Notas de Aviso

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    Sentado no galpão da oficina, o rapaz refletia sobre os acontecimentos recentes. Animais que obedecem ou que se tornam parceiros, essa é uma habilidade intrigante. Não que ele mesmo não fosse um jovem diferente.

    Fitou o próprio antebraço e analisou as ataduras. Apertou o membro, investigando com os dedos os músculos firmes e inexplicavelmente resistentes. Wood sabia que era forte, que sua capacidade física não podia ser subestimada, mas também tinha consciência de que não era invencível, nem perto disso.

    Viver na montanha havia-lhe proporcionado boas e más experiências e, sem dúvida, enfrentar uma alcateia de lobos não estava entre as melhores. Dessa vez, conseguiu safar-se, mas quem garantiria que sempre teria a mesma sorte?

    Sua infância recente continha algumas histórias das quais não se orgulhava; particularmente, não tinha nada de positivo para relatar, assim como não sentia qualquer conforto quando estava próximo a ursos, como era o caso nesse instante.

    A figura marrom sentava-se confortavelmente ao seu lado, o dobro de seu tamanho, uma massiva muralha de pelos que exalava o puro tédio. O olhar do animal estava distante, como se esperasse que lhe oferecessem algo para que pudesse esmagar com as patas enormes.

    O Rubro coçou a cabeça. Não gostava de quebrar acordos, muito menos de fracassar em obrigações, e já que a figura ao seu lado parecia constrangida por estar desocupada, quem sabe ele pudesse dar uso a essa singular situação de amizade não requisitada.

    — Temos trabalho a fazer — chamou o rapaz.

    Saindo da inércia, o animal levantou-se; parecia quase feliz ao ouvir a voz que lhe demandava.

    Wood pegou o machado. Recolheu da parede cordame suficiente para o serviço em pendência e colocou-o ao redor do ombro; satisfeito, seguiu rumo à floresta. O urso-pardo, sem qualquer comando ou sinal, caminhou ao seu lado.

    Cavam, por sua vez, ficou no estábulo para dar suporte ao pai caso fosse necessário.

    — Na primeira vez que encontrei um urso… disse Wood, puxando conversa enquanto avançavam pela trilha —, a criatura tentou arrancar o meu braço fora.

    Pela manhã, que transcorria lentamente, o ar fresco preenchia os pulmões dos trabalhadores; a brisa era recebida pelas copas, gerando o estalar dos galhos que reverberavam nas árvores. Um dia agradável para visitar a mata.

    O rapaz encarou o companheiro peludo: — Se tentar arrancar o meu braço, eu parto sua cabeça ao meio — avisou, com um sorriso seco. O urso apenas balançou a cabeça, sem demonstrar qualquer receio perante o jovem.

    Minutos depois, deixaram a trilha e entraram na floresta, uma caminhada breve que os levou até onde os troncos se encontravam.

    Hora de puxar a encomenda. Wood lascou entradas no tronco para poder dar sustentação à corda e a prendeu com firmeza, elaborando um laço, enredando uma das pontas ao redor do peito da besta peluda. Depois, amarrou a corda transversalmente sobre o próprio tórax, aprumou os pés e avançou.

    Com o auxílio do novo amigo pardo, o arrasto transcorreu tranquilamente, e após certo tempo, já tinham subido as toras até a trilha para poderem puxar a madeira em direção à cabana.

    — Quantas conseguimos levar de uma única vez? — perguntou o rapaz, sondando a capacidade física do animal. Os olhares deles se encontraram; caso o urso soubesse sorrir, decerto, naquele instante, essa seria sua expressão.

    O peso da  madeira densa estava acima da capacidade de qualquer homem comum, mas Wood confiava em si, sabia que, ainda que estivesse sozinho, provavelmente, mesmo com dificuldade, conseguiria puxar os troncos até a propriedade.

    Aposta lançada, três toras em uma única viagem. Um urso, um homem e uma corda, contra a madeira de pinho que deslizava pelos cascalhos da trilha. As veias da têmpora do rapaz saltaram vultosas no seu rosto. O corpo inclinado expunha o volume máximo dos músculos tensionados, a alavanca de cada passo gradualmente vencendo o inimigo vegetal.

    O urso-pardo enterrava as patas no solo, puxando e salivando. Ao redor do corpo dos desafiantes, a corda rangia e estalava, mas parecia dar conta do recado.

    Seguiram sem descanso por minutos, sondando um ao outro para descobrir qual dos dois desistiria primeiro da insana empreitada. Nenhum deles recuou. Ao contrário, redobraram a aposta — por orgulho ou por algum tipo de companheirismo que unia a natureza pulsante dos corações, cruzaram a fronteira do terreno da morada, completando, assim, a tarefa estabelecida com êxito.

