Eleonor recuou de forma sutil, quase imperceptível, ajustando a base dos pés sobre o asfalto irregular enquanto absorvia aquela aparição repentina que havia quebrado completamente o ritmo da análise que mantinha até então. O movimento não foi de fuga, mas de reposicionamento, criando o espaço mínimo necessário para reagir sem comprometer sua estrutura defensiva, enquanto suas faixas metálicas, antes organizadas em um padrão de contenção, se reorganizavam ao redor do corpo com maior densidade, assumindo uma formação híbrida — prontas não apenas para bloquear, mas para contra-atacar no menor sinal de abertura.

    O deslocamento que acabara de testemunhar não seguia nenhum dos princípios que ela conhecia. Não houve impulso, não houve trajetória, não houve tempo de execução. Foi simplesmente… ausência seguida de presença.

    — Como ele fez isso? — pensou, a pergunta surgindo de forma direta, quase seca, enquanto sua mente tentava encaixar aquele fenômeno em alguma estrutura compreensível. — Uma técnica de sumiço?

    Bruno, por sua vez, não sustentou aquela posição por muito tempo; seu corpo oscilou de forma abrupta, cambaleando para trás como se estivesse prestes a perder completamente o equilíbrio, quase tombando de costas contra o asfalto irregular, mas aquele movimento não era simples instabilidade — havia intenção por trás daquela quebra de postura. Em um instante seguinte, seus músculos se retesaram de forma violenta, como se fossem puxados de volta ao lugar à força, recompondo sua estrutura em um único ajuste brusco que eliminou qualquer vestígio de hesitação.

    Desta vez, o desaparecimento veio acompanhado de uma leve distorção no ar, mais perceptível, como se o espaço tivesse sido comprimido por um breve momento antes de ceder. No mesmo intervalo, Bruno reapareceu às costas de Eleonor, já em movimento, o corpo alinhado com precisão agressiva, sem qualquer transição entre deslocamento e ataque.

    Seu quadril girava no eixo, transferindo toda a força para a perna destra que avançava, enquanto o chute era executado com violência direta, mirando a região da cabeça da mulher em uma trajetória limpa e destrutiva, sem abertura, sem aviso — apenas impacto.

    Eleonor sentiu o ar vibrar em suas costas no exato instante em que Bruno desapareceu mais uma vez, uma alteração súbita na pressão que não podia ser vista, mas era impossível de ignorar, e sua reação veio sem qualquer atraso consciente, movida por puro instinto. Seu corpo girou com precisão enquanto se projetava para a esquerda, deslocando o eixo no limite necessário para escapar da trajetória do ataque, ao mesmo tempo em que seu braço canhoto avançava em um corte limpo, atravessando o ar com velocidade.

    As faixas metálicas responderam imediatamente ao comando, sendo lançadas em uma sequência direta e agressiva na direção de Bruno, que já surgia às suas costas com o chute preparado. O impacto veio antes que o golpe dele pudesse se completar, as lâminas o atingindo em cheio com força suficiente para interromper completamente sua ofensiva, envolvendo parte de seu corpo no momento do contato e convertendo o movimento em uma trajetória inversa.

    Bruno foi arremessado com violência, seu corpo sendo lançado para longe enquanto o ar ao redor se distorcia com o deslocamento abrupto, colidindo contra os destroços mais à frente em um impacto seco que espalhou fragmentos e levantou mais poeira no ambiente já saturado.

    Bruno, ainda em pleno ar após ser lançado, manteve os olhos fixos em Eleonor mesmo com o corpo completamente desconfigurado pelo impacto, os membros desalinhados e o tronco torcido de maneira quase impossível, como uma marionete sem eixo tentando se recompor no vazio. A trajetória de seu voo parecia descontrolada à primeira vista, mas havia algo ali — uma intenção oculta no meio daquele caos corporal.

    No instante seguinte, antes mesmo que a gravidade pudesse concluir o movimento de queda, sua presença desapareceu novamente.

    O espaço que ocupava sofreu uma leve compressão, quase imperceptível, e então ele reapareceu às costas de Eleonor mais uma vez, já aproveitando o momento exato da rotação que seu corpo carregava no ar. A energia acumulada no giro não foi perdida — foi convertida. Seu quadril alinhou-se no mesmo fluxo do movimento, e sua perna avançou com precisão brutal, utilizando o próprio impulso do voo anterior para potencializar o ataque, que dessa vez acertava o seu alvo.

