Capítulo 125: Mais uma vez, Nagano...
24 de maio de 2024, sexta-feira.
O chiado dos trilhos ecoou enquanto o trem desacelerava, logo após uma voz robótica e feminina informar, através dos alto-falantes, que era a estação de Nagano. A movimentação das pessoas, algumas embarcando e outras saindo do vagão, era comum nas paradas e o casal fazia parte desse aglomerado.
O som de conversas aleatórias se misturava ao barulho metálico que se distanciava e o estalo das catracas eletrônicas. O relógio marcava pouco antes das quatro horas da tarde, quando embarcaram num táxi e seguiram rumo à casa dos pais de Aki.
O ar estava fresco, carregando um calor que anunciava a aproximação do verão. Durante o trajeto, passaram por um parque, onde era possível ver glicínias desabrochadas ostentando beleza em meio à paisagem.
Não muito tempo depois, o veículo finalmente estacionou e os dois desceram, com apenas uma pequena mala cada um. Estavam de frente a uma casa bonita, de fachada branca e um jardim bem cuidado na frente. A grama verde era interrompida por um caminho de pedras que dava acesso ao imóvel.
A porta amadeirada se abriu, quando uma figura animada surgiu: — Aki! Victor! Finalmente chegaram!
Hana estava com um avental ainda sujo de farinha, quando abriu os braços para abraçar a filha.
Logo atrás dela, vieram Shouto e Haru. O pai se aproximou também e abraçou a filha, que ficou levemente corada pela atitude dele, por estar perto de Victor. Geralmente, ele não a abraçava assim, abertamente.
Em seguida, ambos cumprimentaram Victor com um aperto de mão, e Haru ainda o abraçou também, se dirigindo a ele como “querido”. Ele arqueou a sobrancelha por um instante, surpreso, mas apenas sorriu, retribuindo o gesto.
“Talvez eles estejam mais animados por termos assumido o relacionamento?” Victor ponderou, antes de ver Haru pulando nos braços de Aki.
— Irmãzona! Estava com saudades! Como foi a viagem para a França? Foi legal? Como é lá? — Uma enxurrada de perguntas foi feita pela pequena. Porém, antes que Aki pudesse respondê-la, seu olhar ansioso por respostas pousaram sobre Victor.
— Irmãozão! — Victor se abaixou, quando Haru correu e o cumprimentou.
— Oi, Haru, como você está?
Quando Victor ergueu o braço para fazer um “high five”, a irmã mais nova sentiu uma emoção que não sabia descrever, como gratidão e surpresa.
— Você ainda está usando a pulseira?! — Ela exclamou, realmente surpreendida pela descoberta.
— É claro! Eu deveria ter parado? — Ele brincou, com um sorriso.
— Não! Não é isso. Só… pensei que não estaria usando depois de tanto tempo…
— Vou te contar um segredo: essa pulseira é muito importante para mim. Foi um presente da minha irmãzinha! E enquanto eu puder usá-la, farei isso. — Ele afagou os cabelos castanhos da garota.
Haru ficou, visivelmente, envergonhada. O rubor subiu em suas bochechas e ela desviou o olhar.
Aki observou a cena com um sorriso genuíno. Duas pessoas muito importantes para ela estavam se dando muito bem. Os pais das garotas também estavam muito surpresos pela forma como Victor estava agindo. Da outra vez que esteve presente em Nagano, era uma pessoa muito reservada, sem expressão, contudo, agora, seu semblante era leve, feliz e estava tão à vontade com a Haru.
— E-eu fico m-muito feliz com isso… — A pequena balbuciou.
…
Depois de entrarem, todos se sentaram nos sofás, exceto Hana, que foi buscar chá e negou a ajuda de Victor ou Aki. Enquanto isso, Shouto logo puxou conversa:
— Como foi a viagem em Paris? A Aki sempre foi doida para conhecer a Torre Eiffel. — Ele soltou, enquanto olhava para o teto, como se relembrasse momentos passados.
— Papai! — Aki exclamou, indignada. Victor não pôde evitar uma gargalhada pela reação exagerada, quando ela saltou do sofá e correu até o pai, colocando o indicador sobre os seus próprios lábios. — Shhh!
— É verdade! Ela tinha até uma miniatura, que quando ela viajou para Tóquio me deu como lembrança. — Haru comentou cheia de inocência.
