Capítulo 124: Preparação
Depois que voltaram de Paris, já era madrugada de segunda para terça-feira. O voo havia sido longo e o corpo dos dois clamava por descanso. No táxi de volta do aeroporto, Aki encostou a cabeça no ombro de Victor e, quando se deram conta, já estavam chegando em casa. Não trocaram muitas palavras além de um “bem-vinda de volta” e um sorriso cansado. Tomaram banho rápido, deixaram as malas largadas na sala e, finalmente, caíram na cama, adormecendo quase imediatamente.
Os dias seguintes começaram em ritmo lento, ainda com o peso da viagem, mas logo a rotina puxou os dois de volta. A semana avançava, e cada dia que passava parecia acelerar a contagem regressiva para o grande evento em Nagano, marcado para a noite de sexta-feira e o sábado seguinte.
Embora tivessem ganhado os dias seguintes de folga, precisavam se preparar para a reunião e também manter o trabalho de relatórios organizado, como sempre faziam. Mas logo na terça-feira, precisaram ir até o escritório, já que dois funcionários haviam faltado, por terem ficado doentes naquela semana.
O chefe Akashi se desculpou profundamente, quando ligou, pedindo para irem ajudar. Como estavam, praticamente, ociosos, dentro de casa, decidiram que seria bom.
Assim que chegaram na empresa, próximo ao horário do almoço, não tiveram muito tempo para cumprimentar os amigos e colegas, pois precisavam recuperar o tempo perdido. Mesmo que tivessem ganhado folga, havia muito trabalho naquela semana e esse bônus foi puro capricho do senhor Akashi para com eles.
Já à tarde, durante uma pausa no escritório, Sayuri foi a primeira a cercar Aki com um sorriso curioso, quando abriu a porta subitamente, empolgada.
— Então? Como foi Paris? — perguntou, apoiando-se na mesa dela.
Aki ajeitou uma pasta com anotações e tentou parecer neutra, mas o brilho nos olhos a entregava. Ela ajeitou uma mecha de cabelo e se levantou.
— Foi… intenso. — respondeu, em tom que misturava cansaço e entusiasmo.
— Intenso? — Sayuri arqueou a sobrancelha, divertida. — Intenso tipo “trabalhar até cair”… ou intenso tipo “foto romântica na Torre Eiffel”?
Aki corou na mesma hora, desviando o olhar.
— Sayuri! Você…
— Ou talvez… intenso de “ritmo intenso”? — O sorriso malicioso que se formou nos seus lábios fez Aki sentir o estômago revirar. Seu coração estava acelerado.
Antes que ela pudesse terminar, Victor apareceu do outro lado, trazendo uma garrafa de água. Ele ouviu o suficiente para entender o tom da conversa e suspirou.
— Já começou a sessão de fofoca? — resmungou. — Vocês jornalistas de plantão não perdem tempo mesmo.
Sayuri riu, quase maldosa.
— Só estou cumprindo meu papel de amiga. Vai dizer que não tiraram nenhuma foto juntos?
— Jura que está se referindo a fotos? — Victor perguntou, num tom de ironia. Apesar da amizade maior ser entre as duas, Victor a conhecia o suficiente para saber do que ela estava falando. Aki mordeu o lábio, sem saber como lidar com aquele papo da amiga.
— Talvez… tenhamos tirado uma ou duas fotos. — respondeu, tentando soar casual.
Sayuri riu intensamente, quando abraçou Aki, dizendo que ela era muito fofa e por isso amava ela. Sem reação, ela sentiu um misto de confusão, amor e ódio pela amiga. Seus lábios se contraíram ligeiramente, quando ela bancou a durona e xingou Sayuri. .
Victor balançou a cabeça e seguiu adiante. No fundo, porém, havia um leve sorriso no canto dos lábios. Ele sabia que, no fim, Aki também se divertia com aquele jeito doido de sua amiga.
…
Já na quarta-feira, 22 de maio, durante a noite, já em casa, Yumi ligou por vídeo para Aki. O rosto sereno dela apareceu na tela, cercado por livros empilhados na escrivaninha.
— Então, me conta! Não tivemos tempo de se falar direito na Elegance Affairs, está muito corrido… — disse, num tom doce, mas carregado de expectativa. — E como foi Paris? Aquelas fotos ficaram maravilhosas.
O tom empolgado denunciava a ansiedade e a admiração que sentia. Aki se sentou mais perto da tela, apoiando o queixo na mão.
— Foi maravilhoso… muito cansativo, mas maravilhoso. Eu ainda não acredito que estive lá.
Victor passou atrás dela, acenando para Yumi com a mão livre.
— Paris foi incrível! Eu queria voltar lá! — continuou.
— Eu tenho muita vontade de conhecer lá. Um dia eu vou. Talvez eu encontre um namorado descolado que me leva para lá “a trabalho”. — Yumi gesticulou com os dedos indicadores, sinalizando “entre aspas”, com um sorriso travesso.
— Você e a Sayuri são iguais! Bobinas! — Aki manifestou, tapando o rosto. Victor, ouvindo, interveio em defesa.
— Estou sentindo uma pitada de inveja? — provocou, num tom de ironia.
— Sim. — Yumi inclinou a cabeça, entrando na brincadeira. — A Aki é tão sortuda! — Quando ela arrastou a penúltima palavra, Victor arqueou a sobrancelha, surpreso.
