Capítulo 28 — 1 Fúria Colossal (6/6)¹
— Merda! Merda! Merda! — Glamich resmungou entre respirações pesadas, sentindo os pulmões em chamas e as pernas moles.
Ele parecia acabar de sair do banho, encharcado em cada canto do corpo pelo próprio suor. Aquele homem estava correndo desde que saíra da praia.
— Por favor, que ela ainda não tenha chegado lá — Dokin, ao lado, fazia preces, quase chorando de desespero, também na mesma condição do seu irmão de coração.
Os dois homens tinham feito apenas algumas pausas pelo caminho, todas elas para perguntar às pessoas se não tinham visto a nanica.
Depois de horas de correria, estavam quase sem esperanças, com alguma certeza de que Vaiola já tinha alcançado o destino da sua encomenda.
— Uma ordem!!!!! A Lavina nos deu apenas uma ordem… — bradou Glamich, com os olhos fechados para evitar o suor, lembrando-se daquele dia, há cerca de três anos, quando Lavina decidira contar-lhes alguns dos segredos de sua família. — “Nunca permitir que a Vaiola se aproxime de nobres”, essa foi literalmente a única ordem que a Lavina nos deu em relação à Vaiola, e o que a gente faz? Enviamos ela para um covil cheio deles!
— Me desculpe! Me desculpe! — Assim como Glamich, Dokin limpava o suor do rosto, com algumas lágrimas misturadas, culpando-se pelo que estava prestes a acontecer. — Eu tinha me esquecido completamente disso.
“Eu tento, mas não consigo lembrar de onde nós… as Hermês, viemos…”
Naquele dia, Lavina tinha começado desse jeito, com os olhos sobre a Vaiola, que acabava de derrubar uma parede de pedra com uma palmada… aos dois anos de idade. Lavina sorriu, então continuou:
“Mas tem uma coisa que não esqueço, mesmo querendo: o ódio que eu sinto contra todos humanos da nobreza…”
Veias ganharam relevo sob a pele da mulher e seus dentes rangeram. Era um ódio tão profundo que mostrava sinais de sair de controle só de ela falar sobre o assunto.
“É por isso que eu não quero a Vaiola perto deles, pois não quero que ela tenha sangue nas mãos tão cedo…”
Ela riu ao ver a reação dos dois homens e da mulher ao lado deles, a “senhora” do Dokin, Kihame.
“Parece improvável, não é mesmo? Mas, acreditem, se a pequena for tomada pelo ódio, mesmo se colocarem um exército contra ela, ainda não será suficiente. Afinal, quanto mais ódio uma Hermês sente, mais extraordinários serão seus atributos físicos.”
“E não é para assustar-vos que estou contando isso, apenas para deixá-los preparados para o dia em que encontrarem a Vaiola coberta de sangue.”
O corpo do soldado caiu, criando uma poça de sangue no chão de madeira, e a criança que tinha causado aquilo lançou aquela ameaça, sorrindo.
Os nobres, tomados pelo desespero diante de tudo aquilo, pularam de suas cadeiras. Os soldados sacaram as suas espadas de imediato.
— Um-uma assassina!!!! — gritou um dos nobres, caído, apontando para a menina que bloqueava a porta, exibindo um sorriso de congelar a alma. — MA-MATEM ELA!!!!
Vaiola escutou aquele grito e o seu sorriso desapareceu de um segundo para o outro. Só de ouvir a voz daqueles… daqueles… ela já sentia o sangue fervilhar.
Os soldados reagiram no mesmo instante, lançando-se com fúria contra a assassina, suas espadas prontas para rasgar sem dó aquela “espiã” disfarçada de criança e proteger os seus senhores.
“Eles… estão se mexendo?”— Aquele pensamento passou rapidamente pela mente da nanica, seus olhos passeando por aquele lugar, analisando cada soldado que ia contra ela. —“Tão… lentos.”
Da perspectiva dela, os soldados se moviam mais lentos que uma lesma, como se o tempo tivesse sido congelado para eles. Cada um daqueles homens em armaduras de couro parecia flutuar, todos com as espadas levantadas, prontos para fatiar qualquer coisa que entrasse no seu caminho.
