Capítulo 19
— Se eu usar minha Arte Esotérica, eu posso nocautear ele… o problema é acertar. — pensou Eleonor, mantendo o foco enquanto avançava novamente, reduzindo a distância com passos firmes e calculados, sem quebrar o ritmo do combate.
No mesmo movimento, suas faixas metálicas foram lançadas de forma individual, cada uma seguindo trajetórias distintas e angulações variadas, buscando fechar os possíveis caminhos de evasão de Bruno e forçá-lo a reagir sob pressão. Ainda assim, o jovem respondia à altura, desaparecendo e reaparecendo em sequência, desviando de cada investida com uma precisão inquietante, como se antecipasse os ataques antes mesmo de serem concluídos.
O tanque, mantendo a mira travada, encontrou uma nova janela de disparo e lançou mais um projétil explosivo em direção ao ponto onde Bruno havia surgido, tentando interceptá-lo no meio da movimentação caótica. O disparo cortou o espaço com violência, mas, novamente, não foi suficiente, Bruno reagiu no limite.
Seu corpo foi projetado para o alto em um salto seco, desviando do ponto de impacto enquanto a explosão detonava abaixo, espalhando fragmentos e uma nova onda de pressão pelo campo. A poeira se ergueu mais uma vez, mas, antes mesmo que se dissipasse completamente, ele já estava em movimento descendente.
Ao tocar o solo, estabilizou-se com precisão anormal, erguendo-se imediatamente para encarar Eleonor e o tanque, mantendo os olhos fixos, o corpo tensionado e pronto para avançar outra vez, como se aquele breve intervalo tivesse sido apenas mais um ajuste dentro de um padrão que ainda estava se formando.
Bruno não estava consciente, mas os instintos que o moviam eram intensos e desordenados demais para serem ignorados pelo próprio subconsciente, criando um estado caótico onde reação e percepção não se alinhavam. Seu corpo permanecia ativo, pronto para o combate, mas sua mente parecia fragmentada, incapaz de distinguir com clareza o que era ameaça real e o que era apenas resquício daquilo que ainda não compreendia.
Seus punhos avançaram em sequências rápidas e violentas, golpeando o nada como se houvesse algo ali, algo invisível que apenas ele conseguia sentir. Cada soco carregava força real, deslocando o ar ao redor e criando pequenas distorções na poeira suspensa, como se estivesse de fato enfrentando algo presente, ainda que intangível aos olhos dos outros.
Eleonor avançou sem hesitar, aproveitando o instante de ruptura no comportamento de Bruno, sua leitura do cenário sendo imediata ao perceber que aquela instabilidade não era apenas uma falha — era uma abertura real. Suas faixas metálicas responderam de forma agressiva, expandindo-se até o limite máximo de vinte unidades, cada uma com cerca de dez metros de extensão, ocupando o espaço ao redor com uma presença dominante que transformava o campo em uma zona de contenção.
As lâminas se distribuíram em diferentes ângulos, fechando caminhos, limitando possíveis pontos de reaparição e criando uma malha dinâmica ao redor do rapaz, enquanto Eleonor ajustava seu avanço para conduzi-lo exatamente para dentro daquele cerco. A distração de Bruno, atacando o vazio sem direção definida, havia quebrado completamente o padrão que antes o tornava imprevisível, e pela primeira vez desde o início do confronto, ele não reagia ao ambiente — apenas a impulsos internos desordenados.
Eleonor já havia estruturado um plano, e sua execução começou no mesmo instante em que suas faixas metálicas se elevaram em conjunto, abandonando formações dispersas para se concentrarem no alto, onde passaram a se entrelaçar com precisão, formando uma rede densa que rapidamente se consolidava em um domo suspenso sobre o campo de batalha. A estrutura metálica se ajustava em pleno ar, fechando lacunas, reforçando pontos de tensão e criando uma cobertura completa que limitava drasticamente qualquer rota de evasão vertical.
Eleonor manteve o controle absoluto sobre cada faixa, tensionando a estrutura como se preparasse um mecanismo prestes a colapsar sobre o próprio alvo, acumulando força potencial enquanto aguardava o instante exato. Seus olhos permaneciam fixos em Bruno, que ainda reagia de forma instável, preso em seus próprios impulsos, sem perceber completamente o que se formava acima dele.
