Índice de Capítulo

    O porto estava mergulhado em um completo caos, navios queimavam, corpos espalhados por todos os lados, tanto dos membros da seita quanto dos marinheiros que invadiram a ilha. A água, antes límpida, estava tingida por tons escuros de vermelho.

    Ofegante, o patriarca da seita, Hua Yuling Kai se mantinha firme na defesa, e lutava de frente contra os marinheiros. Não deixava nenhum deles se aproximar demais, com suas técnicas de invocação de mãos gigantes.

    Os invasores eram lançados pelo ar, esmagados contra o chão e violentamente agarrados. O pátio público, estava todo destruído por crateras pela artilharia naval do “Degredado”, que se manifestava apenas como uma silhueta distante envolto pela névoa.

    Aos poucos, o barulho dos canhões começou a diminuir, os piratas pararam de escalar as paredes. Um silêncio incômodo se tornou onipresente, o único som era o do crepitar da madeira em chamas, de um incêndio que se alastrava pelas construções mais frágeis.

    Hua Yuling Kai recuperou o fôlego, há muitos anos ele não lutava de forma tão intensa como naquela noite. O ataque surpresa de um inimigo desconhecido, junto com o desaparecimento do seu tão estimado filho, não podia ser uma mera coincidência.

    Virou-se e encontrou o olhar dos sobreviventes da batalha. Além de Kai, havia apenas outro ancião: seu irmão mais novo, Hua Yuling Fengran. Não havia feridos, pois todos aqueles que tiveram a infelicidade de serem atingidos morreram na hora.

    — Patriarca, e agora? — questionou um discípulo do pátio interno, sua expressão clara de terror.

    Kai não respondeu, manteve sua atenção voltada para a estranha neblina. Notou com estranheza, o surgimento de dois pontos brancos à distância. Era um som desconhecido para ele. O barulho das hélices e dos motores começou como um zumbido fraco, logo intensificado com a aproximação das aeronaves.

    Duas aeronaves, de médio porte. A asa em forma de gaivota de design cantilever apresentava aerodinâmica limpa com uma cauda dupla sem suportes. Estava equipado com flutuadores de pouso retráteis nas asas, articulados externamente, com flutuadores sustentados por uma única haste que se retraía para dentro, sob a asa, com as quilhas dos flutuadores logo externas a cada uma das nacelas dos motores.

    — Que tipo de besta demoníaca é essa…? — murmurou Kai, incapaz de nomear o que via.

    Não havia medo em seu olhar, afinal, aquelas duas aeronaves eram menores que o mais ínfimo dos dragões. O que o movia naquele instante era uma curiosidade densa, quase instintiva, misturada a um leve pressentimento de perigo.

    Todos ficaram parados, os olhos fixos enquanto elas sobrevoavam por cima deles, até que iniciaram o voo de mergulho sobre as principais estruturas da seita. 

    As bolas de fogo iluminaram o céu como o sol diurno. Uma intensidade tamanha que devorou as estruturas frágeis de madeira, e começou a se espalhar até mesmo nas estruturas de pedra.

    Hua Yuling Kai vacilou por um instante; seus olhos não podiam estar corretos. Aquelas duas criaturas estranhas haviam acabado de destruir quase todo o depósito do pátio externo em um único ataque.

    Ele girou o anel de ferro, sem detalhes, que levava na mão direita, estranhamente simples demais para alguém de sua posição. Assim que o fez, uma grande espada surgiu à sua frente, do tamanho de um homem adulto, ela flutuava no ar, estendida na horizontal.

    Em um único movimento, Hua Yuling Kai saltou sobre a lâmina e começou a perseguir os aviões. As aeronaves faziam uma curva, e se preparavam para outro mergulho de bombardeio. Ele avançou com velocidade, e tentou se aproximar o suficiente para compreender contra o que realmente lutava.

    Foi recebido por uma saraivada de disparos vindos da metralhadora de cauda.

    Kai bloqueou os projéteis sem dificuldade com seu escudo de Qi.

    Ele tentou sentir o núcleo, a essência vital daquelas criaturas, mas não encontrou nada. Em vez disso, percebeu dezenas de presenças humanas muito fracas, comprimidas dentro de cada uma daquelas estruturas.

    — Então… não são bestas — murmurou para si.

