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    Como Marcus havia pedido, Ulisses pensou em algo marcante até que pudesse dormir, mas isso foi mais difícil do que ele imaginava que seria, já que ficou mais tempo escolhendo um momento marcante do que realmente dormindo, mas, no final, finalmente escolheu. Ulisses lembrou de uma senhora que trabalhava em um pequeno mercado perto do seu pequeno cubículo, um cubículo que ousava (contra a sua vontade) chamar de casa. Na sua vida passada, a sua casa alugada, que ficava num bairro horrível, onde era o único lugar que conseguia pagar com o seu salário, Eddie conheceu uma senhora muito gentil.

    Ela trabalhava duro para conseguir sustentar os seus dois filhos encostados, mas, apesar do cansaço que estava estampado no seu rosto, ela estava sempre sorrindo e dava um “bom dia” para qualquer pessoa que entrasse no mercado para comprar algo. Por qual motivo escolheu pensar nela? A resposta era bem simples: ela foi uma das poucas pessoas que havia sido gentil com ele, como se não houvesse nada de mentira na sua personalidade. Mesmo com a vida horrível que ela tinha, a senhora sempre continuou gentil e nunca mudou, até mesmo nos seus últimos minutos de vida.

    Certa noite, depois de Eddie ser repreendido por seu chefe ao chegar atrasado em 5 minutos no trabalho, ficou irritado por causa disso, já que os outros chegavam mais de 20 minutos atrasados e ninguém chamava a atenção dos seus colegas. Estava irritado por justificar que havia dormido tarde por ter feito horas extras e ter chegado tarde em casa, mas isso não foi aceito, e o seu chefe brigou com ele por muito tempo e até ameaçou demiti-lo pela sua “má conduta”. Para tentar se acalmar, foi até aquele mercado para comprar besteiras e afogar sua raiva em carboidratos, antes de ficar maluco de vez e chegar ao seu trabalho no dia seguinte com uma faca, só saindo daquele escritório algemado pela polícia.

    Ele se lembrava bem: estava voltando para casa, era bem tarde da noite e estava quase batendo a meia-noite. No momento que entrou e o sino da porta tocou, a senhora Mara o olhou com aqueles olhos cansados devido às muitas horas de trabalho, mas, mesmo assim, ela sorriu gentilmente e falou com aquele tom de senhora, que fazia biscoitos e levava para os vizinhos:

    —  Oh, boa noite, rapaz.

    Eddie havia ficado em silêncio, parado na entrada da porta, com aquele cabelo bagunçado e mal cuidado; a sua expressão mostrava seu cansaço, e dava para ver as noites mal dormidas por baixo dos seus olhos pretos. Ele não estava de bom humor, e só aquela frase da senhora fez seu sangue ferver como nunca e, sem pensar muito, apenas respondeu com rispidez:

    — Boa noite pra quem?

    Eddie revirou os olhos e começou a andar na direção de uma prateleira cheia de salgadinhos. Mal estava conseguindo se conter, queria bater ou atacar alguém, mas não o fez. Ele lembrava que havia acreditado que, com as suas palavras ríspidas e cheias de mau humor, a senhora iria desistir de ser legal com ele e o deixaria em paz como qualquer pessoa normal fazia, porém, ele estava enganado. No momento que pegou o salgadinho mais barato, a voz de Mara chegou aos seus ouvidos com uma tranquilidade que o deixou sem chão.

    — Tem muitos problemas, rapaz?

    Naquele momento, até pensou que poderia apenas ficar em silêncio e engolir a sua frustração, mas não foi isso que ele fez. Eddie revirou os olhos e respondeu:

    — Talvez eu tenha, mas isso não é da sua conta.

    A senhora ficou alguns segundos sem falar nada, como se estivesse pensando se valia a pena continuar a “conversa” ou apenas deixar aquele homem com o seu mau humor bem aparente, mas ela apenas riu suavemente e o olhou com aqueles olhos gentis e amáveis.

    — Suponho que esteja passando por um momento difícil… se eu perguntar o motivo, vai me responder?