— Haaa.
O suspiro escapou com algum desânimo. Ela fechou os olhos e, quando voltou a abri-los, um soldado já estava próximo, sua lâmina viajando em câmera lenta contra o seu pescoço.
Vaiola olhou para a face do homem — ele rangia os dentes, parecia com raiva —, então olhou para o fio da espada e levantou a mão esquerda.
Crak.
Rachaduras surgiram no aço afiado quando os dedos da nanica apertaram o metal, que parecia paralisado no ar. No segundo seguinte, a espada quebrou-se em duas.
“Mas que…?”
O soldado não entendia o que tinha acontecido; ele sequer vira a assassina se mexer e até pensou que ela estava cheia de aberturas, mas sua arma se estilhaçara do nada.
Não havia mais tempo para parar o balanço, então a inércia levou o seu braço horizontalmente para o lado. Seus olhos fixaram-se na menina. Naquele momento, ele finalmente a viu se mover; viu-a segurar a outra parte da lâmina no ar e, no instante seguinte, o corpo ficou pesado e tudo escureceu.
Vaiola viu o corpo do soldado cair sem vida, um pedaço da espada atravessado no pescoço e os olhos ainda fixos nela.
Duas.
Ela tinha acabado de matar duas pessoas aos cinco anos, mas não sentia nada. Não podia dizer que era como matar um inseto, pois sentia algo ao matar insetos — fosse nojo ou repulsa —, pelo menos sentia alguma coisa.
Mas ali… ali ela não sentia absolutamente nada.
A pequena olhou para o grupo de nobres ao longe, todos apavorados, encarando-a como se estivessem diante de um monstro. Então, ela voltou a sentir:
… Era aquela fúria colossal.
“Mate todos eles!!!”, Iola rugiu na cabeça da nanica, instigando ainda mais aquele ódio crescente.
— MORRA!!! — Outro soldado chegou perto, balançando a espada com ira, veias pulsando no seu rosto.
Vaiola sequer se deu ao trabalho de olhar para o homem; apenas levantou o braço, o que arrancou um sorriso do agressor.
“Vou cortar isso fora!”
Thing! Crak.
— Q-quê…? — O soldado soltou, sua mandíbula trémula e os olhos arregalados.
Como um galho seco, sua espada quebrou assim que colidiu com o antebraço da pequena.
Mais uma vez, Vaiola segurou o caco que voava no ar, sumiu por um segundo e, quando surgiu ao lado do soldado, enfiou o pedaço de metal no olho esquerdo do homem, que caiu duro no chão.
Os soldados hesitaram após verem a assassina sair ilesa depois de bloquear um golpe de espada com o próprio braço.
— Estão esperando o quê? É só uma assassina idiota!!! Matem ela, seus inúteis!! — bradou um dos nobres. — Vou falar para o meu primo matar as suas famílias se não me protegerem!
“Merda!” — Os soldados olharam para a tal “assassina idiota”, querendo gritar para aquele nobre lidar com ela, se era tão idiota assim. Mas como ousariam? Aquele que acabara de falar era primo do Barão Lounis.
A hesitação foi deixada de lado e, percebendo que seriam exterminados se fossem um por vez, os soldados avançaram todos de uma vez.
— Pelo menos — Vaiola sussurrou, segurando melhor o punhal. Todos continuavam lentos aos seus olhos — vai ser mais rápido assim.
Swing.
O punhal cortou o ar como um borrão e cravou-se na testa de um dos soldados, que caiu para trás imediatamente… morto.
A nanica apanhou uma das espadas quebradas no chão e avançou. Os homens sequer a viam chegar; quando se davam conta, os companheiros caíam um a um com o peito, pescoço ou barriga rasgados.
Os homens arregalaram os olhos desesperados, mas só puderam continuar tentando caçar aquela assassina, mesmo sequer conseguindo ver onde ela estava…
Quando o último soldado caiu, os nobres estavam tremendo e alguns até com as calças molhadas.
