Capitulo 9: Caça do verme púrpura
Quanto mais perto do centro mais olhos violetas surgem. Os céus esconderam a Lua, os abençoando com a escuridão. Aftí reconhece o padrão dos servos de Sagol, a tarefa de os evitar está se tornando mais árdua a cada passo. Os grunhidos distantes revelam o grande número de moribundos que os aguarda. São pouco ágeis, têm a inteligência limitada e suas rotinas são curtos ciclos de cinco minutos. Não falam ou pensam. Restando somente a selvageria. Se não fosse pela quantidade seriam facilmente superados por Moshe.
Caso se concentre pode escutar alguém chorando. Sozinho. O corpo de Aftí estremece, lembra-se perfeitamente da sensação. Assim como eles, foi condenado a vagar sem rumo. Andar em círculos como um rato. Não comer ou beber durante dias. A dor é constante e raramente entorpecida pela hipnose. Caso tivesse sorte seria escolhido para ser incorporado por Sagol, pois somente esses poucos têm a sede e a fome saciadas. Os únicos a não adoecerem. Os únicos que não morrerão. Talvez os únicos a não se lembrarem da agonia.
— Matí — o nome da única mulher que amou escapa dentre os lábios secos.
Ela ao menos viverá, Sagol é perspicaz em mantê-la viva como moeda de troca. O alívio tem sabor amargo. Deixá-la nas mãos de tal verme é uma punição, punição que ela não merece. Não aguentaria viver sem ela. Se ela não o incorporasse talvez já tivesse caído sem vida durante as peregrinações, mas esse verme não faz questão de alimentá-la corretamente.
— Quantos corpos Sagol largou no deserto? — Aftí suspira aos céus. — Quantos mais morrerão?
Um breve silêncio se fez entre os dois. Ambos perdidos em seus próprios pensamentos. Aftí não consegue mais ignorar a drástica mudança de visual que Moshe adotou. Não só os olhos negros, que aos poucos começou a se familiazar, mas a barba e o cabelo são traços incomuns. É óbvio que ele não teve tempo ou condição de cuidar melhor dos cachos ou aparar melhor os pelos no rosto, porém o visual lhe concede um ar sério. Não consegue imaginar que é o mesmo homem que a alguns meses chorou com uma criança quando descobriu que a entrega de iguarias iria atrasar em dois dias.
— Como escapou dele? — escutar sua voz séria lhe dá a certeza que os tempos simples e prósperos acabaram. — Talvez tenha uma maneira de libertar mais pessoas.
— Acho uma ideia arriscada, afinal — a cicatriz em seu rosto arde — eu não fugi dele. Eu fui descartado.
A frieza do aço atravessando a pele ainda é recente. As cicatrizes saltam a pele como uma costura mal feita.
— Sagol realiza sessões de tortura com alguns sob seu controle. Realiza incisões na pele a procura de algo. Talvez puro sadismo. Muitos não retornaram — as memórias se entrelaçam com a dor e se nublam com o sangue. — Ele fez Matí me atacar. Não antes de se retirar do meu corpo, ele não perderia essa oportunidade. Armada com um caco de vidro ela foi obrigada a me matar, não revidei. A dor não me incomodou, ele já havia retirado isso de mim. Tudo que fiz foi fingir minha morte — ao levantar seu manto uma cicatriz na altura do peito é revelada junto a outra dezenas de cortes. — Tive poucos segundos para me esgueirar antes que ele terminasse o serviço. Foi um milagre não ter morrido. Talvez ele tenha me deixado viver somente para me perturbar.
— Nós vamos vencer, não se preocupe — Moshe diz deitado no chão. — Eu vou vingar o que aconteceu a ti e a Matí. Irei salvar Aharon do mesmo destino.
Seu entusiasmo brilha o espírito desesperançoso do servo. Sabe muito bem que entregará a própria vida a este homem se Matí estiver a salvo. O brilho dourado resplandece ainda mais poderoso quando imerso na escuridão, promete a si nunca se esquecer disso.
