Capítulo 64 - Objeto Doloroso.
Comecei investigando o vestiário dos alunos que fazem parte do time de natação, como Aikyo havia me pedido.
Mas o lugar não era apenas um vestiário, era um galpão enorme, com mais uma piscina aqui dentro, junto com arquibancadas.
O vestiário ficava nos fundos.
Olhando para as arquibancadas, imaginei como seria legal ter muita gente me vendo e torcendo por mim, um sentimento diferente.
Um sentimento profundo de que várias pessoas estão se importando comigo.
Gritando meu nome, que fantástico seria isso.
Mas não vai acontecer, não nasci para estar sob esses holofotes.
Continuando com meu objetivo, olhei nas arquibancadas buscando alguma pista que pudesse ser útil para nós agora.
Mas como as arquibancadas não eram bancos, e sim degraus longos para sentar, como se fossem calçadas curtas.
Fica até fácil perceber se tem algum objeto perdido, já que não há possibilidade de algo estar tampando minha visão nesses degraus.
Olhei para todos os degraus das arquibancadas, mas não vi nada de estranho.
Minha mente, querendo ou não, está tentando de toda forma me fazer pensar no objeto que vi caindo no meu sonho.
Acredito que aquilo foi apenas um sonho aleatório, não acredito que tenha acontecido de verdade.
Mas mesmo assim, estou ansioso para confirmar isso.
Preciso ver com meus próprios olhos.
Por que a Aikyo me mandou para esse lugar? Por que ela quis olhar o lado de fora?
E se eu der uma olhadinha escondida para ver onde ela está procurando?
Caso ela encontre o objeto, vou ficar muito preocupado, já que isso confirmaria que meu sonho não foi aleatório, mas sim algo que aconteceu realmente.
Mas isso também confirmaria que foi a Itsuki…
Não, não posso permitir que outra pessoa tenha esse encontro com o objeto, eu que preciso confirmar isso, por vários motivos.
Antes mesmo de entrar no vestiário para investigar, virei-me na direção da porta, com os punhos fechados, expressão determinada, e caminhei para o lado de fora.
Espera, antes de abrir a porta, preciso fazer com que elas não me vejam pegando o item.
Preciso mantê-las ocupadas… mas como?
Talvez criar uma distração aqui nesse lugar e chamá-las.
Mas que distração posso fazer?
— Droga! — murmurei.
Olhei para os lados, não vi nada que pudesse utilizar.
Mas tem o vestiário.
E se eu encontrar algo diferente lá, posso chamar elas.
Já que esse lugar não foi usado desde o acidente por ordens do diretor, ninguém veio aqui, e se ninguém veio, continua do mesmo jeito.
Agilizei os passos até o vestiário, sobre o chão de concreto que formava um caminho até lá.
Chão esse que era diferente do restante do lugar, que era de vários azulejos brancos e dourados.
Olhei para meu braço, o relógio que Okawara me deu mostrava que eram cinco horas da tarde.
Será que ele está me vendo agora pelo relógio?
O que será que ele deve estar pensando nesse momento?
Assim que entrei no vestiário, era um corredor médio para grande. No final dele havia escadas levando para baixo.
No andar de baixo, há dois corredores em direções opostas: à esquerda, o vestiário feminino e dois banheiros, um para deficientes e outro para não deficientes; já o corredor da direita tem a mesma organização para os homens.
Bem do lado do início da subida das escadas, há uma porta de metal suspeita, com uma descrição de ‘Apenas Pessoas Autorizadas’.
Não consigo abrir a porta, há um tipo de dispositivo ao lado da maçaneta com botões de dígitos. Na tela do dispositivo, há um desenho de um cartão verde e, ao lado, quatro botões de dígitos que estão em vermelho.
— Vermelho? Que relação essas cores têm? O cartão está verde… faz sentido? — perguntei a mim mesmo.
Provavelmente é necessário dois tipos de acesso para abrir a porta. Para que tanta segurança assim?
Como não consegui entrar, fui para o banheiro masculino em busca de algo suspeito.
Ambiente quente, luzes bem claras, chão e paredes com azulejos brancos e laranjas.
Só acho que é meio arriscado o vestiário ficar aqui embaixo, pois quem está nadando tem que descer essas escadas enquanto está molhado, correndo o risco de escorregar.
Mas até que os degraus da escada eram bem ásperos, acho difícil isso acontecer.
Como o banheiro estava antes da porta do vestiário, entrei nele primeiro.
Algo suspeito, preciso de algo, nem que seja pequeno, só preciso que elas fiquem ocupadas por no mínimo uns dois minutos.
Dentro do banheiro não tem nada de mais, nada diferente e nada fora do normal.
Quatro mictórios, sendo dois no tamanho baixo e dois no tamanho médio.
E na frente dos mictórios, há mais quatro banheiros fechados com vasos.
Abri todas as portas, mas nada de diferente.
Peguei a pequena lanterna de digitais que a Aikyo me emprestou.
Apontei para todos os cantos, mas nenhuma digital.
