Capítulo 80 - Testes contra o medo, parte 1
[ 27 de maio de 1922, Dojo ao lado do Salão de Fogo, Campo de Treinamento 3, 21h00 ]
No centro daquele espaço de pouca luz, duas figuras se olhavam de joelhos sobre os tatames escuros, ambos de postura ereta e mãos sobre as coxas.
Sentindo a sessão noturna de treinos mesmo após uma longa PAA, Akemi Aburaya mordia o lábio inferior enquanto estalava a lombar que quase fugia para fora de seu presenteado kimono esverdeado. “Desse jeito eu vou acabar virando pó antes mesmo da Floresta Estelar.”
Do outro lado, Hiromi Miyazaki em sua túnica alaranjada mantinha os olhos fechados e a respiração controlada; sua aura flamejante invisível aquecia os arredores e afastava o frio da noite.
O calor confortava, mas também lembrava Akemi de que estava completamente sob as ordens dela. “Preciso comentar sobre a chance da minha aura ser eterna, mas como fui chamado primeiro pra conversar, vou esperar até que Miya diga o que tem pra falar.”
O silêncio se arrastou por mais alguns segundos.
“Grr, mas assim não vai rolar!” Cheio de perguntas, o rapaz perdeu a paciência para o cansaço. — Ei! Por que voltamos pra esse lugar? Você prometeu que avançaríamos pros treinamentos de manipulação áurica de combate logo, logo! Já faz semanas que só pratico formas animais e fortalecimento físico. Quando é que vou aprender a disparar raios de verdade ao invés de só cobrir meu corpo com faíscas? Já me sinto pronto o bastante pra próxima etapa!
Miya abriu os olhos devagar, e um sorriso singelo apareceu. — Ultimamente venho te batendo menos, né?
— … O-o que diz com isso?
— Meu pai participou da distribuição de notas da PAA de hoje e me relatou que você teve certo destaque. A instrutora Shimizu ficou impressionada por você como elo teoricamente mais fraco ter acompanhado o ritmo do grupo por todo o percurso, assim como outros também surpreenderam. Você teve uma melhora nítida no combate áurico. Parabéns.
Akemi iluminou-se de alegria. O cansaço foi momentaneamente esquecido. — Sério? Mesmo com todo mundo tirando zero?
— Embora aquilo tenha sido o primeiro ambiente de combate simulado da turma, é necessário analisar as capacidades dos alunos em cada uma das adversidades. Tiveram os que se destacaram por superarem as baixas expectativas, tiveram os que se mantiveram na régua imaginada, e tiveram outros que… surpreenderam até demais — a breve pausa distanciou o olhar.
A última menção claramente era sobre Rin Kurosawa. O buraco negro roxo ainda vivia fresco na memória de Akemi, e pelo jeito, Miya também sabia dos detalhes.
O desconforto caiu sobre o dojo.
Akemi aproveitou a brecha. — Mas falando da prova… você continua sumida pela tarde, inclusive nos dias importantes. Onde que você…
O clima descontraído morreu ali mesmo.
Miya o encarou por um longo momento, em seus olhos esmeralda, havia algo profundo e pesado que carregava sozinha. — Te contarei a verdade. Mas você precisa entender que isso fica entre nós.
Akemi assentiu com seriedade.
— Fui convocada pra uma reunião de família com outros integrantes da ASA. Como candidata ao matriarcado, sou considerada uma presença importante dentro dos conselhos que envolvem a Família Miyazaki. Dizem que assim posso ter um conhecimento melhor sobre como as conversas fluem entre os superiores.
— Isso parece mais uma experiência de estagiário.
— É quase como, mas pra mim, é mais importante do que parece. Lá eu vejo de perto a face mentirosa que aqueles militares escondem. Eles debocham, falam com irreverência sobre territórios áuricos, animais selvagens, civis, e alunos que eles mesmos mandam pra guerra… mas quando mencionam a matriarca, tomam o maior cuidado do mundo.
— Kaen Miyazaki — referenciou Akemi, pensativo — o que disseram sobre?
