Com o que Eduina e Haru decidiram, George foi instruído a chamar Ulisses para conversar, uma conversa muito importante. Quando George chegou até o jardim, pôde ver o garoto sentado ao lado da irmã, que parecia estar tentando fazer o irmão mais velho beber um pouco de chá.

    Sem perceber que o mordomo estava se aproximando, a atenção de Ulisses estava completamente na irmã, que insistia para ele beber uma xícara de chá. Como na sua vida passada Eddie não gostava de chás, esse gosto também veio com ele para essa sua nova vida, e isso fazia o garoto recusar avidamente o chá que Ellie estava lhe dando. Como Ellie o havia convidado para a acompanhar em seu momento de lazer, Ulisses não conseguiu dizer não e, a todo momento, ficou apenas com o bolo e os outros doces, sem nem tocar no chá que ficava esfriando. Porém, a sua irmã mais nova parecia recusar-se a aceitar as suas ações.

    — Irmão, ao menos beba um gole bem pequenininho — Ellie disse com um beicinho.

    — Eu fico bem apenas com os outros doces.

    — Isso não é justo, sabia?

    — Me prove que é injusto. — Ulisses soltou um pequeno riso divertido ao olhar para o rosto fofo da sua irmã mais nova.

    — Eu… — Ellie ficou em silêncio, sem saber o que dizer, e sua próxima ação foi apenas cruzar os braços e desviar o olhar. — Eu sou sua irmã mais nova, só isso já iria ter um grande peso, sabia?

    Ali estava, ela sempre usava essa cartada quando não conseguia o que queria. De certa forma, Ulisses se lembrou da Ellierin da novel, a que estava no enredo original e que iria fazer muitas burradas pelo caminho apenas para chamar a atenção do seu irmão mais velho, que sempre estava correndo atrás da protagonista da história. Por um momento, pensou se isso poderia mudar, se essa nova Ellierin poderia fazer tudo diferente, já que ele sempre dava a ela a atenção que ela merecia, que a Ellie da novel sempre reclamava não ter.

    Estaria mentindo se dissesse que não queria o melhor final para ela, já que na história original, Ellie acaba morta por matar um membro da família real dos elfos. Na sua vida passada, sempre viu a personagem dela como alguém bem chata e que era apenas mimada e frustrada. Em alguns pontos de vista de Ellie, ela dizia que sempre fazia de tudo para que o seu irmão se sentisse orgulhoso dela, porém, no final, isso não aconteceu e ela acabou morrendo como punição. Essa lembrança fez seu corpo se arrepiar por completo, pois Eduina também acabava morrendo por ter mentido para salvar Ellie, restando apenas Haru, que continuou com a sua palavra sobre ter deserdado Ulisses.

    — Você não pode usar essa sua cara fofa para tudo, sabia? — Ulisses riu.

    Mesmo que Ellie não seja tecnicamente sua irmã, já que ele não era tecnicamente o Ulisses de verdade, às vezes pensava se poderia fazer algo para que ela não morresse junto com a mãe. Uma pequena mudança no enredo da história não iria fazer mal, certo? Afinal, por algum motivo, se sentia responsável por Ellie. Poderia ser pelo fato de que nunca teve uma irmã mais nova? Eram tantas perguntas que se sentia horrível por ser egoísta ao ponto de ficar com receio de ajudar Ellie a fugir de um final tão trágico.

    Ao perceber que estava se importando de mais, rapidamente balançou a cabeça, para afastar tais pensamentos. Ele tinha apenas um objetivo, e não era tentar mudar o enredo da história; era ficar longe da protagonista e de todos que estariam à sua volta, fossem bons ou ruins. Sabia que isso o tornava uma pessoa horrível, mas pensava que não iria para de seguir seu caminho por causa desse peso nos ombros. Ele não era o Ulisses de verdade, ele era… talvez um usurpador. Mesmo que não tenha sido sua escolha, aquele ainda era um corpo que não era seu e estava vivendo uma vida que não era sua, e devido a isso, tinha colocado na cabeça que não iria se envolver demais na história original.

    Apesar disso tudo, às vezes ele se perguntava o motivo de estar fingindo tão bem. O que isso poderia significar?

    — Peço desculpas pela interrupção, jovem Ulisses e jovem Ellierin.

    Os dois olharam da direção de George, ambos um pouco surpresos pela aparição repentina. Porém, Ulisses logo pensou que aquilo só poderia significar uma coisa, e esse pensamento o fez ter um pouco de… expectativa? Nem ele sabia ao certo. Apenas se levantou da cadeira e olhou diretamente para George.

    — Haru… — Ulisses mordeu a língua — Quero dizer… o meu pai  está me chamando?