    — Por que eu iria responder? — Eddie se virou com o seu salgadinho na mão, seus olhos finalmente encontrando os da senhora que insistia em conversar com ele — Isso não vai resolver os meus problemas.

    — Você tem razão, mas não posso dizer nada, já que não sei o que está se passando com você, infelizmente não sou capaz de ler a mente das pessoas, e isso limita o meu entendimento.

    Eddie arregalou levemente os olhos; ele não estava esperando uma resposta como essa e tão pouco queria receber umas palavras assim. Ele logo fez uma careta e revirou os olhos, enquanto andava até o balcão de Mara e jogava o salgadinho em cima. Eddie estava esperando que ela ficasse quieta ao escutar as suas palavras nada legais, mas ela respondeu muito melhor do que ele esperava, e isso o deixou um pouco irritado. Como essa velha ousava ter uma resposta  melhor do que ele? Isso não estava certo.

    — Escuta aqui, eu só fui repreendido pelo meu chefe, quase fui demitido e tenho que esperar até o próximo mês para arrumar o cano da minha pia! — O homem cruzou os braços — Está vendo? Não é nada da sua conta, então… Hm?

    Antes que pudesse terminar o seu pequeno surto, Eddie pôde perceber algo: ele havia acabado de responder à pergunta dela sem perceber. Isso o fez ficar sem reação, além de se sentir um verdadeiro idiota por não ter percebido o que estava bem na sua frente, e isso o deixou mais em choque do que com raiva. Ele estava tão  irritado que nem pensou direito nas suas palavras e, no final, acabou contando o que estava acontecendo na sua vida patética e sem sentido. Foi vergonhoso, de certa forma.

    Mara, olhando para a reação do homem na sua frente, não pôde deixar de rir com a situação um tanto cômica. Pegando o pacote de salgadinho de cima do balcão, passando o código de barras e, logo em seguida, falando o preço para Eddie, como se fosse a noite comum, como se ninguém estivesse praticamente colocando toda sua frustração em cima dela, mesmo que ela não tivesse nada haver com isso e tão pouco tinha a obrigação de entender o motivo disso. Ao invés de se irritar com ele (já que ela sim, teria motivos para gritar com ele), Mara apenas riu e balançou a cabeça como se nada estivesse acontecendo.

    — Vejo que a sua vida é bem… agitada… hm… — Mara pensou um pouco e sorriu suavemente para ele — Qual é o seu nome? Creio que já te vi por aqui, mas você nunca responde a nada do que eu digo.

    — Ah… deve ser porque eu não quero falar? É uma sugestão, talvez… — ele suspirou — Mas… mas o meu nome é Eddie.

    — Eddie… é um nome que eu nunca iria pensar para você… eu pensaria em Ronaldo.

    — Ronal… o quê?! Não, isso nem iria combinar comigo.

    — Eu sei, só queria ver se você iria concordar com a senhora fofa aqui atrás do balcão, tipo quebrar o gelo e te fazer falar um pouco mais gentil; geralmente funciona, mas acredito que você seja mais amargurado, certo?

    Eddie ficou em silêncio. Ela realmente deu nome para o seu estado atual? Ele até queria se defender, dizendo que ela estava fazendo um julgamento errado sobre o seu estado, mas não conseguiu fazer as palavras saírem. Isso era… verdade? Essa constatação o deixou sem chão, como se alguém tivesse lhe dado um tapa na cara ou lhe jogado um balde de água fria. 

    — Eu… talvez… 

    Naquela noite, aquele lugar se tornou um tanto… bom? Eddie não sabia o que pensar sobre isso, não sabia se gostava ou apenas estava pensando que gostava, nem sabia como isso poderia fazer sentido, mas, para ele, fazia muito sentido. Depois daquela noite, voltou mais vezes, gastava o pouco do seu dinheiro com besteiras e só saia quando despejava toda a sua frustração, ou todo tipo de coisa que ele se irritava. Mara escutava com atenção e até mesmo fazia piadas com o que ele contava. O principal tópico era o cano da sua pia, que Eddie reclamava sempre; Mara sabia que, em algum momento, aquele homem com cara de cansado iria falar sobre o cano da sua pia.

