Capitulo 10: Exército Púrpuro
O céu escuro é tingido pelos primeiros raios alaranjados do Sol. As nuvens tornam-se brancas sobre o céu azul celeste. As areias amareladas são tingidas pelo sangue escarlate de Moshe. O brilho dourado de seus olhos transforma-se em um cinza opaco. A dor paralisa. O gosto metálico na boca o lembra da morte. Moshe grunhi ajoelhado. Não consegue respirar. O abdômen está aberto. Um buraco do tamanho de um punho. Suas costelas estão expostas. A consciência lhe esvai.
— Admito que é gratificante perceber que minhas deduções estão corretas — Sagol diz saboreando a visão. — Um homem mundano sequer iria respirar em tal situação.
A mulher que usa como receptáculo pode manipular os próprios pelos e usá-los como arma. Esse ataque custou os longos cabelos negros. O couro cabeludo arde com o próprio sangue escorrendo sobre ele.
— Levante-se ou prefere se render após presenciar meu poder?
— Seu… — é impossível responder, perdeu muito sangue.
— Não me decepcione, príncipe — Sagol agora possui o corpo de um homem esguio. — Vamos, levante-se.
A mulher, cujo couro cabeludo lhe foi arrancado, derrama lágrimas ásperas. O brilho violeta nos olhos se esvai e o dourado tem seu lugar devolvido. Ela deve sentir tanta dor, mas sorri. Aliviada por morrer. A fome e a sede já lhe arrancaram a sanidade. Sobrou-lhe nada, nem sequer a humanidade.
Mate…
Ela cai sem vida sobre as areias. O sangue ainda escorre da cabeça. O sorriso de alívio permanece. As lágrimas de desespero também.
Mate-o…
Ele sacrificou uma vida como quem descarta a lâmina após ter os pelos do rosto removidos.
Vingue a alma…
Desgraçado.
Subjugando a carne...
Moshe toca no ferimento, sente o sangue quente escorrer entre os dedos.
Nos aceite…
Vai morrer.
Abandone a carne...
Não pode morrer.
Abrace o nosso poder...
Ossos. Músculos. Veias. Artérias. A carne é reconstruída pelo amalgama negro. O sangue não mais flui para o chão. Pela segunda vez, o príncipe exilado de Otige aceita as vozes vingativas e elas o aceitam.
— Você e seu amigo são espécimes fascinantes — o homem que tem sob controle possui um terceiro braço abaixo da axila esquerda. — Fazia muito tempo que não podia me soltar. Há tanto que quero testar em você.
O trio de mãos segura uma espada cada, as lâminas desgastadas revelam o número de combates que vivenciaram. A face do homem que o desafia é dona de uma tristeza inerte. Moshe imagina quem eram essas pessoas antes de Sagol. Talvez comerciantes. Pais. Ladrões. Mães. Pastores. Filhos. Talvez isso simplesmente não importe mais agora. A vida de todos foi destruída por conta de um simples encontro.
— Solte-os, liberte cada um deles e eu poupo sua vida — Moshe se levanta, o ferimento está completamente fechado. — Será mantido o resto da vida como um prisioneiro e farei questão que compense cada vítima sua.
— Não me faça rir, eu ainda estou na vantagem — agora a voz vem do brutamonte que lentamente se aproxima. — Estudei os limites de sua regeneração. Meu objeto de estudo era, sem dúvida, mais limitado do que você. Entretanto descobri certos aspectos sobre esse novo dom.
Água ainda escorre da roupa de couro do grande homem. O sangue é lentamente arrastado até o chão. Ambos os punhos estão fechados. Gotas vermelhas escorrem entre seus dedos.
— Dentes, orelhas e olhos são regenerados sem problemas — O brutamonte abre a mão direita.
Cada parte dita surge sobre a larga palma da mão. Os dentes estão em maior quantidade e muitos extremamente danificados. As duas orelhas foram arrancadas sem cuidado. O olho foi, sem dúvida, removido com maior delicadeza. A íris dourada conserva certo fervor, uma fraca centelha da vida.
Aharon…
— No entanto dedos e membros maiores não conseguem se regenerar por completo — o brutamonte joga os pequenos pedaços de Aharon na areia e retira algo amarrado nas costas. — Fascinante eu diria.
