Capítulo 31: Nobre ou Miserável
Antes da unificação, quando ainda éramos nações e povos separados, em um pequeno país agrário longe do mar, com pouco mais de três mil habitantes vivia um homem sem nada de extraordinário atrelado a ele.
Ferreiro por ofício, herdou de seus pais uma forja. Ninguém nunca sonharia, que tal homem se elevaria acima de todos, apenas com sua vontade e honra.
Viveu como qualquer outro homem sob o sol, mundano, simples, porém, era e sempre foi destinado à grandeza, mesmo que não fosse aparente.
Nestes tempos antigos, quase imemoriais, algo estava acontecendo com o mar, estava agitado. Parecia revoltado com o mundo e por isso rejeitava as almas daqueles que haviam perecido.
Com o tempo sem ter para onde ir, os amálgamas de névoa e espíritos se juntavam para torturar os vivos. Esse foi o chamado que transformou aquele ferreiro sem nada a mostrar ao mundo, no grande imperador ao qual oramos hoje.
Deixou para trás o conforto de uma casa, e o aconchego de sua família, e partiu. Ao longo dessa jornada, tal era a força e presença adquiridas pelas dificuldades enfrentadas, que não demorou muito para unir sob sua bandeira uma grande parte do continente.
Mas mesmo irradiando seu resplendor divino, mesmo nos salvando da devastação, nascidos da inveja e do orgulho, no solo sagrado que cultivou floresceram opositores e traidores, que ergueram suas lâminas contra o salvador.
Tais bestas, movidas por seus desejos profanos de grandeza, foram subjugadas ao longo das décadas de crescimento daquele império nascente.
Após a derrota inevitável dos traidores, o nosso então Imperador demonstrou mais uma vez como era divino, de infinita sabedoria e bondade, não matou aqueles que se renderam, pelo contrário, demonstrou seu perdão sacro, marcou aqueles que viraram as costas para a razão e todos os seus descendentes como eternos miseráveis.
Mesmo eras após a morte do grande Imperador, sua sábia família, carregando seu sangue sagrado nos lidera na dominação de um mundo que é nosso por direito…
Fechou o livro com um baque. Sorrindo olhou para os irmãos que estavam ao redor.
— Podem falar, isso tudo é uma grande bobeira né! Um mundo que é nosso por direito, que audácia, o Império nos usa como bucha de canhão, nega emprego, educação, e por fim nos matam quando nossa presença causa incômodo naqueles engomadinhos de trás das muralhas.
Levantou-se, para guardar o livro em um baú velho, seus passos pesados ecoando por toda extensão da fábrica.
— Como podem não ficar revoltados?! Olhem para Yaci, ela está fumegando de raiva como eu!
Rafael não desviou o olhar da fiação da fábrica que estava consertando. Apenas disse em um tom zombeteiro.
— Somos miseráveis e pronto, é assim que as coisas são. Não há justiça para nós. — parou por um instante, selou os cabos para que ninguém se machucasse, e então, continuou, agora olhando para seu irmão.
— Sempre foi assim. E não, Benjamin, a Yaci não está com raiva, no máximo tem umas cinco perguntas sobre as incongruências e detalhes deixados de fora da história.
Yaci com seus bracinhos curtos, se esticou para tentar tirar o livro de dentro do baú. Ela vai fazer cinco anos nas próximas semanas, o xodó daquele grupo de crianças abandonadas. Finalmente com muito esforço, pegou o livro, folheando as páginas anotando com marquinhas de lápis, passagens e citações que não tinha entendido ou que não haviam sido explicadas, pois o autor as considerava conhecimento comum.
Iara, não se aguentou, foi até a pequena e apertou suas bochechas.
— Como pode ser tão fofa, mesmo com essa carinha séria!
Yaci impassível, no máximo grunhiu quando Iara a pegou no colo. Já havia se acostumado a muito tempo às agressões de fofura da irmã.
Benjamin reclamava do conformismo de Rafael, enquanto o mesmo jogava para escanteio os pensamentos revolucionários de Benjamin como delírios de uma mente jovem.
Logo os irmãos começaram a se amontoar para ver mais um dos debates filosóficos daqueles dois.
— Acha mesmo que merecemos viver assim, poderíamos ter muito mais! Não quero luxo Rafa, quero dignidade.
