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    19 de maio de 2024, domingo.

    O sol parisiense subia lentamente pelo céu escuro, tornando-o claro, pouco a pouco. O frio da madrugada ia dando lugar ao calor matinal. O silêncio da noite ia se rachando, conforme mais e mais veículos iam tomando as ruas e o número de transeuntes aumentava. No quarto do hotel, alguns raios passaram pela cortina e Victor acordou, esticando-se na cama com certa preguiça. Ao virar o rosto, encontrou Aki ainda dormindo, abraçada ao travesseiro, os cabelos longos caindo em cascata pela lateral da cama. Ele sorriu. “Ontem ela foi incrível…

    Não quis acordá-la de imediato. Ficou apenas alguns minutos observando a serenidade em seu rosto, lembrando de como havia se mostrado firme e ousada na reunião. Quando se deu conta, um sorriso bobo estava em seus lábios. Depois que ele se levantou e fez a sua rotina diária, não demorou muito para que ela abrisse os olhos, piscando algumas vezes.

    — Bom dia… — disse com voz sonolenta, logo quando seus olhares se encontraram. 

    — Bom dia. Dormiu bem?

    — Melhor impossível. — Ela sorriu, ainda preguiçosa. — Hoje é domingo… não temos reunião, não é? Estou exausta! 

    — Não. Só uma programação leve. Pensei que podíamos… fazer algo turístico…

    — Turístico? — Ela arqueou a sobrancelha, agora mais desperta. Antes que pudesse pensar no que seria, ele disse:

    — A Torre Eiffel. O que acha?

    Os olhos âmbar dela se iluminaram instantaneamente, como se uma criança tivesse acabado de receber um presente de Natal.

    — Você está brincando? Claro que eu quero! — respondeu quase pulando da cama. — Vamos!

    Aproximadamente uma hora depois, já estavam a caminho, com roupas mais casuais. Aki escolheu uma saia plissada azul-marinho com uma blusa branca leve. O cabelo solto balançava com o vento suave da manhã. Victor optou por jeans escuro e camisa polo clara.

    O trajeto de metrô foi tranquilo, e a cada parada, Aki olhava os mapas e avisos com atenção, tentando captar as palavras em francês.

    — “Prochaine station… Champ de Mars – Tour Eiffel”… — ela leu em voz alta, arrastando o sotaque.

    — Sua pronúncia até que está boa. — Victor riu.

    — Para de me zoar! Eu sei que está errado…

    — Um pouquinho. — Ele ergueu as mãos, se entregando à brincadeira. Ela não se importou com isso, rindo junto.

    Quando finalmente saíram da estação, lá estava ela. Imponente, gigantesca, dominando a paisagem de ferro contra o céu azul. A Torre Eiffel.

    Aki ficou paralisada por alguns segundos, a boca entreaberta, tentando assimilar a grandiosidade diante de seus olhos.

    — É muito… muito maior do que eu imaginei. — murmurou.

    — Impressiona, não é? — Victor concordou, também fascinado.

    Ela segurou a mão dele e o puxou sem esperar. Não queria perder um minuto. Não havia nem percebido sua ação na hora.

    No gramado do Champ de Mars, o lugar já estava repleto de turistas. Pessoas tiravam fotos e riam em grupos. Um artista de rua tocava acordeão, criando uma trilha sonora perfeita. O aroma de crepes e waffles se misturava ao ar primaveril.

    — Vamos tirar umas fotos agora?

    — Claro! — respondeu animada, puxando seu smartphone.

    Ela posicionou o celular, pedindo para um casal próximo ajudar. Ficaram lado a lado, a Torre ao fundo, e no instante do clique, Aki se inclinou, encostando o rosto no ombro dele, sorridente, mas seu rosto ligeiramente corado. 

    Eles agradeceram ao casal que ajudou e depois continuaram, tirando selfies e fotos individuais. Havia muitas cores em volta e era fácil achar ângulos para fotografias. 

    “Paris é mesmo incrível!”, Aki pensou em certo momento.

    Enquanto caminhavam, decidiram subir na atração. A fila para o elevador estava longa, enorme, mas Aki parecia não se importar. Enquanto aguardavam, observava cada detalhe: os parafusos da estrutura, as placas históricas, os idiomas diferentes das pessoas ao redor. E também conversavam entre si. Foi quando ela comentou:

    — É estranho pensar que estamos aqui, Victor. — sua voz saiu baixa. — Até alguns meses atrás… eu nem sonhava em sair do Japão para algo assim. Acho que nem mesmo imaginava sair a trabalho… ainda mais… com você… aqui… — Ela procurava palavras. 