— Parece que agora… é a vossa vez — Vaiola murmurou, apontando a espada quebrada contra os nobres.
— Vo-você… — Os nobres rastejavam para o mais longe possível, os olhos trêmulos passando pelas poças de sangue no chão e manchas escarlate nas paredes e teto. — Fi-fique… l-longe… fique longe!
Vaiola deu mais um passo.
— Haaa. — O suspiro veio do nada, chamando a atenção da pequena. — Não tão rápido.
Vaiola olhou para o balcão no fundo, para a mulher sentada sobre ele. Era uma soldado, de olhos castanhos brilhantes e cabelos ruivos curtos; ela vestia um calção castanho, ceroula preta colada às pernas musculosas e um peitoral de metal prateado.
Ela bocejou, mostrando as luvas pretas personalizadas para combate, as pernas cruzadas. Olhou para a nanica e desceu do balcão.
— Acredite, eu também não gosto de nenhum desses merdas — disse enquanto caminhava, ignorando as ameaças vociferadas pelos nobres —, mas não posso te deixar fazer isso.
Vaiola olhou para a mulher; sua face contorcia-se tanto, numa mistura de nojo, repulsa e raiva. Parecia ter saído horas atrás, para não participar das atrocidades daqueles nobres
A pequena fixou os olhos nela, mas Iola permaneceu em silêncio.
— Vá embor… — Vaiola arregalou os olhos. Aquela mulher não era como os outros.
“Rápida.”— Ela quase não conseguia ver a mulher. —“Muito rápida.”
Cruzou os braços em frente ao rosto, esperando o impacto.
— Ugh!
Mas o golpe não foi contra o rosto. O punho daquela mulher afundou na boca do estômago.
“Ela é… forte.”
Vaiola foi arremessada contra a parede, onde deixou rachaduras em forma de teia.
Caiu de joelhos e levantou o olhar.
— Olha só o que você fez com tantos homens de bem. — A mulher rangia os dentes. — Realmente precisava de tudo isso?
A nanica olhou para todos aqueles corpos mutilados e encharcados de sangue… ela ainda não sentia nada.
Era como a Iola dizia em sua mente:
“Foi culpa deles por entrarem no seu caminho.”
— Eu não vou te deixar escapar depois de tudo isso.
— Hã!!? — Vaiola quase não acreditou. Aquela mulher tinha uma barra circulando os pulsos, assim como a sua mãe. A diferença era que as barras daquela mulher eram pretas, enquanto as de Lavina eram roxas. — Campeã — murmurou.
Uma vez, ela perguntou sobre aquelas marcas e Lavina foi clara ao explicar:
“Campeão. Essa é a marca que surge naqueles que enfrentaram o que o mundo tem de pior para oferecer e sobreviveram. Aqueles conhecidos como Campeões”
“Ninguém no mundo se esforçou mais que um Campeão. Ninguém sofreu mais que um Campeão.”
“Todos eles merecem todo o nosso respeito. Portanto, pequena, se um dia o mundo te colocar contra um Campeão, dê o melhor de si.”
— Huh!? — a mulher soltou, notando o olhar da assassina sobre os seus pulsos.
— Você é uma Campeã — Vaiola disse, colocando-se de pé.
Assim como Lavina, aquela mulher estava repleta de cicatrizes. Havia algumas nos braços, pescoço e até no rosto. Provavelmente havia mais pelo corpo dela, mas estavam cobertas pelos trajes.
— Isso muda alguma coisa? — A mais velha resmungou, em posição de combate.
— Campeões merecem… — a nanica estendeu os braços e juntou as mãos, antes de se curvar — Todo o nosso respeito.
A Campeã não entendeu o sentido daquilo num momento como aquele, mas também desfez a postura de combate, juntou as mãos e curvou-se em cumprimento.
Quando levantaram a cabeça, nenhuma quis dar tempo à outra. Avançaram ao mesmo tempo, uma contra a outra, cotovelos puxados para trás e punhos cerrados.

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