    Um leve sorriso surgiu em seus lábios, e sua confiança se elevou. Mortais não teriam chance contra um cultivador do Segundo Reino.

    Impulsionou o corpo para frente, e avançou sob o ataque incessante das metralhadoras de ambas. Nenhum dos projéteis era capaz de perfurar seu escudo de Qi. As duas aeronaves tentaram manobras evasivas, com inclinações repentinas e curvas fechadas.

    Era inútil naquela situação.

    Kai, sobre sua espada voadora, era mais ágil, mais veloz — e sua capacidade de manobra superava em muito a daquelas máquinas pesadas.

    Ele ergueu a mão direita e ao se aproximar o suficiente de uma delas, fechou o punho.

    Uma gigantesca mão de Qi se formou no ar, e esmagou o bombardeio como se ele fosse feito de papel. 

    A segunda aeronave, ao testemunhar a destruição, inclinou-se abruptamente e iniciou um mergulho desesperado de evasão.

    Outra tentativa inútil de fugir do inevitável.

    Kai se lançou de cima, descendo como um relâmpago. A espada sob seus pés respondeu ao seu comando, e se alinhou ao seu golpe.

    Ele passou pela aeronave em um único movimento.

    Um corte limpo, a fuselagem se partiu ao meio.

    Com apenas dois golpes, ele havia destruído as duas aeronaves, que se chocaram violentamente contra o solo.

    Sem nenhum ferimento Kai aterrissou com segurança novamente na entrada do porto. Os cultivadores vibraram; tudo indicava uma vitória completa sobre as forças de invasão. A névoa negra que antes cobria a ilha começou a se dissipar, enquanto os cadáveres dos inimigos também desapareciam, e se dissolviam em uma fumaça branca incomum. Até mesmo os destroços das duas aeronaves apresentavam o mesmo fenômeno, e se desfaziam lentamente no ar.

    Os cultivadores sobreviventes comemoram, entretanto, Kai e Fengran olhavam entre si, sem precisar falar uma única palavra, sabiam que pensavam a mesma coisa. Seus rostos sérios contrastavam com a de alívio dos seus subordinados.

    — Irmão… essas bestas demoníacas… elas… — Fengran se aproximou, um tanto gago.

    — Eu também achei que estava enganado. Eles são apenas mortais comuns.

    — Mortais? Será que isso tem a ver com aquele tal Nasha Lyu?

    — Com toda certeza. — Kai olhou para o céu e observou as grandes luas que antes estavam escondidas na neblina. Uma pequena lágrima escorreu por sua bochecha.

    — O que houve, irmão? — A expressão de Kai assustou Fengran; fazia quinze anos que ele não via seu irmão mais velho chorar.

    — Fengran, meu irmão… meu coração ainda tinha esperanças, mas meus olhos me mostram a verdade. Meu filho, meu herdeiro, Hua Yuling Renyan… neste momento, deve estar morto.

    — Morto? Não diga isso, irmão. Renyan é forte; ele certamente lutou ao lado dos anciões e capturou o forasteiro.

    Kai manteve o olhar no céu, em particular em uma lua de tons azulados, marcada por manchas brancas e verdes.

    — Creio que não. Eles devem ter usado truques e trapaças desonrosas; é típico dos mortais. — Um ódio amargo carregava suas palavras. — Preparem todos. Nós vamos retaliar. Primeiro, eu mesmo irei matar Jiahao, aquele traidor bastardo. Depois, caçaremos Wen Qishu Mei e poremos fim a essa maldita linhagem. Espalhem cartazes com o nome dela por toda a cidade. Enviem diplomatas ao Mar do Dragão. Eu quero a cabeça dela por toda a desgraça que trouxe sobre nós.

    A aparente festa deu lugar a um silêncio mortal. O fogo atrás deles era lentamente extinto pelos civis locais e funcionários menores, que carregavam baldes e mais baldes de água do mar na tentativa de conter as chamas que consumiam a ilha.

    — Como meu irmão desejar — respondeu Fengran, com uma reverência.


    As ondas colidiam contra a quilha do Degredado, que permanecia silencioso e ancorado, ainda envolto pela neblina. O capitão, com a mão no queixo e o olhar distante, parecia imerso em pensamentos, enquanto era observado pelo restante da tripulação, que começava a se materializar a partir de uma fumaça branca que vinha da ilha.