    Em certo dia, antes que Eddie pudesse pagar o salgadinho que havia pego, Mara o impediu: segurou a mão dele e, ao invés de pegar aquele papel e algumas moedas, senhora Mara colocou mais três notas na mão dele. Eddie ficou confuso e seus olhos se arregalaram. Seus olhos cansados foram do dinheiro na sua mão para o rosto sorridente e gentil da senhora, que parecia não estar se importando com o quão idiota seu rosto dele estava. Parecia até que não sabia o que eram aquelas notas em meio aos seus dedos e queria entender o que eram, mas, na realidade, queria saber o motivo da senhora estar lhe dando aquilo. O que ela queria com isso?

    — Pegue esse dinheiro, é o suficiente para pagar um encanador.

    — Espera, mas eu não pedi dinheiro emprestado.

    — Tudo bem, é nosso segredo, então não fale para ninguém. É nossa promessa.

    — De onde pegou isso?

    — De nenhum lugar, eu só quero te ajudar, então hoje não compre besteiras e ajunte com os trocados que já tem, para pagar a sua pia.

    Eddie ficou tão sem jeito que, por algum motivo, sentiu o chão sumir pelos seus pés, e aquelas palavras o engoliram por completo. “… te ajudar…” Em toda a sua vida já tinha escutado todos os tipos de palavras e frases, mas nunca essas em específico. Ninguém disse que queria o ajudar; não era o dinheiro ou a possibilidade de finalmente pagar um encanador, mas… o gesto. Mara realmente estava querendo ajudá-lo por querer? A sua mente passou por todos os tipos de pensamentos e lembranças, querendo recordar de algum momento que alguém quis o ajudar por realmente querer ajudá-lo. Seus olhos viram algo que nem sabia ser possível, e só o seu silêncio já fez Mara ter o sentimento, a sensação de que fez algo certo na sua vida, como se alguém realmente estivesse grato a ela.

    Apesar de toda essa descoberta, Eddie desviou o olhar, ainda com a mão segurando o dinheiro. Mesmo que não quisesse admitir que se sentia agradecido pela senhora pensar na sua situação, algo lhe dizia para não aceitar, mas, só por saber que ela queria o ajudar, era o suficiente para ele. Sem perceber, um pequeno sorriso apareceu nos seus lábios, e seus olhos quase ficaram marejados. Quase. Não queria que ela percebesse que aquelas palavras o afetaram mais do que pudesse dizer.

    — Eu… eu não posso aceitar.

    —  Haha… não precisa ir para o politicamente correto, vamos apenas fazer boas memórias juntos — ela sorriu, enquanto soltava um pequeno riso divertido.

    Mara levou uma das mãos até as de Eddie e o ajudou a apertar os dedos dele em volta das notas, como se quisesse que ele tivesse seguro de que aceitar aquele gesto de gratidão não iria fazer mal, como se aquele dinheiro fosse apenas um gesto gentil e inofensivo. Ela falava com tanta firmeza e beleza que Eddie se sentiu confiante para dizer “sim”. Mara ficou feliz que ele tenha aceitado, mesmo que relutante; isso fez seu coração ficar mais tranquilo, e a sua outra mão logo foi para baixo do balcão, para fechar o caixa completamente.

    Depois desse dia, Eddie fez o que Mara disse para fazer: pagou o encanador e agora estava com a sua pia funcionando bem. Era menos um estresse que tinha que passar, mas, antes que pudesse voltar e agradecer a Mara por lhe ajudar, seu chefe o fez fazer horas extras no trabalho, e isso o fez sair mais tarde. Pelo cansaço, não passou na senhora Mara e optou por voltar para casa e ir dormir. Logo que acordou, tomou banho com rapidez e nem tomou seu café da manhã, apenas para chegar cedo no trabalho de Mara para dizer “obrigado” como se deve.