    — Merda! — pensou Eleonor no instante anterior ao impacto, sem tempo para qualquer reação mais elaborada, sendo atingida com força suficiente para quebrar completamente sua base e projetá-la contra o terreno irregular. Seu corpo rolou pelos detritos espalhados, cada quique contra o asfalto e as ferragens desacelerando sua velocidade de forma gradual, mas ao custo de abrir novos cortes e pressionar áreas já comprometidas, transformando o processo de contenção em uma sequência de micro impactos que castigavam seu corpo enquanto ela era arrastada até perder inércia.

    Mesmo antes de estabilizar completamente, seus sentidos já tentavam retomar o controle da situação, e foi nesse intervalo curto e crítico que ela percebeu o padrão. Não era apenas deslocamento — era repetição que formava um rastro.

    Bruno surgia e desaparecia em sequência, quebrando a linha reta de aproximação ao se mover em zigue-zague, cada reaparição ocupando um ponto diferente no espaço, encurtando a distância de forma agressiva e imprevisível. O ar ao redor reagia a cada transição, denunciando a trajetória não pela visão direta, mas pelas distorções que deixava para trás, como ecos de movimento comprimidos no ambiente.

    De repente, um estrondo cortou o ar, pesado e metálico, vindo de fora do fluxo direto do combate, acompanhado por um brilho intenso que atravessou a névoa e se refletiu nas faixas metálicas que protegiam Eleonor, iluminando sua silhueta por um breve instante. O disparo partira do tanque de guerra que acabara de chegar ao campo, e o projétil rasgava o espaço em uma trajetória reta e violenta, comprimindo o ar à sua frente e deixando um rastro distorcido que denunciava sua velocidade absurda.

    O som do projétil cruzando o campo reverberou como um trovão contido, seguido pela explosão ao atingir o solo mais adiante, levantando uma nova onda de poeira, fragmentos e pressão que se espalhou rapidamente pelo cenário já saturado, criando um intervalo momentâneo — curto, mas decisivo.

    Eleonor se ergueu com rapidez, ainda absorvendo o impacto anterior enquanto recuava alguns passos controlados para recuperar espaço e reposicionar sua base sobre o terreno irregular, suas faixas metálicas se reorganizando ao redor do corpo em um padrão mais denso e reativo. Seus olhos permaneceram fixos à frente, analisando em tempo real o que acabava de acontecer, desde a quebra do avanço de Bruno até a origem daquele disparo que havia interferido diretamente no combate.

    Sem desviar o olhar, mantendo o foco absoluto no campo à sua frente, ela deixou escapar a resposta em um tom baixo, carregado de irritação contida.

    — Já era hora de vocês aparecerem, porra. — disse, sem precisar confirmar visualmente quem havia chegado, pois a intervenção já era suficiente para identificar a origem.

    No horizonte, no lado oposto de Eleonor e do rugido metálico que ainda ecoava pelo campo, Bruno permanecia de pé — ou o que ainda podia ser chamado disso — com o corpo severamente desfigurado, como se tivesse sido parcialmente apagado e reconstruído de forma incompleta. O lado direito de sua estrutura havia sido completamente devastado pelo impacto, deixando exposta uma massa irregular de carne dilacerada, ossos fragmentados e parte do cérebro à mostra, pulsando de forma inquietante sob a luz difusa que atravessava a poeira.

    A reconstrução começou quase imediatamente, mas não havia nada de natural naquele processo. Tecidos se reagrupavam de maneira desordenada, fibras musculares se contraindo e se refazendo em camadas visíveis, enquanto fragmentos ósseos se reposicionavam com estalos secos que ecoavam mesmo à distância. Era uma regeneração grotesca, agressiva, como se o próprio corpo estivesse sendo forçado a se recompor antes mesmo de compreender o dano que havia sofrido.

    A parte exposta de seu cérebro vibrava levemente, como se ainda estivesse em adaptação, até que, pouco a pouco, novas camadas começavam a cobrir a área, fechando o vazio com uma precisão desconfortável, porém funcional.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota