A residência é limitada a um simples cômodo. Sagol sentia-se bem com isso. Nada mais que uma cama e duas mudas de roupa o pertencem. Isso não o incomoda, claro que não. Há muitas regalias por ser quem é. Por exemplo, as duas beldades que o abanam, duas mulheres escolhidas a dedo. Uma de pele mais clara e outra bronzeada, ambas dotadas de sensuais curvas. Faz questão de alimentá-las quatro vezes ao dia, é inimaginável deixar a beleza de ambas murchar.

    — Receio que não me informou corretamente sobre seu companheiro — sua voz grave rompeu o silêncio. — Talvez deva cumprir minhas ameaças.

    Ambas as mulheres pararam de o abanar e começaram a massageá-lo. Não há sentimento nenhum em seus rostos, estão indiferentes do que ocorre em seu entorno. Diferente de Sagol, as veias ao redor do rosto pulsam. Está ofegante e suas vestes brancas estão encardidas com suor. A fadiga o alcançou antes de cumprir sua tarefa. Precisa imediatamente de um banho e uma muda de roupa.

    — Então, Aharon, como prosseguiremos?

    — Vai comer merda de camelo — ele responde cheio de uma estranha vitalidade para um homem acorrentado.

    O seu raptor aproxima-se da luz. O seu rosto envelhecido bufa a poucos centímetros do seu nariz, a falta de pelos destaca ainda mais seus olhos. Roxos. As veias saltadas transportam um líquido da mesma cor. Ele alisa o crânio deformado, busca mais um pouco de paciência. 

    — Sabe quantas vidas tenho em minhas mãos? — uma das mulheres sai do cômodo. — Sua resistência é inútil. 

    Aharon segura a repulsa na garganta, de nada adiantará continuar retrucando. Seu corpo já sentiu os excessos de raiva do sequestrador. Dois dentes foram arrancados por um brutamonte. Seu tórax foi chicoteado até os ossos serem rasgados. Mas está vivo. Odeia saber o motivo. 

    As vozes

    Elas que arduamente atormentam a mente de seu amigo, por vezes o levantado a insanidade, estão o mantendo vivo. O amálgama negro no abdômen encolheu, dilui-se no sangue alcançando cada parte do corpo. Cada fissura na alma. Elas costuram os rasgos, elas constroem pele nova abaixo da ferida. 

    — Receio que sua resistência esteja chegando ao limite — Sagol volta a falar após uma dúzia de homens esguios trouxerem uma bacia com água fria. — Peço encarecidamente que revele qualquer informação útil, Moshe é o homem mais perigoso destas terras. Deve ser capturado e eliminado pelas mãos de Ozymandias, nosso ilustre faraó.

    As palavras deslizam pela sua garganta sem emoção, retiradas de um texto pronto. Ele não tardou a se despir e entrar na banheira. Sem novos comandos, os homens se retiram do recinto. Sobraram as mulheres sensuais, cada uma limpa o corpo flácido e assimétrico de Sagol. Não há emoção alguma no olhar de ambas, Aharon morde os lábios a fim de impedir a propagação da cólera em sua mente. 

    — A cada novo acontecimento meu aborrecimento contigo aumenta — os olhos imersos no violeta revelam que a mente vaga entre seus escravos. 

    A porta da casa se abre e novamente alguém entra. Um homem corpulento com o roxo impregnando os olhos. Aharon não necessita ser sagaz para entender o que o ocorrerá, afinal é a terceira vez no dia. 

    Já se habituou a contar os dentes caídos no chão.

    Moshe encontra-se atônico. Com os olhos fervendo em um violeta estrangeiro está Matí. Uma serva, não, uma amiga do palácio. Tratava-a como uma igual. Comia na mesma prataria. Conversavam sem o uso de títulos. Até os trajes compartilharam. Mesmo sujos, são iguais aos de um ano atrás. Um presente em seu aniversário. A voz é a mesma. O rosto exatamente mesmo. Sim é ela, é Matí.

    — Não se aproxime — grita um homem. 

    Ele é o outro responsável por sua fragilidade de espírito. Aftí. Está visivelmente debilitado. Interligando sua orelha direita e o nariz há uma cicatriz, profunda ao ponto de não se fechar por completo. 

    — Seu desgraçado, quando vai se cansar? — sim, ele é Aftí. — Prometo fazer sua morte ser lenta e dolorosa. 

    Os olhos dele. Sim. Eles ainda são verdes. Verdes como um campo saudável.

    — Que bonito — a voz que escapa dentre os lábios de Matí é grossa. — Amo quando sou jurado de morte. Me recorda como a vida é frágil. Sempre…

    — Senhor, está vendo a mulher de idade avançada? Atrás do seu ombro esquerdo — Aftí sussurra sem desviar os olhos de quem possui sua mulher. 

    Moshe inclina a cabeça, é cauteloso para não interromper o monólogo de quem possui os olhos violetas. Agora a voz não passa de um zumbido distante. A mulher estava na direção indicada, estava distante. Cerca de quinze metros de ambos.

