[Continente Sudoeste: Damis]

    A manhã seguinte despertou bela como nenhuma outra. Era um dia ensolarado; o calor do astro rei acarinhava a pele e o magnífico firmamento azul estava nu, sem qualquer nuvem perambulando pelas cercanias.

    Sob o majestoso céu, pássaros de diversas espécies voavam livres em bandos, tecendo melodias encantadoras que o vento soprava para longe. Mais abaixo, o aroma verde e fresco da floresta embriagava as criaturas vivas que ali habitavam.

    Um gramado baixo, vívido e brilhante estendia-se até o horizonte como o mais requintado dos carpetes, adornando todo aquele prado em conjunto com pequenas flores silvestres azuladas.

    A brisa fresca matinal soprava com suavidade, convidando todos os seres sencientes a se lançarem ao solo e permitirem que o ambiente levasse embora o cansaço. Se fosse necessário definir aquele lugar com apenas um vocábulo, não existiria outro mais perfeito senão “Paraíso”.

    Zaztek Kalma, Monarca dos Hyems, após caminhar por algum tempo pelas planícies idílicas, fitou a mata ao longe — que formava uma espécie de muralha ao redor da campina —, soltou um suspiro e interrompeu o passo.

    — Haaa. Minha nossa. — Seus olhos estavam cerrados, a cabeça erguida e os ouvidos atentos apenas aos sussurros do vento, das árvores e dos animais. A cantoria das aves quase o induzia a deitar-se ali mesmo para dormir. — Se eu abdicar do meu trono, será que a Celyn me permite vir morar aqui?

    — Não diga isso nem por brincadeira, meu soberano. — Uma voz surgiu às suas costas; era grave, porém estranhamente suave, mesclando-se perfeitamente à sinfonia local. — Kansi não suportaria perder-te.

    O dono da fala era outro de sua espécie… um soldado. Trajava uma armadura negra e mantinha os quatro braços cruzados.

    — Na verdade, vossa Majestade é quem não suportaria ficar aqui nem por uma semana, comandante — interveio outra voz, rouca e cansada, pertencente a um ancião de longos cabelos e barba grisalhos. — O clima é realmente agradável, mas nenhum de nossa raça foi feito para viver em condições tão amenas. Definharíamos em poucos dias por estas bandas. — O velho postava-se à direita do governante. Era o “Sábio da Direita”.

    — Pois é… — O líder do exército, Rotek Seret, concordou, mantendo a face erguida enquanto usava a mão superior direita para proteger a visão dos feixes solares. — Afinal, nascemos naturalmente adaptados ao clima extremo.

    Para aquele povo, tamanha brandura climática agiria como um veneno a longo prazo.

    Ao ouvir os subordinados, Zaztek suspirou, abriu as pálpebras e voltou-se para o conselheiro barbudo.

    — Haaa. Tinha que ser você para estragar o momento. — O sábio, ao escutar o resmungo do rei, apenas penteou os fios grisalhos com os dedos e deu de ombros.

    — Já acabaram com a diversão? — Todos os olhares voltaram-se rapidamente para o homem vestido de branco, idêntico ao outro Sábio. Aquele era o Sábio da Esquerda. Se ambos ficassem lado a lado, ninguém descobriria quem era quem; não eram gêmeos, muito menos irmãos, mas partilhavam de uma semelhança absoluta. — Por quanto tempo mais aquela pirralha ainda nos fará esperar?

    Imediatamente após a indagação, o grupo sentiu o ambiente sofrer uma mutação. Os pássaros pareciam subitamente mais alegres, cantarolando com mais afinco e emoção. Contudo, não eram apenas eles; o ecossistema por inteiro parecia vibrar de empolgação.

    Os ventos lançaram sussurros que alegravam o espírito; a grama chacoalhou contente e as árvores da floresta circundante se remexeram em júbilo.

    — Ela chegou — anunciou Zaztek após a comoção, com um sorriso nos lábios e os olhos perscrutando o ar.

