Roseta anda tranquila ao lado de Lux, rindo e sorrindo.

    — Moça Roseta… posso te perguntar uma coisa? — ele olha para o rosto dela.

    — Claro que pode.

    — Você é alguém solitária? — a voz dele é baixa, quase envergonhada pela pergunta.

    — Não sou necessariamente… mas por que alguém tão novo faz uma pergunta tão subjetiva? — Roseta olha preocupada.

    — Não é nada, moça Roseta.

    — Eu vou fingir que acredito — ela responde, mas não insiste.

    Um alarme começa a soar.

    Tudo brilha em vermelho.

    Vários homens aparecem.

    — Era só o que me faltava. Fica para trás, garoto.

    Bak. Bak. Bak.

    É o barulho que ecoa antes de Alicex arrombar a porta do quarto e criar correntes que puxam todos para fora.

    — Acordem, idiotas! Está rolando uma guerra de facção!

    As sirenes soam agressivas.

    Todos se levantam do chão.

    — Guerra? — Ré pergunta confusa.

    — Sim. Aravo pediu para irmos até a facção do Jasy. Foi descoberto que sua amiguinha está lá, então temos que ir rápido.

    Eles começam a correr, pegando as rotas, mas precisam entrar na área de combate.

    — Vamos acabar com isso rápido — Pionla diz, invocando sua tesoura e mandando-a picotar os inimigos.

    Bauvalier usa a espada de maneira errática, destruindo tudo.

    — O que vocês estão fazendo?! — Alicex cria uma corrente e puxa o braço de Pionla para outra direção, fazendo a tesoura sumir.

    — Quem você pensa que é para me desconcentrar? — Pionla invoca a tesoura novamente.

    — Não é para matar! Não vê que algo está errado? Tenha o mínimo de cérebro!

    — Não diga o que devo fazer. E segundo: eles não estão em plena sanidade. Se for obra de algo do Carmim, já devem estar perdidos.

    Pionla abre a tesoura e a coloca bem perto do pescoço de Alicex.

    — Sua falta de noção me irrita, garota. Então não me teste.

    Alicex se aproxima ainda mais da lâmina.

    — Senão o quê? Vai me matar? Você sabe que não teria coragem. Sabe que sou a única disposta a guiar vocês para fora daqui.

    Pionla afasta a tesoura dela e a lança nos inimigos, retalhando-os sem piedade.

    — Não é porque você é importante agora que será mais tarde.

    — Isso é por terem pego a Roseta! — Bauvalier diz de forma errática; o sentimento aflora ao saber que sequestraram alguém tão importante para ele.

    A tesoura da divindade decapita inimigos com morte rápida.

    A espada corta ao meio, fazendo-os gritar.

    Movimentos leves com as mãos guiam a tesoura: braços, depois pernas, e por fim a cabeça.

    Magia divina destrói corpos.

    Corpos caem em retalhos.

    Alicex observa com raiva, sabendo que não pode fazer nada contra eles.

    Ré joga “likes” nos inimigos, apenas deixando-os inconscientes.

    Ela olha os corpos mortos feitos pelos amigos e engole em seco.

    Seus olhos se fixam em um detalhe nas armas: uma lua cheia vermelha.

    Bak. Bak. Bak.

    É o som de corpos desmaiados caindo no chão enquanto Roseta ajusta a rapieira.

    — Temos que achar seu pai rápido, Lux — Roseta diz com urgência.

    Ele segura a mão dela e corre com ela entre vários corredores até chegarem a um corredor que se abre para dois lados. A porta do quarto do pai dele fica bem no meio, tão perto.

    — Ótimo, vamos ver se conseguimos resolver tudo isso — ela diz, animada.

    A porta se abre.

    Jasy sai coçando a cabeça.

    Ele olha para Roseta e para o filho.

    Uma espada vem na direção dele.

    Ele se defende usando uma caneta.

    Ia falar —

    Mas uma tesoura corta sua cabeça.

    A tesoura não para.

    Ela avança em direção a Lux.

    Com um movimento ligeiro, Roseta rebate a lâmina com a rapieira.

    A tesoura retorna para quem a lançou.

    Pionla.

    — Pionla! O que você tentou fazer? Tentou matar uma criança?! — Roseta grita, enquanto Lux está sentado contra a parede, chorando. — Você tem noção de que pode ter começado um problema geopolítico? Você tem algo na cabeça?!

    Ela aponta a rapieira para Bauvalier, que está ao lado de Pionla.

    — E você! Devia ser racional, pelo menos um pouco mais que madame Pionla. Mas o ataque inicial foi seu. Eu reconheço a sua espada.

    — Eu… eu apenas… quando soube que você foi sequestrada e vi eles… eu perdi a cabeça — Bauvalier tenta se defender.

    — Isso não é desculpa para matarem alguém que não representava ameaça. Segundo, vocês são deuses… por que precisavam de tal atitude? — o olhar de Roseta vai para a criança. — Espero que não tenham feito coisas piores para chegar até aqui.