    — Ela é o atual elo frágil da corrente que nos cerca. Devemos fugir naquela direção — permanece focado, frio diante do perigo. — Preciso que corte a linha de visão, cegue Matí.

    O Ivrit se incomoda com a frieza. Como pode ele abandonar Matí? Ambos cresceram juntos, compartilham as mesmas memórias. São unha e carne.

    — Eu… — o tom se elevou com a raiva.

    — O que foi príncipe? Finalmente irá se entregar e, quem sabe, “salvar” estas pessoas? 

    Moshe congela, deixou-se levar pelo coração. Vê o cerco se fechar. As flechas ainda repousam na brisa. No entanto, é impensável ferir qualquer inocente. 

    — Por favor, senhor, apenas confie em mim. 

    As setas d’água são apontadas para Matí.

    — Não hesite príncipe, afinal não é como se fosse a primeira vez que derramaria sangue inocente — a cólera subiu a mente de Moshe, se imaginou perfurando o rosto de sua antiga serva. 

    A fisionomia se contorce e torna-se inumana, ele destrói a aparência dela. Ele a viola usando sua voz. A cólera se torna maior. O ódio arde em seu peito. A sede de sangue deturpa a justiça.

    Destrua…

    A carne é temporária…

    Salve o espírito...

    — Seu silêncio me causa tédio. Se hesitar em matar será morto. Ainda não compreendeu o mundo à sua volta?

    — Senhor!

    O grito de Aftí expulsou a cólera da mente. Iluminou os olhos e espantou as vozes. Tamanha dor presente no grito acordou Moshe, o príncipe exilado. O movimento de suas mãos era desnecessário, mas ainda assim o fez. As flechas voaram rente ao chão, acumulando areia em seus corpos. A cada metro uma se une a outra, inchando e inchando. A deformidade atingiu seu ápice na forma de uma esfera.

    — Eu vou te salvar — o sussurro trêmulo é o suficiente para estourar a bolha.

    A areia acumulada é expelida. Os pequenos grãos viajam entrelaçados. A cortina de pó fere os olhos e rasga a pele. Com a linha de visão cortada, ambos correm. Moshe evita encarar a população que debilmente tenta os impedir. O violeta em seus olhos não esconde a agonia da prisão imposta. 

    Mate...

    As vozes suplicam.

    Vingue-os

    Elas ordenam.

    Destrua-os...

    Moshe apertou as têmporas, correu sem direção. Vê Aftí se tornar um borrão. O som dos passos é abafado. Deseja parar e descansar. A mente delirante custa a acreditar que sua amiga está à mercê de um homem desprezível. 

    — Senhor, suplico, não se distraia — o corpo é puxado para a escuridão.

    Aftí o guia pelo braço. Estão correndo entre os becos da cidade. Os telhados de palha se entrelaçam e escondem o céu. A pouca luz ajudará na fuga. O bravejar de Sagol escapa de ambos, pois este está distante. Perdido entre os rastros incompletos na areia. 

    — Creio que estamos seguros — ele mais uma vez observa a retaguarda. — Aquele maldito. Desgraçado. 

    Finalmente a fúria escapa do peito. Saliva como se estivesse faminto. O rosto torna-se vermelho e a cicatriz ameaça se abrir. 

    — Perdoe-me, eu estou exausto.

    Suas costas deslizam na parede até finalmente se sentar na areia fria. Moshe finalmente vê as outras cicatrizes em seu rosto. Menores e menos profundas do que a do lado do nariz, porém são numerosas e precisas.

    — O que aconteceu? O que… ou melhor, quem está fazendo isso? E a Matí, pelos céus…

    Aftí observou seu antigo senhor aflito. A tristeza mistura-se com a indignação. A inocência ainda tinge sua face. O abraçaria, deseja o abraçar pelo tempo que se afastaram. Deseja largar de vez sua formalidade e parar de entoar “Senhor” em cada frase. 

    Porém tem medo. 

    A culpa ainda agora o assola, pois hesitou em alertar o amigo. O viu adentrando a cidade com Aharon e mesmo assim se conteve em observar. Mentiu para si sobre estar o protegendo não querendo o envolver. A verdade sempre lhe foi clara, estava apavorado. Como agora ainda sente o espírito fraquejar. 

    — Aftí está ferido? — a voz aflita saí da garganta de um assassino, de um genocida. — Está pálido.

    Nas mãos deste homem escorre sangue inocente. Ele jogou Otige a beira do colapso. E agora vê que a própria alma está na beira do abismo. Sob o dourado das íris há uma escuridão infinita, uma sombra cercando a frágil vela. Odeia sentir medo do amigo, mas não consegue ignorar o monstro que o habita.

    — Sagol, ele foi encarregado de o capturar — evita encarar os olhos abissais. — Quando ouviu os boatos que vivia como um eremita na companhia dos Euqones, se apossou de pequenas vilas na esperança de o encontrar. 

    — Isso não tem lógica, como ele sabia que eu estaria aqui. Os deuses o abençoaram com um oráculo? 