— A cada segundo ele está mais cansado — continua Moshe. — Nem mesmo um verme monstruoso como ele sustentará a habilidade pela eternidade.
— Não sei se temos esse tempo — a animação de Moshe é o que precisava para acreditar que o céu se abrirá novamente.
— Então vamos agir e levar Sagol ao limite — em um salto se levanta. — Com certeza ele poupa o máximo de energia, raramente deve usar o verdadeiro potencial de seu dom. É impossível manter um dom ativo por meses sem sofrer sequelas. Vamos pensar em como podemos irritá-lo, o obrigar a agir.
Ele caminha sob o pouco perímetro interno da casa. Estão sob outro telhado. Uma casa simples. Acomoda cerca de três pessoas, cinco com alguma dificuldade. Talvez uma família morasse aqui. Se fechar os olhos pode escutar as crianças brincando, a mãe as chamando para o jantar, o marido lavando o rosto após o árduo trabalho e o ancião começando as orações. Deveria ser belo, muito belo. A simplicidade da residência pouco sofreu desde a chegada de Sagol. Mesmo assim, a melancolia se impregnou nas paredes abandonadas.
— Aftí, quando escapamos de Sagol, você pediu para eu bloquear a linha de visão dele — Moshe não se abala com tal melancolia. — Então sem a visão ele é inútil?
— Correto — Aftí continua encostado na parede, a cabeça repousada perto da janela. — O dom dele, assim como o meu, depende unicamente da visão. O controle exercido é limitado. Pode se comunicar e falar somente um corpo por vez e para trocar o controle o outro manipulado deve estar em sua linha de visão. O restante são simples receptores de informação.
O ivrit fica em silêncio mastigando uma ideia. Em um momento se levantou e observou o entorno, mapeando o pequeno pedaço da cidade. De repente correu para uma casa vizinha. Aftí empalideceu. Não havia grandes riscos, é claro, garantiam isso antes de se estabelecerem. Mas se arriscar assim era desnecessário.
— Eu tive uma ideia arriscada — surgiu Moshe na janela. — Vamos precisar de água, muita água.
O quinto dente caiu. Talvez fosse o sexto. Talvez o décimo. Não importa. Os apagões em meio aos golpes nublam a memória. Aharon agradece a cada golpe desferido no rosto. A dor desaparece por alguns segundos e pode sentir a morte se aproximar, só para logo em seguida se afastar.
— Não me parece ser tão diferente dele — Sagol, ainda na banheira, volta a tagarelar. — Ozymandias me alertou sobre o monstro que Moshe se tornou. Um ser vil e poderoso. Poderoso ao ponto de mover Olin a bel-prazer. Manipular rãs e outras pestes. Realmente uma aberração.
Aharon abriu os lábios determinado a rebater os insultos direcionados ao amigo. No entanto, o brutamonte foi mais veloz. Outros quatro dentes tocam o chão. A mente novamente se nubla. Infelizmente a consciência retorna a tempo das palavras do desgraçado relaxando na água alcançasse seus ouvidos.
— A questão é que essa escuridão também te habita, não? — Sagol questiona. — Afinal, independente do quanto apanhe, não cede. Não cede e já cansei de contar quantos dentes lhe arranquei. Seu tumor negro também diminuiu. O que me faz deduzir que isso é limitado a um certo número de vezes.
Ele se levanta rangendo os dentes e caminha, ainda nu, até seu prisioneiro. O corpo disforme se assemelha a um parasita. A pele clara, muito próxima do albino, é rugosa. Os músculos flácidos balançam repulsivamente. Braços e pernas magros demais para sustentar o próprio corpo. O dorso é desproporcional, o abdômen inchado no lado direito e as costelas marcam a pele no lado esquerdo. O pescoço longo e constantemente torcido na tentativa de sustentar o crânio comprido. E, claro, o pior sempre será os malditos olhos violetas carregados com a peste.