Segundo ela, os banheiros são lavados todos os dias, até mesmo no dia em que sofri o empurrão, mas desde aquele dia o banheiro não é lavado.
Então, se tiver digital, pode ser suspeito.
Saí do banheiro e entrei no vestiário.
Vários armários, organizados ao redor de alguns bancos no meio.
No fundo, havia mais uma porta escrita ‘Chuveiros’, onde os meninos provavelmente tomam banho depois da natação.
Olhando para os armários, todos estavam fechados a chave.
Nenhum armário aberto até então.
O chão também estava limpo, sem nada suspeito.
A lanterna de digitais não captou nada também.
— Que perda de tempo! — diz a voz misteriosa da minha cabeça.
— Isso importa? Você é apenas uma voz na minha cabeça, não vai mudar nada se eu fizer algo útil ou não. — retruquei.
Espera, há um armário suspeito bem no canto do final da parede. Todos os armários estão com a fechadura no mesmo lado, indicando que estão fechados.
Mas esse está do lado oposto, será que está aberto?
Tentei abrir o armário, para minha surpresa, ele abriu.
E para mais surpresas, havia uma fantasia estranha aqui dentro, bem suspeita.
Droga, parando para pensar, estou sem as luvas que ela me deu e acabei pegando em tudo.
Coloquei as luvas antes de pegar na fantasia.
Suja, fedorenta e… fantasia de passarinho? A coloração da fantasia é toda amarela com uma cor diferente em alguns cantos.
— Que fantasia intrigante, combina com você. — diz a voz da minha cabeça.
— Sai dessa! — disse.
Que coisa bizarra.
Apontei a lanterna na fantasia, mas não encontrei nenhuma digital.
No bolso não tem nada também.
Dentro do armário o mesmo.
Mas é um começo, de quem é esse armário? Por que tem uma fantasia dessas nesse armário para nadadores?
Não faz sentido nenhum, com certeza algo suspeito e algo que eu precisava para chamar a atenção das meninas.
Corri até elas, deixando o vestiário aberto, subi as escadas e fui até o lado de fora.
Elas estavam separadas, Aikyo estava com um limpador limpando uma pedra perto da piscina, já Katsu estava olhando ao redor da piscina para encontrar algum tipo de digital.
Ofegante, gritei: — Gente!!
Elas pararam o que estavam fazendo e olharam para mim.
Aikyo com uma cara fechada, como se quisesse bater em mim, já Katsu ficou com as bochechas coradas.
— Que foi, revoltante? Achou algo suspeito? — indagou Aikyo.
— Sim… vem comigo, rápido. — disse, com pressa, voltando para o galpão.
Espero que isso dê certo.
— Havia jeitos mais inteligentes e melhores para tirar elas de lá, mas tá bom! — diz a voz da minha cabeça.
— Xiu! — disse.
— O quê? Xiu, por quê? — indagou Aikyo, com os braços cruzados.
— Q-que… n-nada não, pensei alto aqui, hehe.
Os olhos afiados dela me cortando aos pedaços, que arrepio na alma.
Katsu pegou na mão da Aikyo, que trocaram olhares.
Ela ficou completamente sem jeito, como sempre fica ao lado da irmã.
— Rhum… vamos logo. — disse Aikyo, olhando para o teto com as bochechas coradas.
Que garotas estranhas.
Descemos as escadas e levei elas até o vestiário masculino.
— Onde está a coisa suspeita que você disse? — indagou Aikyo, olhando friamente para os cantos do vestiário.
— Nossa, que lugar limpo e organizado. Não esperava que fosse assim no vestiário dos meninos. — disse Katsu, passando a mão no armário, como se tentasse achar poeira.
Aikyo cruzou os braços olhando para mim, com um olhar cínico, disse: — Bem, se não tivesse alguém para limpar acho que estaria sujo, os meninos são porcos.
— Ela tem razão. — disse a voz da minha cabeça.
— Enfim, deixando os ataques de lado. Aqui está a coisa suspeita que achei. — disse, apontando para o armário semiaberto no canto da parede.
Aikyo andou calmamente até o armário com suas luvas, pegou a lanterna de digitais e apontou para o armário.
Por meu azar, com certeza vai ter a minha digital, já que abri ele sem a luva.
— Sem digital… — disse Aikyo, olhando decepcionadamente para mim.
— Ham… Sim! Sem digital, eu já havia procurado por aqui as digitais, mas não encontrei nada.
Como assim não tem digital no armário? Eu abri ele sem luva. Deveria ter ficado minhas digitais.
Aikyo retirou de dentro do armário a fantasia imunda de passarinho.
Katsu ficou analisando a fantasia em todos os cantos, em uma velocidade incrível.
Enquanto elas olhavam, era um momento perfeito para eu sair.
— Bom, gente, enquanto vocês olham isso, vou dar uma olhada no banheiro para ver se acho algo, pois ainda não olhei.
Aikyo não disse nada, nem sequer olhou para mim.
Melhor deixar assim.
Sai de fininho com um sorriso falso no rosto.
