Notas de Aviso

    Contatos: https://linktr.ee/youkaimakai Doações pix: o.abismo.de.om@gmail.com

    Um pouco antes do final da tarde, com as tarefas domésticas já concluídas, Calae e Leonel estavam sentados no fundo da propriedade. Calae, imersa em pensamentos, e ao seu lado Leonel, que se esforçava para pensar. A sombra, por sua vez, observava atenta a bomba d’água e, assim como o rapaz fizera anteriormente, pressionou a manivela do equipamento.

    Respirando pausadamente, com o canto dos olhos a moça observava o rapaz. Ele fitava uma pequena pedra com seriedade, os braços a pressionar os joelhos contra o corpo.

    As formigas trilhavam em fila, contornando ervas daninhas e obstáculos. Eram muitas, mas tanto Calae quanto Leonel estavam sozinhos.

    As pessoas da vizinhança retornavam às suas casas após um longo dia de trabalho. Os pais e o irmão de Calae fariam o mesmo. Agricultores, essa era a profissão predominante naquele vilarejo.

    — Vem, vamos pra frente da casa — chamou a moça, levantando-se.

    Leonel a seguiu.

    Não demorou para que os pais da moça despontassem a poucas dezenas de metros da casa, avançando pela rua. Em seu encalço, o irmão mais novo de Calae andava com passo receoso.

    Ao avistarem a filha em frente à residência, acompanhada de Leonel, não demonstraram surpresa. Era uma vila pequena; as palavras corriam pelo ar, assim como as moscas rondavam a carne podre.

    As pessoas que passavam fingiam normalidade, alguns até esboçaram cumprimentos com gestos mínimos, mas, no fundo, todos estavam apreensivos com a situação.

    A mãe de Calae aproximou-se da filha e, com o rosto cansado mas sério, indicou que ela entrasse em casa. Leonel, ao lado, foi puxado pelo braço pela moça e percebeu o tremor que percorria o corpo dela. Ele, por sua vez, sondou os olhares da mulher e do companheiro dela. Não carregavam ódio, mas, absolutamente, transbordavam medo.

    Ao entrar, a mulher, despindo a postura contida, desabou em palavras de angústia.

    — O que aconteceu? — perguntou ela. — Esse é o jovem? — disse, e, ao fitar Leonel, seu olhar não lhe negou presença.

    A casa estava fresca, e o cheiro de comida recém-requentada se misturou ao cansaço temeroso de seus moradores.

    — Mãe — chamou Calae. — E pai — completou, convidando o homem à conversa.

    Estavam sentados à mesa Calae, Leonel, Tanya — sua mãe — e Dounek, o pai. Ela começou a explicar a situação desde o início, mas foi imediatamente interrompida.

    — Cadê a coisa? — perguntou Tanya, receosa, apertando o lenço encardido que trazia enrolado à cabeça.

    Calae refletiu para escolher bem as palavras. O pai, à sua frente, impaciente, soltou:

    — Ela é violenta? Ela atacou o ancião? — Dounek era um homem de físico forte, apesar de ser um pouco mais baixo do que o ideal para intimidar.

    Com as palavras do marido, Tanya gelou.

    — Mãe — disse o irmão mais novo de Calae, com voz angustiada. Ele entrou em casa aos tropeços, com os olhos esbugalhados distorcendo o rosto. A sombra estava do lado de fora, indicando a intenção de adentrar o recinto.

    — Não. Fique onde está — disse Leonel pela primeira vez quebrando o silêncio e apresentando seu idioma estrangeiro aos presentes.

    A mulher pulou na cadeira e, suando frio, perguntou com a voz estrangulada:

    — É aquilo? O que ele disse? — o vestido — que se assemelhava muito ao da filha — prendeu na borda da cadeira, quase a fazendo desequilibrar.

    — Calma — apaziguou Calae. — Ele não é daqui — emendou ela. — A sombra é dele e não é agressiva. A energia de Calae, em quem os pais confiavam, foi bem recebida.

    — Deixa eu contar o que aconteceu — reforçou Calae.

    A jovem resumiu, com destaque para sua opinião, os fatos que havia vivenciado durante o dia. Relatou a agressividade com que Hurdan abordara o rapaz e como aquela entidade inexplicável apenas o seguia. Comentou que, de algum modo, estavam vinculados, mas que não conseguia entender o que ele falava — por isso também não sabia exatamente o que era aquela coisa.

    — Espera — interrompeu o pai. — Ele é um mago? — e, martelando-lhe na cabeça, a outra questão foi pronunciada: — Aquilo é uma maldição? — disse, esforçando-se para não demonstrar o medo que sentia.

    Nesse instante, a suspeita da moça se fez presente em ato. Eles já sabiam. Alguém contou.

    — Hurdan — disse Calae, jogando o nome à mesa.

    — O que tem? — perguntou Dounek.

    — O que ele disse? — questionou a moça, cerrando os olhos.

    O homem cruzou os braços sobre o corpo.

