Os rádios começaram a chiar quase ao mesmo tempo, como se todos tivessem sido ativados por um mesmo gatilho invisível, e a calmaria momentânea que havia se instaurado na rodovia foi imediatamente quebrada por vozes sobrepostas, carregadas de urgência e confusão, tentando organizar o que claramente fugia de qualquer padrão previsto.

    — Todas as unidades, manter distância do ponto de emissão. — a voz que surgiu na frequência principal era firme, controlada, diferente do caos que dominava os outros canais. — Ninguém avança sem autorização direta. Repito, ninguém avança.

    Houve um breve silêncio, curto demais para ser confortável, antes que a mesma voz retornasse, agora mais baixa, porém ainda mais carregada de peso.

    Do outro lado da rodovia, alguns soldados hesitaram, recuando instintivamente mesmo sem ordem direta, como se o próprio corpo entendesse o risco antes da mente aceitar. Armas foram erguidas, mas nenhuma foi disparada. Aquilo não era uma situação comum de combate — era um cenário que exigia outro tipo de resposta.

    Indjaya, ainda se recuperando do impacto anterior, manteve os olhos fixos no feixe azul que cortava o céu, assimilando em silêncio o que aquele fenômeno representava, antes de desviar a atenção para o entorno e localizar rapidamente a presença de comando mais próxima. Seu corpo já respondia melhor, embora ainda carregasse sinais recentes de desgaste, mas sua postura permanecia firme, direta, sem espaço para hesitação.

    Ela então virou-se para Rizzotto Abbacchio, encarando o tenente com seriedade absoluta, a urgência evidente não apenas em sua voz, mas na forma como se mantinha pronta para agir a qualquer instante.

    — Tenente, solicito apoio para retornar ao campo de batalha com o helicóptero tático. — declarou de forma objetiva, sem rodeios, como alguém que já havia tomado a decisão antes mesmo de verbalizá-la.

    — Negado. — a resposta veio imediata, seca, cortando qualquer margem para insistência, enquanto Rizzotto Abbacchio mantinha a postura firme, os olhos ainda voltados para o horizonte onde o feixe azul rasgava o céu. Sua expressão endureceu por um breve instante, como se estivesse calculando cada possibilidade antes mesmo de continuar. — Isso pode muito bem ser um tipo de truque dos franceses. Não sabemos se aqueles merdinhas ainda estão lá.

    Ele levou a mão ao rádio preso ao ombro, ajustando levemente o equipamento enquanto mantinha a atenção dividida entre o campo de batalha e os relatórios fragmentados que chegavam pela frequência, sua mente operando em um ritmo acelerado, organizando cenários, riscos e consequências.

    — Até sabermos se o Rover ainda está na área ou não, não vamos usar nenhuma ficha. — completou, agora com um tom mais controlado, porém carregado de autoridade, deixando claro que não se tratava apenas de cautela, mas de protocolo. Sua decisão não era impulsiva — era estratégica.

    Por um instante, o silêncio pairou entre eles, pesado, preenchido apenas pelo som distante do vento e pelo ruído intermitente das comunicações militares ao redor. A tensão era evidente; não havia espaço para decisões precipitadas naquele ponto.

    Indjaya manteve-se firme diante da negativa, os olhos ainda voltados para o horizonte onde o feixe azul persistia como uma ameaça viva, mas sua atenção rapidamente retornou a Rizzotto, agora com uma tensão mais evidente em sua expressão, como alguém que já compreendia os riscos, mas se recusava a aceitá-los passivamente.

    — Mas Eleonor pode estar tendo problemas, não podemos deixar ela cuidar de tudo. — afirmou, a voz controlada, porém carregada por uma urgência difícil de ignorar.

    Ela deu um passo à frente, não de forma desrespeitosa, mas firme o suficiente para deixar claro que não estava apenas sugerindo uma ação, e sim contestando uma decisão que, para ela, já começava a se tornar inviável diante do cenário. Seus ombros se mantinham alinhados, o corpo pronto para se mover a qualquer instante, como se cada segundo parado fosse um desperdício que poderia custar caro.

    — Você não consegue ficar mais azul, Indjaya, você vai ser um peso inútil e pode atrapalhar sua irmã. — disse Rizzotto, sem elevar o tom, mas deixando cada palavra cair com o peso de uma decisão já tomada, enquanto virava as costas para ela sem dar espaço para réplica, sinalizando de imediato para alguns militares posicionados próximos.

    — Vocês cinco, entrem no blindado e preparem-se para a batalha. — ordenou em sequência, a voz firme e objetiva, voltando a assumir plenamente o controle da situação.