— Ela virá aqui pra inaugurar o torneio de combate no início do nosso segundo ano de formação.
— Espera, isso é daqui meses! — protestou o jovem — e antes disso, temos a Floresta Estelar e sei lá quantas outras missões! Miya, por favor, eu preciso aprender a usar minhas habilidades áuricas além do fortalecimento físico. Se não, jamais vou conseguir me dar bem nesse início da ASA!
— Você está longe de estar pronto.
As palavras foram sentidas como um tapa.
— … Por quê?
Miya levou a mão ao peito dele em um toque leve, o calor que irradiou da palma percorreu as veias do rapaz como um rio de fogo controlado, destacando o coração que batia forte demais. — A maior força que você possui está aqui — então, o dedo subiu devagar e encostou no centro da testa alheia. — Mas sua maior fraqueza está aqui.
Olhando para o dedo indicador que o tocava, Akemi ainda não havia entendido a metáfora.
— Quero dizer que pretendo fortalecer sua mente antes de qualquer coisa. Até o modo como você olha pra mim às vezes revela insegurança e confusão. Na sua essência, Akemi, ainda vejo a pura inocência de quem nunca enfrentou o pior do mundo… e inocência mata, principalmente na guerra.
Com o peso das palavras, Akemi baixou o olhar e apertou as mãos sobre as coxas. — Eu acreditava que essas sensações vinham só da inexperiência… por saber pouco sobre aura, por ter criado uma imagem errada do mundo. Só que depois de tudo que presenciei, desde os testes de ingresso até as dificuldades na PAA… notei que essas raízes são muito mais profundas do que imaginava.
“Pra piorar” pensou ele, de peito apertado, “sinto que ainda tô bem longe de arrancá-las. Só de imaginar voltar atrás já me assombra… embora de algum jeito estranho, a ideia de voltar pra casa me dê um certo conforto.”
— Está pensando demais — alertou Miya — assim não vai entender o que quero dizer.
Akemi voltou os olhos à ela, abalado porém atento.
— Meu objetivo com você não é eliminar seu receio por completo. Isso seria impossível, e mais importante: seria idiota. Hesitar inclusive perante o medo é essencial pro ser humano, essa é a forma mais pura do instinto de sobrevivência que nos mantém vivos. Sem medo, você seria imprudente, sem medo, você morreria na primeira batalha real, tudo por conta da mera ignorância ou, na pior das hipóteses, do traiçoeiro ego.
As peças do quebra-cabeça se encaixaram. Akemi entendeu. O problema não era a sensação do medo; o problema era a dominação dele, o que paralisaria decisões e impediria reações em momentos críticos.
No meio daquela conclusão, outra dúvida atravessou o rapaz. Faltava uma resposta que ainda lhe escapava, mas que Miya a captou em poucos instantes e provocou com um sorriso travesso: — Está com dificuldade em saber como resolverá seu medo?
O silêncio confirmou.
— Certo. Pra sua sorte, hoje na reunião fui relembrada de lendas urbanas e alguns ééé… — a descontração deu uma trégua momentânea: palavras eram caçadas com perturbação aparente. — “momentos… desafiadores”… que já aconteceram pelo mundo. Histórias de áuricos que enfrentaram o impossível e sobreviveram. Histórias de heróis indecisos que viraram vilões pois fizeram a escolha errada em ocasiões adversas.
Interessado, Akemi inclinou-se à frente.
— Baseado nisso, farei três perguntas a você. Três cenários. Cada um vai exigir coragem, mas acima de tudo, vai exigir que você pense e use sua maior força. Beeem aqui — ela tocou onde um coração inspirado batia. — Confio no seu potencial com a mente sã. Então, por favor, me prove que estou certa.
Akemi respirou fundo. — Tá… tá bom…
Inicialmente empolgada, Miya endireitou-se, complementando suas histórias com gestos que simulavam as cenas. — Primeira pergunta! Uma cobra imensa surgiu no seu caminho durante uma caminhada na floresta. Você não tem chances de enfrentá-la, muito menos de escapar dela. O que você faria?