    Ninguém ousava dizer uma palavra, temendo enfurecer o tão temido pirata. Ainda assim, alguém precisava quebrar o silêncio, o ataque havia sido um desastre completo. Os dois hidroaviões destruídos, as muralhas ainda permaneciam intactas, e Wen Qishu Mei ainda estava na ilha, agora sozinha.

    — O que faremos agora, capitão? — questionou o segundo-imediato, ao tomar uma imensa coragem para perguntar.

    — Thomas disse que seria fácil. Um combo da carta do Louco com a carta da Carruagem seria o bastante… — murmurou Ishaq. — Um passeio no parque, como tirar doce de criança. Me digam, homens… vocês acharam fácil?

    Alguns balançaram a cabeça; outros apenas mantiveram expressões rígidas.

    — Então o que acharam? Falem! — exigiu, apontando o dedo para eles.

    Um deles deu um passo à frente, um homem corpulento de pele escura, cujos músculos podiam quebrar uma árvore. Ele olhou para seus companheiros, e tomou a dianteira.

    — Só conseguíamos atingi-los com os toques de absorção. Nossos projéteis eram inúteis… Eles conjuravam uma espécie de luz laranja-amarelada que bloqueava tudo. E, se não atacássemos todos juntos, era impossível chegar perto o bastante.

    Todos concordaram juntos, com um balançar de cabeça e murmúrios entre si. 

    — Cultivadores… — Ishaq girou a adaga entre os dedos e lançou um olhar ao cadáver entronado atrás dele. — Que piada.

    Ele arremessou a adaga contra o corpo.

    A lâmina congelou no ar, a poucos centímetros da cabeça caída.

    Por um instante, ninguém respirou.

    A névoa ao redor do convés se adensou, e girou lentamente, como se fosse puxada por uma força invisível. Um som grave, quase imperceptível, vibrou na madeira do navio.

    Então, o cadáver moveu os dedos, e ergueu a cabeça, e revelou o maxilar caído do corpo, com a carne podre e ressecada. 

    — Qual é a piada? — disse, uma voz ressecada como a de um velho fumante. 

    — Marechal, o seu plano falhou. Nossas armas convencionais são inúteis contra eles — respondeu Ishaq, sem mudar de expressão.

    — Não falhamos. Nós coletamos informações importantes, muitas informações importantes. Irei repassar para o alto comando imediatamente.

    O corpo se levantou, e pegou a carta que flutuava logo acima de sua cabeça.

    — Preparem o “Segundo Sol”.

    Os piratas engoliram em seco.

    — Mas sua aliada ainda está lá dentro — observou Ishaq, ao franzir levemente a testa.

    — Não se preocupem… eu vou tirá-la de lá.

    A neblina negra envolveu o corpo, infiltrou-se pelas cavidades abertas, costurou a carne, preencheu os ossos, e restaurou a forma original. O casaco negro, as minhas botas militares, a camisa de linho por debaixo do uniforme.

    Não havia dúvidas de quem ele era. Não outro, somente eu!

    Thomas Nyrzyr estava de volta, em toda a sua glória.

    Eu sorri, satisfeito.

    — Vou ativar uma terceira carta. Não façam loucuras.

    — Uma terceira carta? — Ishaq franziu o cenho, claramente desconfiado.

    Afinal, todos ali sabiam do meu limite. Duas cartas simultâneas, esse sempre foi o limite de ativações simultâneas para qualquer um dos baralhos imperiais. A ativação de três ou mais cartas exigiria tamanha força mental do usuário, que era impossível manter por mais de alguns minutos antes de colapsar e desmaiar.

    — Não posso desativar nem a carta do Louco nem a da Carruagem — expliquei, ao folhear pelas minhas outras cartas. — Contem dez minutos. Quando o tempo acabar disparem o Segundo Sol imediatamente.

    Dez minutos.

    Esse era o tempo que meu corpo suportaria o peso de uma terceira carta ativa. Quando esse tempo acabasse, o navio, sua tripulação e qualquer outra invocação minha desapareceria junto com a minha consciência.

    Levantei a carta escolhida, cuja ilustração mostrava um esqueleto montado em um cavalo, a figura empunhava uma longa foice na mão direita e uma ampulheta na esquerda, seguida por uma longa fila de pessoas de todos os tipos: nobres, mendigos, soldados e simples camponeses.

    — A morte…

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