Enquanto andava pelo corredor, Ulisses olhava em volta, procurando por Eduina. Parando para pensar um pouco, começou a refletir sobre em qual lugar da casa ela poderia estar. O que ela faria nesse dia? Coçou a cabeça e soltou um suspiro. Não queria ter que andar pelos vários cômodos daquela casa enorme, então apenas decidiu que iria encontrar alguém para poder perguntar. Assim seria mais fácil para ele.

    Virando em um corredor, pôde ver Briana carregando uma bandeja vazia. Provavelmente estava voltando para a cozinha. Sem pensar muito, Ulisses se aproximou dela, chamando por seu nome:

    — Briana!

    A empregada, ao escutar aquela voz, soube exatamente quem era. Ela sorriu suavemente e olhou na direção de Ulisses, percebendo que ele parecia estar aliviado por vê-la ali.

    — Oh, em que posso ajudar? — ela perguntou. — Infelizmente não tenha doces, só vou fazer mais tarde.

    — Ah, isso é uma pena, mas não é disso queria falar.

    — E o que seria?

    — Viu minha e em algum lugar?

    Briana pensou um pouco, procurando em sua mente se havia visto a senhora da casa em algum lugar, mas no final não conseguiu lembrar de nada que pudesse ajudar o jovem.

    — Sinto muito, acredito que não a vi, hoje.

    Ulisses pensou um pouco e se sentiu péssimo por não saber a rotina da própria mãe. Em sua defesa, nunca foi bom em prestar atenção em algo que era muito novo para ele. Ter uma mãe era novo e, na sua vida passada, sua mãe não era das melhores, e só de pensar nisso fazia o corpo de Ulisses se arrepiar. 

    Briana percebeu o pequeno silêncio de Ulisses e logo perguntou o que estava acontecendo.

    — Algo de errado?

    — Ah, não… — Ulisses soltou um pequeno riso enquanto coçava a nuca, já que não era para deixar Briana preocupada.

    Os olhos de Briana foram para o corredor e ela logo pôde ver Madame Furiana vindo na direção em que estavam. Clarice, que ao ver o filho mais velho da casa Urion logo foi até eles, ela percebeu que ambos pareciam estar meio perdidos com algo e, como uma boa pessoa que adorava uma boa informação, foi saber o que estava acontecendo.

    — O que estão fazendo? — perguntou Clarice.

    Ulisses olhou para a Madame e logo pensou em algo. Ele sabia que sua professora de dança seria alguém que teria uma grande quantidade de informações, mas, em outras palavras, poderia ser considerada uma pessoa fofoqueira. Sabendo disso, pensou que ela poderia saber o paradeiro da sua mãe ou ao menos ter uma noção de onde ela poderia estar, já que não conseguia encontrá-la em lugar nenhum.

    — Estava perguntando para a srta. Briana se havia visto minha mãe — explicou Ulisses.

    — Oh, era isso.

    — A senhora a viu?

    Clarice pensou um pouco e logo lembrou de algo que poderia responder a pergunta do jovem mestre da casa.

    — Acredito que ela esteja na biblioteca, afinal, a senhora definiu esse horário da tarde para ler em seu momento de lazer.

    — Eu entendo, então vou ver se ela está lá. — comentou Ulisses — Obrigado, até mais.

    Acenando para as duas, Ulisses sorriu e se virou para ir. Pensando um pouco, poderia usar esse momento para poder ler ou até mesmo terminar alguns livros que havia começado. De certa forma, poderia ver esse momento como uma grande oportunidade. 

    Com esse pensamento, o garoto virou o corredor e continuou andando, passando por alguns empregados ou apenas os cumprimentando-os com educação.

    Quando chegou à porta da biblioteca, entrou e olhou em volta, procurando por sua mãe. Seus olhos azuis foram para o balcão e não viu Borus. Logo pensou que ele poderia estar em algum lugar da biblioteca guardando livros. Ulisses suspirou e começou a subir as escadas para o segundo andar, olhando de estante em estante para encontrar Eduina, mas antes que pudesse passar pela estantes da sessão de objetos mágicos, escutou uma voz familiar.

    Era a voz inconfundível da sua mãe, mas também pôde escutar a de Borus e o barulho de um carrinho sendo puxado, provavelmente o carrinho de livros que Borus usava para carregar os livros com mais facilidade.

    — Não se sinta uma mãe horrível, sra. Eduina — Ulisses pôde identificar a voz de Borus. — E tenha certeza que nada acontecerá com seu filho.

    Por impulso, Ulisses se escondeu atrás de uma das estantes e, por um segundo, se sentiu horrível. Por qual motivo estava realmente se escondendo? Nem ele sabia ao certo e logo beliscou sua própria bochecha, como se estivesse punindo a si mesmo por fazer algo tão… vergonhoso. 

    “Não estou fazendo isso para espiar…” dizia ele em pensamento, como se tentasse se convencer que não era uma situação tão terrível assim.