— Até você, Haru?
Eles riram. Quando já estavam todos sentados e a conversa já durava alguns minutos, um apito ecoou e Hana se levantou rapidamente.
— Ah, o bolo finalmente está pronto! — Exclamou, indo em direção à cozinha.
Aki se levantou e acompanhou a mãe, deixando Victor, Shouto e Haru sozinhos, momentaneamente.
— Então, Victor, como estão indo as coisas com a Elegance Affairs?
Victor se surpreendeu um pouco, mas não se importou em responder. Foi quando começou a contar para Shouto como estavam as coisas recentemente. Contou ainda sobre o envolvimento com a Pacca Consortium e o lançamento do Event Link.
Shouto chegou a dar um sobressalto quando ouviu sobre a Pacca Consortium.
— Aquele grupo multinacional fundada no Brasil? A nossa empresa já tentou uma parceria com eles, mas infelizmente não foi adiante. A Pacca Consortium é um nome de peso no ramo internacional!
Victor ficou ainda mais chocado, quando respondeu:
— Sério? Bom, eu nunca perguntei antes… em qual empresa o senhor trabalha?
— Bem… não gostamos muito de falar abertamente, embora seja uma honra… sou o presidente da Yamada Breweries Co..
O brasileiro ainda estava tentando digerir as palavras. Não conhecia sobre essa empresa. A Aki nunca havia mencionado, nem ele. Nem quando foram visitar Nagano. Vendo a dúvida no rosto de Victor, Shouto continuou:
— Produzimos saquês artesanais aqui em Nagano. Foi fundada há duas gerações, pelo meu avô. Agora eu sou o diretor dela. Digamos que todo lote é aprovado por mim…
O orgulho era evidente na sua voz, quando ele apontou o dedão para o próprio peito, cheio de confiança.
“Isso justifica sua paixão por bebidas e aquela adega…”
— Eu acho que o senhor não comentou comigo sobre o seu saquê da outra vez. — Ele se referia quando beberam juntos anteriormente.
— Bem, pensei que você gostaria de algo mais… internacional? Enfim… Então você gosta de saquês?
— Claro! Toda bebida tem seu charme, seu espaço e seu lugar. — Victor respondeu quase prontamente.
Shouto sorriu: — Que ótima notícia! Então, quer experimentar nosso saquê? Tenho algumas garrafas aqui.
— Infelizmente, hoje não… — Respondeu, com certo desgosto. — Temos que participar de um evento agora pouco. Não posso estar minimamente sob influência de álcool.
O assunto continuou, com Shouto contando vantagens sobre o saquê “Hoshizora”, o principal da casa, que inclusive havia ganhado um prêmio nacional há um tempo.
A conversa acabou voltando, em algum ponto, para a Pacca Consortium. Shouto explicou que queria expandir a distribuição da bebida para a América Latina. Aki e Hana voltaram para a sala após esse ponto da conversa.
— O papai se empolga quando fala da Yamada Breweries, embora não fale facilmente. — Ela comentou. — O vovô Brewe era um homem incrível.
Victor se perguntava porque nunca ouviu falar dessa história, mas logo ignorou esse pensamento. Afinal, nem todo mundo gostava de “esbanjar” as conquistas familiares — e ele sabia bem como era esse sentimento.
Hana e Aki voltaram para a cozinha após um tempo, o suficiente para o bolo esfriar um pouco e servir em tigelas. Eles comeram ali mesmo. Durante a conversa, entre histórias e elogios, um comentário:
— Eu sei que é difícil expandir a produção, mas minha ideia era algo diferente. Acho que a Pacca Consortium seria fundamental nessa ideia, por isso, inclusive, não procurei outras parcerias. Foi um choque, na verdade, quando recebi o não, mas faz parte do processo…
Aki arregalou os olhos, surpresa, quando ouviu o nome da Pacca Consortium. Ela não sabia desse “acordo falho” e nem mesmo ouviu anteriormente. Seus olhos âmbar encontraram os de Victor, que respondeu:
— E justificaram a negação?
— Disseram que não havia interesse nesse tipo de importação. Entretanto, acho que não entenderam a minha ideia… talvez eu tenha falhado na tradução dos termos?
— E quais são seus planos exatamente?
