Noah encara a tela ainda escura. O reflexo da própria sombra se mistura àquela escuridão.

     Ele respira fundo. A voz que sai é baixa, rouca… antiga.

    — Eles mataram uma criança… e chamaram o nome errado. Agora vão conhecer o verdadeiro significado do medo.

    O silêncio pairou após a frase de Noah. Grilos podiam ser ouvidos ao longe, mas ali dentro, o ar parecia pesar toneladas. Uma tensão sufocante tomava o ambiente, como se o próprio tempo tivesse parado.

    — Pai… ela tá bem? — Perguntou a pequena Mia, com os olhos cheios de lágrimas, quebrando o silêncio como um estalo no vazio.

    Sem esperar resposta, ela correu até Ana, jogando-se em seus braços. Agarrou-se com toda a força, enterrando o rosto em seu abdômen. Suas lágrimas encharcaram a camisa de Ana, e seu coraçãozinho disparava como se fosse explodir. A expressão em seu rosto era puro pavor.

    Ana a acolheu, apertando-a com ternura, passando a mão devagar por seus cabelos e sussurrando com voz suave:

    — Está tudo bem… vai ficar tudo bem, minha flor…

    Mia virou o rosto na direção de Noah, os olhos transbordando tristeza e medo. A voz saiu embargada, implorando com o coração partido:

    — Você vai salvar ela, né…? Como salvou a mim?

    Noah ajoelhou-se ao lado dela, com o olhar firme e cheio de dor contida. Passou a mão no cabelo da filha e respondeu com uma calma que escondia um furacão:

    — Claro, pequena… Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

    Ele se virou para Ana e a beijou. Um beijo lento, profundo, carregado de amor e tensão — como se soubesse que talvez aquele fosse o último momento de paz por um bom tempo.

    — Amor… vai brincar com ela e com a Carolina. — Disse ele suavemente.

    Ana sorriu com doçura, mesmo com o coração apertado. Pegou Mia no colo, deu um leve aceno com a cabeça e foi até Carolina, que prontamente estendeu a mão. As duas seguiram com as meninas para o andar de cima.

    O ambiente voltou ao silêncio.

    Até que Lipe, sempre com seu jeito debochado e inconformado, bufou e se jogou no sofá, ao lado de Ycaro.

    — Bem… parece que isso aconteceu no Brasil, já que o idioma é português. — Disse ele, com um tom irônico e cansado. — E aí? Vai chegar lá e sair matando geral? É isso?

    Noah ficou em silêncio por um instante, encarando o chão como se cavasse respostas com os olhos. Prendeu parte de suas tranças para trás, deixando quatro delas caídas sobre o rosto. Seu olhar, agora sombrio e calculado, se ergueu.

    — Não… Não dá pra simplesmente sair matando. Apesar de ser meu jeito “convencional” de resolver situações. — Disse ele com um meio sorriso amargo. — Primeiro, precisamos entender o que está realmente acontecendo.

    Ele ergueu o rosto e falou, com firmeza:

    — Nina, rastreie a origem do vídeo. Vasculhe os bancos de dados da polícia local e da imprensa. Quero um relatório completo. Tudo o que encontrarmos sobre esse caso… ou o que estão tentando esconder.

    — Certo, pai. Iniciando varredura. — Respondeu a inteligência artificial Nina, com sua voz calma e precisa.

    — Oliver — Continuou Noah, virando-se para o filho que já segurava o notebook. — Entre em contato com seus irmãos no Brasil. Descubra o que puder. Puxe as cordas certas, devagar… e vê se alguém lá ainda não vendeu a alma.

    — Deixa comigo. — Respondeu Oliver, já digitando com intensidade, seus olhos brilhando com a luz da tela. — Se tiver algo errado, a gente vai saber.

    O silêncio caiu mais uma vez. Mas dessa vez, era um silêncio diferente. O tipo de silêncio que antecede uma tempestade.

    Ycaro olhava para Noah com um sorrisinho maroto, recostado no sofá com os braços cruzados.

    — Você fica gostosão assim, sério… — Disse ele, apontando com o queixo para o visual de Noah com as tranças caídas no rosto. — Tipo, estilo serial killer sexy.

    Noah revirou os olhos e respondeu seco:

    — Não começa, viado. Já basta eu ter que aturar o Lipe dançando “Single Ladies” no chuveiro.

    — Inveja é foda — Rebateu Lipe, jogando uma almofada no Noah. — Eu sou um espetáculo molhado.