— Nunca foi uma questão de merecimento ben… é só azar. Demos azar, nascemos miseráveis e vamos morrer miseráveis. Mas temos sorte também, juntos teremos uma vida melhor que a maioria.
Benjamin sentiu de novo a desolação da conformidade. Se contentava com pouco, sempre pensou que não teria problema viver com nada, ou quase nada. E tinha razão, não se importava de passar algumas dificuldades para seguir em frente, estava livre dos Ardore, então, estava bem, estava feliz, mas isso não durou pra sempre.
Seus irmãos apareceram, um a um, se uniram em uma família improvável, em um local onde nascer era considerado punição. Mas ali eles floresceram, nunca em seus dias como nobre pensou que encontraria pessoas tão talentosas, leais, companheiras, como aquelas crianças.
Nunca seria como eles, gênios autodidatas, artesãos natos, corajosos e destemidos por natureza.
Ele acordava para ver, pessoas com potencial latente apodrecendo na sarjeta, enquanto medíocres, se deleitavam dos frutos do sangue, suor e lágrimas de pessoas tão preciosas para ele.
Isso o enfurecia, fazia seu sangue ferver.
Yaci ainda era muito nova para ter um ofício, mas os outros, trabalhavam normalmente para manter a pequena normalidade da vida deles.
Como Rafael disse, eles realmente viviam melhor que a maioria. Iara costurava roupas, conjuntos e peças de tecido, junto de outras centenas de pessoas em um armazém perto das muralhas. Não tinha salário fixo, ganhava por peça, mas com sua habilidade, conseguia tirar o suficiente.
O próprio Rafael, era faz tudo, consertava, limpava, qualquer coisa para quem pudesse pagar, tinha a mesma idade de Iara, estavam no começo das suas adolescências.
Benjamin também fazia tudo que podia, mas com as cartas certas, era de longe quem mais ganhava dinheiro.
Fingia não ser miserável, o que era fácil, afinal, não nascera um. Mesmo que alguém pobre ganhasse pouco, nunca seria comparado a um miserável, o desespero de fato, fazia pessoas aceitarem migalhas.
Seus serviços eram variados, mas muito melhor recompensados. Sua fala requintada, sua educação excepcional, e as puxadas de saco no momento certo sempre o fizeram ganhar os favores daqueles homens além das muralhas.
Atuar, se diminuir e saber aumentar o outro, esse tipo de manipulação singela, era um talento por si só.
Outros, por enquanto, eram jovens demais para trabalharem. Tinham o suficiente para que sobrevivessem, então podiam ao menos dar esse presente aos mais novos.
— O império é mais antigo que a fábrica sobre as nossas cabeças. O que acha que um moleque franzino como você pode fazer contra as mesmas pessoas que nos governam há milênios?!
— Eles não nos governam! Nos exploram até que só sobrem nossos ossos! Nos arrancam de nossas famílias para morrer em guerras tão perdidas que se recusam a mandar soldados de verdade.
— O que você pode fazer para mudar isso?! Seja realista Ben. Você nem ninguém pode fazer nada contra o Império. Malus está a cem anos tentando, e o máximo que conseguiu foi manter as fronteiras onde elas sempre estiveram.
— Você não sabe de nada, Rafa, sempre tem um caminho, tem que ter. Até às montanhas erodem com a chuva! Um único fósforo pode incendiar uma floresta! — disse com animação crescente.
Neste momento Benjamin deu as costas para Rafa, erguendo os braços, falando dramaticamente e forçando uma voz barítona.
Mas sentiu um arrepio subir pela espinha, dos pés à ponta da cabeça.
— E você sabe disso tudo por que é nobre Ben? — disse Rafael de forma zombeteira.
“Que?”
Benjamin não estava mais limpo, estava sujo de sangue, o corpo manchado por cicatrizes. Ele virou para ver o irmão.
— Vamos Ben, seja sincero. É por isso que você sobreviveu, não é? É por isso você pode nos abandonar.
A cabeça decepada de Rafael falou, olhando para a alma de Benjamin através de seus olhos, julgando seu passado com um sorriso no rosto.
O corpo decapitado jorrava sangue pelo chão da fábrica.