    Enquanto Ulisses ficava longe dos olhos dos outros, Eduina estava sentada em uma cadeira, com um livro de capa verde aberto em cima da mesa. Ela esteve procurando o melhor feitiço de proteção possível. Afinal, não iria deixar seu filho desprotegido em meio a uma viagem longa e cheia de perigos. De certa forma, isso a assustava, afinal, Ulisses era apenas uma criança que nunca havia saído de casa e ido para tão longe.

    — Não sei, às vezes penso que fiz algo de errado, afinal… Lisses vai… para longe.

    — Muitos pais mandam seus filhos para treinarem longe.

    — Eu sei, mas… — Eduina folheou o livro. — ele vai para longe por motivos maiores, motivos que não deveriam cair nas costas de um garoto tão jovem.

    Borus pegou um livro e, ao colocá-lo na estante, parou por um momento, pensando nas palavras que saíram da boca de sua senhora. Considerando que tudo o que estava acontecendo começou com a doença que a senhora teve quando mais jovem, podia ter uma ideia do que estava se passando na mente dela. 

    Eduina poderia estar se culpando por colocar esse problema nas costas do seu filho e que tinha medo de que Ulisses não poderia suportar.

    Algo assim era completamente compreensível. Afinal, nenhuma mãe gostaria de ver um filho sendo preparado para entrar no tão temido Abate de Sangue. Um abate brutal que levava os participantes à morte, e Borus sabia que Eduina teria medo de que, no futuro, Ulisses não consiga vencer o seu adversário e que acabe perdendo sua vida de forma horrível.

    — Não coloque tanta culpa em si mesma, senhora.

    Borus empurrou o carrinho para o lado de Eduina, colocando uma das mãos em seu ombro, dando a ela um aperto reconfortante, dizendo de modo silencioso que não estava sozinha e que não precisava se preocupar tanto. No final, tudo ficaria bem.

    — Ulisses é seu filho e tenho certeza de que carrega sua determinação de ganhar.

    Eduina não disse nada, mas Borus sorriu suavemente para ela, tirando sua mão do ombro dela e começando a empurrar o carrinho, indo na direção das estantes mais afastadas, deixando a senhora da casa sozinha para pensar calmamente na situação em que sua família se encontrava.

    Atrás da estante, Ulisses escutava tudo sem saber ao certo o que pensar. Pôde perceber que estava tão focado em seus objetivos que não parou para pensar no que os outros poderiam estar sentindo. Afinal, mesmo que ele não fosse o Ulisses de verdade, os outros à sua volta ainda pensavam que ele era o verdadeiro Ulisses.

    Na sua vida passada, não se lembrava a última vez que alguém se preocupou com ele dessa forma. Queria poder ficar feliz por receber tamanha consideração, mas logo tirava isso da cabeça. Esses sentimentos não eram para ele, para Eddie, eram para Ulisses, o segundo protagonista da novel. 

    Ficou um tanto triste pelo fato de que estava no lugar de outra pessoa, mas, ao perceber que estava se envolvendo demais do que os outros poderiam achar adaquado, rapidamente balançou a cabeça para afastar esses pensamentos estranhos. Tinha que se manter firme para chegar ao ponto que queria. Afinal, ele não iria seguir o fluxo da história.

    Respirando fundo, decidiu se revelar, já que não poderia ficar ali escondido como um marginal. Andando com calma, respirou fundo mais uma vez e usou seu tom de voz mais amigável possível para entregar sua posição.

    Mãe… te encontrei… — Ulisses acenou para ela, com seus passos o levando até ela.

    — Hm? — Os olhos de Eduina encontraram os de seu filho. — Ah, Lisses… o que faz aqui?

    — Eu estava te procurando. Meu pai explicou o que irei fazer com o professor Marcus e que você iria colocar em mim um feitiço de proteção.

    Depois de um bom tempo nesse mundo, Ulisses tentava acreditar que tudo que era direcionado a ele, não era de fato para ele, mas sim para o verdadeiro Ulisses, aquele que Eduina deu à luz. Mas esse assunto ainda era difícil de acreditar, pois aquele olhar de preocupação misturado com uma ternura que brilhavam nos olhos daquela mulher tão gentil faziam Ulisses duvidar daquilo que pensava ser o certo. 

    Não queria misturar quem era de verdade com o verdadeiro Ulisses. Ele não era o segundo protagonista e todo aquele afeto não era para o Eddie. Isso o deixava confuso e muitas vezes se questionava se queria um pouco daquele calor acolhedor.

    — Bem, o seu pai está certo, eu vim para a biblioteca justamente para encontrar bons feitiços de proteção. — Eduina se levantou da cadeira e se aproximou do seu filho. — Apesar do meu repertório de feitiços ser bem grande, eu pensei que poderia conseguir algo melhor.

    — Eu entendo… mas encontrou algo?

    — Bem… sim, Borus me ajudou com isso e acredito que consegui! — ela disse animada.