    Seu trabalho era às 8:30, e, uma vez, a senhora lhe disse que abria a loja às 7:10 da manhã. Saiu de casa às pressas e mesmo que o local de trabalho dela não fosse longe da sua casa, queria chegar rápido e, de fato, ele conseguiu, mas logo viu um amontoado de pessoas na entrada daquele pequeno mercado. Algumas pessoas estavam cochichando e os outros apenas estavam olhando com curiosidade. Eddie nunca foi um homem alto, era alguém de altura mediana, então não conseguia ver com clareza o que todas aquelas pessoas estavam olhando com tanta curiosidade.

    Com um suspiro, Eddie olhou em volta e então se aproximou de um homem com as mão ao alto, segurando o celular, gravando o acontecido misterioso que Eddie não conseguia ver em meio à muralha de pessoas. Ele não gostava muito de procurar informação com os outros, mas, dessa vez, a curiosidade foi maior.

    — Ahem! — Ele pigarreou para chamar a atenção — Com licença… o que aconteceu?

    — Uh? — O homem olhou para Eddie, como se estivesse irritado por alguém ter atrapalhado, mas, mesmo com uma cara nada agradável, ele respondeu — Ah, o dono do mercado descobriu que a senhora do caixa tinha roubado dinheiro e, de raiva, meteu uma bala na cabeça dela.

    — Eh?

    Eddie arregalou os olhos. Isso era impossível, certo? Seu coração queria sair pela boca ao escutar aquelas palavras. Mara tinha… roubado? Ela não… ela não iria fazer isso. Eddie olhou em volta, querendo que alguém falasse algo diferente, qualquer coisa, que falasse que aquilo era uma mentira! Mas para o seu azar, não era. Ele até podia escutar algumas outras pessoas falarem que nunca iriam imaginar que aquilo fosse acontecer, ainda mais com Mara, uma senhora gentil com todos os clientes. Alguns pais idiotas estavam até usando Mara como exemplo, falando que não era para fingir gentileza.

    “Fingir gentileza…” ele pensou, enquanto tentava se espremer em meio às pessoas para ver o que estava acontecendo, suando frio e com o coração pesado. Se Mara realmente roubou dinheiro, quando foi e para quem foi? Muitas coisas passaram pela sua cabeça, e, como isso aconteceu dois dias depois que ela lhe deu aquele dinheiro, uma dúvida logo apareceu em sua mente. Quando finalmente estava na frente, apenas viu uma viatura da polícia, levando um homem algemado.

    Queria chorar, queria gritar, mas não fez nada disso; apenas abaixou o olhar e saiu daquele lugar. No começo estava andando, mas depois começou a correr com tudo o que tinha. Eddie até mesmo tropeçava em algumas pessoas, mas ele não parava. A dúvida de que ela morreu devido àquele dinheiro fez Eddie querer se jogar de um lugar alto. Mais do que isso, ele ficava supondo outras coisas: ela tinha filhos babacas, então eles poderiam ter obrigado Mara a roubar e ele não tinha culpa de nada, certo?

    Depois desse dia, soube que a polícia já não fez nada de mais, e Eddie não procurou saber como essa história tinha acabado ou o que foi feito. Ele até começou a comprar salgadinhos em outro mercado, mas, durante a noite, sentia um peso enorme nas costas, e só de olhar para a sua pia fazia o peso ficar ainda maior do que já estava. Aquela dúvida sem resposta realmente estava o matando, uma marca que ele carregou por muito tempo e que nunca pôde esquecer. Ele nem soube o local do enterro dela ou se teve enterro; considerando que os filhos dela poderiam estar mais preocupados em como ganhar dinheiro para se sustentar, provavelmente nem se incomodaram em dar um enterro digno para ela. 

    Mais do que as suas dúvidas, ele se perguntava se Mara agora havia descansado ou algo assim. Eddie não era religioso, mas, naquele momento, só queria se agarrar a alguma coisa que lhe desse conforto ou diminuísse a culpa, uma culpa que ele nem sabia se era sua ou se estava delirando. Em muitas noites, ele ficava sentado no chão, com as costas apoiadas na cama, enquanto abraçava as pernas. Esse acontecido o prejudicou no trabalho e ele acabou sendo demitido. Mais uma vez.

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