Capítulo 29 — 1 Fúria Colossal (6/6)²
Bam!
Os punhos de ambas colidiram e o edifício estremeceu, com fissuras surgindo por todo o pavimento.
Vendo que a assassina se distanciara da porta, os nobres, desesperados, até pensaram em fugir. Contudo, mesmo sem receberem uma ameaça direta, sentiam que seus corpos seriam esmagados se ousassem se aproximar daquela saída.
Vaiola saltou para longe, assim como a Campeã, mas aquela separação durou apenas um segundo.
“DESVIA!!” A nanica escutou o alerta de Iola em sua mente, mas, mesmo após ver o perigo se aproximar, sua reação foi lenta demais.
Aquela Campeã era demasiado veloz.
Bam.
O soco deslocou a mandíbula de Vaiola e obrigou a menina a pender o corpo para o lado e cambalear. Por pouco não desabou.
… Mas talvez tivesse sido melhor se tivesse caído.
Bam.
Outro golpe encaixou na boca do estômago. Ela era tão pequena, mas a Campeã lutava sem dificuldade alguma, completamente adaptada.
O corpo da jovem voou, chocando-se contra outra parede e cobrindo-a de rachaduras. Quando a garota tossiu, sangue misturou-se à sua saliva.
“Cuidado!” Iola voltou a gritar.
Vaiola ergueu a cabeça e rolou para o lado, escutando logo em seguida o estrondo causado pela colisão entre a mão fechada da Campeã e a alvenaria.
A menor levantou-se de imediato, bloqueando outro ataque com o antebraço esquerdo.
— Mn… — gemeu em silêncio, sentindo como se o osso fosse estilhaçar. Nem mesmo uma lâmina a tinha feito sentir aquela agonia.
“Quem é ela?”— Do outro lado, a Campeã cogitava, desferindo outra investida que foi interceptada. Aquela tal assassina estava lutando contra ela, uma Campeã, de igual para igual, mas não havia marca alguma nos pulsos dela. Isso significava que aquela baixinha não era uma de sua casta. Então… —“Como…?”
De onde vinha aquela força, aquela resistência e aquela velocidade?
A Campeã obrigou a adversária a recuar e aproveitou o instante para avançar. Quando a assassina tentou bloquear, caiu direitinho na finta da mulher e foi atingida na lateral do abdômen.
“Espero ter quebrado ao menos algumas costelas”— pensou, vendo a outra ser arremessada até embater contra a parede, aprofundando os sulcos nela.
A menor levantou-se, arfante e com a mão sobre a região atingida. Parecia que o golpe surtira efeito.
A Campeã, sem querer dar tempo para a oponente reagir, investiu sem hesitar…
Voosh.
… Mas a nanica sumiu do seu campo de visão, surgindo bem ao seu lado, o punho a milímetros do seu ventre.
Por apenas um segundo, a mulher viu a oponente pairando longe do chão, seus olhos brilhando num roxo assustador. Ali, teve certeza:
“Preciso desviar disso!”
Ela desistiu imediatamente do ataque e depositou toda a energia nos pés, impulsionando-se para longe o mais rápido que pôde.
“Foi por pou—” Caiu de joelhos, sentindo uma pontada aguda nas costelas e dificuldade em respirar.
Olhou para a frente; a menina estava distante, mas quando olhou para si própria, descobriu que recuara tarde demais. O seu peitoral de aço estava esmagado na lateral direita e pelo menos duas costelas deviam estar partidas.
“Quem é ela?”
A mulher voltou a olhar para a frente, ofegante.
Levantou-se logo em seguida. Precisava terminar aquilo o mais rápido possível.
Suprimiu a dor e voltou a avançar. Mas, mais uma vez, a outra desapareceu.
“Merda!”— Vaiola já estava na lateral esquerda da mulher. —“Ela está ficando mais rápida. Está… evoluindo em combate.”
A Campeã nem tentou esquivar; sabia que não conseguiria. Quando o impacto ocorreu, a mulher voou, destruiu o balcão e só parou na parede oposta.
“Está mais forte…”
A maior levantou de imediato e lançou-se ao combate, mas o resultado repetiu-se e um chute no abdômen a lançou de volta.
— Hehehe. — Ergueu-se, ajeitando os cabelos. Seu sorriso era largo e psicótico. — HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Divertido! Isso é muito divertido.
“Como são os Campeões?” Vaiola lembrou das palavras da mãe. “São todos uns loucos por combate!”
O sorriso de Lavina estava tão vasto quanto o daquela Campeã quando disse aquilo.
— SUA MALDITA, PARE DE BRINCAR E… — O nobre que falava encolheu-se no segundo seguinte ao receber olhares furiosos das duas combatentes.