Os pés de alabastro de Iara caminhavam pelo sangue, deixando pegadas vermelhas pelo chão de aço. Sua pele branca, imaculada, detinha agora uma palidez mórbida, fria e cadavérica.
Falou com calma, seus olhos sem luz o encaravam com dúvida, seu peito imóvel, com uma lança tão preta quanto a noite atravessando seu corpo.
— Você nunca foi como nós. Suas ideias, suas falas, sempre foram como as deles. Éramos seus miseráveis, seus brinquedos enquanto fugia? Por isso nos deixou morrer sozinhos?
Yaci está em seus braços, não tinha mais cinco anos, tinha doze, seu corpo consumido por uma magreza doentia, sua pele abraçando suas costelas, sua coluna parecia que iria perfurar a carne frágil para sair daquele corpo em sofrimento. Seus membros finos, destituídos da força e determinação que exalavam. Seus cabelos prateados, ralos.
Desviou o olhar, não queria ver o rosto dela, não queria seu julgamento.
Mas não conseguiu escapar, para onde olhava um dos seus irmãos estavam lá destroçados e machucados, o encarando com ódio.
— Não… não, não não!
Acordou gritando mais uma vez. Sua visão embaçada pelas lágrimas que não paravam de cair.
— Ter você como paciente é fácil, sabia, sempre sei quando está acordado. — disse uma senhora simpática, que entrou no cômodo com um sorriso.
— Me desculpe, senhora Heloísa. Te acordei de novo?
Ela apenas negou com a cabeça. Continuou a arrumar uma bandeja de ferro de forma metódica. Parou ao seu lado com bandagens, e seringas.
— Já estava acordada. Mas e você, sonhou com eles de novo?
Suas mãos nunca paravam, continuou a cuidá-lo com destreza impressionante.
Trocou suas bandagens que se sujaram durante a noite. Aplicou uma pequena dose de analgésicos e calmantes e checou os acessos de soro presos ao seu braço.
Benjamin olhou em volta, tentando juntar coragem para falar. Seus olhos fitaram tudo no quarto, o diploma antigo e amarelado, as fotos preto e branco de uma jovem com jaleco no começo da carreira.
Do lado oposto, já em cores, fotografias de cirurgias que não entendia, mas a mesma mulher estava lá, um pouco mais velha.
Por último parou em uma caixa de papelão meio aberta, só conseguia ver de relance uma única coisa saindo dela. Uma fotografia de um hospital de campanha, agora, a mulher madura e sem aquele brilho da juventude estava suja de sangue e terra, seu jaleco substituído por uma farda azulada e uma cruz vermelha no peito.
— Tem certeza que ela está bem? A Yaci?
Deu seu melhor sorriso para confortá-lo, caloroso como uma mãe. Não disse nada, apenas se levantou, foi até outro cômodo e voltou com um desenho enquadrado.
Era Benjamin, mais jovem, mais feliz e sem as cicatrizes que cobriam o corpo.
Ele não tinha dúvidas quando olhava aquela folha de papel. Ele a viu fazer arte tantas vezes que reconheceria seus traços em qualquer lugar. Quase conseguia sentir o peso da mão dela no lápis a cada linha.
O lindo desenho estava em um limiar do semi realismo que Yaci adorava.
Ele abraçou o desenho como um tesouro. Aquilo era sua certeza.
— Ela está bem rapaz. Vamos buscá-la, logo, tudo ficará bem.
Mas ele negou com a cabeça.
— A senhora vai. Ela precisa de distância de mim, a senhora também. Não sabe do que eles são capazes e eu sei que ainda estão atrás de mim. Agradeço tudo que fez por mim e pela minha família, mas acho que já é hora de eu continuar meu caminho.
— Uhrr, jovens… tão dramáticos! Vai ficar tudo bem rapazinho, além disso precisamos de você. Fique mais alguns dias, nos ajude no festival. Só depois disso vou ter certeza de que estará saudável para continuar.
Ele estava muito relutante, mas aceitou. Precisava, pelo menos, retribuir tudo que lhe fora dado. Devia ter um tempo até que os perseguidores achassem seus rastros.
Na maca deitado, olhando por uma janela, ele se perguntou, como estava sua irmãzinha…
Pelo menos agora, não tinha dúvidas de que provavelmente estava melhor que ele.

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