— Meus músculos, — diz com a mão repousada no brutamonte —, raramente falham. Tenho eles a anos e, modéstia à parte, nenhum homem suportou um dia de tortura. Nenhum, — o brutamonte agarra o braço de Aharon —, exceto você. Esse seu fedor é exatamente igual ao do Moshe. Você também é uma aberração.
O brutamonte lentamente gira o fino braço de Aharon. O estalo seco vem um segundo antes da dor. O grito é contido, um gemido penoso. O lábio sangra entre os dentes cerrados. Não pode deixar Sagol se deliciar com sua dor. Muito menos deixar Moshe o escutar, ele iria se precipitar e fazer algo estúpido.
— É assustadoramente fascinante — Sagol sorri.
O braço de Aharon de contorce até lentamente os músculos voltarem à forma. Os ossos rangem e se colam. O roxo na pele se dissipa. Somente a dor latente permanece.
— Como algo assim caiu nos braços de dois ivrits? — Sagol abre os lábios de seu prisioneiro. — Que desperdício de poder.
Os dentes todos ressurgiram, os antigos permanecem no chão junto ao sangue. Ele sente dor, isso é óbvio. Mas ter tal dom de se recuperar independente do ferimento é um desperdício nessas mãos imundas. Sagol aceita esse fato como uma provação dos deuses. É seu dever divino ter ambos os Ivrits sob seu controle e assim extrair o potencial máximo de seus novos dons.
— O que será que fez para merecer tal graça? Como eu posso obter tal dom? — os olhos violetas pulsam em êxtase, os dedos dançam sobres os novos dentes do ivrit. — Talvez possa…
A mandíbula de Aharon se fecha antes dos devaneios de Sagol continuarem. O verme de olhos violeta grita em desespero. Está sangrando. Sangrando como um animal. Sujo, sujo, sujo. Está imundo. Ao virar o rosto vê Aharon sorrir com a ponta de seus três dedos repousando sobre a língua. Seu sangue agora escorre pela barba do ivrit.
— Seu desgraçado — as duas mulheres corpulentas não tardam em surgir com bandagens. — Seu escravo imundo, sua família será açoitada até a carne ser arrancada dos ossos. Prometo fazer todos que compartilham seu sangue carreguem os fardos mais pesados dentre todos os escravos.
O brutamonte volta a desferir socos. Os dedos decepados caem junto aos dentes. A dor não o impede de sorrir. Afinal cada dente caído é substituído por um novo. Cada costela quebrada é colada. Cada gota de sangue derrubada é substituída. As vozes não irão o deixar morrer, independente do quanto queira. Então Aharon ri de Sagol. Ri do verme à sua frente.
Moshe está certo, não que Aftí duvidasse. Sagol cometeu um erro, algo inerente a sua repugnância. Dentro das casas há comida, mudas de roupa e jarros. Jarros cheios d’água. A negligência com a vida inocente que Sagol possui o fez abandonar estas casas intactas. O poço deve satisfazer as mais básicas necessidades daqueles sob seu domínio. Poço esse que também deve saciar sua sede diariamente, não deve tardar para descobrirem a localização de seu esconderijo. Os olhos do servo cintilam com a balança finalmente pendendo para o seu lado.
Ao contrário da grande maioria, Moshe não depende de uma parte do corpo para utilizar o dom. Quando movimenta as mãos é somente para exercer mais precisão no controle da água. Mas pode moldá-la sem mover um músculo. O único pré-requisito é o líquido estar livre, em contato com o ar. É nisso que todo o plano se baseia. Em deixar o máximo de água disponível para que ele nunca esteja em desvantagem. Os jarros que possuem tampas se tornam um empecilho a ele, algo que Aftí já está resolvendo.
A ordem foi clara, espalhar esses jarros pelas residências do centro a plena vista. Um trabalho simples, porém, terá que levar em pares. Não pode se dar ao luxo de chamar atenção. Não só revelaria sua posição a Sagol, como também seu plano. Caso ele tampe o poço ficarão em grande desvantagem.