    — Não seja ingrata. Estávamos tentando te salvar. E além disso, a maioria desses mortais já estava condenada pelo Carmesim — Pionla retruca.

    — Só escuto desculpas para um crime de guerra. E sobre sua afirmação… você já pensou que, se nossa missão fosse concluída, eles poderiam se livrar disso? — Roseta responde sem filtro.

    Alicex aparece logo atrás.

    Quando vê o corpo de Jasy caído, sem cabeça, ela para.

    O mundo parece ficar mudo por um segundo.

    Ela caminha até ele e se ajoelha, abraçando o corpo.

    — Jasy… Jasy, por favor… não…

    Ela chora.

    Depois se vira para os deuses.

    — Vocês vieram pra cá só pra causar mais desgraça do que já existe nesse reino?!

    Lux vê Alicex e corre até ela, abraçando-a, o rosto encharcado de lágrimas.

    — Alicex… meu pai…

    Ele treme.

    — Espero que estejam felizes — Alicex diz, abraçando o menino com mais força. — Saiam daqui. AGORA!

    — Você não pode— — Pionla começa.

    — Vão vocês dois. Eu quero conversar com o Lux e a Alicex — Roseta interrompe, a voz cortante como lâmina.

    Pionla e Bauvalier hesitam, mas vão.

    Ré chega logo depois e vê a cena inteira.

    O corpo.

    O menino.

    O sangue.

    — O que aconteceu aqui, Roseta…? — ela pergunta, a voz baixa.

    — Pionla e Bauvalier fizeram uma besteira muito grande.

    Roseta se aproxima de Alicex.

    — Peço desculpas pela atitude sanguinária dos meus amigos. Eu não vou defendê-los por isso.

    Ela olha para Lux.

    — Ele vai para onde agora que o pai dele não está mais aqui?

    — Ele vai para um orfanato… ou talvez tenha que carregar o peso de ser líder da facção do Jasy. Mesmo que eu não queira deixar ele sozinho, nossas regras são rígidas. E depois desse genocídio… vão ficar ainda mais rígidas.

    Ela passa a mão no cabelo do menino.

    — Eu não te culpo, Roseta. Mesmo sendo da elite, você não fez nada. Na verdade, você também foi vítima. Foi sequestrada… e eu sinto muito por isso.

    — Desculpa, Ali… eu não devia ter pedido pra irmos por aqui. Talvez pelo deserto ou pela floresta isso não teria acontecido — Ré diz, olhando para o chão.

    — Você não é culpada das atitudes de terceiros. Principalmente porque você não matou ninguém.

    Alicex respira fundo.

    O maxilar dela treme de raiva contida.

    — Mas minha vontade é meter a mão naqueles dois. Só que não vou fazer isso. Vou levar vocês até a fronteira… porque eu sou alguém de palavra.

    Lux aperta ainda mais a roupa dela.

    Roseta entrega um cartão para Alicex.

    — Liga para esse número. Vou dar uma grande quantidade de dinheiro como pedido de desculpas. E não se preocupe, isso vai ser para vocês… para o povo.
    — E outra coisa… se for possível levar o Lux para a Mansão Rose, ele será muito bem-vindo. Pode ficar lá e aproveitar os luxos. Sei que nunca vou poder retirar os males que meus amigos fizeram, mas estou disposta a ajudar.

    A voz dela é mansa.

    — Agradeço. Com certeza vou ligar — Alicex pega o cartão.

    — É só você ligar que vão me mandar uma mensagem confirmando, e então eu confirmo o envio.

    Roseta procura o celular e percebe que sumiu.
    Ré pega outro celular e entrega para ela.

    — Obrigada, Ré.

    — Certo… vou mandar esse meninão para alguém que leve ele até sua mansão — Alicex se levanta e seca as lágrimas. — Não vamos perder tempo. Você fica aqui, Lux, que eu já volto para te levar.

    Todas saem e deixam ele ali.

    — Vamos, vamos — Ré chama Pionla e Bauvalier, que estavam de cara fechada encostados na parede.

    Eles andam até o ponto onde o chão muda de papel para lona.
    Do outro lado da fronteira, músicas circenses podem ser ouvidas. Risadas exageradas. Tendas coloridas se erguendo no horizonte.

    — Aqui eu me despeço de vocês — Alicex diz.

    O celular vibra. Ela lê a mensagem e se vira para Pionla.

    — Você lembra que disse que estaria em dívida com o Aravo? Então… ele quer essa dívida em dinheiro direto para a conta dele. O mesmo valor que vocês deram da última vez, mas agora para alguém que vai usar.

    Pionla estala os dedos e um pequeno brilho surge no ar.

    — Pronto. Considere também um pedido de desculpas. Realmente nos exaltamos.

    — Certo… certo. Agora, até nunca mais.

    Alicex se vira e vai embora.

    O grupo avança em direção ao Circo das Maravilhas.

    Enquanto isso, Alicex retorna para Aravo.

    — Estamos próximos do próximo artefato. Espero que seja fácil — Pionla diz.

    Mas o silêncio que se segue dói.

    Nenhum dos três responde.

    Ao fundo, a música do circo continua tocando.

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