“Cobra imensa?” Akemi imaginou a cena: seus passos sobre a trilha cheia de folhas e o forte sol ofuscando sua visão por entre pinheiros gigantes, quando repentinamente, um movimento sinuoso revelou escamas escuras sob brilhos dourados, onde olhos reptilianos e presas à mostra se levantaram e barraram o seu caminho.
Seu primeiro instinto: fuga indeliberada.
Mas a jovem mestra esperava pela melhor resposta.
— Eu… fico parado primeiro. Cobras reagem a movimentos bruscos. Se eu correr, ela pode atacar. Então eu fico parado, respiro fundo pra controlar o pânico, e depois… recuo devagar. Muito devagar. Dando espaço pra ela, mostrando que não sou ameaça.
— E se ela avançar mesmo assim?
O raciocínio veio rápido. — Daí não teria outra opção a não ser me defender. Talvez descarregar eletricidade no chão ao redor ou algo assim. Não pra matar, mas pra intimidar já que é um animal. Isso… isso funcionaria?
— Arriscado… porém, interessante — concluiu Miya, satisfeita — você pensou em controle ao invés de destruição. Isso é raro.
Akemi suspirou o ar entalado nos pulmões, aliviando-se.
— Segunda pergunta. Imagine-se encurralado por alguém mais forte, mais rápido e mais experiente. Nada de truques, nada de aura, só o corpo, só você. Esse alguém avança com a intenção de te apagar do mundo, e não há instinto animal ou manobra emocional que altere as motivações assassinas do sujeito. Qual decisão você tomaria quando o oponente partisse pra cima?
“Encurralado contra alguém mais forte, rápido… e experiente?” Akemi se viu em um beco com paredes de pedra por ambos os lados. À frente, uma figura imensa: músculos, cicatrizes e olhos tão vazios que sequer deixavam resquícios de que aquele ser possuía alma. Conversar não era uma opção. “Nada de aura, só corpo…”
Não havia escapatória, e um combate direto facilmente resultaria em derrota.
“Mas talvez tenha alternativa.”
— Eu enganaria ele!
A ideia foi prontamente estranhada.
— … Como?
— Eu fingiria que um ataque pela direita, mas atacaria pela esquerda! Ou fingiria recuos, mas avançaria! Ou… já sei! Utilizaria o ambiente, talvez jogaria algo pra distrair e… se nada disso funcionasse, eu usaria o momento em que ele atacasse contra ele mesmo, tipo… desviar e fazer ele bater na parede.
Miya levou a mão ao queixo, imaginando a cena…
A conclusão chegou de uma vez.
— Pft, hihihihiii! Falar é fácil mesmo, que ideia horrííível!
— Qual é a graça!?
— É que eu adoro sua imaginação. Não leve a mal, foi uma resposta válida.
— Mas olha, pensa comigo: se não há escapatória, preciso criar uma, e nesse cenário contra um oponente superior em todos os quesitos, não haveria outra opção a não ser tentar o impossível.
A segunda resposta convenceu melhor.
— Bom, de qualquer forma, você acabou descrevendo três fundamentos da nossa arte marcial: enganar o oponente, usar o ambiente, e redirecionar força. Você formalmente não é um mestre em combate, mas pelo visto, pode pensar como um lutador.
— Então foi uma boa resposta?
— Pra você, ainda não. Pra alguém preparado, talvez. Considere isso um elogio.
Akemi imaginou que merecia um elogio menos adversativo. — Ceeerto.
— Está indo bem, só foque em uma coisa: sempre buscamos o caminho mais seguro que exista, e mesmo que em certas situações a paz fique fora de alcance, entregar-se ao caos jamais será escolha de quem carrega um coração limpo.
“Ela fala com tanta convicção e clareza…”
— Entendido!
Miya alegrou-se com aquela energia; contudo, algo no fundo de sua expressão traía o sentimento exposto. Abaixo da satisfação, existia uma camada de abalo encobrindo tudo, como se aquela felicidade fosse uma máscara mal detalhada.
Afinal, o que estava escondido por trás daquele sorriso?
— Preparado pra última questão?
— Positivo!
— Muito bem…

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