Notas de Aviso

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    O som seco do impacto foi acompanhado de um ato reflexo. Com a mão em sinal de proteção, a sombra tentou afastar o velho.

    Por um segundo, todos imaginaram que ela transpassaria o homem; no entanto, encontrou resistência. Com um movimento brusco e afobado, a entidade empurrou o senhor, acertando-o em cheio no peito.

    O velho perdeu o contato com o chão e voou em direção à mesa.

    Os presentes seguraram o ar; apenas Calae soltou um grito, abafado pelas próprias mãos que levou à boca.

    — O senhor está bem? — perguntou Hurdan, mais assustado do que suas pernas trêmulas confessavam.

    O velho colocou a mão ao peito e, ao se apoiar sobre a borda do móvel, deslizou e caiu ao chão enquanto buscava o fôlego que lhe escapava. Constrangido pela queda, entoou ofensas entre os lábios, mas sua voz rastejou sem pronunciar nada mais do que um chiado agudo.

    Noam prontamente se abaixou para auxiliar o ancião.

    — Vamos, senhor Goter — disse, puxando-o com força e sustentando-lhe o corpo junto ao seu.

    — Uma cadeira — exclamou, indicando com os olhos.

    Calae arrastou a que estava ao seu lado para perto de Noam. O velho sentou-se, com as mãos cerradas, a respiração curta e acelerada, a voz fraca.
    — Saiam daqui! — disse e, percebendo que não tinham entendido a mensagem, acrescentou:

    — Agora! — ordenou, ainda sem apresentar a intensidade que desejava.

    Leonel já estava de pé. Observava a cena com um misto de raiva e constrangimento.

    Noam indicou por gestos ao rapaz para que saísse e ele mesmo seguiu em direção à porta. Calae o seguiu, mas Hurdan não deu um passo sequer.

    Já do lado de fora, Noam colocou a mão sobre o rosto, respirou fundo, encarou a Sombra e murmurou palavras ásperas para si mesmo.

    A atmosfera entre eles emanava resignação, uma frustração que pulsava. Leonel queria sair daquele lugar.

    — E agora? — questionou Calae.

    Noam balançou a cabeça.

    A moça, percebendo a inocência do rapaz e compreendendo o ato da sombra que o acompanhava, tomou uma decisão súbita. Estendeu a mão e agarrou a de Leonel.

    — Para onde vai? — perguntou Noam enquanto ela puxava o jovem e saía da propriedade.

    — Para casa — afirmou, resoluta.

    — Ele não fez nada de errado — ela parou, girou e encarou Noam.

    — Diga para o Hurdan buscar suas roupas na minha casa. Isso, se forem dele mesmo.

    Leonel seguiu os passos apressados e ansiosos da jovem. Ela aparentava ser um pouco mais velha do que ele, ao menos em maturidade, já que ele sequer sabia quantos anos realmente tinha.

    Apesar das palavras que trocavam, ele não as entendia. E quando respondia com suas próprias, ela não o compreendia.

    Depois de uma curva que encobria de suas vistas a propriedade do ancião, sob a sombra das árvores que balançavam embaladas pelo vento, Calae parou, virou-se e olhou nos olhos de Leonel.

    Seu rosto expressava tristeza. Os cabelos negros da jovem ondulavam por seus ombros e seu longo vestido branco roçava as pernas do rapaz.

    Ela ergueu a mão de Leonel à altura do próprio pescoço. Seus lábios contorceram-se levemente enquanto seus olhos lacrimejavam em um misto de culpa e arrependimento. A delicadeza de seu rosto distorcia-se ao expressar tais sentimentos.

    — Me desculpa — disse com a voz trêmula e quase inaudível.

    Leonel entendeu.

    Estendeu a mão livre e a balançou no ar de um lado ao outro. Em resposta, ela apertou a mão do rapaz com ternura.

    A casa da jovem não era muito grande; quase todo o espaço interno estava ocupado por móveis e utensílios particulares. O rapaz estava sentado sobre uma cadeira pesada de madeira; o assento era confortável, mas ele não se sentia assim.

    Estava sozinho.

    Calae adentrou um dos cômodos à esquerda do corredor que separava o local onde estava dos demais quartos da casa. A sombra, ao seu lado, estava parada e parecia olhar ao redor.

    Alguns momentos depois, Calae retornou ao recinto trazendo entre os braços vestes simples: uma camisa branca, uma calça da mesma cor e um par de sapatos de couro.

    — Não sei se servem em você — disse ela, com os músculos enrijecidos pela apreensão.

    — São roupas do meu irmão, acho que são pequenas demais. Bem, não tem outras.

    Calae girou o corpo de um lado, deu um passo e depois voltou à posição anterior e, por fim, sem total certeza do que fazia, estendeu as roupas para Leonel.

    — Sei que você não entende o que eu falo — sussurrou a menina, gesticulando. Apertou a gola do vestido e puxou-a para cima. Apontou para as roupas que entregara e repetiu a ação.

    — Se troque — proclamou apontando para o quarto do meio.