    Os outros três elevaram o olhar e procuraram por vultos entre as aves que se aglomeravam em círculos naquela região.

    Passados alguns segundos, o som de asas bem maiores que as de qualquer pássaro ecoou próximo, e três silhuetas humanoides foram avistadas entre a revoada.

    A rainha Lihyf, recebida pela exultação da fauna e flora, pousou diante do monarca Hyem, ladeada por dois de seus conselheiros.

    — Me desculpem pela demora — disse Celyn enquanto suas asas de borboleta se recolhiam, analisando o grupo visitante. — Ando muito atarefada ultimamente.

    — Claro, claro. Eu compreendo — respondeu Zaztek prontamente, sorrindo. Sua mão superior direita segurou a destra delicada da soberana, depositando nela um leve beijo. — As obrigações devem ter multiplicado após a última profecia. Imagino que estejam formando o grupo missionário deste mês.

    — Exatamente — Celyn retorquiu com indiferença, recolhendo a mão. Ela possuía quase dois metros e meio de altura, mas, ainda assim, precisava erguer o rosto diante de Zaztek. O líder Hyem assemelhava-se a uma muralha robusta; nem mesmo a túnica castanha ocultava sua imponência física.

    — Belíssima como sempre, Hosikati. — O Sábio da Direita fez uma reverência respeitosa e cumprimentou os acompanhantes dela com um aceno. — A passagem das eras parece realçar ainda mais a vossa majestosidade.

    Celyn apenas o encarou e assentiu, sem palavras ou qualquer alteração em sua faceta rígida e inflexível. O gesto não ofendeu o ancião; era o esperado. Aquela mulher não sabia lidar com elogios, preferindo manter-se indiferente a eles. Sempre fora assim.

    — Rainha. — Rotek curvou-se levemente ao receber o olhar gélido da Lihyf.

    — Perdemos um tempo precioso aguardando por vocês — disparou o Sábio da Esquerda, fazendo o comandante arregalar os olhos. — Sabe quantas decisões poderiam ter sido tomadas enquanto estávamos aqui parados?

    Rotek começou a suar frio, paralisado, olhando de soslaio para a monarca e para o conselheiro ranzinza.

    “Merda, por que o temperamento dele tinha que fugir ao controle logo agora? Só espero que isso não cause desavenças.”

    Contrariando as preocupações do comandante, Celyn permaneceu com sua expressão apática. Após alguns segundos encarando o provocador, limitou-se a dizer:

    — Não voltará a acontecer.

    — E isso muda alg…

    — Este é um lugar perfeito para as ideias fluírem, não acham? — Zaztek interrompeu de supetão, estendendo os quatro braços em direção à paisagem com um sorriso enviesado. Sentia que, se permitisse que seu sábio continuasse, até mesmo a “sem emoções” rainha acabaria por se estressar, o que poderia romper a aliança entre as raças.

    Ele percebeu Celyn observando-o pelo canto do olho e sentiu uma pontada de nervosismo. Era impossível decifrar o que se passava na mente daquela mulher. Ela desviou o olhar logo em seguida, contemplando o horizonte.

    — Huh!? — Zaztek franziu o cenho. Teria sido impressão, ou os olhos dela brilharam por um breve instante ao observar o prado?

    Se não fora uma peça pregada por sua mente, a soberana camuflara aquele vestígio de vida no milésimo de segundo seguinte.

    — De fato. — A voz de Celyn saiu gélida. Voltando a encarar Zaztek, ela apontou para o lado: — Vamos nos sentar.

    Mal as palavras foram proferidas, pilares compostos por diversas raízes enroscadas emergiram do solo abruptamente. Cinco ao todo.

    Das estruturas lenhosas brotaram galhos com folhagens verdes que se conectaram, formando uma redoma natural. Sob a sombra do solário, a flora local agiu com rapidez, moldando uma mesa redonda rodeada por sete assentos; dois deles, em posições opostas, possuíam espaldar alto.

    Em um piscar de olhos, o cenário estava montado com perfeição. Estavam prontos para dar início à reunião.

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