Quando a mulher avançou outra vez, Vaiola notou que não era mais como antes. Conseguia acompanhar os movimentos da adversária, como se a Campeã estivesse ficando lenta ou… seria ela que acelerava?
Desviou do soco que visava seu rosto, saltou e desferiu um chute que lançou a mulher para perto dos nobres.
— Hahahahaha! — A guerreira rolou pelo chão, mas rapidamente recuperou o equilíbrio. Contudo, quando tentou levantar, uma dor lancinante a impediu. Seu peitoral tinha amassado ainda mais e, se ela não estivesse enganada, suas costelas estavam quebradas ao ponto de roçar os pulmões. Voltou a cair de joelhos. — VENHA!!! HAHAHA!
A nanica hesitou por um segundo ao ver a mulher imóvel, de joelhos, com a mão sobre o flanco.
Pela primeira vez ali… sentia alguma coisa.
“Para um Campeão, misericórdia é o pior insulto que pode receber.”
Recordando as palavras da mãe, lançou-se contra a mulher e preparou o punho, depositando toda a sua força ali.
“Campeões não deviam morrer assim… protegendo tal escória.”— Não se sabia se fora Vaiola quem pensou ou Iola quem disse.
A Campeã sentiu a dor antes mesmo da mão daquela menina alcançar seu rosto; em seguida, veio a escuridão.
A cabeça da Campeã explodiu. Ossos, sangue e massa encefálica voaram para todos os lados, sujando até os nobres que, enojados, tentaram recuar.
— Haaa. — Vaiola levantou-se, de olhos fechados. Ao soltar o suspiro, o olhar fixou-se nos nobres. — Vossa vez.
— O-o que estão… esperando! — bradou um deles, olhando para os escravos distantes. — Protejam-n…
Todavia, antes que pudesse concluir, uma espada atravessou-lhe as têmporas.
Vaiola sabia que as coleiras naqueles humanos negros eram dispositivos encantados de submissão. Algo que obrigava cada um deles a fazer o que era ordenado pelos seus “donos”.
Uma palavra daqueles vermes e ela teria de enfrentar quem desejava salvar. Sendo assim, a solução era única:
Exterminar todos, sem lhes dar chance alguma de falar.
Ela recolheu duas lâminas do chão e avançou. Era hora da limpeza.
Glamich estava trêmulo quando chegaram à pousada Flores Douradas. Não era cansaço.
Lavina estava ali.
Ele não sabia como ela soube de tudo, mas a mulher os alcançara enquanto corriam e permanecera em silêncio desde então. Aquele mudez era mais assustadora que qualquer repreensão.
Sem cerimónias, Lavina invadiu o lugar e, ao ver uma porta trancada, desferiu um chute que a fez voar.
— VAIOLA! — Seus olhos arregalaram-se.
Os dois homens foram em seguida, e seu espanto igualou-se ao da mãe.
Tinha uma pilha de cadáveres no centro; o sangue pintava todo o cómodo e Vaiola parecia distante, em transe, sentada no topo da montanha de corpos.
— Hã!? — Vaiola baixou a cabeça. — Mãe?
O brilho da vida retornou aos seus olhos. No segundo seguinte, saltou para baixo.
Ainda avoada, a nanica não viu de onde vieram, mas os braços do pai a alcançaram e envolveram num abraço caloroso.
— Você está bem. Você está mesmo bem. Hahaha. Que bom. Que bom.
Vaiola não entendia. Estava manchada de sangue dos pés à cabeça, então por que seu pai a abraçava sorrindo? Por que ele parecia tão… aliviado?
— Fiquei com tanto medo. Só de pensar que você podia se machucar o meu coração se apertava. — continuou Glamich, com lágrimas escorrendo. — Eu não teria me perdoado se algo tivesse te acontecido. Que bom que você está bem.
Quando o pai separou o abraço por um segundo, suas mãos sobre os ombros da menina, os olhos marejados — com um alívio e alegria genuíno —, ignorando os corpos ali empilhados, Haaa… quando Glamich abriu aquele largo sorriso e voltou a aconchegá-la no seu peito, Vaiola voltou a sentir-se humana.
Os olhos da pequena inundaram-se.
Se Lavina lhe dera o físico, o pai dera-lhe o coração.
— Mn… Uwaaaaaaaahhhh!
Ela chorou como a criança de cinco anos que era, envolvida pelo abraço quente do pai. O momento durou dez minutos, até ela sussurrar:
— Me… Me desculpa, pai.
