Capítulo 30 — 1 Sombra Libertadora
[Terras Centrais: Centro]
Depois que as correntes de sangue, densas e pulsantes como veias externas, desapareceram do seu corpo e da silhueta de Iola, Vaiola ergueu a cabeça. O silêncio que se seguiu ao pacto durou apenas um milésimo de segundo antes de ser preenchido por aquele som sobrenatural. O choro, de uma tristeza tão profunda que parecia capaz de rachar o próprio tempo, reverberava pelo ar.
O lamento não vinha de um ponto específico; ele emanava do próprio oxigênio, infiltrando-se na madeira que compunha o edifício. A estrutura da pousada parecia gemer em simpatia, soltando estalos que soavam como ossos se quebrando sob o peso de uma angústia milenar. Era um som que desarmava a alma, que fazia o instinto humano mais básico querer ajoelhar e consolar o invisível.
Contudo, Vaiola percebeu algo que a marcou mais do que o próprio choro. Ao olhar para o lado, viu seu pai, Glamich, e seu tio, Dokin, lutando visivelmente contra a vontade de chorar; os ombros deles tremiam, e os olhos estavam vermelhos de uma empatia forçada por aquela melodia fúnebre. Mas, ao olhar para Lavina, a visão era oposta. Sua mãe mantinha a cabeça erguida, os olhos fixos no vazio, com uma expressão de pedra.
Vaiola sentiu um calafrio de reconhecimento. Assim como ela, sua mãe não sentia absolutamente nada perante o lamento. Para as duas Hermês, aquele som não era um chamado à tristeza, mas um ruído de fundo sem importância. Para elas, aquele choro não merecia sequer um suspiro de piedade.
— Vamos. — A voz de Lavina cortou o lamento, seca e autoritária. Assim como reagia com indiferença para o choro, não se importava mais com a carnificina ali feita. Apenas se aproximou da filha.
— Oh, certo… — Dokin e Glamich responderam em uníssono, as vozes ainda embargadas.
Eles tinham um oceano de perguntas. Queriam falar sobre a montanha de corpos, que serviam de carpete para o salão principal, sobre o futuro depois daquilo e muito mais. Mas os dois homens, unidos por anos de sobrevivência e amizade, trocaram um olhar silencioso. Havia uma sabedoria tácita ali: não era o momento. Concluíram que era melhor deixar para discutir o segredo das Hermês quando elas decidissem falar.
— Mas… e eles? — A voz da pequena soou fina, quase sumindo no salão vasto. Ela apontou para o grupo de escravos negros que permanecia encolhido no canto mais escuro.
Eles estavam tão imóveis, tão petrificados pelo terror de terem visto uma criança massacrar seus captores, que Dokin e Glamich sequer haviam notado sua presença até aquele instante.
Eram sombras humanas, desprovidas de esperança.
— Deixe-os aí. — Lavina lançou um olhar gélido sobre o grupo, um olhar que não carregava crueldade, mas uma certeza pragmática. — Alguém já vai lidar com eles.
— Huh!? — Vaiola franziu o cenho, o coraçãozinho apertado. Mesmo não entendendo o que a sua mãe tinha em mente, decidiu apenas confiar… como sempre fazia.
— Vem! Vou levar-te para casa. — Lavina estendeu os braços.
— Ah, eu consi… — Vaiola tentou dar um passo, mas a conexão entre seu cérebro e suas pernas parecia ter sido cortada. Seus joelhos dobraram-se como papel, e o chão de madeira, manchado de escarlate, subiu rapidamente ao seu encontro.
Lavina foi mais rápida. Aparou a queda da filha com um movimento fluido e a içou para o ombro com a facilidade de quem carrega um fardo de feno.
— Você acabou de fazer uma Promessa de Sangue — disse a mãe, com um tom de quem explica uma lei da física. — Achou mesmo que ia poder sair andando como se nada tivesse acontecido?
— Eu… — Vaiola tentou responder, mas sua voz morreu. O corpo estava mole, desprovido de qualquer resistência. Não era dor, ela só sentia como se seus ossos tivessem se transformado em líquido.
— Haaa… — Lavina suspirou profundamente, deslizando a mão livre sobre o rosto, uma máscara de frustração e cansaço. — Uma Promessa de Sangue… — Suspirou mais uma vez, olhando para a montanha de vorpos. Aquilo só deixava ela ainda mais frustrada. — Onde eu estava com a cabeça, quando pensei que nunca mais voltaria a ouvir este choro?
O grupo saiu da pousada em silêncio. Os homens lançaram um último olhar para os escravos trêmulos, sentindo o peso daquela imagem gravada em suas retinas. Do lado de fora, uma frente fria avançava sobre o centro, empurrando os transeuntes para dentro de suas casas e trazendo uma névoa baixa que engolia as ruas pavimentadas.
