— Como? — Yaci perguntou.

    Mas não teve resposta. Antes de qualquer coisa, seu irmão a abraçou. O mesmo abraço de sempre, mas diferente, em um passado não tão distante, todos costumavam caber naquele abraço, Yaci era pequena, ficava espremida entre seus irmãos e irmãs, num calor aconchegante de carinho e amor.

    Mas agora só ela estava ali para devolver o abraço. Estranhamente, seus braços deram a volta por suas costas. 

    Ela havia crescido tanto assim? Talvez logo não conseguisse mais passar pela entrada da fábrica.

    O choro de Benjamin aumentou sem parar e se transformou em um soluço, acompanhado de lamentos baixos, sem sentido.

    Sua única reação foi apertar seu irmão ainda mais. Ele era real, ele estava ali.

    — Eu te achei… eu finalmente te achei! — Foi ali que ela se permitiu chorar, lágrimas de sincera alegria. Junto da gargalhada mais linda e recheada de vida que Heloísa já ouviu.

    Heloísa tentou se aproximar, mas apenas foi puxada no abraço por Yaci. 

    — Ei! Atentada, eu já sou uma senhora, você vai acabar com minhas costas desse jeito! 

    Ela tentou reclamar, mas aquele coração mole que ela chama de filho, já tinha levantado todos em um abraço de urso, que fez Yaci rir ainda mais.

    — Prazer em te conhecer pequena! Eu sou o Marco.

    Ele se apresentou junto com seu melhor sorriso.

    — O prazer é meu grandão! Eu sou a Yaci.

    A cena chamou atenção das pessoas ao redor, mas nenhum deles parecia se importar.

    Logo atrás vieram Hilda e seu avô. Que olharam com interesse, nunca tinham visto Yaci gargalhar como ela estava fazendo agora.

    Marco colocou todos no chão, com cuidado, e o abraço foi aos poucos acabado. E a razão de Benjamin logo substituiu seu sentimentalismo.

    — Como você chegou aqui Yaci? Melhor, como me encontrou?

    Ela olhou de volta para ele com as sobrancelhas franzidas. A alegria aos poucos foi sendo substituída por uma raiva há muito reprimida

    — Eu que devia te perguntar isso! Você sumiu, todos sumiram depois que foram atrás de você! Eu não “te achei”, achei ela, é por coincidência, meu irmão desaparecido estava junto! Agora, sou eu, que peço uma explicação!

    Neste momento, a alegria contagiante de todos murchou devagar, Benjamin principalmente, parecia encolher.

    — Yaci… acho melhor deixarmos isso para mais tarde, mais calmo, e com menos pessoas ao nosso redor. — disse Heloísa, colocando a mão em seu ombro com delicadeza.

    — Não! Eu não acho. Vamos pessoal, qual é! Desembucha logo… — mas ninguém falou, encarando o chão, todos permaneceram em silêncio — Pessoal? — Então veio a realização — Não, não, não! — ela gritou — Não pod-   

    Entretanto, ali no meio da selva de concreto, a pouco mais de uma rua de distância do mar, o vento mudou. Se tornou pesado. 

    A névoa rastejava vagarosamente, não mais alta que a cintura de Yaci, de pouco em pouco dominando todo o ambiente e todos pararam para olhá-la hipnotizados.

    As almas dos caídos chegaram de sua peregrinação para o mar, para o descanso final.

    Cada pessoa presente ali sentiu o ar mais pesado, a melancolia que cada bruma carregava, de frente para o mar, as almas se preparavam para deixar a terra e afundar nas cálidas águas salgadas do oceano. Estavam lá, todos eles, os mortos.

    As brumas escondiam sua presença, a multidão via uma massa imensa de uma névoa grossa. Mas Yaci, Benjamin e mais algumas pessoas escondidas ou perdidas na multidão viam, e ouviam mais.

    Sussurrando sem parar, caminhando entre os vivos com suas aparências espectrais. Eles os viam, escutavam seus lamentos e sussurros. Os segredos e desejos que queriam deixar em terra para sempre antes de descansar, eles lançavam baixinho ao vento, deixando ele carregar suas mágoas para os ouvidos surdos do mundo.

    Vagarosos, eles foram às docas e finalmente pararam de frente para o mar. E lá, para o pânico de todos, eles ficaram. Imóveis, como se o tempo parasse.

    As preces dos vivos foram substituídas por cochichos baixos e trêmulos. Os transeuntes que passavam, apontavam boquiabertos para o evento antinatural à sua frente.