    — Não, piedosos seriam os deuses se ele soubesse desde o início. Foram três meses colecionando corpos e longas viagens — a memória revive a dor de sua cicatriz. — Ele arrastou dezenas de vilas a morte à tua procura. 

    O silêncio rasgou o ambiente. Moshe observa as mãos, as abre e as fecha. Sente o sangue fluir, vê as veias saltarem. Sente a vida, está vivo. Durante esses três meses ter consciência disso era o suficiente, enquanto tiver ar nos pulmões poderá ajudar o mundo. Sim, acreditou que viveria compensando o grande pecado. Uma vida servindo a todos. Mas…

    — Droga — a dor lhe escapa. — Por quê? Por quê? Eu deveria ter me entregado.

    Aftí não é eficaz em conter o próprio espanto. A culpa tomou a forma líquida e o perfurou. A vergonha o obrigou a cobrir o rosto. Moshe, o homem que julgou como monstro, está chorando. 

    — Senhor…

    Lágrimas cristalinas, sem mácula. Permanecem transparentes após atingirem a fria areia. Elas escorrem sem parar.

    — Eu… Tudo que fiz, todos que perderam a vida por minha causa… — ele o encara, seus olhos não são mais monstruosos a tua vista. — Aftí, acredita que ele irá parar se eu me entregar?

    — Senhor… — há tanta tristeza resguardada e sem timidez mostrada a luz. — Sagol é um verme, um homem sem escrúpulos. Ele não irá cumprir o acordo.

    — É claro… — ele conseguiu se recompor, secou as lágrimas ficando com uma leve marca de tristeza no rosto. — Vocês não deveriam estar aqui, deveriam estar no palácio. Perdão.

    Aftí ainda mastiga a culpa. Não é a primeira vez que vê Moshe derramar lágrimas, mas esse choro fez os outros perderem a importância.

    — Se quiser culpar alguém, me culpe — começou a falar sem entender bem o motivo. — Eu deveria ter fugido ou me apresentado imediatamente ao palácio, porém temi por Matí. Nós escondemos, esperamos que as areias se acalmassem. Então quando retornamos, Ozymandias… Ele…

    Hesitou em completar. O rosto de Moshe se contorce em agonia. Em amargura. Novamente abriu e fechou as mãos. Como se tentasse segurar o próprio vento, o agarrar e velejar sem rumo.

    — Ele questionou nosso envolvimento, nos culpou por não notarmos a serpente que habitava conosco — suspirou, a memória lhe parece mais recente do que desejara. — Neguei tudo e me ajoelhei a ele, prometi que tudo faria para recuperar a confiança e, bom, aqui estou. Fui usado por Sagol, fugi na primeira oportunidade. Abandonei Matí. A deixei à mercê dele. Eu deveria ter fugido. Talvez nos encontrássemos.

    Ver o amigo em silêncio o perturbou. Moshe falaria algo para reconfortá-lo, não que gostaria de palavras doces no momento. Porém isso o faria acreditar mais nele.

    — Perdão… — foi o único murmúrio que Moshe deixou escapar.

    Passaram horas desde que o Sol se pôs. Moshe e Aftí repousam em um sobrado. A Lua redonda ilumina a noite como um farol. As estrelas são coadjuvantes e o céu é seu palco.

    — Não é impossível que ele também trocou de esconderijo — ponderou o Ivrit. 

    — É provável, porém ele não é discreto. Com certeza cometeria um deslize ao sair do esconderijo — os olhos verdes emitem o fraco cintilar de um vagalume. 

    Aftí possui o dom da visão. Possui a capacidade de enxergar o cair de um grão de areia a poucas centenas de metros sob a luz do luar. Mesmo assim continua falhando. Desde que recuperou o controle do próprio corpo não obteve uma vitória contra Sagol. Dia após dia. Falha após falha. O rosto de Matí o perturba. Por sua causa ela sofre. Cerra os punhos, contém a vontade de gritar. Esmurraria a janela se a situação o permitisse.

    — Ele concentra todo o movimento no centro da cidade. Lá todos os seus olhos e ouvidos estão presentes — Moshe está sentado, observando a parede. 

    — No centro não há um ponto cego, ele sabe quando alguém entra. Droga — Aftí complementa o pensamento de Moshe. — E só poderemos chegar até ele se passarmos pela sua legião de corpos.

    — Sem ferir ninguém — frisou o príncipe.

    Os olhos esverdeados buscaram qualquer sinal de malícia ou mentira, nada. O dourado em seus olhos resiste à escuridão, ilumina o abismo. Novamente a culpa aflige Aftí. Nunca julgou tão mal um homem. 

    — Certo Moshe, vamos adentrar o covil do verme.

    O homem ao seu lado carrega uma forte luz que purifica o abismo. Ele não será consumido. Tem certeza disso. Esse homem iluminará o mundo. Ele é o próprio Sol caminhando na mais densa noite.

    Ele é, sempre foi e sempre será seu amigo.

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