As nuvens já não escondem a Lua exuberante. E se tardar demais em seu trabalho o Sol nascerá. Pode ver o laranja começar a tingir a base do céu. Sob a luz ardente do astro rei não terão a furtividade como arma. Moshe não a usaria de toda forma, sua função é segurar a grande maioria dos controlados por aquele verme. Aftí irá o atacar diretamente. Não tem força o suficiente para lutar ao lado de seu senhor, logo deve eliminar a raiz do mal antes que Moshe se esgote. O plano é perfei…
— Agradeço por ter sido ela a permanecer comigo — uma voz familiar, uma voz que trocaram carícias sobre a luz da mesma Lua. — É melhor se entregar antes que eu acabe matando outro casal.
Aftí lança ambos os jarros que carregava sobre Matí, sobre o desgraçado que a tem na palma da mão. Não pode olhá-la diretamente, não pode cair na armadilha dele. Precisa ganhar tempo e afastá-lo do centro.
— Eu ainda vou te matar — sussurra para que somente Sagol possa ouvir.
A Lua repousa exausta no céu, não deve demorar para amanhecer. As pálpebras pesam. Aos poucos o corpo cobra o descanso. Dormir já é um luxo quando está no acampamento, as vozes não permitem. Elas não precisam citar uma palavra, somente as lembranças são o suficiente.
Será que um dia será perdoado?
Abre e fecha as mãos. Sentir que está vivo não é mais reconfortante. Estar vivo significa que será caçado. Se todos seus algozes forem inescrupulosos como Sagol, terá um rio de sangue cortando o deserto antes que tenha a chance de se redimir. Ozymandias não irá desistir, não depois do que fez.
Ainda tem uma opção…
Voltar a Otige…
Terminar a vingança…
Conquistar...
Se entregar não salvaria seu povo da escravidão. Seria apenas executado, não há dúvidas que Ozymandias será tão impiedoso quanto seu pai. Seu ódio é ainda maior do que Seti sentia.
Mate-o…
Mate-o...
Talvez se iguale as vozes. Essa sede de morte que cada frase carrega. A vista obscurecida pelo sangue. Moshe sabe exatamente como é a sensação da execução, matar lhe transforma. Mas não se compara ao desejo. Desejar matar algo inibe qualquer restrição física e mental. Sacrificou tantos inocentes somente para matar seu pai.
Faraó…
Seti…
Assassino…
Monstro…
O que vem depois das mortes é um simples vazio. Caminhar sobre os corpos sem vida e imaginar o que seriam deles em mais alguns anos, talvez faltasse tempo para construir um mundo melhor. Talvez… Talvez…
Seja inútil…
Pensar…
No futuro…
Pela primeira vez não se opôs as vozes que gritavam atrás de seus olhos. Pela primeira vez apreciou o fato de estar acompanhado enquanto os primeiros raios do Sol tingem o centro da cidade de laranja. Moshe deve esperar o momento correto para agir. Somente após Afti posicionar o último jarro que terá segurança para enfrentar as vítimas de Sagol. Então…
— Deixar tudo à mercê de um servo é algo que somente um príncipe faria — uma voz desconhecida o alerta. — Velhos costumes não mudam em poucos meses, né?
Um homem surge na porta do esconderijo. A cabeça raspa no teto. Os ombros quase não passam pela porta. Há sangue ainda fresco tingindo suas vestes de couro.
— Nunca tive servos — uma esfera translúcida é jogada no rosto do brutamonte. — Eu sempre tive companheiros.
Moshe salta pela janela. Foi obrigado a gastar um dos jarros d’água para fugir. Tem mais alguns a sua disposição, mas não vão até o centro.
— Dessa vez não pouparei esforços para te capturar — outra voz estrangeira rasga seus tímpanos.
Seus ouvidos sangram. Cercando Moshe há quatro pessoas. Três homens e uma mulher. Todos com feições esqueléticas e olhos violetas. Todos com suas habilidades preparadas.
— Mate ou morra, príncipe.
— Isso não será necessá…
O tórax de Moshe é atravessado.

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