vez. Seu corpo abraçou a pelúcia quase maior que ela enquanto ela fechava os olhos.

    Deixado sozinho, com apenas uma coberta e dois travesseiros, balancei a cabeça em sinal de decepção. Mas sem mais opções, me deitei no chão.

    Senti um arrepio percorrer meu corpo quando parte da minha pele exposta tocou o chão frio, mas tentei ignorar. 

    Agora, restava apenas a mim ali. Todos os sons pareciam ínfimos demais para me chamar a atenção. Mesmo a respiração regular de Lya era como o som ambiente.

    Conforme o cansaço tomou meu corpo, senti ele relaxar. Em alguns minutos, talvez segundos, eu estaria dormindo. Bastava apenas fechar os olhos. Mas isso se mostrou muito difícil.

    Sem nenhuma companhia, fui forçado a escutar os murmúrios que ecoavam no fundo da minha cabeça — questões que ignorei até agora.

    Lya me amava, ou ao menos um dia amou.

    Eu também gostava dela, mas não dessa forma.

    Devido a isso, nossa amizade mudaria?

    Torci para que não, segurando aqueles pensamentos. Em algum momento, até considerei rezar para a Deusa surda em busca de apoio.

    Mas sabendo que minhas preces seriam ignoradas, optei por permanecer calado em minha própria insignificância.

    “Estou confuso.”

    Sinto que já tive esse mesmo embate inúmeras vezes em tão pouco tempo. Nem mesmo um dia se passou desde que ela me contou aquilo, e eu já enfrentava isso como um desafio.

    Levei as mãos aos olhos, tentando tampar minha visão. O quarto estava escuro, silencioso, mas eu queria mais. Queria a completa inexistência.

    Foi quando a voz fraca de Lya veio até mim.

    — Tá acordado?

    Foi uma pergunta simples, muito parecida com as que ela havia feito ao decorrer dos anos. E, por algum motivo, parecia importante demais para ignorar.

    — Sim, eu estou.

    — Ah… que bom…

    Sua voz era um mero sussurro. Quase não parecia a garota energética do início do dia. Nem mesmo a que trabalhava na guilda. Seria cansaço?

    — Arthur, tenho algo para falar…

    Meus ouvidos se aguçaram quando ela disse, mas me forcei a permanecer imóvel. Deixei que ela seguisse em frente, ouvindo suas palavras em silêncio.

    — Acho que nunca me apaixonei por você.

    Senti minha cabeça ficar vazia com a afirmação dela.

    Ela nunca se apaixonou por mim? Mas o que foi aquilo durante nosso passeio então? Lya me deixou com mais perguntas do que respostas. Talvez percebendo isso, ela continuou.

    — A verdade é que eu não sei. Sabe, antes de você, não tive nenhum outro amigo da minha idade. Realmente pensei que fosse amor, mas agora… eu já não sei.

    Conforme ela continuava a falar, fiquei quieto. Me deixei levar por suas palavras, considerando as minhas próprias memórias quando ela me revelava seus segredos.

    Na primeira vez que fomos a um piquenique, ela assumiu o risco de enfrentar lobos apenas para me impressionar. Obviamente deu errado, mas nos tornamos mais próximos.

    Depois disso, teve o relato de todas as vezes em que ela enganou os pais para fugir de casa e me encontrar no campo de treinamento.

    Sinceramente, a cada nova coisa, me senti um idiota. Como não percebi todas aquelas tentativas óbvias de chamar minha atenção? Esfreguei a têmpora com o pensamento.

    — Então, você não me ama?

    — Não, não! Eu amo! Es-espera, não é assim! Eu gosto de você, mas acho que não dessa forma.

    Mesmo sem poder ver, apenas ouvir a cama dela rangendo enquanto falava me deu a impressão de que ela se contorceu de vergonha.

    Soltei um riso leve, completamente despretensioso. Era errado se sentir aliviado com essa notícia? Não tinha certeza, mas não achei que fosse o caso. Afinal, tenho meus motivos…

    Virando minha cabeça para o lado, encontrei a pelúcia enorme me encarando, como se servisse de barreira entre mim e Lya. Por estar em cima da cama, aquela coisa parecia ainda maior.

    — Ei, Lya, posso te contar um segredo bobo?

    — Hã? Acho que sim, o que é?

    — Estou completamente apaixonado pela Aurora.

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