    — Nem eu. — Ele riu, quebrando o clima embaraçoso para ela.  — Se me dissessem no Brasil que eu viria para Paris acompanhado de você… eu chamaria de piada.

    Ela o encarou por alguns segundos, os olhos brilhando, e apertou sua mão.

    — Mas, agora, eu acho que é a coisa mais maravilhosa que poderia ter acontecido comigo. — Ele sorriu. 

    O coração dela parecia que explodiria e ela tapou o rosto, parcialmente, com as mãos. Continuaram conversando, lembrando algumas coisas e comentando sobre o ambiente ao redor. 

    Victor comentou sobre como um casal de idosos, que estavam num banco próximo, eram fofos juntos. E acabou declarando sua admiração por casais mais velhos. Aki riu e acabou sentindo um sentimento difícil de explicar. “O Victor é tão amável…”

    A fila acabou andando mais rápido do que perceberam, mesmo que ainda houvesse pequenos murmúrios durante a espera. Quando o elevador finalmente começou a subir, ambos sentiram aquele frio na barriga típico. A vista ia se abrindo conforme a cabine avançava. Paris surgia sob seus pés: o rio Sena serpenteando brilhava em tons prateados pelo reflexo do sol, as avenidas largas inundadas de veículos e os telhados simétricos ao longe, como uma grande vila. 

    Ao chegarem ao outro andar, Aki correu até a grade de proteção. 

    — Victor, olha! Dá para ver quase tudo daqui! — apontava empolgada. — E lá… será que é a Catedral de Notre-Dame! Que legal!

    Ele observava a paisagem de forma empolgada. O entusiasmo dela era contagiante. Sua voz levemente mais aguda pela emoção. Emocionada até demais, quase se debruçando sobre a proteção.

    — Cuidado para não se inclinar demais. — Victor alertou, com um tom de preocupação. 

    — Eu não vou cair. — Ela riu. — Aliás, se caísse… você me pegaria, não é? — Falou com tom dramático.

    Uma brisa mais forte passou por eles naquele momento, balançando os longos cabelos negros dela. Vê-la com aquela paisagem de fundo era como admirar a mais bela pintura do mundo. O brasileiro sentiu seu coração batendo mais rápido e forte. 

    — Claro… mas de preferência, não me faça esse teste. — Ele levantou as mãos.

    Os dois riram e, depois do aviso, ela tomou mais cuidado, mantendo certa distância das beiradas.

    Passou algum tempo, até que decidiram subir até o topo. Lá em cima, o vento era mais forte, bagunçando os cabelos dela. Victor segurou os fios que batiam em seu rosto, ajudando-a a ajeitá-los.

    — Obrigada. — ela murmurou, com o rosto próximo demais.

    Por alguns instantes, esqueceram da multidão. O cenário ao redor parecia desbotar, enquanto apenas os dois permaneciam em foco. Aki encostou a cabeça no ombro dele, contemplando o horizonte.

    — É lindo demais… — disse em tom suave. — Ver tudo isso… e saber que não estou sozinha… — Ela pausou, sem terminar a frase. 

    Victor respirou fundo, absorvendo aquelas palavras. Seu peito se encheu de uma emoção tranquila, diferente da pressão da reunião do dia anterior. 

    — Eu também sinto isso. — respondeu. — Acho que não é somente essa vista maravilhosa que torna esse momento especial. É por você estar ao meu lado, Aki. — falou, serenamente.

    Ela ergueu o rosto e sorriu.

    — Você fala umas coisas que… — começou, mas interrompeu-se, apenas rindo baixinho. — Às vezes, eu não sei como reagir. — Ela apertou seu braço, procurando uma forma de afastar a vergonha. 

    — Pode reagir assim. — Ele se aproximou, depositando em sua testa um beijo sereno e rápido.

    Um grupo de turistas atrás deles aplaudiu e assobiou, em clima de brincadeira. Aki ficou vermelha até as orelhas, empurrando Victor levemente.

    — Que vergonha! — murmurou, rindo, não sabendo como sair dali. Se tivesse um buraco, ela enfiaria a cabeça dentro. 

    — Não foi ideia minha ter plateia. — Ele deu de ombros.

    A garota, por mais que estivesse transbordando de felicidade e empolgação, em igualdade disso estava envergonhada com a situação que desenrolou. Porém, a mesma confiança que descobriu no dia anterior, ainda podia ser sentida. 