    Samantha riu, jogada numa poltrona, pernas cruzadas, braços atrás da cabeça. Oliver já se afastava da sala com o notebook em mãos, indo na direção do próprio quarto. Não disse nada, apenas focado e com o cenho franzido.

    — Ei, precisa de ajuda com os dados? — Perguntou Samantha, se levantando como quem não quer nada.

    — Tô de boa. — Oliver disse sem olhar, mas diminuiu o passo quando ouviu o som das botas dela seguindo atrás.

    — Só vou garantir que não vai explodir nada — ela disse debochada, mas havia algo a mais na voz. Uma ponta de ansiedade, uma vontade sufocada.

    O ambiente da sala foi tomado por um zumbido sutil, seguido de passos leves quase imperceptíveis, menos para o trio que estava na sala. 

    A porta lateral se abriu, e dela. saiu uma  mulher de olhar gentil e pele pálida, olhos verdes brilhantes. cabelos longos e ondulados, fios negros e pontas grisalhas. corpo belo e vestia uma camisa longa e calca moletom.

    Ela parou diante de Noah com uma postura impecável, as irias giravam suavemente analisando. 

    — Relatório completo, pai — Disse ela com sua voz clara, suave, quase hipnotizante. — E… temos um problema muito mais profundo do que previsto.

    Noah se virou para encará-la, braços cruzados, o olhar afiado.

    — Diga, Nina.

    — A taxa de criminalidade nas capitais aumentou em 28% nas últimas duas semanas. Mas em áreas interioranas… o número é incalculável. Há zonas onde não há mais presença da polícia — ou melhor, onde a própria polícia foi substituída. E os confrontos estão sendo encobertos por supostos incêndios, colapsos civis ou falhas elétricas. A mídia? Silenciosa.

    — Até aí, previsível… — Murmurou Ycaro, passando a mão pelo cabelo. — Mas tem mais, né?

     Nina assentiu, seus olhos verdes se estreitando levemente.

    — Sim. Identifiquei múltiplas transações suspeitas. Grandes somas de dinheiro sendo movimentadas de dentro do Palácio do Planalto para uma instituição chamada Anjos da Cura. Um hospital particular com diversas filiais pelo país, oficialmente voltado para tratamentos de ponta em áreas neurológicas e genéticas. Mas o dinheiro não está indo para pesquisa. Está sendo redirecionado para logística armada, vigilância privada e desaparecimento de dados.

    Lipe se ajeitou no sofá, arregalando os olhos.

    — Espera aí… tu tá dizendo que o governo tá bancando os caras?

    Nina projetou um holograma diante deles. A imagem de uma mulher deslumbrante com cabelos loiros platinados lisos até a cintura, olhos azul-gelo penetrantes e pele alva impecável. Alta, com corpo elegante e curvilíneo. Usa ternos femininos marcantes  brancos, saltos altos e luvas de couro.

    — Bella, atual presidente do Brasil. Ela é a maior financiadora do Anjos da Cura. Todos os caminhos levam até ela.

    Um silêncio tenso se espalhou como fumaça.

    Noah fechou a mandíbula com força.

    — Trago notícias, pai. — Disse Oliver, entrando na sala com um tablet branco em mãos. Atrás dele, a imponente silhueta de Samantha preenchia o espaço com sua presença firme e silenciosa.

    — Diga, meu jovem. — Respondeu Noah, com a voz firme, porém cansada, enquanto massageava as têmporas.

    — O celular do Draco está fora de área. A última localização registrada foi há um mês… numa cidade do interior do Rio de Janeiro. — Disse Oliver, caminhando com Samantha até uma das poltronas. Ela se jogou com naturalidade, cruzando as pernas. Ele sentou-se no braço da poltrona, mantendo os olhos na tela. — E o Bart ainda tem sinal, mas… não tá atendendo.

    — Tentou rastreá-lo?

    — Rastreei pelo nosso satélite. Ele está numa área rural chamada Mutuípe… interior da Bahia. — Respondeu, deslizando os dedos pela tela. — E não está sozinho. Charlotte tá com ele.

    — Tem certeza?

    — A imagem térmica deles foi reconhecida tanto pelo satélite quanto pela minha querida irmã Nina. — Disse Oliver, dando um leve sorriso orgulhoso, apoiando o tablet no colo. Nesse instante, um calafrio percorreu sua espinha. A mão de Samantha pousou em sua cintura com suavidade e o puxou para seu colo, como se ele fosse leve como um travesseiro.

    — Resolveu me matar de susto com esse aperto? — Perguntou ele, com um sorriso torto e um leve arquejo.