Apressando os passos para não perder mais tempo, subi as escadas tentando fazer o mínimo de silêncio.
Cada degrau que eu subia parecia que uma névoa estava aparecendo, meu coração batia cada vez mais rápido.
A névoa obviamente não era real, mas o nervosismo e o medo faziam eu acreditar nisso.
Fechei meus punhos e comecei a murmurar baixinho.
— Não tenha nada. Não tenha nada.
No último degrau da escada, já vendo a saída me esperando, o brilho do lado de fora por conta do pôr do sol, tudo isso deixava o clima marcante para mim.
Sem delongas, dei passos longos e pesados, forçando meu corpo a ir.
Se me lembro bem, o objeto que caiu foi bem no início da entrada entre as árvores e as piscinas grandes, o mesmo lugar de onde a gente veio.
Não tinha nada no chão, eu olhei de canto assim que entrei.
Mas talvez esteja próximo, se for verdade o sonho, então a pessoa que me resgatou deve ter chutado sem querer para longe.
Deve estar nas proximidades.
Olhei em todos os cantos do chão, perto da entrada e nos muros da saída.
Nada de mais, não tem nada aqui.
Até nos pequenos conjuntos de grama alta que surgiram entre o muro e o chão desse lugar não tem nada escondido.
O lugar que restava era nas gramas do lado de fora da saída.
Mas será possível ter chutado para longe assim?
— Pare de procurar. — disse a voz na minha cabeça.
— Não! Preciso procurar! Preciso confirmar que não foi a Itsuki, por mim, e por ela. Por nossa amizade. — disse em tom alto.
Olhei para os cantos para ver se alguém me viu falando sozinho, mas não havia ninguém por perto.
Menos mal.
Já na parte da entrada, há gramas altas nos dois lados, já que aqui é uma pequena floresta.
Inspirei profundamente, soltei todo esse ar para fora.
Quase soltei meu coração também.
Meu corpo começou a ficar quente, minha visão turva.
Vai acontecer aquilo de novo comigo? O mesmo que acontece quando troco de personalidade? Voz esquisita na minha cabeça, é você, não é? O que você pretende?
— Eu vou te ajudar a achar o que precisa. — disse a voz.
Me ajudar como?
Meu corpo e minha visão agora voltaram ao normal. Será que já sou outra pessoa? Me sinto como sempre.
— Eu só ampliei seus sentidos. Agora você consegue encontrar o que deseja.
Meus… sentidos? Mas como vou encontrar com sentidos ampliados? Eu nem sei o que procuro, na verdade.
A voz se manteve em silêncio.
E realmente, meus sentidos foram ampliados.
Consigo escutar vários sons do ambiente, consigo sentir o perfume da Aikyo daqui.
Então quer dizer que toda vez que eu conseguia ampliar um sentido meu era por conta de você, voz da minha cabeça?
Mas dessa vez é diferente, antes eu conseguia ampliar apenas um sentido.
Agora estou com todos eles ativados.
— Todos não! Apenas três estão ampliados. — disse a voz.
Entendi. Vou aproveitar então.
Fechei meus olhos e limpei minha mente.
Os sons ao meu redor estavam todos no mesmo volume, estavam todos sincronizados como um coral.
O cheiro da floresta, do chão, da água das piscinas, tudo estava ao meu alcance.
Preciso manter a calma e o foco, no cheiro e nos sons, preciso entender todos eles e padronizar.
Para quando eu sentir algo diferente, nem que seja um vento batendo de leve no objeto, eu possa escutar.
Tudo está em perfeita sincronia, mas um som diferente surgiu, um lado do meu corpo arrepiou. Meu braço esquerdo arrepiou e os fios estavam apontando para uma direção.
Segui até onde meus sentidos estavam me guiando.
Dei alguns passos à frente, entre uma árvore e grama alta, um objeto escondido e coberto de barro, mas com um simples e pequeno detalhe nele brilhava.
O que pode ser?
Me aproximei do objeto, com delicadeza, mas com rapidez, peguei-o.
Era de tamanho médio.
Mas… o cheiro.
Como meu olfato está ampliado, reconheço esse cheiro nesse objeto.
Meu coração acelerou com isso, agora a ansiedade tomou conta.
Minha mão começou a tremer e os sons ao meu redor ficaram cada vez mais altos.
O vento forte surgiu do nada, como se tudo ao meu redor conspirasse para me assustar.
Comecei a remover a terra do objeto.
A cada porção de terra removida, dava para ver a cor.
A cor do objeto é bastante familiar, e o cheiro dele ficou mais nítido.
Mas também havia outro cheiro no objeto, um cheiro que eu não havia sentido ainda.
O que estou pensando? É óbvio que isso ia acontecer.
Meu sonho me mostrou, e agora estou aqui com esse objeto azul em minhas mãos.
O mesmo detalhe azul, em forma de ondas.
O mesmo acessório que a Itsuki usa no cabelo.
Isso… não acredito.
Por que isso aconteceu? Por que você fez isso… Itsuki?
Arco: Investigação

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