— Te desculpar? — Glamich olhou para a carnificina atrás dela. Seu coração pareceu encolher. Como ele pôde permitir que a sua filha passasse por aquilo? Ela só tinha cinco anos, mas… se ele ao menos tivesse chegado mais cedo. Engoliu o choro amargo que pretendia bloquear sua garganta e forçou um sorriso. — Por isso? Não, pequena, eu que…
— Não, pai. — Ela não se arrependeria daquilo, nem em mil vidas. — É que eu… — Separou-se do abraço e enxugou o rosto. — Eu queria muito… muito mesmo ser uma pescadora, mas não posso mais.
— Mas… — Dokin aproximou-se. — Por quê?
O olhar e o tom de Vaiola mudaram drasticamente.
— Eu vou… — Quando a nanica disse, Dokin recuou, os olhos arregalados e Glamich podia jurar que ouviu seus instintos gritando desesperados para ele correr e não olhar para trás. — Eu vou matar todos eles. Vou descascar suas peles, picotar seus músculos e moer seus ossos.
O ar ficou denso, como se falhasse em assimilar as inúmeras emoções negativas acumuladas na fala daquela menina. Até mesmo o sol lá fora pareceu acelerar a sua descida no horizonte.
— Vou caçar todos eles, sem exceção. — Seu rosto e dedos se contorciam loucamente. — Não permitirei que sobre um só nobre em toda a dimensão Amarela. — Estendeu o braço direito, o punho cerrado com tanta força que as unhas rasgaram a palma. — Isto é…
Glamich tombou de bunda no chão, Dokin quase caiu para trás e Lavina arregalou os olhos, sem saber se ficava alegre ou apavorada.
Iola formou-se atrás de Vaiola como um acúmulo furioso de fumaça roxa, na mesma posição da amiga.
— Uma promessa de sangue.
“Uma promessa de sangue”
As duas amigas disseram em uníssono.
Quando as gotas de sangue da Vaiola tocaram o chão, uma formação mágica carmesim surgiu, de onde emergiram correntes de sangue que se enroscavam nelas.
Era uma maldição que cobraria o preço até depois da morte.
Lavina olhou para a filha e para a criatura chifruda atrás dela e suspirou.
Era exatamente aquilo que queria evitar.
Agora, faltava apenas uma coisa para arruinar o seu d…
<UWAAAAAAAAAAAAHHHHHH!>
Aquele choro… aquele maldito choro de mulher ecoou pelo mundo.
<UWAAAAAAAAAAAAHHHHHH!>
[Kartumz: Castelo Branco]
Alius Naddgard estava à mesa com a filha mais nova e a esposa, quando aquele lamento ecoou por toda Dimensão Amarela.
— Huh!? Alguém está… chorando? — Feemel, a princesa, estranhou. Não importava o quanto ela tentasse, era impossível determinar de onde vinha o choro. — Parece uma mulher. Pai, o que é is…?
Até mesmo Feemel, de apenas 6 anos, conseguiu entender que a situação não era das melhores quando viu seu pai paralisado, os olhos arregalados e a mandíbula tremendo.
— Alius. — A imperatriz, Kioetu, chamou pelo marido, sentindo que o simples ato de respirar tinha se tornado difícil. — I-Isto é…
— N-não… — murmurou o imperador, os dentes se chocando e o olhar inquieto. — Não pode ser…
— Pai? — Com o coração afogando-se em medo, a voz da menor tendia a desaparecer. — O senhor está… me assustando.
— E-Elas não estavam… extintas? — Alius recuperou o senso de realidade, levantou abruptamente da cadeira e correu até a janela.
Lá fora, multidões acumulavam-se sobre a neve branca que cobria o chão, tentando perceber de onde vinha o som. A certeza de todos era uma só: era um som que os fazia querer chorar com quem chorava… de uma tristeza infinita.
—Majestade!— Alius mirou a pulseira de esferas azuis. O chamado vinha de la. —Está ouvindo?
— Seria impossível não ouvir, Ratzar. — Limpou uma lágrima solitária no rosto e olhou para fora. Toda a multidão estava aos prantos, junto com a mulher desconhecida. — Ela está chorando… depois de tantos anos.
—Exatamente cinco milênios, Majestade.— veio outra voz da pulseira. Era uma mulher. —Há cinco mil anos a guardiã não chorava.
— Pai… o que está acontecendo? — Feemel se aproximou e perguntou, em lágrimas.
— As Hermês nunca foram meras lendas, meu brotinho de feijão. Isso é o que está acontecendo — respondeu Alius, ajoelhando-se diante da filha. — O que ouves é uma Banshee, nossa guardiã… a guardiã dos nobres humanos.
Suspirou.
— Ela chora para nos avisar que não poderá mais nos proteger. — Olhou para trás, afagou a cabeça da menor e continuou: — Está nos alertando… que as Hermês já deram o seu veredito.

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