Vaiola, sentindo-se como um saco de batatas no ombro da mãe, tentava lutar contra o sono pesado. O ritmo dos passos de Lavina era um ninar rústico e as costas o travesseiro mais firme e seguro que ela conhecia. No entanto, por um breve segundo, antes que a escuridão do sono a levasse, os olhos da pequena captaram um movimento.
No beco adjacente à pousada, em meio às sombras que dançavam com a luz bruxuleante dos lampiões distantes, uma mancha de escuridão se agitou de forma não natural. Não era o balanço de uma árvore ou o movimento de um animal. Aquela sombra tinha uma peculiaridade inquietante
… Eram dois brilhantes olhos azuis.
“Então, aquela era garotinha mencionada por Morstek.”
Uma silhueta negra, mais densa que a própria noite, deslizava por entre as sombras das paredes de madeira do vilarejo. Era um movimento fluido, quase etéreo.
Nenhum humano comum chegaria a notar aquela sombra, nem se focasse toda a sua atenção ali. Já os “incomuns”, estes teriam uma dificuldade imensa só para conseguir discernir uma pequena porcentagem dos contornos da silhueta.
Os dois olhos azuis brilharam com uma intensidade renovada quando a figura parou diante da entrada da Pousada Flores Douradas. Sob o manto e o capuz de um tecido que parecia absorver a luz ao redor, a sombra ganhou massa e forma.
“Vaiola Hermês…” — O ser olhou para o horizonte, como se ainda pudesse ver aquele grupo quatro lá. — “Vocês… estão de volta.”
Um sorriso, invisível sob o capuz, formou-se no rosto da sombra, mas desvaneceu-se com a mesma rapidez. O conflito interno era evidente. Deveria celebrar o retorno daquelas mulheres ou desesperar-se?
“Hermês significa mudança.”
O que devia sentir… não sabia ao certo, mas uma coisa era um fato inegável: o caos, como uma sombra obediente, seguiria de perto aquela família.
A sombra desintegrou-se em fumaça negra e ressurgiu segundos depois, já dentro do salão, colada à parede oposta à montanha de cadáveres.
“Ainda bem que não fizemos nada contra ela.” — O olhar azul percorreu a carnificina. Sangue ainda gotejava das paredes rachadas, mesas quebradas e teto. Já imaginava que a situação ali dentro seria macabra, mas aquilo era bem pior do que ele imaginava. Decidiu que era melhor não se colocar contra aquele grupo. — “Notaram a minha presença… todos eles.”
Aquilo era o mais estranho. Naquela condição, devia ser, no mínimo, o segundo ser mais bem camuflado de toda a dimensão Amarela.
“Que tipo de grupo era aquele?” — Acima de tudo, aquela era uma variável que não podia, simplesmente, ser ignorada. — “Bem, não importa agora. A mudança que as segue talvez seja útil para a causa.”
— Estão todos bem?
Os escravos, ao ouvirem o som rouco e grave — a voz de uma de uma criatura que presenciara séculos de opressão —, encolheram-se ainda mais. Mas um brilho, há muito extinto naquelas órbitas fundas, ressurgiu quando viram a sombra destacar-se da parede oposta.
— É… — Um dos homens negros, cujas costas eram um mapa de cicatrizes frescas e antigas, tentou levantar-se. Suas mãos algemadas tremiam enquanto buscavam a escuridão. — Liberdade… É a sombra… A Sombra da Liberdade!
Há pouco mais de meio milênio, uma lenda surgiu entre os escravizados. Não era nada sobre uma “luz no fundo do poço”, muito menos depois que a luz se tornou um objeto de adoração e fonte de poder para os “Humanos Superiores”.
A lenda surgiu nos corações cansados dos oprimidos, uma lenda sobre uma sombra que consumia toda a “luz da escravidão” e trazia um abrigo perfeito para os desgastados… um abrigo na escuridão.
A Sombra da Liberdade.
— Não se preocupem. Vim libertar todos vocês.
O choro vindo de lugar nenhum, que até então preenchia o mundo, finalmente cessou, dando lugar ao lamento humano dos escravos.
Não era um choro de medo, nem dor… não daquela vez. Eram soluços de uma alegria tão violenta que chegava a doer. Homens, mulheres e crianças, que haviam esquecido o próprio nome, abraçavrm-se e choraram contra o chão sujo de sangue.
Seriam livres… finalmente.
— Me… me desculpem — sussurrou a Sombra. — Me desculpem… pela demora!
Os escravos arregalaram os olhos. Aquela sombra anciã estava… chorando junto com eles.
— Vamos… Snif… vamos para casa.
A escuridão, densa e acolhedora como um manto de veludo, engoliu o salão por completo. Quando a luz finalmente retornou, o fogo veio junto, devorando sangue, carne e madeira.
Em meio às chamas, as algemas e coleiras de ferro estavam em silêncio, como cascas de uma vida que, logo, não pertenceria a mais ninguém.

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