    Os homens reagiram sem hesitação, prestando contingência ao superior com disciplina mecânica, ajustando seus equipamentos enquanto iniciavam a movimentação. Marcharam com rapidez pelo asfalto irregular, desviando de destroços e crateras, até alcançarem o tanque de guerra posicionado próximo, a lataria pesada marcada pelos impactos recentes, mas ainda operacional. Um a um, começaram a subir no blindado, abrindo compartimentos e assumindo suas posições internas, enquanto o som metálico das escotilhas e o ranger da estrutura se misturavam ao ambiente carregado.

    — Nós estamos seguindo as ordens diretas do Rarenzzy, Indjaya, as ordens vieram enquanto você ainda estava no campo de batalha. — disse Rizzotto, mantendo o tom firme e estável, sem elevar a voz, mas deixando claro que não havia margem para interpretação ou contestação naquele ponto.

    Ele então ajustou levemente a postura, voltando o olhar para ela por um breve instante, apenas o suficiente para reforçar a seriedade do que vinha a seguir, antes de continuar.

    — Ordens essas que foram decididas por quem rege o militarismo da nossa nação… — completou, pausando por um segundo, como se cada palavra precisasse ser compreendida em sua totalidade. — E nós vamos obedecer sem questionar.

    A declaração não carregava agressividade, mas sim um peso institucional absoluto, como se naquele momento ele deixasse de falar apenas como indivíduo e passasse a representar toda a cadeia de comando que sustentava aquela operação. Ao fundo, o blindado já começava a ser preparado, o som dos mecanismos internos sendo acionados se misturando ao ambiente tenso, enquanto o feixe azul ainda persistia no horizonte, lembrando a todos que, independentemente das ordens… o problema continuava crescendo.

    — Entendi… — disse Indjaya, a voz baixa e contida, sem demonstrar resistência naquele momento, enquanto seus olhos acompanhavam o blindado iniciar deslocamento, as esteiras rangendo contra o asfalto destruído à medida que avançava em direção ao campo de batalha.

    Ela permaneceu imóvel por alguns segundos, absorvendo a decisão e o peso do que aquilo significava, antes de voltar levemente o rosto na direção de Rizzotto, mantendo a expressão séria, agora mais centrada.

    — Rarenzzy já contatou o Índio e o Matthew… — continuou, retomando a fala com mais firmeza, como alguém que já se reposicionava dentro da situação. — Eles estavam em Nápoles e estão sendo levados pelo nosso comboio aéreo, em caso de isso ser uma invasão para anexação de território se o merda do Duque tiver pensando em tomar esse lugar depois de detonar ele inteiro.

    No campo de batalha, Eleonor permanecia imóvel por um breve instante, a postura firme contrastando com o caos que ainda marcava o ambiente ao seu redor, enquanto seus olhos percorriam o cenário com precisão cirúrgica, absorvendo cada detalhe relevante. A informação recém-assimilada ainda ecoava em sua mente, sendo organizada com rapidez, descartando o que era irrelevante e mantendo apenas o que poderia influenciar diretamente no desfecho daquele confronto.

    Seu corpo não demonstrava pressa, mas sua mente operava em alta velocidade, antecipando possibilidades, calculando riscos e projetando respostas antes mesmo que os eventos se desenrolassem por completo

    Bruno já se encontrava dentro do alcance de Eleonor, e após se contorcer em movimentos irregulares e inquietos, seu corpo finalmente estabilizou-se em uma postura ereta, completamente de pé, porém longe de qualquer normalidade. Havia algo errado na forma como ele se mantinha, como se cada músculo estivesse tensionado além do necessário, pronto para reagir de maneira imprevisível a qualquer estímulo. Seus olhos, ainda brilhando com aquela intensidade branca quase ofuscante, cortavam a poeira acumulada no ar, revelando uma presença que não precisava de movimento para impor perigo — ele simplesmente estava ali, e isso já era suficiente.

    A atmosfera ao redor parecia responder à sua existência, o ar denso vibrando de forma sutil, enquanto pequenos fragmentos de poeira se deslocavam como se repelidos por uma força invisível. Não havia hesitação em seu olhar, não havia confusão… apenas uma fixação direta, crua, apontada para Eleonor.

    Então, sem qualquer aviso prévio, ele desapareceu.

    Não houve preparação visível, nem deslocamento gradual — sua presença simplesmente deixou de ocupar aquele ponto no espaço, como se tivesse sido arrancada da realidade por um instante. O ar no local onde ele estava sofreu uma leve distorção, um atraso mínimo que denunciava que algo havia acontecido ali.

    No instante seguinte, Bruno reapareceu metros à frente, já próximo de Eleonor, ocupando o espaço com uma precisão absurda, como se nunca tivesse existido distância entre os dois. O surgimento foi tão abrupto quanto o desaparecimento, e o impacto daquele movimento não foi apenas visual — foi sentido, como uma pressão súbita que comprimia o ambiente ao redor.

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