Notas de Aviso

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    Enquanto comiam, Calae e Leonel se entreolhavam. Agora a moça não conseguia mais tirar da mente o quanto o rapaz e a sombra se assemelhavam. Fitava os cabelos lisos e curtos de Leonel, seu rosto inocente e seu olhar hesitante. Queria tocá-lo, mas sabia que não era algo adequado.

    — Espero que a comida esteja ao seu gosto.

    — Não entendo o que fala — respondeu Leonel.

    De certo modo, a presença um do outro já não os inquietava. Não fosse a incompreensão completa da linguagem que pronunciavam, poderiam até mesmo dizer que estavam se entendendo bem.

    Era uma conexão entre presença, sentimentos e expectativas que brotavam dentro de seus corações. A pergunta que emergia com sinceridade e acolhimento. Quem é você? Numa via de mão dupla a que costumam chamar de amizade.

    Ao terminar de comer, Leonel focou sua atenção nos feixes de luz que adentravam o recinto, a dança das partículas de pó que ornavam a pele da moça, o cabelo preso atrás da orelha e os longos cílios que recobriam suas pálpebras.

    — Eu precisava lavar a roupa — comentou a moça ao terminar sua última colher de refeição.

    — Eu tenho que lavar a roupa — enfatizou, agora com um tom de apreensão.

    Calae levantou-se, recolheu os utensílios da mesa e saiu. Da porta, fez sinal aos visitantes que ficassem à vontade.

    Depois de um tempo esperando pelo retorno da garota e ouvindo barulhos ritmados que ecoavam do lado externo da casa, Leonel, curioso, foi ver o que ela estava fazendo.

    Saiu pela porta que levava à rua e, ao observar alguns moradores em suas tarefas diárias, sentiu um desconforto.

    O sol estava forte, e sombras densas ornavam o solo. Sombras.

    — Fique aqui — comandou, referindo-se à entidade.

    Contornou a casa e seguiu por um estreito corredor lateral que levava ao fundo da residência.

    Calae encontrava-se debruçada sobre um grande recipiente preenchido por vestes imersas na água. Com força, ela manuseava uma peça sobre a tábua de lavar.

    Ao lado do local onde ela estava, existia um galpão conectado à estrutura da casa. O quintal grande era dividido entre um terreno preenchido por hortaliças, uma parte mais afastada onde se encontrava um cubículo desconhecido e, do lado oposto, um equipamento estranho com uma grande manivela metálica.

    Leonel se aproximou da estrutura para investigar.

    — É uma bomba de água — disse Calae imersa em sua tarefa.

    Ao colocar a mão sobre a alavanca, percebeu uma resistência, usou um pouco mais de força e a parte móvel cedeu. No mesmo instante, sobre um bocal na parte oposta à manivela, a água jorrou. Uma descoberta que eriçou um pequeno sorriso em seu rosto.

    Caminhou pelo local, observando o cultivo ainda em estágio precoce de crescimento, e deixou o olhar correr pelas plantas que ladeavam o limite da propriedade. A partir dali, grandes árvores tomavam posse do lugar.

    Nesse momento, uma voz cortou o ar chamando por Calae.

    Noam estava parado à porta da moça com olhar consternado.

    Guiada pela convocação, dirigiu-se, ainda com as mãos ensaboadas, para atender ao homem.

    Ao notar a presença da garota, pronunciou-se.

    — O rapaz está aqui? — Noam olhou ao redor procurando o jovem e, acima de tudo, a sombra.

    — Sim — respondeu em tom seco.
    — Precisamos pensar em como lidar com ele, Calae — afirmou com cautela… — Aquela sombra pode ser perigosa — …redobrada.

    — Ela não é perigosa — contestou Calae, convicta.

    Noam franziu a testa surpreso.

    — Não sabemos o que ela é! — enfatizou.

    — Ela não fez nada de errado — disse a moça, subindo o tom.

    O homem, quase perdendo o controle da voz, retrucou.

    — Ela atacou o ancião…

    — Não! — cortou Calae, indignada. — Ela só defendeu ele — afirmou, dobrando a aposta.