— Sou eu o sortudo aqui! A Aki é incrível demais, não acha?! — Seu tom empolgado fez Aki ficar ainda mais corada, quando tentou se levantar, mas ele estava quase em cima dela. — Eu pretendo levar ela em outros lugares também. Qual você acha que deveria ser o próximo destino?
Yumi, que ria da situação, respondeu:
— Itália? Inglaterra? Argentina?
Victor não pode evitar expressar a surpresa com a sugestão, quando perguntou:
— Argentina? Por quê? — Agora suas palavras estavam carregadas de curiosidade.
O silêncio que se seguiu foi curto.
— Eu tenho muita vontade de conhecer lá, parece incrível! Já ouvi relatos de pessoas que visitaram e me parece muito atrativo.
O foco da conversa por alguns instantes seguiu o rumo de possíveis locais de viagens legais, quando até Aki acabou entrando na conversa, quando conseguiu recuperar a postura. Depois de um bate-papo, finalmente Victor falou:
— Agora precisamos nos preparar para Nagano. Vai ser puxado.
Yumi, no entanto, não perdeu a chance de brincar:
— Nagano, Brasil, França, Paris, mais reuniões, mais viagens… estão indo muito rápido. Da próxima vez que me ligarem, já vão estar me convidando para o casamento, não?
Aki arregalou os olhos, completamente sem reação, enquanto Victor apenas riu.
— Exagerada… Enfim, boa noite, Yumi. — disse, encerrando a chamada antes que ela pudesse responder.
A namorada tinha ficado sem reação, pois aquele era um tópico que, no fundo, ela queria realmente saber. O casamento. Por mais que pensar naquilo lhe dava um frio na barriga, era inegável seu desejo em formalizar seu relacionamento conjugal.
Vários pensamentos começaram a invadir sua mente: Victor num terno extremamente bonito e elegante; ela num vestido extremamente deslumbrante e branco como neve. Um altar montado, onde um mestre de cerimônias falava aquelas palavras tão aguardadas e um “sim” sincero saindo de seus lábios, em resposta.
Logo, foi arrebatada de seu devaneio, quando Victor a chamou, para que pudessem ir dormir. Havia muitas coisas que ainda precisavam arrumar antes da viagem e tinham que descansar.
…
A quinta-feira foi dedicada quase inteiramente à preparação. A casa, em especial a sala, se transformou em um pequeno escritório. A mesa estava com pastas com planilhas impressas e gráficos coloridos e dois notebooks abertos. O som do mouse clicando e das páginas viradas preenchia o espaço.
Victor estava concentrado em analisar os números de uma das empresas parceiras. Traçava comparativos, fazia cálculos rápidos na calculadora e riscava anotações à margem das folhas.
— Eles cresceram vinte por cento no último trimestre, mas boa parte disso foi em publicidade. — comentou, apoiando o queixo na mão. — O núcleo operacional não aumentou tanto assim.
Aki, sentada de frente, folheava um relatório de tendências.
— Mas olha aqui. — disse, apontando para um gráfico. — Eles estão mirando justamente no setor de casamentos de médio porte, que é onde mais se cruza com a Elegance Affairs. Se a gente não tiver resposta para isso, vamos perder espaço.
Victor leu em silêncio, refletindo. A mente dele trabalhava rápido, mas estava claro que Aki havia encontrado um ponto-chave.
— Tem razão. — concordou, rabiscando uma nota em sua planilha. — Vamos precisar reforçar esse argumento na apresentação.
O relógio já se aproximava da meia-noite quando Aki se espreguiçou, jogando o corpo para trás no sofá.
— Sabe… — disse, com a voz cansada, mas firme. — Estranhamente, eu não estou tão nervosa dessa vez.
Victor levantou os olhos do papel, estudando o semblante dela, com um sorriso no rosto.
— A experiência em Paris foi boa para você. Tenho certeza disso. Aquela sua jogada foi muito ousada. Alguns diriam que foi algo doido.
Ela riu, meio sem graça.
— Na hora, não pensei em outra estratégia.
— O importante foi que deu tudo certo. Com certeza, a Elegance Affairs saiu com muitos ganhos.
…
Ainda naquela noite, Victor conversou com Matheus, explicando sobre o acordo que fez. Depois de alguns minutos de conversa e alguns e-mails com dados e informações, que já estavam sendo trocados ao longo dos dias, o’irmão mais novo elogiou Victor pela conquista.
A Pacca Consortium realmente estava com certa dificuldade naquela área de desenvolvimento do uso da inteligência artificial e, se as promessas da Syntronyx Solutions fossem concretizadas, os problemas teriam acabado. Agora, restava a expectativa na empresa Sul-coreana.
— Então, o senhor Choi realmente aceitou os termos? — perguntou Matheus, cheio de curiosidade.
— Sim. E o senhor Kim garantiu que a Syntronyx vai entregar o módulo de IA antes do prazo e disse que iria até superar nossas expectativas.
— Caramba, Victor… isso muda o jogo.
Com certeza daria vida à nossa ideia e alavancaria a empresa deles, principalmente nesse setor…
…
Com tudo isso acontecendo, o tempo passou bem mais rápido do que puderam perceber. Quando o casal se deu conta, já estavam embarcando no trem para Nagano. A viagem foi tranquila, enquanto conversavam. Até que, finalmente, chegaram na porta da casa da família Yamada.

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