Após mais uma conversa, Victor entendeu todos os pontos. Quando pediu para ver os e-mails trocados, também pôde compreender o motivo da negação. Havia algumas palavras ambíguas durante a tradução, que acabou passando a ideia errada do que realmente seria. E por não ser uma empresa com algum peso, provavelmente nem foi cogitado essa avaliação. Talvez nem mesmo tenha chegado até o Matheus.
— Talvez o senhor consiga uma nova oportunidade… — Victor consolou, mas já pensando em como ajudá-lo.
Aki e ele trocaram olhares cúmplices durante essa conversa, com ela já entendendo o que ele queria dizer. Seus olhos brilhavam como jóias, como se carregassem o significado genuíno de agradecimento.
A conversa acabou tomando outros rumos, até que Hana comentou sobre o casamento deles. Mesmo que os dois estivessem “sem graça”, conseguiram explicar a situação do relacionamento. Victor percebeu que Shouto, ligeiramente, demonstrou uma pequena insatisfação com a situação atual. Mas não havia muito que pudesse fazer sobre. Ele e Aki sabiam o que queriam e como queriam, e também que não era o momento oportuno.
O tempo passou mais rápido do que queriam e logo se arrumaram para irem ao evento. Shouto acabou marcando de beber com Victor no dia seguinte, ou talvez no domingo, antes de irem embora.
…
O local era amplo e sereno. Um espaço aberto cercado por montanhas ao longe. Havia árvores ao redor do sítio e um pequeno riacho artificial que cortava o gramado com delicadeza. O som da água correndo ecoava de forma serena e aconchegante, criando uma harmonia natural difícil de encontrar em eventos corporativos, antes de se misturar ao burburinho e conversas paralelas de várias pessoas e se dissipar.
Victor observava tudo com atenção. A estrutura planejada pela Ecotour impressionava pela simplicidade e elegância. Havia tendas feitas de bambu e tecido branco, mesas dispostas de forma circular e decorações que usavam elementos naturais — vasos de pedra, flores silvestres, troncos usados como assentos e luminárias penduradas.
A dirigente da reunião, uma mulher de meia-idade de postura firme e voz clara, falava ao microfone sobre o compromisso das empresas japonesas com o turismo sustentável.
Victor e Aki estavam sentados lado a lado, atentos às palavras dela.
— Não é apenas sobre trazer visitantes ao Japão, mas sobre preservar o Japão para que ainda haja algo belo a ser visitado no futuro.
A frase ecoou na mente de Victor. Ele se pegou refletindo sobre como o conceito de “preservar” não era muito diferente do que a Elegance Affairs vinha construindo, com serviços de qualidade e priorizando a satisfação do cliente.
Aplaudiram ao final da fala, e o público foi liberado para um intervalo. Pequenas mesas de degustação foram abertas, servindo chá verde, doces artesanais e petiscos feitos com produtos locais. O cheiro de flores e madeira fresca pairava no ar, marcando que a primavera ainda não tinha ido embora.
Aki foi logo chamada por uma mulher ruiva de cabelos lisos e pele clara, que se apresentou como Mio Oda e que trabalhava na área de marketing da Ecotour. Aki se levantou, com um sorriso educado, e acenou para Victor antes de se afastar.
— Vou só conversar com ela rapidinho, tá? — disse em tom baixo.
— Tudo bem — respondeu Victor, abrindo um leve sorriso.
Ela seguiu em direção à tenda lateral, enquanto Victor permaneceu sentado, aproveitando a pausa. Pegou o tablet que trazia consigo e começou a revisar as anotações que havia feito durante a palestra. Subitamente, a brisa soprou mais forte, balançando as folhas e um frio percorreu sua espinha. Ele olhou para a frente, quando murmurou:
— Ainda bem que eu não sou palestrante aqui hoje.
Foi quando ouviu uma voz feminina, doce, porém surpresa:
— Victor?
Ele virou-se para a direção da voz.
A alguns passos dele, estava uma mulher de postura elegante, cabelos loiros escuros, presos em um rabo de cavalo, fazendo seu rosto se destacar. Seus olhos eram de um tom verde intenso. Vestia um conjunto social elegante.
Por um instante, Victor ficou em dúvida — aquela voz despertava algo em sua memória. Quase uma lembrança, mas não se lembrou exatamente o que era. Ao mesmo tempo que ela parecia familiar, parecia alguém completamente desconhecida.

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