    Mais brumas se juntavam na massa infindável parada no beira-mar, o ambiente se tornou mais sombrio à medida que os vivos sentiam um peso sobre seus ombros. Alguns choravam e diziam ouvir vozes de entes queridos em seus ouvidos.

    A cada segundo, a morte e a vida interagiam cada vez mais. Era real, apertava suas gargantas, o medo da morte enchia o ar.

    Entretanto, os ouvidos daqueles dois irmãos escutavam bem, bem até demais. Logo começaram a chorar, ouvindo os gritos de ódio daqueles que foram negados o descanso e desejos de centenas de pessoas que já não estavam mais aqui. A dor de cabeça crescente pela cacofonia de vozes sem fim.

    — Para! Faça parar! — Benjamin clamou se jogando no chão, tapando os ouvidos com força. 

    Mas, para infelicidade dele, aquele som era mais espectral do que físico, não viajava pelo ar, mas pelo mundo, deixando o peso e significado daquelas palavras viajar sem limites pela realidade, para longe de quem as disse.

    Yaci não estava muito melhor, lágrimas escorrendo sem parar, cerrando os dentes e lentamente se jogando de joelhos, sucumbindo ao peso arrasador da ira dos mortos.

    As palavras muitas vezes não faziam sentido, poucas almas estavam de fato conscientes, mas todas, estavam em agonia, lutando uma batalha perdida contra a água salgada, enquanto eram empurradas pelas ondas.

    Algumas almas, mais firmes e menos espectrais, paravam em seu caminho para observá-los. Às vezes cessavam seus lamentos, guardando-os para si por enquanto, para poupar aquelas pobres crianças de tanta tortura. Mas outras, com olhos fundos, de escuridão sem fim, não só se não só se deleitavam com a cena, queriam arrastar os jovens com eles.

    Não queriam ser rejeitados sozinhos e iriam carregar quem conseguissem consigo, pelo puro ódio pelos vivos, que os abandonaram para morrer em alguma sarjeta pelo mundo.

    Eles direcionaram seus gritos para os jovens, deixando que lidassem com sua raiva, e ressentimento.

    — Yaci! — O Professor gritou pela sua sombra. — sua mente, seu mundo! Entre nele, traga um pedaço para si! Qualquer coisa! 

    Sua voz era rapidamente perdida em meio a tantos sons que invadiam seus ouvidos.

    — C-como? — ela perguntou entre lamúrias de dor.

    — Seja você, tire de si e jogue no mundo. Qualquer lasca é o suficiente.

    “Mais fácil falar do que fazer…” pensou, junto de uma imagem, seu mundo, que somente seus olhos viam, que carregavam pedaços do que ela era. Precisava trazê-los para fora. Nem que fosse a menor parte.

    Além da arte, além do conceito e da mensagem, o que forma uma obra? A tela ou o papel eram apenas os meios, da mesma forma que uma parede, era apenas um lugar, uma superfície para projetar a forma. Se quisesse jogar um pedaço de si ao mundo, então o mundo seria sua tela? Mas o que jogaria, o que dá forma a uma obra, de sua parte mais pequena ao seu todo, do mais fundamental grão a mais complexa linha?

    A resposta veio junto de um alívio intenso. Era tinta.

    — Que orgulho dessa daí, sabia que ela é minha aluna? — disse o professor. 

    Da palma de sua mão, das pontas dos dedos e das solas dos pés, um pequeno fluxo de tinta manchou o mundo. Só isso era suficiente para abafar a voz dos mortos. Mas não era suficiente para cessar a dor.

    Os olhos de todos se arregalaram para o que parecia ser um truque de mágica que Yaci performava enquanto estava gritando em agonia. Ainda chorando, seu choro tomava um tom cinza que se perdia em sua pele escura, conforme pequenas gotículas de tinta se misturavam às suas lágrimas. Ela se ergueu e caminhou até Benjamin.

    “Ele é como eu!”

    Primeiro pensou que poderia ajudar, ali ao seu lado, o jovem continuava gritando, seu estado piorava a cada segundo. Veias saltavam de sua testa a cada grito que dava, seus olhos injetados de vermelho pareciam estar prestes a saltar das órbitas.

    Ela realmente não tinha nada, só tinta, não tinha nenhuma propriedade especial além de pintar e manchar. Tentou ajudar, sujou seus ouvidos, pintou seu rosto com os dedos, mas nada adiantava.