    — Se eu quisesse te matar com um aperto, seria com um estrangulamento bem sexy no seu pescoço. — Murmurou Samantha em seu ouvido, antes de morder de leve o lóbulo da orelha dele, provocante e cheia de intenção.

    — Eita, porra… Noah vai ganhar um netinho. — Comentou Lipe com um riso escancarado, apontando para o casal improvisado.

    — Imagina o Lipe dizendo: “A grande Baba Yaga virou vovô.” — Disse Ycaro, rindo até perder o fôlego.

    Noah soltou um suspiro profundo, impassível como sempre, mas não sem uma leve veia pulsando na testa.

    — Continue, meu jovem. E vocês dois… podem guardar esses atos promíscuos para um quarto fechado, por favor.

    Oliver limpou a garganta, tentando manter a compostura, apesar do sorriso mal escondido.

    — Certo. Pelos dados da Nina, parece que os dois estavam lidando com alguma coisa. A temperatura corporal deles estava oscilando de forma estranha… pode indicar estresse ou combate. É difícil saber sem mais dados.

    Noah cruzou os braços, o olhar ficando mais sério.

    — Tente ligar para o Bart de novo. Se não responder, ligue para a Charlotte. Quero saber o que está acontecendo agora.

    Oliver assentiu, mas seus olhos pareciam inquietos. Alguma coisa no fundo do peito dizia que eles estavam prestes a entrar numa tempestade muito maior do que pareciam preparados para enfrentar..

    Em uma área rural, na entrada de uma cidade esquecida, a estrada de terra estava coberta por uma camada espessa de poeira fina e manchas de sangue ainda fresco. 

    Cadáveres jaziam espalhados pela areia e entre o mato alto, alguns mutilados de forma grotesca, outros com perfurações profundas de faca. 

    Carros destruídos, com os faróis ainda acesos, lançavam luzes trêmulas que dançavam entre as árvores, criando sombras macabras.

    O ar estava impregnado com o cheiro sufocante de pólvora, ferro e carne queimada. Um silêncio esmagador dominava tudo — sem canto de pássaros, sem vento, apenas o chiado distante de um rádio morrendo, como se até os sons estivessem em luto.

    No centro da estrada, imóvel como uma escultura de um pesadelo, um jovem negro permanecia de pé. O olhar apático contrastava com o rosto salpicado de sangue. Em sua mão direita, um machado ainda pingava sangue quente, gota por gota,  como um relógio sinistro marcando o fim de mais uma vida.

    À sua frente, um homem se arrastava com dificuldade, gemendo baixo, com uma marca grotesca rasgada nas costas. Cada movimento era puro sofrimento.

    — Onde você pensa que vai? — Disse o jovem com um sorriso torto e debochado, enquanto chutava o homem com força. O corpo voou, batendo violentamente contra a lataria de um carro.

     O impacto arrancou dele um jorro de sangue. Caiu sentado, tonto, tentando respirar.

    — Senhor Bart… por favor… me deixe ir… eu tenho uma filhinha me esperando em casa… — Implorou, curvando-se em súplica. Mas, ao notar um revólver caído perto de si, um brilho malicioso surgiu em seu olhar.

    Os olhos verdes de Bart desviaram sutilmente, indo até a silhueta de uma figura sentada no capô de um carro. A pessoa girava uma faca nos dedos com a mesma leveza de quem brinca com uma caneta, completamente indiferente ao cenário de carnificina.

    Então aconteceu.

    Um clarão. O estampido seco de um disparo rasgando o silêncio. Uma risada vitoriosa.

    — Hahaha! Meu rei vai me recompensar MUITO bem! Eu matei a Sétima Pintura…!

    Mas a comemoração morreu na garganta.

    O homem congelou. Sua expressão se tornou confusa, depois apavorada. O que ele viu parecia impossível.

    No ar, a bala havia sido cortada — em pleno voo.

    Partes do projétil ainda caíam ao chão, enquanto a outra metade repousava sobre a lâmina do machado ensanguentado de Bart. 

    Um golpe tão rápido e preciso que desafiava qualquer lógica. A pressão no ar aumentou. A atmosfera ficou mais densa, como se a própria realidade hesitasse em continuar.

    O homem começou a tremer. Sua mente tentava negar, mas era impossível: diante dele estava alguém que não parecia humano. Um demônio, talvez… ou algo ainda pior.

    — As pessoas que você e esse seu rei estúpido querem matar… também têm famílias. — Murmurou Bart, sua voz saindo como aço frio arranhando a alma.