    A determinação de e a dedicação de Eduina realmente poderiam ser contagiantes. Não pôde deixar de soltar um riso suave ao pensar em quanto tempo ela havia gastado naquela biblioteca. Ele até se lembrou de ter escutado Madame Furiana dizer que Eduina não gostava muito de procurar coisas. Por causa disso, pedia aos outros para irem procurar para ela, mas aparentemente a senhora da casa abriu uma exceção para esse caso.

    — É um feitiço forte que vai te proteger muito bem, então não precisa se preocupar com isso. — Eduina colocou a mão na cintura, mostrando sua determinação. — E penso eu que vai te ajudar em muitas situações de… perigo… 

    Houve um momento de silêncio de ambos os lados e ao perceber o clima pesado que estava se levantando naquele lugar, ela logo pensou que deveria tentar aliviar o clima.

    — Ahem! — ela pigarreou. — Que tal a gente começar logo?

    — Ah, sim… mas o que eu tenho que fazer?

    — Nada de especial, precisa apenas continuar no mesmo lugar, assim eu posso colocar o feitiço.

    — Entendo.

    Antes que Ulisses pudesse dizer algo, Eduina se adiantou e segurou seus ombros, o conduzindo para a área com menos mesas e cadeiras. Como sabia que era apenas para não fazer bagunça na biblioteca, Ulisses apenas deixou a senhora da casa colocá-lo no lugar certo. Tudo aquilo era para um motivo maior que poderia salvá-lo de situações difíceis no futuro, então faria qualquer coisa.

    — Certo, irei começar agora.

    Eduina respirou fundo e deu dois passos para trás, deixando um pequeno espaço entre ela e seu filho. Soltando o ar com calma, estendeu a mão e fechou os olhos, se concentrando no feitiço para que nada desse errado, pois, caso isso acontecesse, o feitiço iria ficar fraco e não teria o mesmo efeito. Não iria proteger Ulisses como ela queria.

    Com seu objetivo em mente, Eduina começou, e os olhos de Ulisses se arregalaram levemente ao sentir o ar em volta se agitar, com os cabelos de sua mãe se mexendo, como o véu mais fino e caro já feito.

    Queria continuar olhando, mas seus olhos azuis foram para o chão. Pôde ver um círculo mágico aparecer sob seus pés, brilhando e girando em azul-claro. Pensando um pouco, Ulisses nunca tinha visto nada parecido até agora. Gravuras de livros não se comparavam a isso e até mesmo no seu pequeno treinamento com com Haru, onde pôde vê-lo controlar a água, ficava bem atrás do quão impressionante tudo aquilo parecia.

    O garoto olhou para as mãos e logo em seguida para os lados. Algumas luzes pequenas surgiram à sua volta e começaram a se agrupar em seu corpo.

    Eduina afastou as mãos e logo em seguida juntou. No momento que fez isso, as pequenas luzes sumiram e o vento cessou. Ulisses até ficou confuso, pensou que havia acontecido algo, mas, ao olhar para a mulher à sua frente, percebeu que ela parecia satisfeita, então… tudo estava bem, certo? Pela sua expressão, estava claro que sim.

    — Está feito! — disse Eduina orgulhosa.

    — Hm… então… foi tudo bem?

    — Sim… por acaso estava esperando algo mais pomposo?

    — O que? Não, não é isso! — Ulisses coçou a nuca. Aquela pergunta o pegou de surpresa e até soltou um pequeno riso divertido. — É que tudo sumiu de repente.

    — Ah, é assim mesmo, você se acostuma, Lisses. — Eduina riu suavemente, se aproximando dele. — Além disso, agora há uma barreira à sua volta, vai te proteger.

    — Tá, mas… como funciona?

    — Bem, o feitiço se chama Três círculos, então há três camadas em volta de você que vão te proteger. Pode parecer pouco, mas não é fácil de quebrar, já que é muito forte, então vai te servir muito bem.

    — Bem, agora estou mais confiante — comentou Ulisses.

    Eduina sorriu e colocou as mãos em seus ombros, se abaixando para ficar na sua altura. Ulisses percebeu o brilho de satisfação em seus olhos, mas havia também algo como alívio. Talvez ela estivesse aliviada por ele estar protegido, afinal havia uma barreira poderosa em volta dele.

    — Lembre-se, Lisses… sua proteção e a da sua irmã são minha prioridade. — Ela sorriu e se aproximou mais do garoto, dando um beijo na sua testa. Isso enviou uma onda de surpresa pelo corpo de Ulisses. — Agora vamos, vamos contar ao seu pai que está tudo certo.

    Ulisses não disse nada, apenas seguiu sua mãe. Por algum motivo, estava se sentindo estranho em relação àquele beijo. Uma parte dele estava achando aquilo esquisito, mas a outra parte… havia gostado. 

    Foi como um calor no frio, um calor de mãe.. Não se lembrava a última vez que tinha sentido algo parecido.

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