    — Mas ela atacou. Você viu — e nesse momento sua voz tremeu.

    — O velho não está bem!

    Calae sentiu um frio no estômago.

    — O que ele tem? — questionou abaixando o tom da voz.

    — Não sei. Ele nos expulsou de lá — Noam encarou o chão, estava nitidamente preocupado.

    — Ele não está bem — repetiu.

    Ainda inconformada, Calae replicou.

    — Ele que começou!

    — Não importa! — bradou o homem. — Ele se assustou com aquela coisa.

    Internamente, Calae negou que sentisse o mesmo.

    — Mas não precisava ter agido como agiu — atestou, cerrando o punho.

    Noam desviou os olhos evitando encarar a moça.

    — Não, mas deve ter seus motivos — sua fala estava hesitante.

    A moça pisou com firmeza no chão. 

    — O que justifica o que ele fez? — irritou-se Calae.

    — Não sei — disse com sinceridade, e com a voz carregada de temor. — Ele falou que aquela coisa é uma maldição.

    A palavra atingiu Calae como um golpe.

    — Aquilo pode ser perigoso — enfatizou Noam.
    Ela não respondeu.

    Calae refletiu por um momento; a dúvida percorria suas veias, mas… 

    — Eu não acho — disse rememorando os eventos recentes.

    Noam estava incrédulo.

    — Ele sabe mais do que a gente, Calae!

    — Que falasse então, não precisava fazer aquilo — disse em tom neutro dissimulado.

    Sem saber o que dizer, Noam replicou.

    — Ele tem seus motivos.

    — Que motivos são esses? — encrespou a moça.

    A garganta de Noam estava seca.

    — Não sei.

    — Então, ele tá errado! — disse em tom desafiador. — Ou acha que o que fez é certo? — provocou Calae.

    Noam titubeou, mas confessou.

    — Tem uma coisa.

    — Que coisa?

    — …

    — Que coisa, Noam, fala! — soltou a moça com impaciência.

    O homem pensou por um instante. Não era um segredo, mas ele sabia que aquilo invadia a privacidade do ancião.

    — Pouca gente sabe… — o homem refletiu mais um momento, sem concordar com o que estava prestes a falar… — mas o velho tem um filho.

    Calae respirou com intensidade.

    — Tá, mas e daí? — disfarçou a surpresa, contendo a emoção.

    Noam inspirou o ar e declarou.

    — O filho dele era diferente.

    — Como assim? — implicou Calae.

    Com uma inspiração ainda mais profunda, Noam desabafou.

    — Dizem que o filho dele era um mago!

    — …

    — Você sabe o que isso significa? — questionou já sem energia na voz.

    Calae revirou os olhos, ciente da complexidade da situação.

    — Que ele foi levado embora!

    Recobrando um pouco de vitalidade, Noam continuou.

    — Sim, e não era só isso.

    Mas a moça já não cooperava.

    — Ah! Não importa — Calae se cansou daquela conversa.

    — O que você vai fazer com ele? — indagou Noam tentando apaziguar a situação.

    — Não sei — suspirou, transmitindo mais verdade do que gostaria.

    — O que seus pais vão dizer? — pressionou Noam.

    — Ele não tem ninguém — respondeu, usando sua empatia como arma.

    — Não sabemos quem ele é. E essa sombra? — o homem avançou ao perceber a brecha.

    O sol forte iluminava a face de Calae.

    — Noam, eu não sei — interpôs com ênfase. — A única pessoa que pode saber de alguma coisa é o ancião — sua expressão indicava o óbvio, e Noam, ciente disso, cedeu.

    — Tá. Bem, de noite eu vou tentar falar com o Goter.

    — O que vai fazer agora? — cutucou a moça mais uma vez.

    — Trabalhar. Tudo isso já me custou metade de um dia — reclamou.

    Noam despediu-se da moça e seguiu seu rumo. Leonel, que não havia se movido, encontrou uma Calae diferente. A preocupação incorporava seu semblante, e qualquer traço de leveza se dissolveu diante da realidade que cobrava seu preço.

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