Moshe paralisa. Até o momento se enganou pensando que Aharon somente estava sob controle dele. Imaginou o amigo servindo como moeda de troca. Ficaria vivo assim como Matí. Deveria ser assim. Mas a perna esquerda decepada é atirada em sua direção. Ainda está sangrando. O corte é desleixado, bruto. Não, não é um corte. Arrancaram a perna. Destruíram osso, pele e músculo com força bruta.
Pela segunda vez na vida, o ódio consome sua alma.
— Seu bastardo — Moshe cerra os punhos. — Vai nos pagar…
Abandone a carne…
Use a carne…
Destrua a carne…
As vozes irradiam em sua mente com o fedor da pestilência. A sede de sangue impregna a garganta. Precisa alimentá-las, precisa matar. Tingir essas areias com o vermelho. Salvar a alma sacrificando a carne. Precisa libertá-las, precisa ma…
Não.
Abre e fecha as mãos. Sente o sangue pulsar. Está vivo. Então deve merecer tal benção. Sente a água ao seu redor. São poucos jarros, porém o suficiente. Não move um músculo. Antes de Sagol voltar a provocá-lo, o brutamonte é novamente envolvido por uma bolha d’água.
— Mostrando as presas, príncipe? — Moshe fez questão de não ofuscar a linha de visão de seu inimigo, precisa dele aqui.
— Não suporto mais sua voz — a bolha parou de envolver a cabeça do brutamonte somente quando ele desmaiou.
A água órbita Moshe como uma serpente hipnotizada. O tempo é um recurso limitado, a água esquenta a cada segundo sob seu domínio. A cada movimento tem menos recurso para enfrentar Sagol. Porém precisa que ele fique aqui e não atrapalhe Aftí. Moshe terá que resistir como uma fortaleza e confiar no amigo.
Sagol repousa na banheira. Suas duas servas corpulentas lavam o crânio deformado, foi sua última ordem antes de começar a meditar. Sua nuca é lar de uma protuberância oval. Sinal claro que estava quase na hora de abandonar a casaca. A carne já demonstrava claros sinais de desgaste. Por agora se limitará a segurar Moshe o mais longe possível de si enquanto seus súditos terminam os preparativos.
Não há com o que se preocupar além do príncipe. Aharon se tornou um inválido. A regeneração conseguiu evitar a morte por perda de sangue. Mas somente isso. Ele permanece em silêncio acorrentado. No fim nunca foi uma ameaça. Se arrepende, somente um pouco, de arrancar sua perna. Necessitava saber os limites da regeneração, independente do resultado ser um receptáculo defeituoso.
Precisa manter o foco no presente.
Em um dos olhos enxerga Moshe derrotar o brutamonte sem esforço. Sem dúvidas é um ser monstruoso. Uma aberração da natureza. Sua regeneração, muito mais refinada do que a de Aharon, só não é um empecilho maior do que habita sua mente. O inferno de corpos que viu ao tentar o hipnotizar. Almas berrando. O rio de sangue. Viu a encarnação da doença. Sempre se considerou uma praga, mas Moshe é uma anomalia. Ele é maligno ao ponto de não entender a própria escuridão. Ele acha que porta a luz quando ele é quem a consome.
Verdade é, Sagol teme Moshe. Cada fibra do corpo disforme que habita o manda fugir. Ele é poderoso ao ponto de escolher se matará ou não seu adversário. E Sagol sabe seu destino. Mas não está pronto para fugir ainda, pensamento que não o envergonha. Se conseguir destruir a mente do ivrit finalmente seu sonho se realizará.
Infelizmente não pode manter seu foco somente em assuntos importantes.
No outro olho observa o rosto de Aftí. Infinitamente mais inofensivo que seu mestre. Utilizar Matí para combatê-lo é uma tática simplória e repetitiva. Mas deve garantir que ele não se aproxime de seu esconderijo. Não tem ninguém para proteger sua retaguarda, Moshe merece todo seu poder de fogo.
Ou quase.
— Vai reagir dessa vez ou se fingir de morto de novo? — Sagol usa a voz de Matí para provocar o servo. — Honestamente, — suspirou cansado —, esperava mais de você após te deixar fugir. Atrasou em algumas horas meus planos, mas nunca se tornou um problema real.