    — Apenas o que ele viu — respondeu Dounek em tom de autoridade. Apesar de ser rijo, com olheiras profundas, mãos calejadas e pele queimada pelo sol — e mesmo que emanasse um forte cheiro de suor — ainda era o pai da moça.

    Calae abaixou os ombros, fitou a mãe, depois o pai. Como poderia convencê-los de que tudo aquilo era um mal-entendido? Sua boca estava seca.

    — Não sei o que ele falou — disse por fim. — Mas a única coisa que a sombra fez foi defender ele — e, para provar seu ponto, uma ideia súbita cruzou-lhe a mente.

    A moça levantou-se, foi até a porta entreaberta, escancarou-a e indicou à sombra que entrasse. Seus pais, estarrecidos, se encolheram sobre a própria insegurança.

    — O que está fazendo, Calae? — indagou a mãe, aflita. Era mais corpulenta e mais alta que o marido, mas, apesar da aparência encorpada, seus gestos não apresentavam rispidez.

    A sombra não se moveu, mas girou a cabeça e observou a situação.

    A moça insistiu no gesto. Leonel retorceu as sobrancelhas e prendeu a respiração. O irmão de Calae afastou-se dois passos e, não satisfeito, recuou mais dois, por precaução. O pai engoliu a saliva com força, e os músculos se enrijeceram.

    A sombra entrou.

    O ar dentro da residência estava denso, e respirar se tornou uma tarefa desnecessariamente complexa. A entidade estava confortavelmente sentada na cadeira que Calae havia usado até pouco tempo antes. Os pais da moça entreolharam-se e, sem dizer uma só palavra, sabiam exatamente o que cada um sentia.

    A jovem abriu uma gaveta e retirou dela uma faca. A mãe levantou-se, mas, com um gesto e com o olhar confiante, a filha indicou que se sentasse.

    A moça foi até Leonel e puxou-lhe a mão. Ele resistiu. Ela insistiu. Com relutância, o rapaz segurou a ferramenta entre os dedos.

    Na entidade, na mesma mão em que ele segurava o utensílio, uma faca sombria se manifestou.

    E agora quem se levantou foi o pai. Mas Calae, novamente, o apaziguou com o olhar.

    — Olhem bem — disse a jovem.

    Calae esticou o dedo indicador. Todos o seguiram sem entender o que ela fazia. Tocou a lâmina da faca que Leonel segurava.

    Em seguida, Calae direcionou o dedo indicador à superfície da lâmina sombria.

    A mãe torceu o rosto como se pimenta lhe preenchesse a boca. O irmão, já com as costas contra a parede, esforçou-se para penetrar na estrutura que o amparava.

    O dedo da moça, assim como na primeira vez, atravessou a lâmina sombria.

    A mãe soltou o ar dos pulmões e engasgou com a própria respiração. O pai sentiu uma pontada no rim e se contorceu na cadeira.

    — Fiquem calmos — indicou a filha.

    A moça olhou para Leonel; os olhos deles se conectaram, a ponto de ele não perceber que ela retomara a faca de sua mão.

    Com delicadeza e fluidez, Calae colocou o cabo do instrumento sobre a mão sombria. Nesse momento, os pais se levantaram.

    Com um brado intenso de ansiedade contida, o pai resmungou.

    — Calae — disse ele em alto e bom tom.

    E, mais uma vez, a garota os encarou. O olhar era mais firme que o martelo de um ferreiro.

    Sobre a mão da sombra, repousava uma faca.

    — Prestem atenção — proclamou a jovem.

    A lâmina metálica reluziu à luz do final da tarde.

    Calae lentamente avançou o dedo em direção ao objeto que a sombra segurava. Ao verem a filha tocar a superfície metálica, os olhos dos pais recobraram o foco.

    — E tem mais uma coisa — explicou a moça.

    Ela esticou a palma da mão no ar e, lentamente, a abaixou em direção à ponta do utensílio que a sombra segurava.

    — Calae! O que está fazendo, menina? — O lamento materno ecoou como uma súplica.

    O pai perdeu as palavras enquanto abria a boca. Leonel ergueu a mão, tentando impedi-la.

    Já a sombra, com ímpeto, puxou o objeto para longe da mão da moça, evitando qualquer contato que pudesse machucá-la.

    Calae sorriu, mas queria executar mais um movimento.

    Observou os olhares atônitos ao redor enquanto o peso da tensão se dissipava. Todos começaram a relaxar o corpo ao processar o que acabavam de presenciar.

    Com um pedido implícito, a jovem estendeu a mão para a sombra, indicando que devolvesse o objeto. A sombra imediatamente o fez.

    Com frieza calculada e um giro corporal esvoaçante, Calae colocou-se às costas de Leonel e, com um abraço gentil, repousou a lâmina rente ao pescoço dele.

    A mãe gritou. O pai tropeçou na perna da mesa, esticando a mão inutilmente no ar. O irmão congelou onde estava. E Leonel sentiu o cheiro doce que exalava dos cabelos que roçavam, agradavelmente, sua nuca.

    A sombra avançou.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota