Capítulo 7: Papel Manchado de Rosa
Roseta anda tranquila ao lado de Lux, rindo e sorrindo.
— Moça Roseta… posso te perguntar uma coisa? — ele olha para o rosto dela.
— Claro que pode.
— Você é alguém solitária? — a voz dele é baixa, quase envergonhada pela pergunta.
— Não sou necessariamente… mas por que alguém tão novo faz uma pergunta tão subjetiva? — Roseta olha preocupada.
— Não é nada, moça Roseta.
— Eu vou fingir que acredito — ela responde, mas não insiste.
Um alarme começa a soar.
Tudo brilha em vermelho.
Vários homens aparecem.
— Era só o que me faltava. Fica para trás, garoto.
Bak. Bak. Bak.
É o barulho que ecoa antes de Alicex arrombar a porta do quarto e criar correntes que puxam todos para fora.
— Acordem, idiotas! Está rolando uma guerra de facção!
As sirenes soam agressivas.
Todos se levantam do chão.
— Guerra? — Ré pergunta confusa.
— Sim. Aravo pediu para irmos até a facção do Jasy. Foi descoberto que sua amiguinha está lá, então temos que ir rápido.
Eles começam a correr, pegando as rotas, mas precisam entrar na área de combate.
— Vamos acabar com isso rápido — Pionla diz, invocando sua tesoura e mandando-a picotar os inimigos.
Bauvalier usa a espada de maneira errática, destruindo tudo.
— O que vocês estão fazendo?! — Alicex cria uma corrente e puxa o braço de Pionla para outra direção, fazendo a tesoura sumir.
— Quem você pensa que é para me desconcentrar? — Pionla invoca a tesoura novamente.
— Não é para matar! Não vê que algo está errado? Tenha o mínimo de cérebro!
— Não diga o que devo fazer. E segundo: eles não estão em plena sanidade. Se for obra de algo do Carmim, já devem estar perdidos.
Pionla abre a tesoura e a coloca bem perto do pescoço de Alicex.
— Sua falta de noção me irrita, garota. Então não me teste.
Alicex se aproxima ainda mais da lâmina.
— Senão o quê? Vai me matar? Você sabe que não teria coragem. Sabe que sou a única disposta a guiar vocês para fora daqui.
Pionla afasta a tesoura dela e a lança nos inimigos, retalhando-os sem piedade.
— Não é porque você é importante agora que será mais tarde.
— Isso é por terem pego a Roseta! — Bauvalier diz de forma errática; o sentimento aflora ao saber que sequestraram alguém tão importante para ele.
A tesoura da divindade decapita inimigos com morte rápida.
A espada corta ao meio, fazendo-os gritar.
Movimentos leves com as mãos guiam a tesoura: braços, depois pernas, e por fim a cabeça.
Magia divina destrói corpos.
Corpos caem em retalhos.
Alicex observa com raiva, sabendo que não pode fazer nada contra eles.
Ré joga “likes” nos inimigos, apenas deixando-os inconscientes.
Ela olha os corpos mortos feitos pelos amigos e engole em seco.
Seus olhos se fixam em um detalhe nas armas: uma lua cheia vermelha.
Bak. Bak. Bak.
É o som de corpos desmaiados caindo no chão enquanto Roseta ajusta a rapieira.
— Temos que achar seu pai rápido, Lux — Roseta diz com urgência.
Ele segura a mão dela e corre com ela entre vários corredores até chegarem a um corredor que se abre para dois lados. A porta do quarto do pai dele fica bem no meio, tão perto.
— Ótimo, vamos ver se conseguimos resolver tudo isso — ela diz, animada.
A porta se abre.
Jasy sai coçando a cabeça.
Ele olha para Roseta e para o filho.
Uma espada vem na direção dele.
Ele se defende usando uma caneta.
Ia falar —
Mas uma tesoura corta sua cabeça.
A tesoura não para.
Ela avança em direção a Lux.
Com um movimento ligeiro, Roseta rebate a lâmina com a rapieira.
A tesoura retorna para quem a lançou.
Pionla.
— Pionla! O que você tentou fazer? Tentou matar uma criança?! — Roseta grita, enquanto Lux está sentado contra a parede, chorando. — Você tem noção de que pode ter começado um problema geopolítico? Você tem algo na cabeça?!
Ela aponta a rapieira para Bauvalier, que está ao lado de Pionla.
— E você! Devia ser racional, pelo menos um pouco mais que madame Pionla. Mas o ataque inicial foi seu. Eu reconheço a sua espada.
— Eu… eu apenas… quando soube que você foi sequestrada e vi eles… eu perdi a cabeça — Bauvalier tenta se defender.
— Isso não é desculpa para matarem alguém que não representava ameaça. Segundo, vocês são deuses… por que precisavam de tal atitude? — o olhar de Roseta vai para a criança. — Espero que não tenham feito coisas piores para chegar até aqui.
— Não seja ingrata. Estávamos tentando te salvar. E além disso, a maioria desses mortais já estava condenada pelo Carmesim — Pionla retruca.
— Só escuto desculpas para um crime de guerra. E sobre sua afirmação… você já pensou que, se nossa missão fosse concluída, eles poderiam se livrar disso? — Roseta responde sem filtro.
Alicex aparece logo atrás.
Quando vê o corpo de Jasy caído, sem cabeça, ela para.
O mundo parece ficar mudo por um segundo.
Ela caminha até ele e se ajoelha, abraçando o corpo.
— Jasy… Jasy, por favor… não…
Ela chora.
Depois se vira para os deuses.
— Vocês vieram pra cá só pra causar mais desgraça do que já existe nesse reino?!
Lux vê Alicex e corre até ela, abraçando-a, o rosto encharcado de lágrimas.
— Alicex… meu pai…
Ele treme.
— Espero que estejam felizes — Alicex diz, abraçando o menino com mais força. — Saiam daqui. AGORA!
— Você não pode— — Pionla começa.
— Vão vocês dois. Eu quero conversar com o Lux e a Alicex — Roseta interrompe, a voz cortante como lâmina.
Pionla e Bauvalier hesitam, mas vão.
Ré chega logo depois e vê a cena inteira.
O corpo.
O menino.
O sangue.
— O que aconteceu aqui, Roseta…? — ela pergunta, a voz baixa.
— Pionla e Bauvalier fizeram uma besteira muito grande.
Roseta se aproxima de Alicex.
— Peço desculpas pela atitude sanguinária dos meus amigos. Eu não vou defendê-los por isso.
Ela olha para Lux.
— Ele vai para onde agora que o pai dele não está mais aqui?
— Ele vai para um orfanato… ou talvez tenha que carregar o peso de ser líder da facção do Jasy. Mesmo que eu não queira deixar ele sozinho, nossas regras são rígidas. E depois desse genocídio… vão ficar ainda mais rígidas.
Ela passa a mão no cabelo do menino.
— Eu não te culpo, Roseta. Mesmo sendo da elite, você não fez nada. Na verdade, você também foi vítima. Foi sequestrada… e eu sinto muito por isso.
— Desculpa, Ali… eu não devia ter pedido pra irmos por aqui. Talvez pelo deserto ou pela floresta isso não teria acontecido — Ré diz, olhando para o chão.
— Você não é culpada das atitudes de terceiros. Principalmente porque você não matou ninguém.
Alicex respira fundo.
O maxilar dela treme de raiva contida.
— Mas minha vontade é meter a mão naqueles dois. Só que não vou fazer isso. Vou levar vocês até a fronteira… porque eu sou alguém de palavra.
Lux aperta ainda mais a roupa dela.
Roseta entrega um cartão para Alicex.
— Liga para esse número. Vou dar uma grande quantidade de dinheiro como pedido de desculpas. E não se preocupe, isso vai ser para vocês… para o povo.
— E outra coisa… se for possível levar o Lux para a Mansão Rose, ele será muito bem-vindo. Pode ficar lá e aproveitar os luxos. Sei que nunca vou poder retirar os males que meus amigos fizeram, mas estou disposta a ajudar.
A voz dela é mansa.
— Agradeço. Com certeza vou ligar — Alicex pega o cartão.
— É só você ligar que vão me mandar uma mensagem confirmando, e então eu confirmo o envio.
Roseta procura o celular e percebe que sumiu.
Ré pega outro celular e entrega para ela.
— Obrigada, Ré.
— Certo… vou mandar esse meninão para alguém que leve ele até sua mansão — Alicex se levanta e seca as lágrimas. — Não vamos perder tempo. Você fica aqui, Lux, que eu já volto para te levar.
Todas saem e deixam ele ali.
— Vamos, vamos — Ré chama Pionla e Bauvalier, que estavam de cara fechada encostados na parede.
Eles andam até o ponto onde o chão muda de papel para lona.
Do outro lado da fronteira, músicas circenses podem ser ouvidas. Risadas exageradas. Tendas coloridas se erguendo no horizonte.
— Aqui eu me despeço de vocês — Alicex diz.
O celular vibra. Ela lê a mensagem e se vira para Pionla.
— Você lembra que disse que estaria em dívida com o Aravo? Então… ele quer essa dívida em dinheiro direto para a conta dele. O mesmo valor que vocês deram da última vez, mas agora para alguém que vai usar.
Pionla estala os dedos e um pequeno brilho surge no ar.
— Pronto. Considere também um pedido de desculpas. Realmente nos exaltamos.
— Certo… certo. Agora, até nunca mais.
Alicex se vira e vai embora.
O grupo avança em direção ao Circo das Maravilhas.
Enquanto isso, Alicex retorna para Aravo.
— Estamos próximos do próximo artefato. Espero que seja fácil — Pionla diz.
Mas o silêncio que se segue dói.
Nenhum dos três responde.
Ao fundo, a música do circo continua tocando.

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