Aftí empunha uma faca na mão esquerda. Treme. Não de medo, e sim de ódio. Vê-lo usando a mulher que ama como um fantoche. O rosto fazendo expressões nojentas. Precisa matá-lo.
— Sagol, sei que está assustado — mas precisa se manter calmo. — Já presenciou o poder de Moshe, não? E se está aqui comigo, deve ter mandado a maioria que controla para tentar o impedir. Se dividir é desgastante, tem tamanha confiança em ganhar lutando em dois locais?
Sagol está em desvantagem, isso é óbvio. Caso não, pouco importaria alguém se aproximar do esconderijo. Teriam dezenas de homens e mulheres aguardando para o matar. Aftí sabe que ele está ganhando tempo. Arranjar uma rota de fuga é prioridade.
— Não iria te subestimar assim, servo — Por que a voz de Sagol está tão calma? — Afinal você escapou de mim uma vez — ele realmente estava ganhando tempo — e eu não me permito errar duas vezes.
Somente uma sombra, provavelmente a mão direita. Aftí precisou somente desse vislumbre para se jogar para trás. A casa ao seu lado foi atingida e parcialmente destruída. Um enorme braço surgiu da escuridão e logo voltou a se encolher para ela.
— Eu vou terminar rapidamente com você para lidar adequadamente com seu príncipe — infelizmente Sagol estar desesperado não significa que tomará decisões ruins. — Trate de morrer logo.
Aftí se concentra por alguns segundos. Necessita de uma rota de fuga. Não é necessário ganhar esse combate. Chegar até o esconderijo do desgraçado é prioridade máxima. Não pode desapontar Moshe.
— Não ouse — poucos segundos antes dos membros expandirem o corpo inteiro se contrai, um arrepio imperceptível. — Você não irá fugir.
Aftí se vê no chão, com areia entrando no manto. Aquele que o atacou é um homem baixo com o torso largo. Exatamente como todos os que Sagol controla, está magro. Cadavérico para ser exato. Agora está com o braço novamente esticado. Deve poder expandir o comprimento em até dez vezes. Assim consegue manter distância sem correr riscos.
— Dois contra um? — se levanta, está cansado. Ao menos parece. — Isso é injusto. Você sabe que não tenho co…
O corpo do homem se contrai, Aftí somente levantou a mão esquerda. Ambos os braços crescem em sua direção. As mãos com um quarto de metro o agarram. A coluna estrala como um galho seco.
— Aftí, — os enormes cotovelos dobraram e o rosto esquelético bufou a centímetros de seu nariz —, seu destino é morrer inutilmente por alguém. E sempre será um servo. Sua vida é patética ao pon…
O braço esquerdo de Aftí desce. A lâmina atravessa o crânio do homem. O sangue jorra. A dor, a maldita dor, vem. Como Sagol a repudia. Como pode existir tamanha imperfeição como a dor.
— Eu não sou como Moshe, não irei poupar esforços para te fazer sofrer. Não hesitarei em libertar essa gente com a morte — Aftí não tem dificuldade em se desvincular do homem gritando em agonia. — E não o sirvo por conta de seu antigo título. Eu sirvo pois ele é meu amigo.
Ele se aproxima com o rosto levemente inclinado para a direita, não pode ser controlado de novo. Há outra lâmina em sua mão esquerda e uma pequena bolsa de couro na direita. Um homem precavido vale dois.
— Perdão — talvez, quando tudo isso acabar, descubra seu nome e lhe dê um enterro digno.
A garganta do homem é cortada e seu sofrimento acaba. Tira a outra faca presa no crânio, guarda ambas. Contém o impulso de olhar o rosto de quem tanto ama.
— Estou indo te salvar — e por fim refaz sua promessa.
A bolsa de couro não estava amarrada. Não foi necessário um movimento extravagante para liberar seu conteúdo. Areia. Irônico que foi Sagol que a encheu pouco antes de hipnotizá-lo. Disse que era tudo isso que um servo merecia de pagamento.