    — Aqui é meu quarto. Entre aqui — continuou tentando fazer-se entender.

    Leonel continuou sentado. Por um lado, achava graça do esforço da jovem em tentar  comunicar-se, por outro não entendia muito bem o que ela queria que ele fizesse.

    — Aqui — continuou insistindo.

    Ele se levantou e começou a andar em direção ao quarto.

    — Isso — ela pegou na bainha da camisa de Leonel e ergueu-a levemente. Em seguida, soltou e escondeu a vergonha ao virar o rosto para o lado.

    — Troque de roupa.

    A sombra, que a tudo observava, sentou-se na cadeira vaga.

    O quarto de Calae tinha um odor peculiar, agradável, e isso o constrangeu mais do que o agradou.

    Nada dentro do ambiente indicava qualquer ostentação. Uma cama simples ornada por lençóis gastos; uma cômoda de um marrom intenso com um espelho acima dela — do tamanho de um palmo; escova de cabelo e objetos que Leonel não conhecia.

    Ao vestir a nova camisa, ele imediatamente percebeu que era pequena. O tecido esticou junto ao corpo. E a calça, por sua vez, não cobriu completamente as pernas, mas, no fim, não se sentia tão desconfortável como imaginava inicialmente.

    O sapato estava um pouco apertado, mas como seus pés estavam sujos, Leonel descalçou-os. Abriu a porta e se deparou com Calae e a sombra encarando um ao outro. Ela parecia ter se acostumado com a entidade.

    — Onde posso limpar os pés? — perguntou o rapaz. A moça não entendeu, mas com a indicação de Leonel, seu não entendimento logo se desfez.

    Ela saiu da residência por um instante e retornou com uma bacia de madeira cheia d’água, trazendo também um pano para auxiliar Leonel.
    — Sabe — disse ela sem levantar os olhos — acho que essa sombra é sua.

    O rapaz sentou-se na cadeira antes ocupada por ela. Inclinou-se e, enquanto esfregava os pés sujos na bacia d’água, Calae buscou no quarto um chapéu branco de laço, ornado com uma fita amarela.

    Pedindo licença com o olhar, colocou o chapéu sobre a cabeça de Leonel.

    — É — concluiu ela. — Essa sombra é sua.

    A sombra agora também usava um chapéu.

    Com gentileza e um pouco de graça cobrindo-lhe a face, Calae estava ajoelhada enxugando os pés do rapaz.

    — Não sei o que vou dizer para o meu pai quando ele voltar! — exclamou a jovem.

    — Acho que minha mãe vai entender.

    Ela falava em voz alta e parecia se divertir com a situação. Já Leonel a observava e não podia deixar de notar as curvas do corpo dela que escapavam pelas brechas de seu vestido. A jovialidade dela resplandecia em seus gestos, mas as palavras para descrevê-la não vagavam por sua mente, e sim por seus instintos.

    — Pronto — disse, por fim, e levantou-se, levando consigo a bacia e o pano. Saiu novamente do recinto deixando um breve e mudo silêncio, no qual o rapaz conseguiu soltar o ar que nem sequer percebera que prendia.

    Quando Calae voltou, sentou-se à mesa junto aos convidados e encarou ambos com curiosidade.

    — Não dá pra tocar nela, né? — perguntou a Leonel. Ele apenas ouviu.

    — Posso te tocar? — perguntou à sombra. Ela permaneceu obscura, como sempre.

    Calae esticou um dedo em direção à entidade. Todos apenas observaram o movimento. Um dedo que avançava. Ao chegar ao local que deveria ser chamado de superfície — ou de pele, caso fosse uma pessoa — o dedo de Calae não encontrou nada.

    — Interessante — sibilou, percebendo, ao mesmo tempo, que uma ideia lhe passara pela mente e que sequer achara estranho que a sombra — assim como ela — estivesse sentada numa cadeira ao seu lado.

    Com a mão livre, recolheu o chapéu que estava sobre a mesa e, com um movimento confiante, colocou-o sobre a cabeça da entidade.

    Todos os presentes paralisaram por um momento. Ao contrário do que ocorrera há pouco, a peça — ao rejeitar o mesmo destino do dedo de Calae — encontrou, sobre a cabeça, um obstáculo — uma superfície que amparava a forma.

    — Não é sombra, continua sendo chapéu — espantou-se a moça.

    O rosto de Leonel retorcia-se em arrebatamento. Interagir com a sombra era algo que negava absolutamente. Na verdade, aceitar sua existência era algo que sabotava com esforço inconsciente.

    O que era aquilo?

    Era uma pergunta que latejava ainda mais forte dentro de si do que a questão: quem sou eu?

    Ainda movida pela ingenuidade — renascida de uma recente infância — Calae retirou o acessório da sombra e colocou sobre a cabeça de Leonel. Seus olhos brilharam.

    Sobre a cabeça da sombra, verteu-se a malha — cópia fiel, de mesma identidade que a do usuário. Um chapéu sombrio.

    — Sabe — declamou a moça. — Acho que entendi o que aconteceu.

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