    “Não sou mais aquela garotinha chorona!”, exclamou em pensamentos, como se brigasse consigo, mantendo a pose. 

    Lembrou-se de um dia específico do passado quando Natsu perguntou: “Quando vai parar de ser tão medrosa, Aki?”. O motivo da pergunta foi quando ela disse ter corrido por três meninas do colégio tentaram chantageá-la. “Você precisa ser mais forte! Encare os problemas de frente, irmãzinha!”

    Com a lembrança, a expressão de felicidade em seu rosto foi ainda mais genuíno. Victor também percebeu um sorriso diferente, mas não comentou, apenas se sentindo grato por estar vivendo aquele momento ao lado dela. 

    Depois de mais algum tempo explorando o topo, decidiram descer. Pararam em uma das lojinhas de lembranças dentro da torre. Aki olhou fixamente para uma miniatura da Torre Eiffe del cor dourada.

    — Bonita, não? — Victor perguntou.

    — Uhum… mas meio clichê, né?

    — Então é perfeita. — Ele pegou a peça e a levou ao caixa.

    Ela protestou:

    — Não precisava…

    — Eu sei. Mas quero. Para você lembrar desse dia. Uma lembrancinha para a gente. 

    Aki segurou a miniatura com carinho, abraçando-a contra o peito como se fosse algo precioso.

    — Então, obrigada! 

    Eles até pensaram, logo depois, em levar algumas lembrancinhas, e depois que fizeram, finalmente desceram da torre. 

    De volta ao gramado do Champ de Mars, o sol ainda estava no céu. Compraram dois crepes e se acomodaram na grama em algum ponto dela.

    Victor deu uma mordida no dele. Um silêncio confortável pairava, apenas o som distante da cidade e conversas diversas preenchendo o ar. Aki também comeu o seu crepe, que era doce. Enquanto conversavam ali, percebeu que parecia uma cena de série de romance e, embora estivesse tímida, riu da situação. 

    Acabaram entrando também em uma discussão breve sobre destino e como tudo se encaixou até aquele momento. Quando voltaram ao hotel, decidiram descansar. Iriam sair no próximo dia cedo e voltariam ao Japão, para a próxima importante reunião, em Nagano. 

    Antes de dormirem, ainda relembraram alguns momentos, até mesmo revisando as fotos. Aki aproveitou para enviar algumas para Sayuri, Yumi, Natsu e Fuyu. Claro, para seus pais e Haru também. A garota não gostava de usar redes sociais, assim como Victor mantinha as suas desativadas. Então, a única forma de compartilhar elas era em conversas privadas no aplicativo de mensagens.

    As amigas soltaram várias provocações e falsa inveja, na verdade, sentindo-se muito felizes por Aki. Seus irmãos também a questionaram, falando para não fazerem nada estranho, claramente provocando a irmã. Também enviaram, para Victor, frases de ameaças, em brincadeira. 

    Haru, junto com seus pais, ficaram muito felizes e até fizeram uma vídeo chamada. A caçula ficou muito feliz em ver Victor e Aki juntos em Paris, até fazendo comentários românticos e a irmã mais velha ficando com vergonha. 

    Enquanto estavam deitados, Aki adormeceu primeiro. Victor ficou pensativo, enquanto várias coisas passavam por sua cabeça. Tudo que aconteceu e tudo que estava acontecendo recentemente… como aquilo poderia ser tudo coincidência? Será que o destino realmente existia? Ele riu internamente enquanto criava essas análises abstratas.

    Por mais que fosse muito experiente de vida, vivido e até fosse viúvo, sentia que estava experimentando coisas novas com Aki. Não era sobre viagens, pois fazia muitas quando ainda era casado e nem era sobre a Aki em específico, pois também amou a sua ex-esposa, Fernanda, profundamente. Uma lágrima escapou de seus olhos quando acabou caindo nesse lapso de pensamentos e precisou se forçar a não pensar demais nisso. 

    Ele apenas olhou para Aki e a admirou por alguns instantes, que já estava com a respiração mais controlada e o rosto sereno. Ele tocou, levemente e cheio de carinho, o rosto dela, enquanto sussurrava um “obrigado”.

    No fim, acabaram dormindo relativamente cedo, por mais que Victor tenha demorado um pouco mais. Eles sabiam que na próxima semana iriam participar de outro evento muito importante, em Nagano, não deixando de relembrar os pais desse fato quando conversaram naquela noite.

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