Porém, no instante em que Eleonor se preparava para executar o golpe, Bruno voltou o olhar diretamente para ela, e algo naquele contato visual quebrou completamente o fluxo do confronto, pois seus olhos, ainda carregados por aquele brilho intenso, agora estavam inundados por lágrimas que escorriam sem controle, destoando de toda a violência que havia demonstrado até então.
Sem qualquer lógica aparente, seu corpo cedeu.
Ele simplesmente se lançou para baixo, abandonando a postura de combate e colapsando contra o solo, os joelhos atingindo os detritos com um impacto seco enquanto seus músculos pareciam travar em uma reação abrupta, como se algo dentro dele tivesse finalmente alcançado um limite invisível. Sua expressão não era de agressividade, nem de estratégia — era de choque, puro e desorientado, como alguém que havia sido arrancado de um estado e jogado brutalmente em outro.
Eleonor travou a leitura por uma fração de segundo a mais do que permitiria em qualquer outro cenário, mas não por descuido — por análise. Seus olhos estreitaram ao captar a incongruência: o padrão de deslocamento agressivo havia cessado sem transição, a pressão no ar ao redor de Bruno diminuíra de forma abrupta, e sua postura agora não sustentava intenção ofensiva imediata. As lágrimas não eram um detalhe irrelevante; eram um dado crítico que não coexistia com o estado de ataque que ele vinha demonstrando até então. Aquilo indicava ruptura, não estratégia. Ainda assim, ela não relaxou. Pelo contrário, ajustou sua percepção para um nível ainda mais rigoroso, mantendo as faixas tensionadas no alto e o corpo pronto para reagir, porque entendia que aquela oscilação podia ser tanto uma falha real quanto o prelúdio de algo ainda mais instável — e, em ambos os casos, o erro seria tratar aquilo com complacência.
— Que porra é essa? — murmurou Eleonor, a confusão atravessando sua leitura de combate não apenas pelo comportamento de Bruno, mas por algo interno, sutil e incômodo, que interferia diretamente em sua decisão, como um alerta fora de padrão dizendo para não finalizar aquilo da forma mais óbvia. Não era hesitação comum, nem piedade — era uma sensação estranha, deslocada, que não se encaixava na lógica fria que sempre guiava suas ações.
Sua postura se ajustou de forma quase imperceptível, abandonando a configuração de execução imediata enquanto suas faixas metálicas recuavam gradualmente, recolhendo-se ao redor de seu corpo em um padrão mais contido, pronto para responder, mas não mais focado em esmagar. O avanço continuou, mas agora com outro objetivo.
Em um arranque rápido, Eleonor encurtou a distância final e levou o palmo direito diretamente à têmpora de Bruno, o contato sendo preciso, controlado, como alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. No instante do toque, um brilho púrpura emergiu de sua mão, pulsando de forma densa e concentrada, indicando o início de algo mais profundo do que um simples ataque físico.
— Arte Esotérica: Casa das Memórias. — proferiu Eleonor, a voz firme e baixa no instante em que o contato se consolidava, e, de forma abrupta, ambos os pares de olhos — os dela e os de Bruno — tornaram-se alaranjados, queimando com uma intensidade incomum que contrastava com o caos ao redor, como se aquele ponto específico do campo de batalha tivesse sido isolado do restante do mundo. O brilho não era apenas visual, mas funcional; era o sinal de ativação de uma técnica que não atuava sobre o corpo, e sim sobre aquilo que o sustentava. No mesmo instante, Eleonor atravessou a superfície da consciência de Bruno, infiltrando-se em sua mente sem resistência aparente, como se o estado fragmentado do rapaz tivesse aberto caminho por si só, permitindo que ela acessasse camadas profundas de suas memórias. Fragmentos começaram a emergir, desconexos no início, mas rapidamente se organizando em uma sequência que revelava pontos cruciais de sua trajetória — dores acumuladas, perdas mal resolvidas, momentos que moldaram sua percepção de mundo — tudo convergindo até aquele exato instante em que ele havia rompido e se transformado.
Uma Arte Esotérica, diferente de uma Técnica do Manto Auror, não era apenas uma manifestação de energia ou domínio físico; era uma assinatura da alma de seu usuário, algo único, intransferível, inacessível até mesmo para aqueles que tentassem replicar ao usurpar tal poder. Ela não podia ser ensinada, copiada ou roubada, pois não vinha da mente ou do corpo, mas do coração — daquilo que definia a existência do indivíduo em seu estado mais puro.

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