    — Sim, ele deseja lhe ver em seu escritório para falar de algo importante. 

    — Certo! — Ulisses disse rapidamente, olhando para Ellie. — Vou ter que ir, podemos terminar nosso lanche em outro momento, sim?

    — Oh, sim… mas vou cobrar!

    — Hum! — Ulisses soltou um pequeno riso, e um pequeno sorriso apareceu no canto da sua boca. — Pode deixar, conto com você para me lembrar das minhas palavras. Até mais. 

    Sem esperar muito, Ulisses apenas se virou e começou a correr, deixando Ellie e George no jardim. Ele sabia que deveria esperar o mordomo, mas estava ansioso demais para isso. Seu coração estava batendo rápido e mal conseguia pensar no que o seu pai estava planejando. Muitas coisas poderiam acontecer, e não conseguia pensar em nada que pudesse surgir de novo e tampouco no que poderia mudar nos planos atuais. Sabia que iria para o reino dos elfos para treinar e ganhar o Abate de Sangue, mas… era apenas isso, sem muito mais explicações. De certa forma, queria mais detalhes sobre o assunto.

    Quando chegou à porta do escritório de Haru, Ulisses respirou fundo e bateu na porta. Não demorou muito e pôde escutar a voz do seu pai do lado de dentro, lhe dando permissão para entrar. Com isso, girou a maçaneta e abriu a grande porta, revelando um Haru apoiado na mesa, o que era incomum, já que sempre que entrava ali ele estava sentado na sua cadeira de couro. Mas, dessa vez, Haru estava apoiado na mesa, olhando diretamente para ele com uma expressão indecifrável.

    Ulisses entrou e a porta logo fechou, deixando pai e filho sozinhos. As pernas de Ulisses se moveram para mais perto de Haru, e ele abaixou o olhar em respeito ao patriarca da família. Limpando a garganta, por um momento quase que Ulisses chamou o homem à sua frente pelo nome, mas logo lembrou que isso seria estranho, então logo mudou o que iria falar:

    Pai… suponho que eu tenha uma ideia do motivo de me chamar.

    — Sim, eu o chamei aqui para dar mais detalhes sobre a sua ida para Isclaris, que vai acontecer na próxima semana.

    Estava esperando por isso, mas, escutando a informação em alto e bom som, Ulisses sentiu um frio na barriga. A sua mente começou a criar muitas perguntas sem ter a resposta exata, pois estava nervoso com como poderia ser no reino dos elfos.

    — Eu entendo — disse Ulisses, engolindo em seco.

    No momento que Ulisses se sentou na cadeira à frente de Haru, logo começou a escutar os detalhes da sua ida. Haru havia explicado que um antigo amigo elfo iria treiná-lo e que teria que se dedicar, dizendo o quanto seria difícil seguir os treinamentos e que, se quisesse, Ulisses poderia voltar a qualquer momento e que encontraria outro jeito para que aquela promessa com o Imperador não pudesse ser seguida. Mesmo que pudesse voltar a qualquer momento, sabia que não iria. Seu objetivo secreto estava mais do que claro na sua mente e iria seguir assim até o final.

    Ulisses já havia decidido há muito tempo: queria passar o mais longe possível da protagonista e, se esse era o caminho, então seguiria sem pensar duas vezes.

    Antes de qualquer coisa, precisava ter certeza de como iria ser essa viagem, e nada mais prático do que fazer as perguntas certas. Começaria com uma pergunta bem simples, nada que não fosse muito  difícil de responder, ainda mais se a pergunta for direcionado para o chefe da família Urion.

    — Bem, a carruagem vai estar cheia de coisas que eu preciso?

    Haru logo ficou em silêncio, e Ulisses achou estranho isso acontecer. Por que ele estava calado? Havia feito uma pergunta horrível? O garoto logo se mexeu desconfortável na cadeira e pensou que iria ter um breve colapso devido a esses segundos que o seu pai ficou em silêncio.

    — Essa é mais uma questão que eu queria discutir com você.

    Ulisses engoliu em seco, já imaginando que tipo de questão poderia ser.

    — E o que é?

    — Você irá para Isclaris apenas com seu professor Marcus.

    — Eh?

    Por um momento, Ulisses pensou que havia escutado errado. Talvez fosse um equívoco e, na verdade, o seu pai estivesse brincando com ele. Talvez Haru esperava que ele começasse a dar risada. Deveria rir agora ou depois? Uma grande dúvida apareceu e Ulisses engoliu em seco, mas logo soltou um riso de nervoso, esperando que Haru o acompanhasse nessa “divertida” brincadeira.

    — Como assim? — indagou Ulisses.

    — Exatamente o que ouviu. Marcus pediu para que ele próprio o levasse para Isclaris, e eu dei a minha permissão, assim como a sua mãe.