    Então ela repetiu o que o professor tinha lhe dito:

    — Traga seu mundo pra fora, jogue parte de si na realidade.

    Naquele instante, a compreensão brilhou no rosto do rapaz. Ele teve mais facilidade que ela. Um momento depois, um brilho quente e confortável do pôr do sol irradiou do menino. As pontas dos seus cabelos queimaram com uma chama vermelha. 

    Sua pele rachava pelo fogo apenas para se curar em um ciclo de tortura e cura que surpreendeu Yaci.

    — Dói? — ela perguntou.

    — Um pouco. Porém sara mais rápido do que machuca. 

    Ele sorriu enquanto as vozes sumiam. Cada vez mais baixo. Até que olhou para Hilda.

    — O que é aquilo?! — ele disse boquiaberto, com olhar trêmulo de medo.

    Ao seu virar, Yaci não tinha palavras para descrever o que via. 

    Dezenas de almas ao redor de Hilda, atravessando sua carne e tocando sua alma, centenas de mãos espectrais tentando puxar sua alma para fora do corpo.

    Ali, como gêmeas siamesas, duas Hildas, uma de carne e outra de espírito, urravam de dor, enquanto eram arrancadas da presença uma da outra.

    Yaci disparou para ajudá-la, com medo mas inabalável. Porém a ajuda chegou antes.

    Dois meninos estavam próximos da idade dela. Suas almas pequenas e translúcidas dificultavam diferenciar suas faces, mas com um segundo olhar, era fácil ver a semelhança deles com Hilda. 

    Eles rodeavam a mãe, afugentando os espectros ao redor ou tentando afugentar. Mas não foi o suficiente.

    Yaci estava atrasada. Um homem de meia idade com uma barba bruta e suja, separou as cabeças de Hilda, e vestiu o rosto dela como o seu. 

    Seus olhos viraram para trás, antes de voltar com um brilho sinistro e bem familiar para Yaci. Era loucura e maldade.

    Ele gargalhou com uma voz masculina profunda

    — Uma médium ahahaha! Saiam! Saiam desse corpo, ele é meu! Eu vou viver de novo! Eu!

    A voz era grossa e rouca de anos de tabagismo.

    Os outros espíritos se assustaram com a súbita possessão e se afastaram. Mas os filhos de Hilda não. Eles intensificaram seus esforços, suas pequenas mãos puxando com força o espírito da mãe junto do corpo, evitando que aquele homem morto tomasse seu lugar no mundo dos vivos.

    Assim que Yaci chegou o homem a encarou, seus olhos vidrados fixos nos dela.

    — Desperta maldita… esse corpo agora é meu! Me-me…

    As crianças deram um puxão mais forte, e Hilda convulsionou forte, os olhos viraram mais uma vez, e o misto de sua voz e a do homem saíam em gritos de sua boca.

    Yaci tentou agarrá-lo e puxá-lo para longe da alma de Hilda, mas sua mão o atravessou.

    “Tinta…”

    Puxou mais de si, seus antebraços escorriam de tinta enquanto com a outra mão ela desenhava em si mesma. Para os outros não era nada, apenas preto no preto, como se ela espalhasse mais tinta pelo seu corpo. Mas por baixo do fluxo ela marcou a sua pele com delicadeza.

    Marcou em si, não somente com tinta, mas com intenção. Queria agarrar, tocar, e interagir com algo intangível. E assim ela fez.

    “Força, interação, toque, físico…”

    Não conseguiu pensar em nada para desenhar o invisível ou o intangível, então escreveu com os dedos diversas palavras em seu braço.

    Seus olhos, como esmeraldas, mais uma vez brilharam quando ela agarrou o espectro com firmeza, e o puxou para fora. Tendões feitos de um material desconhecido rasgaram e se tornaram físicos à medida que ela o trazia de volta para a morte. 

    Não houve som quando os três conseguiram. A confirmação veio apenas da respiração profunda e acelerada de Hilda que estava de volta.

    — Meus filhos! Meus filhos Yaci! Eles estão aqui. — disse entre lágrimas, estendendo a mão para eles, sem se importar com a própria segurança.

    Mas Yaci se importava, com as mãos ainda pingando de tinta, ela desenhou na testa, nas mãos e costas de Hilda cadeados e correntes. Foi o que pensou para “prender” o corpo e a alma juntos.

    Depois de se debater um pouco, Hilda desmaiou, tudo isso era demais para ela, era demais para qualquer um.