Moshe descarta outra bolha d’água. Conseguiria sufocar outro fantoche de Sagol com ela, mas a água está fervendo. Mataria alguém. Está ficando sem jarros para se reabastecer.
— Sabe que não pode me parar — quatro cortes no tórax.
Quem não tinha habilidades ofensivas, Sagol usa como ponta de lança. Somente com facas são obrigados a combatê-lo de frente. Não são um perigo, os ferimentos são rapidamente fechados logo após serem abertos.
— Acredito que não esteja acostumado a se esforçar tanto — o provoca, mesmo estando exausto.
Um soco é o suficiente para se livrar de um dos agressores. Quatro chutes são necessários para lidar com um mais parrudo. Os outros dois são nocauteados com poucos golpes. De um em um, mesmo temporariamente, está os libertando.
— Está ficando sem armas — sentiu um arrepio frio na espinha.
Moshe abriu a guarda, era impossível não acontecer. Um grito estridente volta a sangrar seus ouvidos. Esqueceu dela. Erro amador.
— Teria o país como minha arma se quisesse — os tímpanos foram regenerados a tempo de escutá-lo se bajular. — Mas me contento com o posto de capacho.
Outra dezena de olhos violetas surge. Todos com facas, é o time reserva do maldito. Ele está usando até os mais velhos. A última reserva d’água teve que ser usada. Não pode se segurar, não pode parar. A água se condensa em uma pequena esfera dançando entre os rostos cadavéricos. Não há tempo para os sufocar. Terá que ser bruto.
Liberte a alma…
Da carne…
Moshe deixava-se ser esfaqueado para diminuir a distância entre os agressores. Dói. O aço atravessando a pele é algo impossível de se adaptar. Não importa se é o peito, braço, perna, pescoço ou cabeça. Dói e continuará doendo cada vez mais. Independente disso, dois ou três golpes eram o suficiente para apagar o exército de Sagol.
Piedade…
Fraqueza…
O grito estridente de novo. Agora sorri. Os tímpanos sangram, entretanto sabe exatamente onde Sagol a escondeu. Moshe não poupou força nos socos, não teria como reagir. Não poderia a deixar reagir. Exagerou. Ela estava desmaiada desde o primeiro golpe. Não pode parar. O cotovelo acerta um idoso. Seu pé direito evita que um jovem se aproxime, a água em forma de punho tira sua consciência. Um, dois, três socos no rosto de uma mulher e um, dois, três, quatro chutes em outro idoso.
Eles não acabam
A água começa a borbulhar, os golpes agora queimam a pele. Droga. Têm que descartá-la antes de ferir permanentemente alguém.
Banha-se no sangue…
Sagol observa suas linhas serem facilmente destruídas. Atrás do maldito príncipe, essa aberração ambulante, há um mar de corpos. Nenhuma morte, ao menos nenhuma que ele consiga constar.
A dor o obriga a trocar de corpo.
Como pode existir um ser assim? Logo ele destruirá seu esconderijo e ceifará sua vida. É impossível que essa sede de sangue não recaia sobre si.
Maldição. Maldição.
Para piorar o servo maldito conseguiu escapar. Não esperava que ele matasse sem piedade um homem inocente. Não conseguiu trocar a consciência para Matí. Madita dor. Agora é tarde, custaria muito dessa casca inútil a qual reside. Está sem tempo. Precisa fugir. Precisa de uma casca nova.
Droga. Droga. Droga.
Demorou três meses para reunir cerca de uma centena de pessoas. Cada vila que passou deixou vazia. Deixou os mais fracos morrerem. Ficou somente com quem considerasse útil. Tudo isso para nada.
Se não fosse esse corpo inútil poderia estar sentado sob um trono. Todas as malditas cascas que habitou se deformaram. Quebraram. Precisa de um ser definitivo. Um que se regenere. Precisa de Moshe.
Mas como? Como o dominar quando algo mais vil já o habita? Como se ele destrói todo seu exército somente com os punhos?
Espera.
Um de seus vigias viu algo. Abençoado sejam os céus por pouparem a vida de um ser tão vil quanto ele. Sim, Sagol agora sabe que ele é o abençoado e o príncipe o amaldiçoado.
Um pequeno grupo de nômades se aproxima.
— Euqones — saboreia cada sílaba.

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