    O dia transcorreu sem mais surpresas. Ao final da tarde, no entanto, essa afirmação caiu por terra.

    Um homem chegou à propriedade de Bart. Atendia pelo nome de senhor Alguero, e adentrou o recinto com certo afobamento. Trazia consigo uma grande carroça alongada, puxada por uma dúzia de bois.
    Wood atendeu o homem. O pai estava no fundo da propriedade, trabalhando na oficina.

    — Boa tarde, Wood — cumprimentou o visitante, retirando o chapéu.

    — Boa tarde — respondeu o jovem cordialmente.

    — Vim transportar as toras, como tinha combinado da última vez — disse ele, com certa preocupação na voz. — O que aconteceu? — perguntou ao perceber as ataduras pontuadas por pequenos círculos de sangue que recobriam os braços do rapaz.

    — Ah, isso? Não é nada, um machucado superficial, logo sara — afirmou o Rubro.

    — Boa tarde, Alguero! — cumprimentou Bart, aproximando-se da carroça.

    — Como tem passado, amigo? — retribuiu o homem. O senhor Alguero era um sujeito de meia-idade, assim como Bart, e se conheciam de longa data.

    O lenhador coçou a barba, pensativo. — Bem, estou bem — respondeu por fim. Pouco antes da chegada do colega, ele havia conseguido dormir e recuperar o ânimo que perdera devido à noite perturbadora.

    — Hora de subir essas toras — afirmou Bart, indicando que Alguero manobrasse a carroça pelo terreno da propriedade.

    Alguero encostou a ampla carroça ao lado do armazém; estava acostumado com o procedimento tantas vezes repetido. Ao lado da grande oficina, sobre troncos firmes, um mecanismo de madeira pendular se encontrava, com roldanas e cordas, somado a um gancho metálico e um articulado mecanismo de sustentação.

    Wood se adiantou e, demonstrando sua força, arrastou e posicionou uma das encomendas, para ser içada.

    — Forte como sempre, garoto — brincou o homem, com um sorriso sincero e cordial.

    Alguero trabalhava com construção, e assim como Bart, era um marceneiro nato, mesmo que não levasse muito jeito para trabalhar com a coleta do material.

    Enquanto usavam Cavam e os próprios músculos para elevar um dos troncos de pinho, o visitante sentiu um calafrio repentino em sua nuca.

    Olhou para trás e percebeu a forma do animal margeando a parede externa do fundo da oficina. — Um urso! — exclamou assustado, soltando a corda. Pulou para longe e repetiu o aviso.

    Pai e filho, com calma e movimentos calculados, desceram o tronco e se afastaram do animal, fingindo apreensão.

    — O que fazemos, Pai? — questionou o Rubro, forçando surpresa no rosto.

    — Vamos acolher a natureza — afirmou o homem, seguindo o ritmo do filho.

    — Como assim, Bart? — O visitante procurou algo para se defender, e com um estalo de clareza, segundos depois já portava um machado emprestado da parede de ferramentas de Bart.

    O lenhador fez sinal para que Alguero recuasse. — Filho, abrace a criatura, temos que prestar nosso respeito — orientou Bart, encrespando a expressão propositalmente.

    — Mas, Pai — reclamou Wood. — E se ele me atacar… de novo — disse ele, e dessa vez com palavras carregadas de ressentimento devido a legítimas experiências ruins.

    Atingido pelo relato verdadeiro e elevando o nível da brincadeira, Bart tomou a iniciativa. — Eu mostro como se faz. — O homem encarou o urso-pardo de frente, inclinou o corpo e abriu os braços; o animal sondou a figura que gradualmente se aproximava e, antes que pudesse recuar, o grande homem, quase do mesmo tamanho dele próprio, apertou-lhe o corpo com um caloroso abraço.

    — Chamamos isso de abraço de urso — explicou o lenhador, erguendo a parte frontal do animal e contornando a enorme caixa torácica dele com os braços.

    Wood colocou a mão em frente ao rosto, constrangido pela situação, mas internamente segurava o riso ao fitar o senhor Alguero boquiaberto a seu lado.

    — Agora é a sua vez, amigo — convidou Bart, chamando o visitante. — Venha abraçar o urso.

    O homem ficou pálido como um cadáver. — Que insanidade — ofegou aturdido, sem compreender o que era aquilo.

    — Precisa abraçar o urso, amigo! — conclamou o lenhador, mais uma vez.

    — Venha, ele quer um grande abraço — disse, insistindo.

    — Mas nem se minha mãe botasse ovos… — concluiu o visitante, tentando sorrir.

    Roset

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