    O terror já havia se tornado generalizado, e a cada momento, mais fina era a camada que separava as duas multidões que ali dividiam o mesmo espaço.

    — Para longe do mar! Todos, para longe!

    Um homem da multidão gritou. 

    Yaci tentou seguir as instruções, mas percebeu que nem todos estavam em condições de ir com ela. 

    Hilda estava em seus braços. Benjamin estava a alguns passos dela e já havia se recuperado do choque. Mas Pietro não. Ele gaspeava fraco enquanto vovó Heloísa e Marco se revezavam para fazer massagem cardíaca, o homem idoso estava vermelho, com veias saltadas e com muita dor em sua face. 

    Heloísa e seu filho choravam, mas bastava Yaci olhar para eles para entender que suas aflições não eram físicas. Mas vinham das palavras de inúmeras almas que se juntaram ao seu redor.

    Eles clamavam por mais um em suas fileiras, exigiam que aqueles dois médicos desistissem. 

    Pietro, sem paz, sofria ataques de todos os lados, seu coração estava falhando, e sua alma, como a da neta, estava sendo arrancada do corpo. Entretanto, nenhum espectro tentava tomar seu corpo. Nem os mortos querem viver como um velho miserável.

    Mais e mais pessoas corriam. Pisoteando umas às outras, o caos sem fim se instaurou.

    — Benjamin!

    Ela gritou, mas o jovem já estava em movimento. Como sempre, eles tiveram a mesma ideia.

    A multidão se aproximava sem piedade, mas acabaram esbarrando em dois corpos imóveis.

    Yaci deixou Hilda no chão perto de seu avô. Benjamin brilhou de forma ainda mais incandescente com chamas mais fortes ao seu redor afugentando as pessoas.

    Yaci com a ponta dos pés desenhou montanhas no chão e fez uma linha que as ligava a ela. Seus movimentos foram rápidos e precisos, os desenhos caricatos, porém claros e expressivos, a tornaram imóvel como um muro, mesmo que ainda sentisse dor ela era um bastião, não importa o quanto batessem ou tentassem empurrá-la, ela impediu todos de passar por ela.

    A névoa se tornou mais espessa e mais populosa à medida que mais e mais pessoas morriam pisoteadas.

    Os bisnetos de Pietro tentavam afastar as almas malditas que tentavam ferir mais um membro de sua família.

    Mas ali, juntos, eles tentavam salvar pelo menos os seus.

    Porém, o velho senhor não conseguiu suportar tamanho flagelo. E em seus últimos suspiros, brumas saíram de sua boca, nariz e ouvidos.

    Ele lutou, mas como Hilda já havia dito, a morte era de fato verdadeiramente misericordiosa, pois no momento em que sua alma se foi de uma vez por todas, seu rosto transmitia paz, apesar da situação tão aterradora.

    — Não! Mais um não!

    Ela gritou, rugiu. Seu filho, desolado, sentiu mais uma vez aquela sensação nova para ele, a perda. A impotência de um médico diante da fronteira final. 

    As costas de Yaci já estavam roxas e cheias de hematomas. A pele de Benjamin se carbonizou cada vez mais, eles estavam no limite.

    Os dois se encararam. Um plano mútuo se formando.

    — Marco! — Benjamin chamou.

    Ao olhar para as duas crianças parando sozinhas o avanço da multidão ele compreendeu.

    Pegou Hilda e Heloísa em seus ombros e deu sinal para que corressem.

    Benjamin extinguiu as chamas e Yaci desfez os desenhos e todos começaram a fugir.

    — Quero explicações! — Os irmãos falaram ao mesmo tempo.

    Depois de alguns minutos, já longe do mar. Perto da entrada da cidade, onde Yaci estivera algumas horas. 

    — Boa filhote, pensou bem, eu tô velha demais pra correr ensandecida igual a vocês. Porra, minhas costas! Estão doendo só de ver vocês correndo.

    Meio chorosa, ela tentou aliviar o clima.

    Mas de nada adiantou, estavam todos exaustos e mortificados, aqueles dois irmãos que o digam, ela tinha muitas perguntas para os dois, mas isso podia ser adiado, o importante é que estavam vivos e relativamente seguros.

    — O que fazemos agora? — Yaci perguntou. 

    Mas não teve resposta, ninguém tinha, pela primeira vez ela genuinamente entendeu. Todos tiveram a mesma realização, o mundo estava acabando. O primeiro passo para o fim foi dado.

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