    — Mas… mas ele é fra… — Ulisses mordeu a língua. Pensou que seria desrespeitoso chamar seu professor de Teoria de Magia de fracote, então apenas pensou em outras palavras. — Pai… tem certeza disso? Quero dizer… é o professor Marcus.

    — Por que fala isso como se fosse auto explicativo?

    — A-ah… b-bem… 

    Ulisses desviou o olhar, coçando a nuca e tentando pensar nas palavras certas. Seria muito estranho dizer para o seu pai que estava com medo de morrer no caminho justamente pelo fato de Marcus ser fraco? Não queria dizer isso tão diretamente, então ficou nervoso com o rumo que as coisas estavam tomando e desejava que outro assunto fosse colocado em questão, antes que pudesse falar algo estupido ou algo assim.

    — Não precisa se preocupar… confio que o seu professor pode fazer um bom trabalho.

    — Pode confirmar? — Ulisses olhou diretamente para Haru.

    No momento em que Haru viu aqueles olhos azuis na sua direção, como se exigisse que ele dissesse que tinha certeza do que estava falando, rapidamente se lembrou da esposa. Ela sempre lançava aquele olhar quando exigia algo dele e, como de costume, Haru se sentiu intimidado pelo olhar do filho de nove anos. 

    “Que absurdo, eu sou um homem adulto!” pensou Haru, tentanto lembrar que não era Eduina que estava na sua frente, mas apenas o seu filho mais velho.

    — Ahem! — Haru tentou voltar à razão — Sim… é, eu… eu posso confirmar.

    “Por que isso parece tão falso?”, Ulisses pensou, enquanto tentava entender a lógica por trás dessas novas informações que o seu pai havia lhe dado. Talvez ele tivesse batido a cabeça? Pensou que seria melhor perguntar para a sua mãe sobre as decisões que o seu pai havia tomado.

    Mesmo que quisesse falar algo, a porta rapidamente abriu e o professor Marcus entrou, sem ao menos bater. Haru e Ulisses olharam para ele, sem entender o que ele estava fazendo, mas, em todo caso, Marcus parecia de bom humor e, enquanto se aproximava, Ulisses pôde perceber que ele estava andando como se tentasse ser descolado ou algo assim, o que só deixou o garoto com uma certa vergonha, já que aquele era o seu professor, que aparentemente gostava muito de elogios. O que deixou Ulisses mais chocado foi o fato dele estar fazendo essa cena na frente do patriarca da família Urion.

    “Esse sem vergonha…” Ulisses suspirou.

    — Haru, soube que já contou ao seu filho que ele irá comigo até o reino dos elfos. — Marcus sorriu, sentando na cadeira vazia ao lado de Ulisses.

    — Sim, eu já comuniquei a ele, certo Lisses?

    — Sim, pai…  — disse Ulisses. — Eu vou adorar ir com o meu professor… super inteligente… 

    — Hm? — Haru não pode deixar de ficar surpreso com as repentina palavras boas em relação a Marcus. Ulisses não estava reclamando a alguns segundos atrás?

    Haru achou estranho aquelas palavras. Não conseguiu se conter, fechou os olhos e soltou um suspiro cansado, pensando no motivo do filho estar elogiando outra pessoa. Afinal, quem merecia tais palavras era ele, certo?

    Enquanto pensava nisso, Marcus aproveitou a oportunidade para jogar uma moeda de ouro na direção de Ulisses. Um sorriso suave apareceu no rosto do garoto, e sua mão logo pegou a moeda. No momento que o seu pai abriu os olhos, aquela moeda de ouro já estava bem guardada no bolso da calça de Ulisses, e ele agia como se nada estivesse acontecendo.

    — Ao menos vou ter como me proteger? — Ulisses rapidamente perguntou ao pai.

    — Sua mãe insistiu em colocar em você um escudo mágico.

    — Entendido!

    Sem esperar muito, Ulisses correu para fora do escritório do pai, com o objetivo de encontrar a mãe. Não queria morrer no caminho para o reino dos elfos. Era muito jovem e bonito para morrer de um jeito horrível. Afinal, qual a possibilidade de Marcus o proteger de algum animal selvagem? Tinha que estar preparado e, se a sua mãe poderia ajudar, então era ela que iria ajudá-lo.

    No momento que passou pela porta, Haru e Marcus ficaram sem entender nada. Seus rostos mostravam o quanto estavam confusos com a súbita saída de Ulisses, mas foi o professor que quebrou o silêncio que apareceu de repente.

    — Desde quando ele é tão rápido?

    — Não sei, mas ao menos ele tem aptidão para fugir de ameaças caso apareça no caminho até Isclaris.

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