    Com um movimento seco e brutal, Bart fez a cabeça do homem se desprender do pescoço. Ela rolou devagar pela areia suja, os olhos ainda arregalados, a expressão congelada em um misto de choque e terror absoluto.

    Bart tinha tranças longas, ruivas nas raízes e negras nas pontas. Seus olhos verdes ardiam como brasas em meio ao inferno. Corpo magro, definido, braços fortes. No ombro, uma tatuagem: da letra “P”.

    Vestia uma regata branca manchada de sangue, calça jeans preta rasgada nos joelhos, uma corrente de prata balançava no peito e óculos redondos, com a lente direita tingida por uma leve mancha de sangue. Seus pés descalços pisavam a areia quente como se pertencesse àquele inferno — ou fosse seu dono.

    — Você acha que essa noite agitada acabou, meu bem? — A voz suave e provocante vinha de uma mulher pálida, com um olhar intrigante e um sorriso travesso que parecia esconder segredos demais. Tinha cabelos longos e volumosos, brancos como neve, com pontas azuladas. Seus olhos azuis vibravam como neon em dia de apagão, e o batom azul destacava ainda mais os lábios carnudos. Seu corpo era magro, definido, com estatura mediana e uma tatuagem na barriga: da letra P. Usava um cropped preto, short jeans e sapatos brancos — um look casual, mas letal.

    — Provavelmente ainda não… — respondeu Bart, com um suspiro cansado.

    — Sério? Ai, que saco! Eu queria ir pra casa… tô com fome. — Disse Charlotte, fazendo bico como uma criança mimada, mas com a energia de quem quebraria ossos se tivesse que esperar mais cinco minutos.

    — Vamos acabar com isso rápido. Sabe… sempre me impressiono: você nunca se suja de sangue.

    — Você sabe que eu tenho nojo de encostar nessas coisas. Eca. — Respondeu ela, cruzando os braços, com um olhar blasé.

    Bart ia retrucar, mas uma vibração em seu bolso o interrompeu. Ele enfiou a mão na calça e tirou seu Xiaomi Redmi 14 Pro (firme e forte, o guerreiro), vendo o nome no visor: Oliver (irmão).

    Atendeu com a calma de quem acabou de degolar um problema:
    — Fala, Oliver. O que manda, maninho?

    — Oi, meu filho. Não vou me estender, prometo. Desculpa te incomodar a essa hora… são cinco da manhã aqui, e aí deve ser meia-noite, né? Mas… eu vi o vídeo da garota pedindo ajuda. Queria saber como tá a situação do país.

    — Sendo bem honesto… tá uma merda. A gente já foi atacado cinco vezes só neste mês. O atual rei da Bahia não larga do nosso pé. Ele serve ao tal Conselho Eclipse, quer tomar essa cidade de qualquer jeito.

    — Conselho eclipse, que porra é essa?

    — É um grupo… — Bart parou de falar. O som de um motor invadiu a noite, seguido pelo clarão de um farol às suas costas. Ele virou a cabeça lentamente e viu uma silhueta saindo do carro.

    — Ele chegou… — Murmurou Bart, os olhos ficando mais afiados.

    Ele quem? — Perguntou Noah do outro lado da linha, a tensão já crescendo.

    — Victor. O rei da Bahia. — Respondeu Bart, encarando a figura que se aproximava calmamente… palitando os dentes como quem acabara de sair de um restaurante caro.

    Victor era um homem pardo, alto, com cabelo cacheado curto e uma franja que caía levemente sobre a testa. Os fios negros misturavam-se com pontas loiras, e o degradê no corte era de barbeiro profissional. Seus olhos castanhos brilhavam com arrogância. O corpo era magro, mas esculpido como estátua viva, com uma cicatriz fina em forma de raio abaixo do olho esquerdo — parecia uma assinatura pessoal.

    Vestia um casaco branco de mangas compridas, por baixo uma camisa polo preta, calça social branca e tênis preto. No pulso esquerdo, um relógio de ouro reluzia sob a luz dos faróis. Estilo de mafioso moderno que dá autógrafo com faca.

    Victor parou diante de Bart com um sorrisinho presunçoso.

    — Então… é você, Bart. A pintura que anda borrando minha galeria.

    — E você deve ser o verme novo querendo morder território.

    Victor riu e tirou o casaco com um movimento teatral, entregando-o para uma das duas sombras que estavam atrás dele. Deu mais um passo à frente, ainda palitando os dentes como se nada ali fosse urgente.

    — Verme não… colecionador. Tô só querendo completar minha coleção de cidades. A sua é a última.

    Continua.

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